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Os SETE SELOS6.1—8.1

Chegamos agora a três séries de julgamentos: os Sete Selos (caps. 6—7), as Sete Trombetas (caps. 8—11) e as Sete Taças (caps. 15—16). A escola de interpretação histórico-contínua (historicista), encontra nisso um retrato de suces­sivos ciclos de julgamentos durante essa época. Provavelmente, uma melhor perspectiva seria entendê-los como ciclos concêntricos de julgamento, descrevendo basicamente a mesma coisa, mas com figuras simbólicas diferentes. Como sempre, o número sete indica inteireza. É importante observar que o sétimo selo desemboca nas sete trombetas e a sétima trombeta desemboca nas sete taças. Assim, as três séries estão intimamente liga­das umas às outras.

Os sete selos têm sido chamados de “Cenário da História de Sofrimento”. Arrepiamo-nos ao pensar nos julgamentos que sobrevirão a este mundo farto de pecado.


O Primeiro Selo: Conquista (6.1,2)


Quando o Cordeiro abriu o primeiro selo do rolo, João ouviu como em voz de tro­vão (1). Essa era a voz alta de um dos quatro animais (“criaturas viventes”).

Os primeiros quatro rolos formam uma série. Cada um é introduzido por um chama­do em alta voz de uma das quatro criaturas viventes, seguido do aparecimento de um cavalo e um cavaleiro. Uma sugestão definida então é dada quanto ao que ele simboliza.
Vem e vê deveria ser apenas “Vem!”. As palavras E vê não estão no melhor texto grego, aqui ou nos versículos 3, 5 e 7. Alguns escribas evidentemente entenderam isso como um chamado a João para vir e ver o que iria acontecer. Fausset comenta: “É mais provável que seja o clamor dos redimidos ao seu Redentor: “Vem liberta a criatura em agonia da escravidão da corrupção”. O sentido correto provavelmente é o que Simcox apresenta: “O sentido completo da frase é que cada uma das criaturas viventes, alternadamente, convoca um dos quatro cavaleiros”.

A abertura do primeiro selo revela um cavalo branco; e o que estava assen­tado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso e para vencer (2).

Num primeiro momento, o significado disso parece óbvio: o cavaleiro do cavalo bran­co é Cristo (cf. 19.11-16). Esse é o ponto de vista de Lange. Ele escreve: “O triunfo isolado de Cristo, como apresentado aqui, tem se prolongado através do Triunfo da Igreja; ele aparece como uma formação de hostes vitoriosas em cavalos brancos”. Fausset concor­da com isso. O mesmo ocorre com Lenski, que identifica o cavaleiro como a Palavra de Deus e acrescenta: “O portador, o cavalo, é branco, que é a cor de santidade e do céu”.

Mas o contexto parece não permitir essa interpretação. Swete diz: “Uma visão do Cristo vitorioso seria inapropriada na abertura de uma série que simboliza derrama­mento de sangue, fome e pestilência. Em vez disso, temos aqui a figura de um militaris­mo triunfante”. Semelhantemente, Love diz: “Por isso, uma vez que guerra, fome e morte são resultados de uma conquista, o ‘branco’ aqui deve ser a vitória, não de pureza, mas de uma conquista egoísta e luxuriosa”. Erdman apresenta um ponto de vista um pouco diferente: “O primeiro representa os períodos de paz concedidos, na providência de Deus, sob o Império Romano, e a ser repetido diversas vezes na história do mundo”. Foi a conquista romana que trouxe paz.

O Segundo Selo: Guerra (6.3,4)

Dessa vez o cavalo é vermelho (4). O significado disso é claramente indicado pelo que segue. O cavaleiro do cavalo vermelho recebeu poder para que tirasse a paz da terra e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada — simbolizando uma grande destruição. Claramente, o vermelho representa um imenso derramamento de sangue.

O Terceiro Selo: Fome (6.5,6)

O terceiro cavalo era preto (5). O cavaleiro tinha em suas mãos uma balança. O simbolismo disso é imediatamente explicado: Uma medida de trigo por um dinhei­ro; e três medidas de cevada por um dinheiro (6). A medida era pouco mais de um litro, que era “a média diária de consumo de um trabalhador”. Um dinheiro era um denarius, que, pelo que tudo indica, representava o salário de um dia (Mt 20.2). Isso significava que o preço da fome era tão alto que levaria tudo que um homem ga­nhasse só para alimentar a si próprio, se comesse trigo. Por outro lado, ele poderia comprar três quartos de cevada — a comida das pessoas pobres — e ter o suficiente para uma família pequena.

À proclamação de preço é acrescentada uma admoestação: e não danifiques o azeite e o vinho. Esse seria o azeite de oliva e suco de uva fermentado. Swete observa: “Trigo e cevada, óleo e vinho, formavam a dieta básica da Palestina e da Ásia Menor”.

O significado provável dessa advertência é explicado por Charles. Ele escreve: “De­vido à falta de cereais e à superabundância de vinho, Domiciano emitiu um édito [...] que nenhuma vinha nova deveria ser plantada na Itália, e que a metade das vinhas nas províncias deveria ser destruída”. Mas Suetônio registra o fato que o decreto imperial causou um alvoroço tão grande nas cidades asiáticas que ele precisou ser revogado. Em vez disso, foi imposto um castigo para aqueles que deixassem de cultivar as suas vinhas! Charles acha que João está aqui registrando um protesto contra essa atitude egoísta: “Consequentemente, ele prediz uma época difícil, em que os homens terão azeite e vinho em abundância, mas sofrerão da falta de pão”. É possível que o decreto de Domiciano tenha sido o motivo das palavras aqui.

O Quarto Selo: Morte (6.7,8)

Agora aparece um cavalo amarelo (8). A palavra grega é chloros, que significa um “verde descorado”. Swete comenta: “encontramos essa palavra na Ilíada de Homero (vii. 464) para “pálido de medo”. Swete comenta: “O cavalo ‘descorado’ ou ‘pálido’ é um símbo­lo de Terror, e seu cavaleiro uma personificação da Morte [...] com quem segue — quer no mesmo ou num outro cavalo ou a pé, o autor não para de dizer ou mesmo de pensar — em seu companheiro inseparável, o Hades”.

Mas havia um limite para o estrago do ceifeiro severo, a Morte, e o celeiro avarento, O Hades. Eles têm poder para destruir a quarta parte da terra. O tempo do julgamen­to final ainda não havia chegado.

Os dois algozes matam usando quatro métodos: espada [...] fome [...] peste [...] (a palavra grega evidentemente significa “peste” ou “pestilência” aqui e com frequência na LXX) [...] feras da terra. Há uma referência óbvia a Ezequiel 14.21: “Porque assim diz o Senhor JEOVÁ: Quanto mais, se eu enviar os meus quatro maus juízos, a espada, e a fome, e as nocivas alimárias, e a peste”. Os termos gregos são os mesmos nas duas passa­gens, em que apenas a ordem dos dois últimos é invertida. Feras selvagens multiplicam-se e tornam-se mais ferozes em tempos de fome e pestilência.

A visão dos quatro cavaleiros em abrir os primeiros quatro selos encontra um para­lelo impressionante em Zacarias 6.1-3. Ali o profeta vê quatro carros puxados por cava­los que eram respectivamente vermelhos, pretos, brancos e grisalhos e fortes. Aqui um dos cavalos é branco, os outros vermelho, preto e verde pálido, respectivamente. Como Swete observa: “O Apocalipse toma emprestado somente o símbolo dos cavalos e suas cores e em vez de colocar os cavalos em cangas diante dos carros ele coloca um cavaleiro em cada um deles em quem o interesse da visão é centrado”.

Qual é a aplicação desses primeiros quatro selos? Representando a interpretação preterista, Swete encontra aqui o militarismo e a obsessão pela conquista que era característica do Império Romano daquela época, repetida com frequência na história desde então.

Típico daqueles que defendem a interpretação historicista, Barnes entra em mais detalhes. O primeiro selo representa um período de prosperidade e conquista com uma duração de cerca de 90 anos depois que o Apocalipse foi escrito (i.e, até 180 d.C.). Basean­do-se em grande parte no livro Decline and Fali ofthe Roman Empire (Declínio e Queda do Império Romano) de E. Gibbon, Barnes descreve esse período com grandes detalhes. O segundo selo representa os 92 anos após o assassinato de Commodus em 193 d.C., quando não menos de 32 imperadores e 27 pretendentes mantiveram o império em um estado de guerra civil constante. O terceiro selo simboliza um período de impostos opres­sivos e restrições severas à liberdade do povo. Barnes aplica o quarto selo ao período que vai de 248 até 268d.C., quando a espada, a fome e as pestes, de acordo com Gibbon, causaram a morte da metade da população do império.

A interpretação futurista entende que esses selos se referem a julgamentos terríveis sobre a humanidade no fim dessa era. Por exemplo, Kuyper diz que “o que está sendo apresentado aqui precede o final imediato de todas as coisas, a vinda do Anticristo e o retorno do Senhor”.

O Quinto Selo: Martírio (6.9-11)

A abertura do quinto selo revelou debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram (9). Não há aqui criaturas viventes nem uma voz clamando: “Vem”. O significado dessa mu­dança é observado por Swete: “Com o quinto selo, a Igreja vem a luz, em relação à sua perseguição e sofrimento [...] A quebra do quinto selo interpreta a época da perseguição e mostra sua relação com o plano divino na história”. Não precisa de muita imaginação para constatar que isso poderia se aplicar igualmente à perseguição romana aos cristãos (preterista), às várias perseguições de verdadeiros crentes ao longo da era da Igreja, especialmente pela igreja católica romana (historicista), e também aos mártires da Grande Tribulação no final desta era (futurista). Concordar com uma dessas teorias não exclui­ria sua verdade em relação às outras. A posição sensata aparentemente é aceitar todas as interpretações dessa passagem como válidas e significativas.

Debaixo do altar é talvez uma referência ao fato de que o sangue da oferta pelo pecado deveria ser derramado “à base do altar do holocausto” (Lv 4.7). “O altar em estu­do aqui é o correlativo do Altar do Holocausto, e as vítimas que foram oferecidas sobre ele são os membros mortos como mártires da Igreja, que seguiram seu Cabeça no exemplo da sua morte sacrificial”.

A linguagem da última parte desse versículo é semelhante à linguagem em 1.9, que encontra eco novamente em 12.11, 17; 19.10; 20.4. A repetição de por (dia, por causa de) sugere duas causas do martírio. Essas testemunhas fiéis eram mortas por causa da sua confissão no único e verdadeiro Deus, em contraste com o politeísmo e adoração ao imperador daqueles dias, e do seu testemunho de Jesus como o único Senhor e Salvador. O Martírio de Policarpo relata que pouco antes desse venerável bispo ser morto em 156 d.C., ele foi impelido pelo pro cônsul romano a salvar a sua vida ao fazer duas coisas: 1) “Jure pelo nome de César [...] e diga: ‘Fora com aqueles que negam os deuses”; 2) Desonre a Cristo”. A resposta de Policarpo tem sido citada com frequência: “Oitenta e seis anos o servi e Ele nunca me tratou injustamente. Como posso agora blasfemar contra meu Rei que me salvou?”.

Há muitas advertências na Palavra de Deus de que o martírio pela fé vai novamente se tornar comum no fim dos tempos. Precisamos orar pelo mesmo espírito de coragem que foi mostrado pelos antigos mártires da Igreja.

As almas debaixo do altar clamavam (aoristo, somente uma vez) com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra (10). Dominador não é o termo comum kyrios, masdespotes (cf. déspota). Esse é um título para Deus na Septuaginta e duas vezes no Novo Testamento (Lc 2.10; At 4.24). Ele também é usado para Cristo duas vezes (2 Pe 2.1; Jd 4). Aqui não está claro se o termo é empregado para Deus ou para Cristo. As palavrasverdadeiro e santo são usadas para Cristo em 3.7.

O clamor por vingança tem causado uma certa consternação nos cristãos atuais. Mas Swete nota que “a santidade e verdade do Supremo Mestre requer o castigo de um mundo responsável pelas suas mortes. As palavras somente afirmam o princípio da re­tribuição divina, que proíbe o exercício da vingança pessoal”.

Para cada mártir foi dada uma veste branca (stole, sing.) simbolizando pureza e vitória. Essa palavra grega é encontrada outra vez em 7.9, 13-14. O termo repre­senta uma roupa longa que era um tipo de um símbolo de status. Essas vítimas do martírio eram, na verdade, vencedores. Foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seusconservos e seus irmãos que haviam de ser mortos como eles foram. Sua espera será um repouso e será por um período curto. Quando os propósitos de Deus estiverem com­pletos, virá o fim.

O Sexto Selo: O Fim dos Tempos (6.12-17)

O primeiro sinal do fim que pode ser observado é um grande tremor de terra (12). Esse aspecto provavelmente é um eco de Ageu 2.6-7 (LXX): “Porque assim diz o SE­NHOR dos Exércitos: Ainda uma vez, daqui a pouco, e farei tremer os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca; e farei tremer todas as nações”. A última frase sugere que a referên­cia não é somente a um terremoto físico, mas também a revoluções raciais, políticas e sociais. É interessante observar que terremoto é seismos e “farei tremer” é seiso.

Outros terrores são indicados: e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue. Essa citação é semelhante à de Joel 2.31: “O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR”.

Outros fenômenos são observados: E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte (13). A linguagem é a de Isaías 34.4: “E todo o exército dos céus se gastará [...] e todo o seu exército cairá como cai a folha da vide e como cai o figo da figueira”.

A sentença que omitimos dessa citação de Isaías: “e os céus se enrolarão como um livro” é similar à próxima frase de Apocalipse: E o céu retirou-se como um livro que se enrola (14). O autor acrescenta a seguinte predição: e todos os montes e ilhas foram removidos do seu lugar. Sempre haverá uma discussão se essa linguagem deve ser entendida literal ou figuradamente. Mas por que não as duas formas? Como no caso de 2 Pedro 3.10-12, a idade atômica abriu os nossos olhos para o fato de que uma linguagem tão severa, há muito tempo taxada como uma expressão poética de uma ima­ginação fértil, pode se cumprir com uma exatidão horrível.

Nessa visão terrível dos últimos dias, João viu homens de todas as camadas da sociedade (são mencionadas sete classes), de reis a escravos, se esconderem nas caver­nas e nas rochas das montanhas (15). Eles diziam aos montes e aos rochedos para que caíssem sobre eles (cf. Os 10.8) e os escondessem do rosto daquele que está as­sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro (16). Que paradoxo impressionante: a ira do Cordeiro! Alguém disse que a ira de Deus é o amor de Deus represado pela desobediência do homem, até que seja emanado no julgamento justo.

O motivo de procurar se esconder é claro: porque é vindo o grande Dia da sua ira; e quem poderá subsistir? (17). Já ocorreram muitos dias do julgamento de Deus sobre o pecado e homens pecaminosos. Mas o grande Dia da sua ira — uma combina­ção de “o dia do Senhor” (Jl 2.11, 31. Zc 1.14) e o “dia da ira do Senhor” (Sf 1.15,18; 2.3) — ainda está por vir. Excederá em muito qualquer coisa de que se tem notícia.

Interlúdio: Os Servos de Deus São Selados (7.1-17)

O capítulo 7 forma um tipo de interlúdio entre o sexto e o sétimo selos. A abertura do sétimo selo (8.1) revela as sete trombetas. Assim, essas duas séries de sete estão interligadas.

Este capítulo divide-se naturalmente em duas partes, como é indicado pela frase E, depois destas coisas, vi nos versículos 1 e 9. O que João viu foi a Igreja Militante na terra (vv. 1-8) e a Igreja Triunfante no céu (vv. 9-17).

a.       Os cento e quarenta e quatro mil são selados (7.1-8). João viu quatro anjos que estavam sobre os quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem contra árvore alguma(1). Os julgamentos de Deus precisavam ser retidos por um período. Cada um dos quatro anjos estava parado em um dos quatro cantos da terra — significando as quatro direções da bússola — retendo (segurando firme, mantendo sob controle) os quatro ventos da terra, simbolizando os julgamentos que estavam prestes a ocorrer. Nenhum furacão deveria varrer a terra ou o mar, nem derrubarárvore alguma.

João então viu outro anjo subir da banda do sol nascente (2) — literalmente “que subia do nascente do sol” (ARA). Ele tinha o selo do Deus vivo. selo “é aqui o anel de sinete [...] que o monarca Oriental usa para dar validade a documentos oficiais ou para marcar sua propriedade”. Paulo usa essa figura diversas vezes (2 Co 1.22; Ef 1.13; 4.30). Talvez o paralelo mais próximo no Novo Testamento seja 2 Timóteo 2.19: “Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus”. O simbolismo aqui em Apocalipse está provavelmente relacionado com o texto de Ezequiel 9.3-4, em que um homem vestido de linho e levando um tinteiro de escrivão recebe a ordem de marcar um sinal na testa de todos os justos em Jerusalém. Aqueles que não tinham essa marca deveriam ser mortos.

Os quatro anjos foram advertidos: Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que hajamos assinalado na testa os servos do nosso Deus (3). O uso de nosso Deus sublinha o fato de que tanto santos quanto anjos servem o mesmo Senhor.

O número selado era cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos dos filhos de Israel (4). Mas o que representam exatamente os cento e quarenta e quatro mil? Essa é uma pergunta que tem recebido inúmeras respostas. Alguns entendem que o número indica o remanescente eleito de Israel (cf. Rm 11.5). Outros acham que se trata dos cristãos judeus. Afigura cento e quarenta e quatro mil não deve ser tomada literal­mente, mas simbolicamente. Ela representa aqueles que “foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro” (14.4). O número (12 x 12 x 1.000) significa uma multidão grande e completa. Provavelmente, o melhor ponto de vista seja aquele que diz que os cento e quarenta e quatro mil representam “todos os fiéis”. Esse parece ser o caso pela descrição dos cento e quarenta e quatro mil em 14.1-5.

Na lista das doze tribos (vv. 5-8) aparece um problema: Por que Dã é omitida? Em diversas listas do Antigo Testamento (Nm 1.5-15,20-43; 13.4-15) o nome de Levi é deixa­do fora — “Mas os levitas, segundo a tribo de seus pais, não foram contados entre eles” (Nm 1.47). Isso ocorria porque eles eram separados para um serviço sagrado especial. Para que o número continuasse sendo doze, a tribo de José era dividida em duas tribos, Efraim e Manassés. Eles são mencionados separadamente aqui, em que José (8) está no lugar de Efraim.Levi (7) é incluído.

Isso continua deixando em aberto a questão da omissão de Dã. Essa tribo está fal­tando nas listas genealógicas de 1 Crônicas 2.3—8.40. O mesmo ocorre com Zebulom, por alguma razão desconhecida.

Foi sugerido que Dã é deixado fora porque essa era a primeira tribo a enveredar pelo caminho da idolatria (Jz 18). Os antigos escritos rabínicos ressaltam a apostasia de Dã. O Testamento dos Doze Patriarcas (uma obra pseudepigráfica) sugere uma aliança entre Dã eBelial.

Duesterdieck diz: “O simples motivo de a tribo de Dã não ser citada está no fato de que ela já tinha sido extinta muito antes do tempo de João”. Mas, evidentemente, o mesmo ocorreu com as outras dez tribos do norte.

A explicação mais antiga, endossada amplamente pelos antigos Pais da igreja, foi primeiro oferecida por Irineu (segundo século). Ele entendia que Dã foi omitida porque o Anticristo deveria emergir dessa tribo (cf. Jr 8.16). Charles insiste que “essa tradição da origem do Anticristo é pré-cristã e judaica”.

A ordem das tribos conforme relacionadas aqui, tem evocado considerável discussão. Depois de mencionar Judá e Manassés, Charles afirma: “As tribos restantes são relaciona­das em ordem completamente ininteligível”. Swete apresenta uma explicação mais lógi­ca: “A ordem apocalíptica começa com a tribo da qual Cristo veio [...] e então continua para a tribo do filho primogênito de Jacó, que encabeça a maioria das listas do AT. Em seguida vêm as tribos localizadas no Norte, interrompidas pela menção de Simeão e Levi, que em outras listas geralmente seguem Rúben ou Judá; enquanto as tribos de José e Benjamim são mencionadas por último”. Ele acrescenta: “Essa organização parece ter sido sugerida em parte pela ordem de nascimento dos patriarcas e em parte pela situação geográfica das tribos”. J. B. Smith traz uma apresentação lógica ao colocar os nomes em pares, em vez de em triplas como são encontradas na versificação das nossas Bíblias.

b.      A multidão dos redimidos (7.9-17). João viu uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas (9) parada diante do trono no céu. As vezes, somos tentados a sentir que somente algumas pessoas estão servindo o Senhor. Mas o total de redimidos de todos os tempos e todas as nações é uma multidão incontável.

Eles trajam vestes brancas — símbolo de pureza e vitória — e levam palmas nas suas mãos, como fez a multidão alegre na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Jo 12.13). Swete habilmente observa: “Acena de Apocalipse 7.9ss. antecipa a condição final da humanidade redimida. Semelhantemente à Transfiguração antes da Paixão, ela pre­para o vidente a enfrentar o mal que está por vir”.

A multidão dos redimidos clama: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro (10). Aqui, como ocorre com frequência no Novo Testamento, Cristo é adorado junto com o Pai. Todos os anjos, os vinte e quatro anciãos, e as qua­tro criaturas viventes se unem na adoração (v. 11). O relato do louvor (v. 12) é sétuplo, como em 5.12. Cada um dos sete itens leva o artigo definido no texto grego, enfatizando-os individualmente.

Um dos anciãos (13) ofereceu-se para explicar a visão a João (cf. 5.5). Ele primeiro fez uma pergunta dupla acerca daqueles que estavam trajando vestes brancas: quem são e de onde vieram? João respondeu: Senhor, tu sabes (14) — literalmente: “tu tens conhecimento” (tempo perfeito). Então vem a explicação: Estes são os que vieram de grande tribulação — literalmente: “Estes são os que estão vindo de grande tribulação”. Essa frase tem levado ao nome “A Grande Tribulação”, por um breve período (três anos e meio ou sete anos), no fim dos tempos. Muitas vezes fala-se que a referência aqui é aos chamados “santos da tribulação” que são salvos durante a Grande Tribulação. Em certo sentido, todos os cristãos precisam passar “por muitas tribulações” (At 14.22). Mas, no fim dos tempos haverá um período de muita aflição que bem poderia ser entendido como a Grande Tribulação (cf. Dn 12.1). Essa continua sendo uma pergunta aberta, se, de fato, a referência aqui deveria ser restrita aos santos desse breve período.

Os redimidos são descritos como aqueles que lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. A ideia das vestes serem literalmente lavadas para se tornarem brancas no sangue é paradoxal. Mas essa não é uma linguagem literal. Toda a história da salvação é um paradoxo, em que muitos intelectuais sofis­ticados têm tropeçado. O fato continua o mesmo: a única forma de salvação é aceitar humildemente a expiação provida pelo Filho de Deus, que derramou o seu sangue para todos os pecadores.

Somente os lavados pelo sangue podem ficar diante do trono de Deus (15) e des­frutar da sua presença para sempre. Eles o servem de dia e de noite no seu templo. O céu é um lugar de descanso, mas não de preguiça ou inatividade. Templo não é hieron, usado para o tempo em Jerusalém, mas naos, “santuário”. No antigo Tabernáculo e no Templo posterior somente os sacerdotes e levitas podiam entrar no santuário. Mas agora todos os crentes são sacerdotes e podem servir no santuário. Swete observa: “O ‘templo’ é aqui a Presença divina, compreendida e desfrutada”. Ele faz essa aplicação prática para o presente: “Mas a visão de adoração incessante é compreendida somente quando a vida em si é entendida como um serviço. A consagração de toda vida para o serviço de Deus é um alvo para o qual nossa adoração presente aponta”. Na última frase do versículo 15 ele comenta: “O serviço perpétuo encontrará seu estímulo e sua recompensa na visão perpétua daquele que é servido”.

O Eterno, que está assentado sobre o trono, os cobrirá com a sua sombra. O verbo é skenosei — literalmente, “estenderá a tenda ou tabernáculo”. Somente João usa essa palavra. Apocalipse 21.3 é semelhante à declaração empregada aqui. Em João 1.14 o termo é usado para a Encarnação: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós”. A vinda de Cristo para a terra preparou o caminho para todos que aceitassem a sua salvação e desfrutassem da presença de Deus para sempre no céu. Assim, essa parte da frase pode ser traduzida da seguinte forma: “E aquele que está assentado no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo” (NVI).

A bem-aventurança dos redimidos é descrita mais adiante da seguinte maneira: Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calma alguma cairá sobre eles (16). A linguagem desse versículo e uma boa parte do próximo versículo são tomadas por empréstimo de Isaías 49.10: “Nunca terão fome nem sede, nem a calma nem o sol os afligirão, porque o que se compadece deles os guiará e os levará mansamen­te aos mananciais das águas”. E, assim, nós lemos: porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida (17). Há uma reflexão aqui não só de Isaías 40.11 e Ezequiel 34.23, mas também do amado Salmo 23. Somente Cristo é a Água da Vida (cf. Jo 4.14).

O capítulo termina com a bela promessa: e Deus limpará de seus olhos toda lágrima. Isso é repetido em 21.4. Swete observa: “Na verdade, todo o episódio de 7.9-17 tem eco nos últimos dois capítulos do livro, onde o clímax aqui introduzido é descrito de forma mais completa”.

Os capítulos 6 e 7 apresentam contrastes marcantes. Richardson observa: “O sexto capítulo conclui com uma pergunta: ‘quem poderásubsistir?’ O capítulo sete dá a respos­ta”. São os salvos e selados pelo sangue de Cristo. Da combinação encontrada no capítu­lo 7 ele diz: “Vitória e alegria por meio de luta e tribulação é a mensagem desse livro”.

c.       O Sétimo Selo: Silêncio (8.1)

Quando o sétimo selo foi aberto, fez-se silêncio no céu quase por meia hora; isto é, por um breve período. Aparentemente, esse era o silêncio da apreensão, a calma súbita antes da tempestade. McDowell sugere: “As multidões do céu são para­lisadas e ficam mudas enquanto olham extasiadas para o Cordeiro enquanto ele move a sua mão para quebrar o último selo do rolo que ele havia tomado da destra de Deus”. Richardson chama esse momento de “um silêncio de ‘suspense e tremor’, uma pausa dramática; um silêncio de reverência, expectativa e oração”. Charles é um pouco mais específico: “Os louvores das ordens mais elevadas dos anjos no céu são silenciados para que as orações de todos os santos sofredores na terra possam ser ouvidas diante do trono. Suas necessidades são de maior importância para Deus do que toda a salmodia do céu”.

Bibliografia Ralph Earle,comentatario do apocalipse 2000  www.ebareiabranca.com



A selagem dos mártires (Ap 7:1-8).

Consideremos os fatos abaixo enumerados, conforme os encontramos nas Escrituras, em favor da ideia que a igreja terá de atravessar a Grande Tribulação:

1.      O livro de Apocalipse foi escrito para confortar à igreja sob perseguição. Historicamente, isso se aplicava aos próprios dias do autor sagrado, à perseguição movida por Domiciano e pelos imperadores que se seguiram, cujos atos foram antecipados. Profeticamente, porém, isso se aplica à igreja que viverá na terra nos tempos do anticristo, o qual promoverá a mais cruel de todas as perseguições religiosas que o mundo já terá visto ou poderá ver. Ver a igreja ausente durante esse tempo é negar o propósito mesmo com que este livro foi escrito.

2.      Os mártires do trecho de Ap 6:9-11 têm de ser mártires cristãos, já que será somente perto do fim do período da Grande Tribulação que Israel será salva como uma nação. O vidente João não escreveu este livro a fim de consolar os mártires de Israel; escreveu para uma igreja perseguida, que já contava com muitos mártires sob Nero. Domiciano foi apelidado «segundo Nero», e o Apocalipse foi escrito durante o tempo de Domiciano, pouco antes do fim do primeiro século de nossa era. Por conseguinte, foi para «mártires cristãos» que João escreveu. Eles é que aqui pedem vingança a Deus, contra a ímpia Roma. Estão em foco mártires cristãos, que terão sofrido sob os selos segundo a quarto, e que farão o mesmo clamor contra o anticristo; e esse é o aspecto «profético» do trecho de Ap 6:9-11.

3.      Porém, antes do golpe final da Grande Tribulação, ou melhor, antes de desencadear-se a «ira» de Deus, no julgamento inaugurado pela vinda de Cristo (ver Ap 4:17), os mártires serão selados, e, portanto, aceitos na presença de Deus, de tal modo que a ira divina não poderá atingi-los prejudicialmente. O capítulo que temos à nossa frente descreve isso. Esse capítulo garante-nos que o martírio e todas as temíveis provações da Grande Tribulação não poderão prejudicar àquele que está firme em Cristo. Seu propósito é indestrutível, a despeito da ira do homem. Os mártires em potencial serão selados, e, portanto, protegidos de todo o dano, até que chegue o momento, dentro da vontade de Deus, de oferecerem o seu sacrifício. Se fosse da vontade de Deus, alguns crentes ou mesmo todos eles, seriam capazes de desafiar ao anticristo, até ao fim mesmo da Grande Tribulação. Mas a verdade é que os crentes, em vastos números, sofrerão o martírio (ver Ap 6:9-11 e 7:9). Observemos quão avantajado é o número deles. É impossível que pudesse continuar havendo na terra tão «inumerável» companhia de crentes, se a igreja tivesse de ser arrebatada antes da Grande Tribulação. A «selagem» protegerá os corpos deles enquanto Deus assim quiser fazê-lo: mas, principalmente, a ideia dessa selagem é que estarão protegidos da ira de Deus, que se seguirá imediatamente à Grande Tribulação, bem como estarão protegidos da ira de Deus que será desfechada durante a Grande Tribulação, a qual meramente será predição daquela ira maior que se seguirá. Seja como for, esse grupo representa o Israel espiritual, protegido em meio aos horrores da Grande Tribulação, e não retirados do meio dela.

4.      Tudo isso pode ser confrontado com o trecho de Mt 24:29-31. Será somente «após a tribulação» que os anjos serão enviados para recolher os eleitos, de uma à outra extremidade dos céus, de uma à outra extremidade da terra. Esses estarão «selados» até que tenha lugar esse recolhimento; e isso só terá lugar «após a tribulação daqueles dias». É impossível ver aqui a nação de Israel, já convertida, como se fosse ela, exclusivamente, quem está focalizada no quadro, embora seja verdade que a conversão de Israel antecederá à batalha de Armagedom por um bom tempo. Contudo, o trecho de Ap 7:9 e ss. certamente descreve a igreja cristã. Nesta passagem, o «Israel espiritual», embora inclua judeus convertidos, certamente é a igreja cristã. Do ponto de vista do vidente João, somente o Israel espiritual pode estar em foco; porém, do ponto de vista profético, a nação de Israel, futuramente convertida a Cristo, provavelmente também está em foco. O vidente João, ao exaltar os mártires cristãos, chama-os de «Israel espiritual». Porém, embora ele não pudesse saber disso em seus dias, uma vez que a nação de Israel se converta, sem dúvida haverá a selagem dos mártires em potencial entre eles, de tal modo que possam escapar ao poder do anticristo. A exposição abaixo aborda o problema que indaga se o Israel espiritual ou a nação de Israel é que está aqui em foco, ou se ambos são focalizados neste ponto. A maioria dos intérpretes da herança da literatura cristã tem opinado que está em pauta o Israel espiritual, de princípio a fim.

Certo número de intérpretes supõe que o trecho de Ap 7:1-8 fala da nação literal de Israel, ao passo que os versículos nono em seguida, desse mesmo capítulo, falam dos cristãos gentílicos, ou seja, da igreja. Outros acreditam que o mesmo grupo —a igreja— está em pauta, embora apresentada sob diferentes condições e perspectivas. Outros eliminam totalmente a possibilidade da igreja estar presente, preferindo pensar apenas na nação literal de Israel, que então terá se convertido a Cristo, uma vez que a igreja já foi arrebatada, supostamente devido ao testemunho de Israel. Esse último ponto de vista é de origem relativamente recente, dentro da história dos estudos escatológicos, não sendo aprovado pela herança geral da literatura cristã dos séculos. Tal posição moderna idealiza o arrebatamento da igreja antes da tribulação, o que é ponto de vista extremamente duvidoso, embora se tenha tornado popular em certas esferas do protestantismo evangélico de nossa época. Também supõe, essa posição, que a nação de Israel, uma vez que a igreja tenha sido arrebatada, passará a prestar testemunho ao mundo, quase desde o início da tribulação predita. Mas isso é altamente improvável, ou melhor, impossível, porque Israel, como nação, só se converterá nos estágios finais da Grande Tribulação, e não nos seus primeiros desenvolvimentos.

Conforme se dá com outras porções do Apocalipse, há um grande número de interpretações acerca deste sétimo capítulo. Apesar de não sermos capazes de dar resposta a muitas das questões que então se apresentam, porque somente o cumprimento dos acontecimentos preditos fornecerá a resposta exata para tudo, cremos que podemos fornecer um quadro geral do que é aqui tencionado.

O sétimo capítulo é considerado um parêntesis por muitos eruditos, como se fosse uma pausa entre o sexto e o sétimo selos. Mas outros estudiosos veem aqui certos aspectos do sexto selo, ainda sob consideração. O trecho de Ap 6:17 promete a ira divina contra os rebeldes. Este sétimo capítulo mostra que essa ira não poderá descarregar-se contra os selados, os quais estão justificados em Cristo. Este capítulo, pois, representa uma interrupção no ritmo e no estilo do sexto capítulo. Mas é ponto relativamente destituído de importância se o mesmo faz parte ou não da descrição do sexto selo.

O principal problema que envolve o capítulo à nossa frente é a identificação dos cento e quarenta e quatro mil. Isso é discutido de modo breve mais acima, e mais amplamente nas notas expositivas sobre o quarto versículo deste capítulo, onde são expostas as principais opiniões dos intérpretes. O que quer que digamos sobre os cento e quarenta e quatro mil, este capítulo certamente retrata a igreja de Cristo durante a Grande Tribulação, sofrendo sob a ferocidade do anticristo, o qual promoverá a pior perseguição religiosa de todos os séculos.

7:1         Depois disto vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sabre o mar, nem contra arvore alguma.

«...Depois disto...» Essas palavras são um artificio literário do autor sagrado, a fim de identificar uma mudança de assunto ou o desenvolvimento do mesmo assunto. Algumas vezes a expressão aparece em forma plural, «depois destas coisas», e às vezes em forma singular, como aqui. Os manuscritos minúsculos 1, 27, 30, 33, 47 e os latinos g e n apresentam aqui o plural, no grego, «tauta»; mas sem dúvida isso é secundário. A forma singular aparece aqui nos mss Aleph, acp, 046 e na maioria das versões.

«...vi...» Em visão

Esperaríamos uma descrição sobre o «sétimo» selo, mas a narrativa faz
uma pausa a fim de dizer-nos como os verdadeiros crentes, durante a Grande Tribulação, serão ou protegidos, ou então, como, a despeito do seu martírio, não serão atingidos pela ira de Deus. Esses são os que podem «resistir» no dia da ira do Senhor, sem sofrerem qualquer dano. Pouco ou nada importa se considerarmos este sétimo capítulo como a continuação da descrição sobre o sexto selo, ou se o considerarmos como um parêntesis, uma interrupção na narrativa dos selos.

«...em pé...» Trata-se de uma visão. Pois nenhum anjo é grande bastante para dar a impressão que está apoiado sobre o globo terrestre. Quando há tal simbolismo na Bíblia, como podemos presumir em dizer que a interpretação «simbólica» ou «mística» prejudica nosso entendimento sobre o Apocalipse? Bem pelo contrário, se sempre tentarmos interpretar este livro literalmente, nossa compreensão deste livro será fatalmente distorcida, porquanto o Apocalipse certamente é um documento de natureza «mística», devendo ser interpretado como tal. Somente a prosaica mente ocidental é que procura interpretar um livro místico de forma literal «sempre quepossível», conforme dizem alguns eruditos. A consulta das «fontes informativas» do Apocalipse, especialmente das fontes informativas dos vários apocalipses do período helenista, nos convencerá que devemos ter extremo cuidado com a interpretação literalista. Como exemplo, disso, em Ap 8:8, há um «monte» que atinge incendiado o mar, o qual poderíamos identificar de imediato como um cometa que atingirá o oceano, ou seja, um objeto físico literal. Ao assim dizermos, teremos simbolizado toda a questão, porquanto um meteorito não é um monte. E assim teremos preservado um objeto literalmente físico, como se estivesse aqui em foco. Então, ao consultar outra literatura apocalíptica, como se vê em I Enoque 18:13, onde há uma cena similar, poderíamos pensar estar confirmada essa interpretação literal. Mas, prosseguindo até I Enoque 21:3 e 108:3-6, descobriremos que esse monte é, na realidade, um anjo caído, isto é, um dos sete que cairão no mar, por terem sido expulsos por Deus dos lugares celestes, devido à sua desobediência. A terra estremecerá ante a vinda desses anjos. Talvez, então, nesse caso, o «oceano» represente as nações. Em outras palavras, o ensino pode ser que anjos caídos, ou poderosos seres demoníacos, estão sendo enviados para vexar os homens, e isso como castigo devido àquilo que os homens merecem. Quão diferente é essa interpretação daquela outra que vê aqui um meteorito a mergulhar em algum de nossos oceanos! Outrossim, a tentativa de interpretarmos o Apocalipse de maneira literal, «sempre que possível», com facilidade nos desviará para longe da verdade.

«...quatro anjos...» Consideremos os pontos abaixo, a esse respeito:

1.      O termo «anjo» pode implicar em seres angelicais literais, dotados de alguma missão especial a ser realizada na terra. O terceiro versículo deste capítulo mostra que eles têm missões de juízo a efetuar. Esses anjos tiveram de ser entravados por um outro anjo, «...que subia do nascente do sol...» (no segundo versículo). Supomos, pois, que aquilo que têm de fazer deve ser incorporado dentro do sétimo selo, talvez os juízos das «trombetas», porquanto aquilo que são impedidos de fazer (no terceiro versículo) é mais ou menos paralelo àquilo que é realmente feito (em Ap 8:7); e, de modo geral, no restante das trombetas, porquanto trarão «dano contra a terra». É possível que esses quatro anjos pertençam ao número dos sete anjos que farão soar as trombetas, mas não se pode afirmar isso com confiança absoluta. São em número de «quatro» porque exercem controle sobre as «quatro extremidades» da terra e sobre os «quatro ventos». Em cada caso, todavia, o número «quatro» fala de algo completo. A terra «inteira», pois, está debaixo do controle desses anjos, até ao ponto que Deus lhes determinar.

2.      Outros eruditos creem que o termo «anjo», neste caso, simboliza as operações de Deus, de sua providência, nada tendo a ver com seres celestes literais.

3.      É possível que o autor sagrado aluda aqui aos «quatro anjos da natureza», as forças naturais que controlam o meio ambiente terrestre, sob direção divina.

4.      Alguns eruditos supõem que esses anjos são maus, forças espirituais malignas que invadirão a terra nos últimos dias; mas certamente essa interpretação erra totalmente o alvo, ainda que aquela invasão também seja predita na Bíblia.

5.      As interpretações históricas veem aqui quatro impérios mundiais; mas estão equivocadas, sem dúvida alguma.

Pouca dúvida pode haver que a alusão é ao trecho de Zc 6:5, «...os quatro ventos do céu...» Isso pode ser comparado aos quatro seres viventes de Ap 4:6,7, e aos quatro cavaleiros.

«...quatro cantos da terra...» Os antigos pensavam que a terra fosse quadrada, e, portanto, dotada de quatro cantos. Os filósofos gregos jônicos (600 A.C.) modificaram isso, pensando ser a terra um disco; mas a maioria dos antigos, desde os tempos babilônicos, aceitava a ideia de uma terra com «quatro cantos». O vidente João contempla a terra do alto de seu ponto visionário, vendo a terra como um plano retangular, havendo um imenso anjo de pé sobre cada um de seus cantos. É indagação inútil se o vidente João cria ou não em uma terra quadrada. Sem dúvida ele assim cria, mas isso em nada prejudica a mensagem de sua visão, ainda que inclua o que agora é uma ideia cosmológica obsoleta. É tão inútil isso como tentar «modernizar» o autor sagrado, e supor que, enquanto ele escrevia, usando ideias antigas, ele mesmo sabia melhor do que elas. A questão inteira, sobre o que o vidente João pensava sobre o formato da terra, não tem peso algum para a fé, pelo que é inútil a discussão sobre a mesma, positiva ou negativamente.

A expressão quatro cantos, inteiramente à parte do fato se expressa ou não o formato da terra, diz-nos que esses anjos controlam a terra inteira, de todo o ponto de vista, de todos os ângulos, até ao ponto onde Deus lhes dá permissão. Portanto, podem provocar vastos juízos, se assim lhes for dado fazer. E quando soarem as trombetas, assim realmente farão; por enquanto, porém, são impedidos de agir, até que sejam selados os mártires em perspectiva.

«...para que nenhum vento soprasse sobre a terra...» Os anjos que se acham nos quatro cantos da terra, conservam presos os quatro ventos. Não lhes é permitido soprar e nem destruir. Também se vê nas cosmologias babilônica e outras da antiguidade, a ideia que seres angelicais ou espirituais, controlam os quatro ventos, mantendo-os sob controle desde o seu posto, nos quatro cantos da terra. Assim sendo, o vidente João uma vez mais se utiliza de uma expressão da cosmologia antiga, a qual agora nos é estranha, mas que não o era para os leitores originais do Apocalipse. Em Dn 7:2,3, vemos os quatro ventos do céu irrompendo sobre o mar, provocando destruições imensas. É óbvio que esses ventos não são literais, e, sim, alguma força cósmica e espiritual, que tem o poder de produziracontecimentos horrendos sobre a face da terra, mediante forças humanas e sobre-humanas.

Assim, pois, se insistirmos em uma interpretação «literal», fazendo com que esses ventos sejam quatro ventos literais, estaremos nos afastando da verdade. No Apocalipse Siríaco de Pedro, há uma advertência da parte de Deus, no sentido que quando ele soltar os quatro ventos, haverá saraiva antes do vendaval, um fogo consumidor diante do vento sul, enquanto montanhas e rochas serão partidas pelo meio pelo vento ocidental. Mas nada é dito ali sobre o quarto vento. No Apocalipse do Pseudojoão 15, a promessa de Deus é que os quatro ventos deixarão o mar limpo de todo o pecado. Por igual modo, nas Perguntas de Bartolomeu 4:31-34, aos quatro anjos será dado o poder de restringir aos quatro ventos, para não liberarem sua força destruidora sobre a terra. De modo bem geral, pois, o versículo ensina-nos que Deus controla a terra inteira; que os seus juízos são administrados como e quando ele quiser, e através dos instrumentos e eventos que melhor lhe agradarem. Outrossim, ele restringe seus julgamentos a fim de proteger os seus servos. Além desse significado geral, é perfeitamente possível que nada mais seja aqui ensinado, e que os objetos da visão, como os anjos, os quatro cantos e os quatro ventos, sejam apenas imagens necessárias para dar-nos um quadro interessante, mas que não têm qualquer significado literal ou metafísico. O número «quatro», entretanto, retém seu simbolismo de algo «completo». A terra inteira, com todos os seus acontecimentos, são controlados pela providência divina.

Outras ideias sobre o primeiro versículo do sétimo capitulo:

1.      Notemos que os ventos não poderão soprar sobre a «terra», o «mar» ou as «árvores», em que o número «três» entra em ação. Esse é o número divino. Assim, por conseguinte, Deus se relaciona à terra, e esta, finalmente, estará totalmente vinculada ao Senhor. De maneira geral, a terra (a parte seca), o mar (as águas) e as árvores (a vegetação) representam as várias condições existentes em nosso globo terrestre literal, que podem sofrer dano dos ventos (ou julgamentos) de Deus.

2.      Este versículo, tal como grande parte do Apocalipse, diz-nos claramente que Deus pode intervir e realmente fará intervenção na história humana. Os homens se destruiriam totalmente se Deus assim não fizesse. Mas uma intervenção divina devolverá aos homens o bom senso. O novo ciclo, o milênio, seguir-se-á aos terríveis juízos da Grande Tribulação. Alguns desses sofrimentos serão produzidos pelos homens, mas outros procederão de levantes naturais da natureza, e outros virão de uma direta intervenção divina. Isso expressa aposição do «teísmo», a ideia que o Criador continua presente conosco, pois faz intervenção e castiga ou galardoa aos homens. Em contraste com isso, o «deísmo» afirma que o criador se divorciou do seu próprio universo, deixando que as leis naturais o governassem em seu lugar, pelo que também não faria intervenção direta e nem estaria interessado em galardoar ou punir aos homens.

3.      Deus protegerá certo número de mártires em potencial, a fim de que sejam testemunhas por toda a terra e desafiem com sucesso ao anticristo. Lembremo-nos do caso de Jó. Deus o protegeu, até onde lhe pareceu melhor. Nenhum dos esquemas de Satanás conseguiu prejudicá-lo de modo contrário à vontade divina. O nono versículo deste capitulo mostra-nos que haverá um imenso número de mártires, embora isso venha a suceder por permissão de Deus. Os mártires receberão privilégios espirituais especiais, conforme se vê em Ap 6:9-11; e a ira de Deus não os atingira. Portanto, na realidade, serão tanto protegidos como altamente privilegiados. Todas as obras de Deus são boas, e eventualmente haveremos de perceber isso. Nesse ínterim, as provações demonstrarão que muito podemos sofrer com elas.

4.      «O desentendimento chega a proporções fantásticas quando alguém se propõe a interpretar literalmente a símbolos alegóricos, e quando, por outro lado, a explicação regular dessas figuras alegóricas é denominada de interpretação alegórica. Com igual justiça, poder-se-ia dizer que o ‘semeador’ do decimo terceiro capitulo de Mateus, e um semeador literal, e que devemos interpretar espiritualmente a sua pessoa, como uma exposição alegórica. Por mais abortivas que sejam quase todas as interpretações de tais figuras alegóricas, assim sucede porque não dão suficiente importância para a chave que lhes é oferecida pelo estilo de expressão poética e profético-simbólico» (Lange, in loc.). Esse autor, ao assim falar, quer dizer que devemos interpretar simbólica ou alegoricamente livros como o Apocalipse, os quais nos transmitem sua mensagem nesse estilo. O fato que muitas interpretações falsas são apresentadas por esse método não e contrário ao fato que a verdadeira interpretação deve, sem dúvida alguma, provir desse método. Deixar de compreender isso é ignorar a tradição inteira da literatura apocalíptica, a qual, até onde as expressões dizem respeito, forma a base deste livro.

5.      Há interpretações alegóricas que provavelmente estão equivocadas, no tocante a este versículo: a. O mar seriam as nações, e a terra seria Israel: b. o mar seria a Europa e a terra seria a Ásia, ao passo que as árvores seriam a Áfri­ca; c. as árvores seriam os poderes elevados e a grama seria as autoridades secundárias. Essas interpretações estão equivocadas porque podem chegar à mensagem correta sem entrarmos em particulares ridículos.

6.      Também não devemos tentar ver aqui a luta entre o paganismo, a heresia ou Roma, por um lado, e os ministros do evangelho e a igreja, por outro lado. Antes, temos aqui um quadro sobre a ira de Deus, que espera atingir a terra inteira, visando especialmente os que se mostram rebeldes contra Deus.

7.      O vento sacode e derruba por terra os figos temporãos, fora da estação certa, produzindo assim uma contradição da natureza (verAp 6:13). Assim também os juízos de Deus, os ventos, têm o poder de produzir muitas formas de catástrofes contra os homens que rejeitam o seu devido destino em Cristo.

8.      «Quem pode resistir?» (Ap 7:17). Aqueles que estão solidamente fixados no solo do evangelho de Cristo são aqueles que serão selados, e, portanto, resistirão aos ventos do juízo divino. Diz o trecho de Jr 49:36,37: «Trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro ângulos do céu, e os espalharei na direção de todos estes ventos. ...farei vir sobre os elamitas o mal o brasume da minha ira, diz o Senhor...» (Isso também pode ser comparado ao trecho de Dn 7:2: «Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o Grande Mar»), «Mas essas tempestades não surgirão, para sacudir uma única folha, enquanto não estiver completa a selagem dos servos de Deus» (Carpenter, in loc.).

7:2         E vi outro anjo subir do lodo do sol nascente, tendo o selo do Deus vivo; e clamou com grande voz aos quatro anjos, a quem fora dado que danificassem a terra e o mar,

«... outro anjo que subia do nascente do sol...» Há uma cena similar a esta, em II Baruque 6:4 - 8:1. Ali há quatro anjos que estão prestes a incendiar a cidade de Jerusalém, com o propósito de impedir que caia na idolatria, devido à influência dos babilônios. Um quinto anjo veio impedi-los em suas intenções, até que objetos sagrados fossem retirados do templo. Então a cidade foi incendiada. Por igual modo, aqui, o quinto anjo impede que quatro outros lancem terrores sobre a terra. É de presumir-se que os juízos das trombetas sejam esses terrores, os quais, tal como no segundo livro de Baruque, finalmente tiveram permissão de ocorrer, mas não sem que primeiro alguns propósitos divinos fossem realizados.

Identificação do quinto anjo, o refreador. 1. Alguns estudiosos pensam que o próprio Cristo está aqui em foco. 2. Mas outros pensam em algum ser angelical literal, guiado por ordem de Cristo. 3. Outros supõem que esse anjo é totalmente simbólico, representando a providência de Deus, que dispõe de muitos meios e métodos de operação.

«...nascente do sol...» O grego é aqui literalmente traduzido, embora seja mais provável que esteja em foco apenas o «oriente». Não sabemos dizer por que razão essa direção específica foi indicada. Talvez a ideia seja que assim como o sol nasce e inaugura um novo dia, renovando as esperanças, assim também, em meio aos mais aterrorizantes juízos, haja alguma esperança na providência de Deus, que faça o sol brilhar sobre os favorecidos do Senhor.

«...grande voz...» Uma expressão favorita do vidente João, expressando uma «mensagem autoritária», que chama a atenção e realiza tudo quanto tenciona fazer. Isso pode ser comparado aos trechos de Ap 5:2,12; 6:10; 7:10; 8:13; 10:3; 12:10; 14,7,8,15,18 e 19:17.

«...tendo o selo do Deus vivo...» Esse anjo tem a tarefa de «selar» aos cento e quarenta e quatro mil, a fim de protegê-los dos horrores desfechados pelo anticristo, os quais são aplicados no terceiro versículo. Não nos é revelado que tipo de «selo» será esse. O trecho de Is 44:5 menciona a «inscrição» do nome de Yahweh sobre as mãos dos fiéis, para identificá-los como pertencentes a ele. (Ver um paralelo disso em Ap 14:1. E talvez este versículo também seja um paralelo). Esse é um dos tipos de selos. II Esdras 6:5 mostra-nos como os fiéis foram selados antes da criação, a fim de assegurar sua bem-aventurança durante os tempos messiânicos. A passagem de Ez 9:1-8 ,encerra cena similar a esta, quando seis anjos são retratados como preparados para destruir os habitantes de Jerusalém, quando então um sétimo anjo fá-los estacar por um momento, a fim de «assinalar as testas» dos justos, a fim de não serem prejudicados. E em Salmos de Salomão 15:8, os justos recebem uma marca sobre a testa, a fim de serem preservados das pragas, da fome, da espada e da pestilência, julgamentos que serão lançados contra os ímpios. No Talmude (Shabbath 55a) os justos são marcados a tinta, ao passo que os ímpios trazem a marca de sangue, impressa sobre eles. O trecho de II Esdras 2:38 é o mais próximo paralelo que existe da presente passagem, onde aparecem «confessores» ou «testemunhas», assinalados de tal modo que permanecem até ao final de grandes provações, sem sofrerem dano.

Esse selo, essa marca na terra, é o equivalente contrário da marca da besta, no que diz respeito aos justos, ao passo que a marca do anticristo identifica os seguidores de uma religião e de um sistema político iníquos. (Ver Ap 13:16 e 14:9 acerca disso).

«...Deus vivo...» Temos aqui um título frequente de Deus, no A.T. e nos escritos judaicos helenistas, salientando o fato que Deus é a única deidade verdadeira, em contraste com os «ídolos mortos» ou «imaginários», que não têm vida, e portanto, não têm poder. O Deus vivo confere vida aos homens, a saber, a sua própria modalidade de vida, de tal modo que os remidos virão a participar da imagem e natureza do Filho (ver Rm 8:29).

Sobre o Deus vivo, no N.T., ver Jo 6:69; At 14:15; Rm 9:26; II Co 3:3; 6:16; I Ts 1:9; 4:10; 6:17; Hb 3:12; 9:14; 10:31; 12:22.

Outras ideias sobre o segundo versículo:

1.      Alguns eruditos pensam que esse «selo» representa o batismo em água. Apesar de ser verdade que o batismo é, por assim dizer, um selo, porquanto nos identifica com a morte e a ressurreição de Cristo, transmitindo-nos os benefícios de ambas—pelo que seria símbolo de tal transmissão, é impossível ver como o batismo poderia estar em pauta aqui. Notemos que essa selagem separa os «mártires em potencial», e não todos os crentes. Portanto, não pode estar em pauta o batismo na água, porquanto o batismo não visa somente esse grupo especial.

2.      Vários intérpretes veem nesse «selo» a certeza especifica de que os mártires serão imortais, não podendo ser prejudicados espiritualmente pelos terrores do anticristo, isentos de qualquer dano provindo da ira de Deus (ver Ap 6:17). Isso significaria que não serão necessariamente preservados do martírio. Por algum tempo serão testemunhas, desafiando ao anticristo. Se forem mortos, isso não lhes trará nenhuma consequência adversa à alma. Mas outros estudiosos pensam estar em foco a preservação física dos mártires, como algo, pelo menos, incluído. Esses resistiriam aos sucessivos esforços dos malignos poderes do anticristo, até que a segunda vinda de Cristo houver de libera-los de sua tarefa.

3.      A bênção preservadora virá do oriente. Será dada por meio do Sol da Justiça, que traz cura em suas asas, segundo se lê em Ml 4:2.

4.      Outros intérpretes veem nesse símbolo o sinal da «cruz», aposta na testa dos mártires. O sinal real e sagrado, no livro de Ezequiel, é a cruz ou letra «T», símbolo da vida. No Testamento de Salomão, um espirito maligno declara que enfrenta a destruição vinda da parte do Messias, e que pode ser derrotado por qualquer um que traga o número do Messias inscrito em sua testa.

5.      As palavras «do nascente do sol», isto é, o oriente, na opinião de alguns, indicaria a Palestina, que fica a oriente da ilha de Patmos. Assim poderia estar em foco o próprio «Cristo», que como homem nasceu na Palestina, sendo ele o anjo que instruiu os outros quatro anjos a agirem antes da hora. Mas essa interpretação parece um tanto fantasiosa.

6.      Em meio às trevas e dos juízos iminentes, a Luz brilha no oriente. Isso simbolizaria a esperança eterna. O trecho de II Tm 2:19menciona duas inscrições possíveis do selo, ou, pelo menos, o que elas significam: «O Senhor conhece os que lhe pertencem»; e: «Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor». Esse é o firme fundamento de Deus. Os antigos atribuíam poderes mágicos às marcas secretas, selos e inscrições. Mas não há qualquer arte mágica no selo de Deus, mas tão-somente esse selo pode realizar a tarefa que lhe é determinada, por causa do poder divino que esta por detrás do mesmo.

7.      Alguns intérpretes forçam o presente texto, comparando-o com outros escritos que mencionam selos, conferindo ao versículo a ideia da predestinação dos eleitos. Trata-se de uma doutrina bíblica, embora ela nunca se verifique às expensas do livre-arbítrio humano. Ambas essas ideias fazem parte das Escrituras. O presente texto não parece estar relacionado ao tema da eleição.

7:3         dizendo: Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as Arvores, até que selemos na sua fronte os servos do nosso Deus.

Este versículo reitera, essencialmente, o que dizem o primeiro e o segundo versículos deste capítulo.

«...Não danifiqueis...» (Ver as notas expositivas sobre essas áreas distintivas no primeiro versículo deste capítulo). É provável que o autor sagrado tencionasse fazer uma descrição completa dos elementos terrestres, as áreas de terras, as áreas marítimas e as áreas de vegetação, e não de áreas geográficas específicas como a Europa, a Ásia e a África, conforme alguns têm proposto. Os juízos que sobrevirão (quando do soar das trombetas) afetarão a terra inteira, bem como todas as áreas ocupadas pelo homem e pelos demais seres da terra. Os «quatro ventos» trarão os desastres necessários.

«...até selarmos...» Essa questão é amplamente discutida nas notas expositivas sobre o versículo anterior.

«...suas frontes...» Isso também é discutido no segundo versículo. O «nome de Deus», a «cruz» ou outro sinal qualquer, como o «número do Messias», etc., será escrito na testa dos referidos santos e em sua «mão direita», se este versículo é paralelo aos trechos de Ap 13:16 e 14:9.

«...servos...» Tradução mais exata seria «escravos». Não há motivo para esse termo ser aqui suavizado. Os discípulos de Deus são escravos, por estarem totalmente sujeitos à sua vontade, não tendo vida própria, exceto aquilo que os ajuda a cumprirem o alvo de sua existência.

Nos tempos antigos, os escravos eram «marcados a fogo», isto é, recebiam o «selo» de seus respectivos senhores. Os escravos que eram guardiães dos templos pagãos, ou mesmo os não-escravos que se devotavam especialmente a algum deus ou culto, com frequência eram marcados com o nome dessa divindade, ou com algum símbolo místico de seu culto. Ptolomeu IV Filopater ordenou que os judeus alexandrinos fossem marcados com uma folha de hera, o sinal de Dionísio, conforme se vê em III Macabeus 2:29. Filo, em de Monarch,repreende os judeus que se permitiram marcar dessa maneira, sem importar quanto lhes custou resistir a tal marca. É a práticas como essas que o vidente João alude; e os leitores originais do livro teriam compreendido perfeitamente o que está envolvido. Existirão algumas pessoas, como os mártires em potencial e as «testemunhas» do período da Grande Tribulação que obterão dedicação absoluta à causa de Cristo, nada havendo que possa separá-los do amor de Deus, que cumprirá neles todos os propósitos divinos relativos àquela época em particular.

Significados desse selo. Isso pode ser melhor percebido através dos pontos seguintes:
1. Proteção, do dano físico ou do dano espiritual, incluindo a ira de Deus (ver Ap 6:17).
2. Segurança, em meio ao período da Grande Tribulação, mas também na vida eterna.
3. Proteção contra os poderes demoníacos, que ajudarão ao anticristo em suas tentativas de sujeitar todos os homens a si mesmo, apagando da terra a memória do Deus vivo. O que tiver de suceder, durante o julgamento das trombetas, deixará isso claro. Ver também o caráter satânico do poder do anticristo, no décimo terceiro capítulo deste livro.
4. A passagem de Ap 13:15 pode indicar que essa proteção será espiritual, e não física; e alguns intérpretes defendem exatamente esse ponto de vista. Todos esses «mártires em potencial» serão, de fato, martirizados. Alguns conseguirão sobreviver por mais tempo do que outros; mas todos sucumbirão (ou, pelo menos, praticamente todos). Não obstante, estarão todos seguros em Cristo. Isso é o que o «selo» lhes garante.
5. Essa selagem preservará os mártires da apostasia espiritual, o que sempre é uma grave ameaça, em tempos de profunda tensão e pressão religiosa.

Outras ideias sobre o terceiro versículo.

1.      Os homens podem olvidar-se de Deus, ou abandonar a confiança nele, em meio às tempestades de perseguição. Uma das lições espirituais deste versículo é que isso não é necessário, pois quando a fé é profunda, isso nos assegura a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio às piores tempestades. A essência da fé verdadeira é que ela é tão firme que pode manter sua firmeza quando todas as nossas circunstâncias externas contribuem para destruir essa certeza. A fé consiste da outorga da própria alma aos cuidados de Cristo, em que todo valor e preciosidade estão concentrados no outro mundo. A fé é um dos aspectos do fruto do Espirito, Gl 5:22, ou seja, um produto do desenvolvimento espiritual. O indivíduo cujo desenvolvimento espiritual é superficial, sucumbirá em tempos difíceis, porque a sua fé também será, necessariamente, superficial.

2.      Não será fácil alguém ousar crer, quando o anticristo passar a promover a pior de todas as perseguições religiosas da história, algo que não terá sido igualado nem mesmo nos tempos de Nero e de Domiciano. Nos e nossos filhos viveremos naqueles dias, o que é pensamento extremamente solene!

3.      O selo aposto na testa dos eleitos de Deus pode ser comparado aos trechos de Êx 28:36-38 e Ez 9:4.

4.      Nem um único cristão pereceu na destruição de Jerusalém, no ano 70 D.C. Por conseguinte, nisso temos uma lição no sentido que Deus pode preservar aos homens em meio às mais conturbadas situações.

5.      No A.T., os «servos» de Deus são seus escravos. Os justos são, automaticamente, «escravos de Deus», porquanto toda vida e existência tem origem e alvo na pessoa de Deus. O simbolismo inteiro do décimo quarto capitulo deste livro é extraído do A.T., tal como se dá com grande parte do Apocalipse. E isso é mesclado, aqui e ali, com pontos extraídos da literatura judaica helenista.

6.      A «selagem» é garantida pelo poder espiritual, pelo poder do Espírito de Deus. Ele nos provê proteção e salva do poder do hades e da morte. Entendemos que Deus habita conosco mediante o seu Espírito Santo. Portanto, todas as suas promessas, que foram feitas por estarmos associados como filhos de Deus com o Filho, deverão cumprir-se devidamente.

7:4         E ouvi o número dos que foram assinalados com o selo, cento e quarenta o quatro mil de todas as tribos dos filhos do Israel:

Chegamos agora à dificílima questão da identificação dos cento e quarenta e quatro mil. Há três posições extremadas, que mencionaremos em primeiro lugar, que são as de menor probabilidade de estarem com a razão:

1.      A mais ridícula de todas as interpretações, que tem surgido em várias eras da história eclesiástica, é aquela que faz alguma «seita», «grupo» ou «denominação» de Cristãos ser aquela companhia. Dessa forma os homens se têm glorificado estupidamente a si mesmos.

2.      É também extremada a posição daqueles que pensam que os cento e quarenta e quatro mil representam exclusivamente a nação de Israel. Isso ignora totalmente a base histórica deste livro, pois, sem dúvida alguma, o vidente João visualizava os «mártires em potencial» como membros da igreja cristã, como o «Israel espiritual».

3.      Por igual modo, é extremada a posição dos que pensam estar aqui em pauta somente a igreja, o Israel espiritual. Há muitas predições bíblicas que indicam a futura restauração de Israel, como nação, em que ela se converterá totalmente a Cristo (ver Rm11:26). Os místicos contemporâ­neos predizem a conversão da nação de Israel nos fins do nosso século XXI, quando o sinal da cruz aparecer no firmamento (que seria o sinal do Filho do homem), o que dará início à intervenção divina que livrará a nação israelita de adversários esmagadoramente superiores em número, que a estarão ameaçando de total extinção. É razoável supormos que após esse acontecimento, Israel se torne testemunha da verdade cristã, subsequente à Terceira Guerra Mundial mas antes da batalha do Armagedom, a qual fará parte ainda de uma outra guerra (subsequente àquela que levará Israel à conversão). Supõe-se que primeiramente haverá a Terceira Guerra Mundial e depois, Armagedom (4a Guerra mundial), na primeira quarta parte do século XXI. Então se seguirá o milênio. Em algum ponto desses acontecimentos uma boa parte da nação de Israel será selada e virá a pertencer ao número dos cento e quarenta e quatro mil, sendo eles testemunhas de Cristo acerca daquele período de agonia.

4.      Conjecturamos, pois, que o número «144.000» é simbólico, e não literal, envolvendo alguns elementos da igreja gentílica e outros da convertida nação de Israel, que serão instrumentos especiais da graça de Deus durante o período de Grande Tribulação, como testemunhas, embora não venham a ser necessariamente preservados do martírio, conforme parece indicar o trecho de Ap 13:15, e onde se tem a impressão que nenhum deles escapará ao martírio.

5.      O nono versículo deste capítulo pode aludir a um grupo de mártires à parte dos cento e quarenta e quatro mil. Ou então poderia estar ali em foco o mesmo grupo de pessoas, embora sob uma descrição diferente. Todavia, o fato que se trata de uma multidão «incontável», mostra que estão em pauta mais do que os cento e quarenta e quatro mil, embora certamente estejam inclusos naquele número. Os mártires serão mais do que o número específico de cento e quarenta e quatro mil, sendo que esse número determinado tem algum propósito especial divino para a época da Grande Tribulação. Ou então os cento e quarenta e quatro mil são um número que «simboliza» a companhia inteira dos mártires. (Ver o ponto «oitavo», mais abaixo).

6.      Rejeitamos aquela interpretação que faz dos cento e quarenta e quatro mil algum «grupo seleto» de crentes, extraídos dentre todas as eras da história da igreja. Pois pertencem aos últimos dias tão-somente.

7.      Historicamente falando, o vidente João deve ter tido em mente a igreja cristã. Isso poderia ser entendido de dois modos diversos: 1. Seriam judeus cristãos, que haveriam de sofrer martírio durante o tempo dos imperadores romanos. 2. Ou seria o «Israel espiritual», sem qualquer tentativa de dividir a igreja em judeus e gentios. A última dessas posições é a mais provável e correta. Portanto, supomos que se o vidente João fosse interrogado acerca do que ele quis dizer, responderia tratar-se do «Israel espiritual». Todavia, devemos encarar o texto também de acordo com seu aspecto profético. Desse modo, devemos incluir a nação literal de Israel, em conjunção com a igreja cristã, como testemunha em favor de Cristo, naqueles horrendos tempos do fim que logo nos alcançarão.

8.      O vidente João pode ter tido em mente o número de mártires que será preenchido antes do segundo advento de Cristo. (Ver Ap6:11 sobre esse conceito). Os cento e quarenta e quatro mil, pois, representariam um número místico, dotado de algum sentido simbólico, ao referir-se sobre a companhia dos mártires do fim, embora, em seu número real, em muito excedessem aos cento e quarenta quatro mil. Parece que tal cifra indica a multiplicação dos «doze» por «doze», e então por «mil», dando a ideia de «número completo». Acerca do número «doze» Lange, em sua introdução, na página 15, declara: «Doze (3 X 4), número do mundo espiritual; portanto, número do ‘alicerce’, da ‘medição’ e da ‘consumação’ do reino de Deus. Número da plenitude das manifestações carismáticas, bem como número da restauração terminada. Número real e celestial de algo terminado». Esse raciocínio se adapta bem ao conceito do número «necessário» de mártires, conforme se vê em Ap 6:11.

Há ainda outros pontos de vista sobre o simbolismo desse número, a saber:

1.      De acordo com alguns, esse número se derivaria do conceito de «setenta», que simbolizaria a totalidade de Israel (ver Gn 46:27); ou se derivaria da igreja, representada em seus líderes (ver o décimo capítulo do evangelho de Lucas; e comparar com as setenta nações do décimo capítulo do livro de Gênesis). A «forma mais completa» poderia ser «setenta e dois», mas a forma mais completa desse simbolismo seria representada por 72 X 1000 X 2 = 144.000.

2.      O total de «doze mil», proveniente de cada tribo, simbolizaria igual participação nas graças e na proteção divinas por parte de cada tribo.

3.      O doze resulta da multiplicação de três por quatro, ou seja, a ideia divina multiplicada pela ideia da extensão mundial (porquanto quatro é o número simbólico da terra, segundo se vê nas notas expositivas acerca do primeiro versículo deste capítulo). Doze multiplicado por doze, portanto, implicaria em fixidez e número completo. O número mil subentende um mundo perfeitamente permeado pelo ser divino, conforme se verá no «milênio» (ver o vigésimo capítulo deste livro). Pois mil também representa este mundo («dez», ver Ap 13:1), já que é o número «dez» elevado à sua «terceira» potência (pela força divina).

4.      Alguns estudiosos abandonam toda a ideia de um simbolismo particular, e aludem aos cento e quarenta e quatro mil apenas como um «grande número representativo»; e o nono versículo deste capítulo talvez represente exatamente isso.

5.      O número «doze» representaria testemunho e autoridade: doze patriarcas, doze apóstolos. Portanto, a multiplicação de doze por doze representaria o testemunho especial daqueles futuros e privilegiados mártires.

6.      Há também os intérpretes que supõem que o número «doze» representa a igreja inteira, por meio dos seus principais representantes, os apóstolos.

Esses cento e quarenta e quatro mil serão as mesmas pessoas que aquelas que figuram no décimo quarto capítulo do Apocalipse? Cremos que sim, por motivos ali expostos (ver sobre Ap 14:1), embora não possamos afirmá-lo de maneira dogmática.

Outras ideias sobre o quarto versículo:

Quanto ao «Israel espiritual», ver Tg 1:1; I Pe 1:1; Rm 9:6 e Gl 6:16.

1.      O vidente João já tinha mostrado que ele considerava a igreja como o «Israel espiritual». (Ver Ap 2:9; 3:9,12 e 21:9 e ss.).

2.      O Senhor conhece aqueles que lhe pertencem. Todos eles estão numerados, e serão selados. A esses serão dadas missões especiais, bem como o poder espiritual para cumprirem as mesmas.

7:5         da tribo de Judá havia doze mil assinalados; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gado, doze mil;

Comentários gerais sobre a natureza e as peculiaridades dessa lista das tribos da nação de Israel:

É possível que a ordem de menção das tribos não se revista de qualquer significação especial, com a possível única exceção do lato que a tribo de Judá é citada em primeiro lugar, provavelmente devido ao fato que dessa tribo é que proveio o Senhor Jesus, quanto à carne. (Ver Ap 5:5 e Hb 7:14). O A.T. encerra vinte listas diferentes das tribos, e nenhuma ordem específica é ali seguida. (Quanto às várias listas de tribos, no A.T., ver Gn 35:22 e ss.;46:8 e ss., 49; Éx 1:1 e ss.; Nm 1:2; 13:4 e ss.; 26:34; Dt 27:11 e ss.; 33:6 e ss.; Js 13 - 22; Jz 5; I Cr 2 - 8; 12:24 e ss.; 27:16 e ss. e Ez 48). Charles (in loc.) supõe que a desordem da lista que aqui temos se deveu a uma «deslocação» de versículos. Ele propôs que os versículos sétimo e oitavo deste capítulo encabeçassem a lista, e que então deveriam ser postos os versículos cinco e seis. Se assim realmente fosse, então viriam primeiramente os filhos da primeira esposa de Jacó, Lia — Judá, Rúben, Simeão, Levi, Issacar e Zebulom; e então viriam os filhos de Raquel, a segunda esposa—José e Benjamim. Em seguida viriam os filhos da criada de Lia—Gade e Asser. E, finalmente, ao invés dos filhos da criada de Raquel—Naftali e Dã, teríamos aqui, por razões conhecidas somente pelo autor sagrado, Naftali e Manassés. Nesse caso, a ordem de apresentação é a seguinte: a. filhos de Lia; b. filhos de Raquel; c. filhos da criada de Lia; d. filhos da criada de Raquel. Isso, naturalmente, restauraria a ordem de apre­sentação das tribos, bem como o propósito aparente dessa lista. Todavia, tal remanejamento do trecho não encontra eco nem mesmo nos manuscritos mais antigos que se têm descoberto, não passando de uma conjectura, pois supõe algum erro primitivo no arranjo da lista. Certos estudiosos veem alguma finalidade nesse arranjo sem sentido, a saber, que não existe favor especial e nem ordem na graça que Deus conferirá aos mártires e testemunhas. A graça divina seria conferida a todos, indistintamente, sem respeitar qualquer condição ou ordem.

2.      A tribo de Dã foi excluída dessa lista. Irineu, escrevendo perto do fim do segundo século de nossa era, informa-nos sobre uma antiga tradição que supunha que o anticristo provirá dessa tribo (ver Contra Heresias, V.30.2). O Testamento de Daniel 5.6 (uma obra judaica pseudepígrafe) parece ensinar a mesma coisa. E já que esta última obra fora escrita antes do Apocalipse, é possível que o vidente João tivesse consciência dessa tradição. Além disso, Dã esteve associado com o maior de todos os pecados, o da idolatria, um dos sinais característicos do anticristo (ver Jz 18:30; Gênesis Rabbah 43:2; Targum de Jeremias 1, sobre Êx 17:8). E essa poderia seruma outra das razões por que a tribo de Dã não é aqui mencionada, como progenitora de um grupo selecionado de mártires.

3.      Efraim é excluído da lista e substituído por José. Supomos que o motivo disso é que a lista visa incluir os filhos de Raquel, talvez como esposa favorita de Jacó. Além disso, em uma lista assim, o nome de José é mais ilustre que o de Efraim. Outros estudiosos afirmam que Efraim deixara de existir como tribo separada, antes da produção do livro de Apocalipse.

4.      A eliminação do nome de Dã é compreensível, segundo o que é dito sob o segundo ponto acima; mas é difícil perceber-se por queManassés foi o escolhido para substituí-lo. Manassés foi o filho mais velho de José, nascido no Egito, cuja mãe foi Asenate, filha dePotífera. Talvez por ter sido o primogênito de José, seu nome, acima de qualquer outro, parece ter sido o mais apropriado para substituir a Dã. Alguns eruditos supõem que originalmente Dã se achava no texto sagrado, mas que, por inadvertência, foi substituído pelo nome similar «Man» (forma abreviada de Manassés); mas isso é altamente improvável, não tendo apoio nos manuscritos existentes do livro de Apocalipse.

5.      Seja como for, o número «doze» é retido aqui, e isso é um número representativo, indicando número «completo» e «representação» de um grupo, através de seus progenitores ou líderes. (Ver as notas expositivas, no quarto versículo deste capítulo, sobre a identificação dos «cento e quarenta e quatro mil»).

6.      Nessa substituição de uma tribo por outra, alguns eruditos veem a ilustração do fato espiritual que, devido à apostasia e o pecado, alguém antes favorecido pode vir a ser rejeitado e substituído. Assim é que o «Israel espiritual» substituiu ao Israel literal na dispensação da igreja. Portanto, aquele que pensa estar de pé cuide para que não caia. E que ninguém diga: «Tenho a Abraão por pai». Deus é capaz de suscitar filhos a Abraão destas pedra. Não é judeu quem o é externamente, na carne, mas aquele que o é internamente, no espírito (ver Rm 2:28,29).

7.      Notemos que cada tribo é aqui representada por doze mil testemunhas e mártires escolhidos. Não há favoritismo. A graça de Deus faz provisão igual para todos.

Notas sobre as tribos individuais:

Judá: Essa tribo é mencionada em primeiro lugar porque Cristo, o Messias, era dessa tribo. Judá foi o quarto filho de Jacó, por Lia (ver Gn 29:35, bem como o primeiro ponto, acima). Seu nome significa «louvor de Deus»; e é através do seu Filho maior que esse louvor se torna possível entre todas as nações. (Ver Gn 29:35). O louvor é apropriado para todos os verdadeiros discípulos de Cristo, especialmente para o grupo selecionado de mártires, que são representados por esse nome.

Rúben: Foi o primogênito de Jacó, por Lia. Mas, por causa de seu pecado, perdeu direito à primogenitura. Seu nome significa: «Eis o filho!» (ver Gn 29:32). Nisso se pode perceber certa lição espiritual, porque é ao Filho que nos convém contemplar. A instabilidade deRúbem encontrou cura no Filho maior de Israel, Jesus Cristo. Deus não repele aos instáveis, mas antes, oferece-lhes o remédio da transformação segundo a imagem de Cristo (ver Rm 8:29), mediante o poder espiritual (ver II Co 3:18 e Gl 5:22,23).

Gade: Seu nome significa «tropa» (ver Gn 30:11). Espiritualmente, talvez denote o número incomensurável dos santos, especialmente, no presente contexto, no caso do grupo de mártires selecionados. Esses são aqueles que Deus reservou para si mesmo, com finalidades precípuas, visando o bem-estar de toda a humanidade. Foi ele o sétimo filho de Jacó, através da criada de Lia, Zilpa.

7:6         da tribo do Aser, doze mil; da tribo do Naftali, doze mil; da tribo do Manassés, doze mil;

Asser: Seu nome significa «bendito» (ver Gn 30:13). Espiritualmente significa as bênçãos do Messias sobre todos os discípulos, mas, sobretudo, sobre os mártires e testemunhas do período de Grande Tribulação. Foi o oitavo filho de Jacó, por meio de Zilpa, criada deLia.

Naftali: Seu nome significa «lutas» (ver Gn 30:8). Espiritualmente, pode designar o conflito dos santos, mediante o que serão capazes de ser mais do que vencedores, e isso é especialmente veraz no que diz respeito às tremendas perseguições religiosas promovidas pelo anticristo. Naftali foi o quinto filho de Jacó, nascido de Bila, criada de Raquel.

Manassés: Foi o filho mais velho de José, nascido no Egito e de mãe egípcia, Asenate, filha de Potífera, sacerdote de On (ver Gn 41:51). Substituiu a Dã na lista, e o possível motivo disso é comentado nas notas sobre o quinto versículo deste capítulo, sob os pontos dois e quatro. Manassés significa «esquecimento» (ver Gn 41:51). Espiritualmente falando, isso talvez queira ensinar-nos a olvidar o que fica para trás, buscando novas vitórias em Cristo. Além disso, somos instruídos a esquecer as cebolas e os alhos do Egito, buscando exclusivamente o bem-estar que há em Cristo. Os mártires do período da Grande Tribulação terão de fazer isso se quiserem conquistar em tempos tão adversos. (Quanto a comentários gerais sobre essa lista, com a menção de peculiaridades, ver as notas expositivas sobre o quinto versículo deste capítulo).

7:7         da tribo de Simeão, doze mil; da tribo do Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil;

Simeão—Foi ele o segundo filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 29:33). Seu nome significa «audição». Espiritualmente, isso pode significar que devemos «ouvir» a fim de obedecer, e também que as ovelhas de Cristo ouvirão a sua voz e o seguirão, até mesmo sob as mais difíceis circunstâncias, como sucederá durante a Grande Tribulação, em que o anticristo martirizará a muitíssimos seguidores de Cristo.

Levi: Foi ele o terceiro filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 29:34). Seu nome significa «reunido», e, espiritualmente falando, isso pode indicar como o amor de Cristo nos confere união no bem-estar, de tal modo que nada é capaz de separar-nos do amor de Deus em Cristo. Isso será algo necessário quando o anticristo perpetrar suas violências ímpias e lançar o caos no seio da igreja, durante o período da tribulação. Nada pode separar-nos da graça de Deus, que opera por meio do amor (ver Rm 8:32 e ss.). A tribo de Levi era a tribo sacerdotal. Deus fez de nós reino e sacerdócio (ver Ap 1:6).

Issacar: Foi o quinto filho de Jacó, por meio de Lia (ver Gn 30:17,18). Seu nome significa «salário» ou «recompensa». Talvez indique, espiritualmente falando, os benefícios e galardões que Deus confere aos seus servos, especialmente para os que se mostram fiéis em tempos difíceis.

7:8         da tribo do Zebulom, doze mil; da tribo do José, doze mil; da tribo de Benjamin doze mil assinalados.

Zebulom: Foi o sexto filho de Jacó, por meio de Lia. Seu nome significa «habitação» (ver Gn 30:20). Lia tinha a esperança que em face dela ter dado seis filhos a Jacó, que assim ela obteria o seu favor, e que ele continuaria a habitar com ela, favorecendo-a acima de Raquel. Cristo habita conosco e nos favorece, por meio do Espírito Santo, ao ponto de fazer de nós a própria habitação ou templo de Deus (ver Ef 2:21,22). Essa habitação nos transforma na própria imagem de Cristo (ver Rm 8:29 e II Co 3:18), de tal modo que compartilhemos de sua própria natureza e também da plenitude de Deus (ver Ef 3:19) vindo a participar da própria divindade (ver II Pe 1:4). E é desse modo que Deus vem habitar supremamente conosco, de modo a favorecer-nos. O Senhor se postará ao lado dos mártires, no período da Grande Tribulação, de tal modo que nenhum dano real e duradouro lhes poderá sobrevir.

José: José foi o décimo primeiro filho de Jacó, por meio de Raquel, sendo o primeiro filho desta (ver Gn 30:24 e 35:24). José foi o filho favorito e mais favorecido de Israel. Foi mimado por Jacó e Raquel; mas, quando foi vendido à servidão, por seus próprios irmãos mais velhos, conseguiu vencer em meio à adversidade, e Deus se postou a seu lado, fazendo redundar em bem o que pareceria ser para mal. Isso ele fará novamente no caso dos mártires do período da Grande Tribulação. O nome José significa «adição» (ver Gn 30:24). Seu nascimento retirou o opróbrio de Raquel, por não ter desistido de sua confiança de que Deus ainda lhe «adicionaria» outro filho, confirmando essa bênção. Portanto, as bênçãos de Deus são adicionadas e multiplicadas em nosso favor, a despeito de todo o opróbrio e de todas as adversidades.

Benjamin: Foi o filho mais novo de Jacó, nascido de Raquel, que faleceu ao dá-lo à luz. Após o desaparecimento de José, Benjamim obteve o favor especial de Jacó. Seu nome significa «filho da mão direita» (ver Gn 35:18). Isso simboliza a importância que Jacó atribuiu ao seu nascimento, pois assim ele obtivera um filho especial. Mas Raquel, quando já falecia, deu-lhe o nome de Benoni, que significa «filho de tristeza». O Senhor Jesus foi pintado segundo o significado de ambos esses nomes, porquanto ele é o Homem de Tristezas, mas também é o Filho especial de Deus, o Filho de seu Poder. Em Cristo, através de ambos esses aspectos, os mártires e testemunhas da Grande Tribulação aprenderão lições espirituais necessá­rias. Passarão por grandes tristezas, à semelhança de Cristo, mas triunfarão em Cristo, não obstante todos os sofrimentos.


Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo testamento,2010,+ ww.ebareiabranca.com   V.1-8
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As Sete Trombetas

O fato de a palavra anjo ocorrer mais de 70 vezes no Apocalipse prova a preeminência do ministério angélico no desenrolar dos propósitos finais de Deus para o mundo. Seus anjos são os executantes de suas multíplices operações. Nós, na presente era da Igreja, não dependemos dos anjos (uma vez que o Espírito Santo é o administrador dos assuntos da Igreja e age como executivo da Divindade, o verdadeiro Vigário de Cristo), mas depois do arrebatamento da Igreja novamente os anjos fazem-se conspícuos na execução dos éditos divinos. “As coisas que desejam contemplar” serão totalmente compre­endidas por eles ao executarem a missão que lhes foi confiada pelo céu entre os homens. Quanto mais lemos o Apocalipse, mais nos impressio­namos e nos espantamos com a obediência, dignidade e autoridade desses seres angelicais mencionados mais no Apocalipse que em qualquer outro livro da Bíblia.

No grego, “anjo” significa mensageiro e usa-se tanto para os arautos humanos como para os celestes. As sete estrelas (1:20) são usadas para simbolizar os anjos das sete igrejas, e estes anjos descrevem não a natureza mas o ofício dos líderes espirituais das igrejas, responsáveis por manter a luz do glorioso Evangelho durante a noite escura da história da Igreja.

O contexto da palavra “anjo” determina sua aplicação a seres humanos ou celestes. Veja Lucas 7:24; 9:52; 2 Coríntios 12:7; Tiago 2:25. Nestas passagens a palavra “mensageiro”—a mesma que o original grego registra para “anjo”—é usada com respeito aos que são enviados em missões de várias espécies. Quando se usa o termo especificamente com relação a seres celestiais, também implica a grande característica do serviço (Salmo 103:20, 21; Hebreus 1:13, 14). Há outras referências nas quais a palavra “anjos” contém a ideia de “representações” ou “guardiães”, como na afirmativa de nosso Senhor a respeito dos pequeninos terem seus anjos no céu que velam por eles. “Seu anjo” em Atos 12:15 e Apocalipse 1:1 era um ser celestial proeminente na hierarquia do céu, representando, em seu ministério, o Senhor dos anjos.

Nesta era do Evangelho os anjos são espíritos ministradores, enviados a fim de assistir os que hão de herdar a salvação (Hebreus 1:13, 14). No Apocalipse, particularmente na maior parte do livro que lida com a preparação e execução da autoridade judicial de Cristo, quase toda frase tem seu anjo ou anjos, como nos mostra este breve resumo:

Um anjo é o intermediário entre Cristo e João na entrega do livro do Apocalipse (1:1-4).
Os anjos são os representantes morais das sete igrejas (1:20; capítulos 2 e 3).
Um anjo desafia o universo a apresentar alguém que tenha compe­tência para cumprir os justos conselhos de Deus relacionados com o mundo (5:2).
Anjos, em multidões incontáveis, adoram e dão louvor a Cristo como o Cordeiro que foi morto (5:11, 12).
Aos anjos é dado poder para controlar os elementos naturais (7:1).
Anjos têm autoridade para selar os verdadeiros servos de Deus (7:2, 3).
Anjos são tocadores de trombetas; cada uma das sete trombetas tem seu próprio anjo (capítulo 8).
Os anjos são identificados com as sete taças da ira divina (capítulo 16).
Os anjos são aliados de Deus na guerra celestial contra as forças infernais (capítulo 12).
Um anjo proclama o Evangelho eterno (14:16).
Um anjo anuncia as horríveis novas da queda de Babilônia (14:8).
Um anjo troveja o terrível destino dos adoradores da besta (14:9).
Um anjo sai do templo (14:15), e outro, do altar (14:18).
Um anjo é o guardião das águas—símbolo dos povos da terra, controlados pelo anjo sob a mão governadora de Deus (17:15), e que concorda com o julgamento divino.
O termo “outro anjo” é usado três vezes no Apocalipse (8:3; 10:1; 18:1) e merece atenção especial em nosso tratamento destas referên­cias.

Há dois grupos distintos de sete anjos a quem João chama de sete anjos; no texto original, dá-se ênfase ao artigo, o que implica sua posição elevada e de honra perante e trono de Deus. Há os sete anjos associados com os juízos da trombeta (capítulos 8 a 14) e os sete anjos relacionados com a ira ou últimas pragas divinas (15:1; 16:1). Uma vez que não se dá aos anjos das pragas o artigo definido, provavelmente não sejam da mesma ordem que os anjos das trombetas e que têm a honra de estar na presença de Deus (8:2). Dois outros grupos de anjos enumerados são: quatro anjos (7:1) e doze anjos (21:12).

Os Sete Anjos das Trombetas

Embora seja verdade que uma hoste incontável de anjos serve o trono de Deus (“Milhares de milhares o serviam, e miríades e miríades assistiam diante dele”—Daniel 7:10), parece que os sete anjos das trombetas são anjos da presença, ou “o anjo da sua presença” (Isaías 63:9) e portanto, de uma ordem exaltada. Gabriel descreve sua posição como estando na presença de Deus, em Lucas 1:19. Será que todos estes sete anjos são arcanjos?

O número sete significa que estes seres angelicais de hierarquia elevada representam o poder completo de Deus nos assuntos judiciais, e que são os executantes de sua vontade no que diz respeito ao juízo. Apoiando seus pronunciamentos e ações está a autoridade do trono perante cujo ocupante divino se encontram. Paulo, em Efésios 6:12, indica que há distinções entre as hostes angelicais. Embora haja ordens várias e diferentes hierarquias distribuídas entre os anjos de Deus, nenhum deles jamais lhe usurpa a posição, mas conjuntamente oferecem a Deus obediência e atividade em serviço inquestionáveis.

As Sete Trombetas

As sete trombetas, de chifres de carneiro, tocadas pelos sete sacerdotes em sete dias consecutivos anunciaram e acarretaram a queda de Jericó (Josué 6). Os sete sacerdotes tocaram as trombetas em conjunto, os sete anjos, porém, não as tocam em uníssono, mas uma a uma. Assim, parece que cada anjo equivale a sete sacerdotes e portanto “maior em poder e força”, como diz Pedro.

As trombetas serviam para muitos propósitos nos dias do Antigo Testamento, e eram usadas para viagens, alarmes, e preparação do exército divino contra seus inimigos (Números 10:1-9; Jeremias 1:14- 18; 4:19; Joel 2:1; Mateus 24:31). Afirma Walter Scott: “As setetrombetas significam um anúncio completo e total. Não se deve confundir as trombetas místicas do Apocalipse com as trombetas literais dos tempos do Antigo Testamento.” Uma vez que os homens ouçam o som destas trombetas, não haverá confusão quanto ao seu significado e mensagem horríveis. Não há algo majestoso e no entanto solene a respeito destes tocadores de trombetas angelicais enquanto se preparam para tocar? Lá estão eles em fila, trombeta na mão, esperando para proclamar seus respectivos juízos (8:6).

Do silêncio impressionante do sétimo selo, emergem as sete trombe­tas com sua missão de caráter judicial, e as séries de sete aumentam em severidade. Os sete selos, as sete trombetas e as sete taças, não são juízos idênticos executados ao mesmo tempo. Apresentam três séries diferentes de juízos experimentados durante a grande Tribulação, ou a septuagésima semana de Daniel. Os juízos dos selos, trombetas e taças não são contemporâneos, mas sucessivos.

As primeiras quatro trombetas descrevem a condição civil e eclesiás­tica do império romano do Ocidente renovado; a quinta trombeta do primeiro ai relaciona-se com o Judaísmo apóstata; a sexta trombeta ou segundo ai associa-se com os habitantes culpados e sem Deus do mundo romano; a sétima trombeta ou terceiro ai sugere os efeitos universais dos juízos de Deus.

Antes de examinarmos com mais detalhes os anúncios dos sete anjos, devemos identificar o anjo separado—“outro anjo”—que apare­ce em sua companhia (8:3-5). É ele simplesmente outro anjo ou é alguém especial? Sempre que se usa a frase outro anjo, no Apocalipse,usa-se a palavra- grega allos—outro da mesma espécie. Muitos expositores acreditam que a expressão “anjo do Senhor”, sempre que ocorre, implica a presença da Divindade em forma angélica e, às vezes, até mesmo em forma humana (Gênesis 18:1-14, etc.) Referem-se a estas como aparições teofânicas de Cristo antes de sua encarnação. Quanto ao seu ser celestial e espiritual, Cristo é como os anjos, mas também é infinitamente melhor do que eles por ser o Filho de Deus e Senhor dos anjos, que, a fim de salvar a humanidade perdida, foi feito um pouco menor do que os anjos.

Alguns expositores do Apocalipse afirmam que o anjo especial que serve no altar é apenas um dentre a hoste angelical, e não o Senhor Jesus Cristo. Sustentam ser ele o Cordeiro que abre o selo e dirige os processos do juízo, e que sua missão na Tribulação não é interceder, mas condenar. Explica-se ainda que o incenso mencionado é dado a este preeminente anjo, e que não haveria necessidade de ninguém entregar a Cristo o incensário.

Mas estamos convencidos de que anjo algum, qualquer que seja sua posição, tenha qualificações para estar na presença do altar celeste perante Deus em benefício do homem, nem recebe o exercício de funções sacerdotais.

Como há somente um mediador entre Deus e os homens—o Homem Cristo Jesus que se deu em resgate de todos—estamos convencidos de que este anjo-sacerdote, cuja ação nos altares tem caráter mediatório, é Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote.

A glória do anjo de Jeová que desce do céu é vista de três maneiras:

Como o anjo-sacerdote, por amor de seu remanescente sofredor (capítulo 8).
Como o anjo-redentor, para tomar posse de sua herança (capítulo 10).
Como anjo-vingador de seu povo, tomando vingança da Babilônia (capítulo 18).

Prova-se que a descrição do anjo-redentor não é de um anjo comum, pelo fato de referir-se ele aos dois profetas martirizados como “minhas duas testemunhas” (11:13), o que não poderia ser escrito de qualquer anjo. Além disso, o arco-íris jamais é usado na Bíblia a não ser com referência a Deus. Portanto, o anjo aqui deve ser o Filho de Deus (10:1). A descrição “como o rugir de um leão” fala dele como “o Leão da tribo de Judá” (5:5).

Este anjo-sacerdote certamente deve ser o Mediador, Jesus Cristo, pois ninguém mais pode acrescentar eficácia às orações dos santos. Na cena celestial que João recebeu e registrou, feições discerníveis aparecem sob imagens da língua judaica. Por exemplo, apenas sacerdotes serviram tanto nos altares de cobre como de ouro. A linguagem que João usa lembra o altar da oferta queimada, no pátio do tabernáculo.

As orações dos santos inspiradas pelo Espírito jamais são esqueci­das. Se essas orações não forem respondidas durante a vida dos que as oferecem, frequentemente o são depois de os intercessores terem ido para o céu. O Senhor jamais se esquece de nenhum dos seus. Eles são sempre lembrados em sua presença.

Incenso representa a vida e as obras do Salvador. Seu cheiro suave é o incenso, e sua morte e ressurreição eficaz dão aceitação divina às nossas orações inspiradas pelo Espírito. O altar é o local da propiciação substituinte, e o fogo fala do juízo divino sobre o pecado (e o juízo sobre a terra é o que os anjos das trombetas anunciam—8:5, 6). Deve-se notar que os anjos apenas anunciam o juízo; eles não o executam nem o dispensam. Mas o anjo-sacerdote distribui o juízo (8:5).

A Primeira Trombeta (8:7)

Os dias da Tribulação verão repetirem-se as pragas do Egito sofridas por Faraó e sua corte. Agências destruidoras estão prestes a dominar a terra, e o que acontece depois de soar a primeira trombeta corresponde à sétima praga do tempo de Israel (Êxodo 9:18-26). A Bíblia não se cala com respeito ao significado simbólico das figuras usadas. A. T. Robertson, profundo conhecedor da língua grega escreveu: “Nas visões e por todo o Apocalipse há o uso constante de símbolos. Os primeiros leitores do livro compreendiam os símbolos, embora para nós o seu segredo esteja perdido.” A despeito de toda a consideração que nos merece este erudito expositor, a chave não nos está perdida, pois a Escritura interpreta a Escritura.

Saraiva, descendo dos altos, prova ser Deus o executor de juízo severo numa calamidade repentina, forte e avassaladora. (Ver Josué10:11; Isaías 28:2, 17; 30:30; Ezequiel 13:13, etc.)

Fogo, símbolo que Deus usa para Cristo e para o Espírito Santo, muitas vezes é empregado como expressão da ira de Deus sobre o homem por causa de seu pecado. (Ver Deuteronômio 32:22; Isaías 33:14; Mateus 25:41.) Indica também a influência purificadora da Palavra de Deus. (Ver Jeremias 23:29; Malaquias 3:2.)

Sangue representa o morticínio terrível, a vida tolhida pelo pecado mas reclamada por um Deus santo, e a apostasia completa de Deus e da verdade. (Ver Levítico 3:17; 17:10-14; Apocalipse 14:20; 16:3.)

Saraiva e fogo misturados com sangue apresentam uma combinação horrorosa. Tal trindade expressa a manifestação terrível da ira divina sobre a terra e seus habitantes. Quanto aos juízos das sete trombetas, os primeiros quatro são sobre lugares, coisas materiais e acessórios da vida. Os três últimos, são sobre pessoas e sobre a própria vida.

No primeiro juízo, a terça parte das árvores é queimada. Diferentes partes do mundo têm experimentado incêndios florestais devastado­res, mas a história não registra nenhum acontecimento que diz ter sido destruída pelo fogo a terça parte das árvores do mundo. Portanto, uma interpretação histórica do Apocalipse não cabe aqui. A repetição por 12 vezes da frase terça parte é impressionante. Como usada por João é equivalente ao poder revivificado de Roma. Afirma Walter Scott: “A parte ocidental da terra profética é aqui designada como a terça parte.” Não devemos esquecer-nos de que a sombra de Roma, passada e futura, é lançada sobre o livro do Apocalipse. As 12 terças partes podem representar a vingança de Deus sobre Roma, pois 12 é o número governamental de Deus referente à parte mais culpada da terra.

Árvores simbolizam a grandeza e o orgulho humano. (Ver Ezequiel 31; Daniel 4; Apocalipse 8:7.) Nosso Deus justo odeia o orgulho do homem e dominará os orgulhosos e poderosos da terra com o juízo.

Erva verde, símbolo da prosperidade de caráter temporário (bem como da fragilidade humana) aqui descreve a desolação de tanta gente, embora possuíssem uma condição próspera como da “erva verde”. (Veja Isaías 40:6, 7; Tiago 1:10; 1 Pedro 1:24; Apocalipse 8:7.)

A Segunda Trombeta (8:8, 9)

Comparando Escritura com Escritura, descobrimos que o mar é usado como a inquietação da natureza humana, e também dos povos em estado de anarquia e confusão (Isaías 57:20; Apocalipse 8:8; 13:1).

Navios representam viagem e comércio (Gênesis 49:13; Apocalipse 8:9; 18:19).

Frases denotando comparação (como, com a aparência de) são usadas com frequência no livro do Apocalipse e indicam a linguagem simbólica. (Ver Jeremias 51:25, onde monte é símbolo de um reino. Veja também Salmo 46:2 e Zacarias 4:7.) Todo o mundo gentio há de sofrer a justa vingança de Deus.

A transformação do mar em sangue corresponde à praga que invadiu o rio Nilo (Êxodo 7:17-21). Assim como o mar sempre agitado representa as multidões da terra em rebelião por falta de mão forte que as dirija, o mar que se parece com o sangue descreve a terrível destruição que lhes há de sobrevir. Impeça-se a passagem pelo mar e o principal meio de comércio mundial está bloqueado. Mas os usos e os produtos do mar estão indelevelmente selados com o sinal da morte. O símbolo de uma montanha ardente sendo lançada ao mar denota que a destruição não é causada por nada que esteja dentro das forças humanas, mas provém diretamente de Deus como uma advertência de juízo.

A destruição da terça parte dos navios revela que o comércio e a comunicação também sentirão o peso do juízo divino. Exportações e importações serão diminuídas drasticamente. Na Segunda Guerra Mundial houve uma série colossal de afundamentos; cerca de um terço de todos os navios de todas as nações envolvidas com a guerra foi parar no fundo do mar! Um tremendo programa de construção naval substituiu esta perda enorme de navios afundados. Nos dias da Tribulação, entretanto, com os homens e materiais destruídos, essa reposição de perdas não será possível.

A Terceira Trombeta (8:10, 11)

Rios e fontes de águas sugerem fontes de prazer lucrativo, ou de nações agindo debaixo de influências turbulentas (Apocalipse 16:4, 5;17:15; Jeremias 2:13; Joel 3:18). Quando o terceiro anjo toca, o chamado sai por todas as fontes produtoras de prazeres da terra a fim de que declarem guerra contra o homem. O meteoro, com seus vapores gasosos cobrindo o suprimento de água potável, será absorvidopor um terço das águas, rios e fontes e lembra o que aconteceu na praga egípcia.

Neste juízo de terrível severidade uma grande estrela cai do céu simbolizando o instrumento do poder de Deus. Não se deve confundir esta estrela com a estrela cadente sob a quinta trombeta (9:1). Estas duas estrelas distintas são dirigentes espirituais, entretanto, e são vistos como caídos moralmente de suas posições. Céu é o centro e a fonte de autoridade divina (“O céu reina”—Daniel 4:26), e os dirigentes distintos e apóstatas estão sujeitos a esse reinado. Não se nos diz que é o de posição exaltada. (Mas veja Isaías 14:12.)

A palavra Absinto não se refere tanto a uma pessoa como descreve sua influência maligna. Alguns escritores identificam a grande estrela com Satanás ou o anticristo. Absinto relaciona-se com artemísia e é a fonte de um óleo indispensável obtido das folhas secas e da parte superior da planta. Como tal simboliza amargura (Deuteronômio 29:18; Jeremias 23:15). O uso contínuo desta bebida produz deteriora­ção mental e até mesmo a morte (Lamentações 3:15, 19). Salomão fala do fim da mulher licenciosa como sendo “amargoso como o absinto” (Provérbios 5:4).

A terra deve colher os frutos amargos do pecado pois os suprimentos essenciais são contaminados por esta planta. No tempo da guerra, as nações experimentam o grave problema de ter seu suprimento de água natural e comunitário poluído ou cortado. Na expressão de Sir William Ramsey: “Olhando-se para os ingredientes amargos diluídos na água pela queda desta grande estrela, maravilhamo-nos não de que muitos tenham morrido e, sim, de que alguns tenham sobrevivido.”

Todo prazer terreno tem em si o sabor amargo do “absinto” e na Tribulação uma terça parte da terra, em vez de encontrar vida nas fontes das águas vivificantes, encontra a morte. Da mesma forma, Deus pode transformar águas amargas em doces (Êxodo 15:25-27). A área geográfica afetada pelo castigo da amargura é a terça parte, sugerindo que “os passos de Deus desde a misericórdia para o juízo são sempre lentos, relutantes e medidos”.

A Quarta Trombeta (8:12, 13)

O juízo da quarta trombeta terá grande efeito sobre os amantes da astrologia e que creem ser suas vidas reguladas pelo movimento do sol, da lua e das estrelas. As afirmações encontradas em horóscopos no que diz respeito à sua associação com os acontecimentos do presente ou do futuro é pura bobagem. Nossos dias não estão nas estrelas, mas nas mãos daquele que criou as estrelas! Astronomia é um estudo legítimo e fascinante, mas a astrologia não passa de invencionice dos adivinhos ávidos por dinheiro.

O homem fala da fixidez das leis da natureza, mas a ordem que Deus mantém sobre os luminares dos céus declara-o Senhor do universo. No que se refere à luz ou às trevas, ele faz o que lhe agrada, como o descobriram os egípcios ao sofrerem escuridão terrível e verem que os israelitas tinham luz. Ao serem criados, o sol, a lua e as estrelas foram comissionados para dar luz à terra e seu potencial para o bem tem sido sempre grande. Agora, entretanto, o seu benefício é diminuído de um terço, pois o édito de Deus proclama a destruição de uma terça parte deles.

Durante a Segunda Guerra Mundial o povo inglês acostumou-se à escuridão durante os ataques aéreos desastrosos. Mas tudo o que o homem pode fazer é destruir a luz artificial. Não pode impedir a luz celestial de brilhar. Durante um desses momentos de escuridão parecia irônico ouvir um oficial gritar a alguém: “Apague essa luz”! ao passo que no céu brilhava uma linda lua, tudo revelando aos atacantes aéreos. Mas aproxima-se uma escuridão divina na qual Deus há de retirar os raios do sol, da lua e das estrelas fazendo com que a terra experimente trevas tais que lhe infundam pavor.

O último versículo deste capítulo contém um anúncio alto e universal de três ais que precedem as três últimas trombetas. Estes ais solenes indicam a severidade dos juízos que se seguirão e seu efeito aterrorizador. Estas três últimas trombetas resultarão em uma nova qualidade e grau de desprazer divinos e desastre consequente. O ai é tríplice porque os três piores juízos ainda estão por vir. Ao som das primeiras quatro trombetas revela-se o homem em seus relacionamentos terre­nos. Os homens podem procurar onde desejarem as coisas que lhes deem prazer ou sustento, mas em todos os lugares devem ver a marca do juízo de Deus causada por seu próprio pecado.

A Quinta Trombeta (9:1-12)

Com o soar das últimas três trombetas passamos do visível para o invisível. Nas trombetas anteriores o homem era visto em seu ambiente material e as coisas vistas pelo olho humano, mas agora, com a quinta trombeta, já não estamos no reino material, mas no espiritual. Apresenta-se uma luz triste sobre este juízo, mas o pior ainda está para acontecer. Nestes versículos temos uma das mais horríveis descrições de devastação jamais escrita, à medida que o quinto anjo apresenta-se a fim de exercer sua missão terrível.

Aqui, novamente, a estrela que cai à terra tem sido identificada de várias maneiras. Alguns dizem ser ela descritiva de Satanás sendo lançado do céu, ou do anticristo, ou do falso profeta ou de um sistema político ou religioso. Achamos que a estrela caída pode ser o anticristo, um instrumento escolhido por Satanás a fim de infligir tais cenas de crueldade e derramamento de sangue descritos por João. A esse que foi expulso é entregue “a chave do poço do Abismo”—a cadeia dos demônios. A posse da “chave” significa poder e autoridade sombrias para executar a morte. A fumaça que se levanta do abismo resulta em um exército devastador de gafanhotos. Porfumaça podemos compreender o efeito cegador e lúgubre da ilusão satânica. O retrato que Paulo faz da imitação demoníaca em 2 Tessalonicenses 2:9-12 corres­ponde ao poder que Satanás torna possível para o exército de gafanhotos.

Os gafanhotos com poder como escorpiões simbolizam as ordens de agências diabólicas que trazem vingança sobre os culpados, descritos como “os homens que não têm na fronte o selo de Deus” (9:4). Como os 144.000 de Israel estão selados, e portanto, a salvo do juízo (7:3, 4), são as multidões gentias não seladas que devem beber a taça da vingança. Como diz Swete: “Assim como Israel no Egito escapou das pragas que puniram seus vizinhos, assim também o novo Israel é isento do ataque dos gafanhotos que saíram do abismo.”

A descrição dos gafanhotos é cheia de significação. Essa praga de gafanhotos baseia-se em pragas similares no Êxodo e em Joel, asquais
nos lembram a natureza terrível da destruição produzida por gafanhotos no reino vegetal. Sob a quinta trombeta eles são o símbolo da terrível natureza do juízo que há de sobrevir aos homens. Os gafanhotos literalmente devastaram o reino vegetal do Egito sob a mão de Moisés, e aqui temos uma figura do juízo destes gafanhotos que saíram do abismo sobre os homens não selados.

Os gafanhotos receberam poder semelhante ao dos escorpiões (9:3). Os viajantes do Oriente, onde os escorpiões são comuns, precavêm-se desta criatura, que muitas vezes é encontrada debaixo de pedras soltas e em ruínas, pois suas ferroados são severas e doridas quando perturbados. Com a aparência de lagosta os escorpiões secretam veneno em suas caudas. Esta arma de ataque é um instrumento de dor excruciante, perturbação mental e até mesmo a morte. Os nativos temem a picada do escorpião por causa do sofrimento horrível que ela causa. Nosso Senhor ligou serpente e escorpiões com o poder de Satanás (Lucas 10:19).

Foi dito aos escorpiões que não causassem dano à erva da terra (9:4). Por que esta proibição específica? Deus, como Criador, intervém na lei natural outra vez e suspende os hábitos alimentares naturais dos gafanhotos, que geralmente se alimentam de erva, coisas verdes e de árvores. O poupar o mundo vegetal sugere uma preservação temporá­ria das mercadorias mais essenciais. Sob a oitava praga do Egito os gafanhotos destruíram tudo o que era verde (Êxodo 10:12-15). Mas agora o seu consumo de coisas verdes é restringido, e ferem somente aos homens que não pertencem a Deus.

Foi-lhes dado poder para atormentar os homens por cinco meses (9:5). Por que somente cinco meses? Esse tempo limitado significa que este juízo não separará os culpados de Deus para sempre e é permitido principalmente para prevenir os pecadores do castigo final que os aguarda se não se arrependerem. Os meses especificados estão da mesma forma relacionados com os gafanhotos porque este é o seu tempo de vida normal (de maio a setembro). O tempo completo de sua vida normal é ocupado com a angústia dos homens. Aqui temos um período breve mas determinado de ais aos indicados para a tortura. Que alívio será para os atormentados que os gafanhotos não vivam mais de cinco meses! Durante a atividade destas criaturas, a angústia humana será indescritível e sem alívio, uma praga horrível e consumi­dora, angustiante ao extremo.

Nesses dias os homens buscarão a morte mas não a encontrarão (9:6). O pecado produz tormento, tira todo o prazer da vida e muitas vezes faz com que o pecador deseje a morte. Mas os poderes permitidos de perturbação física não podem matar os homens diretamente, e nisto jaz a advertência ao arrependimento. A morte seria alívio bem-vindo aos que são afligidos tão gravemente, mas ela os ilude. O suicídio não será possível, e o poder de matar é retirado dos próprios gafanhotos, pois a incumbência é apenas de torturar. Que desespero dominará os que desejam terminar sua angústia tirando a vida, mas não podem morrer!

A aparência dos gafanhotos era semelhante à de cavalos aparelhados para a guerra (9:7). O pecado acarreta seu próprio castigo, e há sempre forças prontas para atacar o pecador, enquanto peca, como é enfatizado pela descrição contínua dos gafanhotos. Como cavalos aparelhados para a guerra, o exército de gafanhotos está disposto e pronto para executar o mandamento de seu rei. Exércitos hostis, especialmente a cavalaria, são simbolizados por uma invasão de gafanhotos em Jeremias 51:27 e Joel 2. Na Itália e em outros países onde há abundância de gafanhotos, eles são chamados de cavalinhos por causa da semelhança de suas cabeças com as dos cavalos. “A sua aparência é como a de cavalos; e como cavaleiros, assim correm” (Joel 2:4).

Os gafanhotos usavam coroas semelhantes ao ouro (9:7). A frase característica semelhantes a sugere soberania falsa. “Coroas” representam vitória e domínio, e “ouro” denota deidade. O homem jamais poderá pecar sem sofrer porque, por decreto divino, a penalidade do pecado sempre será executada. Uma coroa de ouro divinamente conferida jaz sobre a cabeça de Cristo (Apocalipse14:14), mas aqui a dignidade e pretensão de autoridade real são espúrias. Satanás sempre tem sido o imitador do real.

Os gafanhotos tinham rostos como de homens (9:7). Aqui, de novo, a palavra como implica que os gafanhotos não tinham rostos humanos reais, mas simples imitações. Sublinhando esta descrição existe o pensamento de que a dor que os gafanhotos infligem não o é de maneira indiscriminada, mas inteligentemente regulada segundo o pecado cometido. Os rostos semelhantes aos dos homens dessas hordas demoníacas, sugerindo inteligência e capacidade humana, dar-lhes-ão terror adicional. Mas, tendo falta da inteligência humana, não podem apelar para o raciocínio humano e agem mecanicamente como lhes fora ordenado.

Os gafanhotos tinham dentes como os de leões (9:8). O que sugere mais a destruição do que dentes de leões? O pecado, ao ser avidamente seguido, finalmente destrói o pecador como se sua cabeça fosse literalmente amassada entre os dentes das mandíbulas do leão. A implicação deste símbolo é que os terríveis gafanhotos nascidos da fumaça serão cruéis, selvagens e implacáveis no tormento que causarão.

Os gafanhotos tinham, por assim dizer, couraças de ferro (9:9). Esses agentes infernais de tortura são imunes à destruição pessoal.Destituídos de todo sentimento, vêm eles não mostrando piedade nenhuma. O homem não pode desbaratar lhes a defesa. Todo o esforço em afugentá-los será inútil. Arma alguma que o homem possa construir será forte suficiente para conservá-los à distância. Mas para o filho de Deus sempre há proteção contra as forças das trevas. Paulo a chama de “escudo da justiça” (Efésios 6:14).

As asas dos gafanhotos faziam um ruído como o de muitos carros que correm ao combate (9:9). Quão vivido é a esta altura o símbolo! “O ruído de suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos que correm ao combate.” O homem não poderá vencer ou fazer retroceder seu juízo merecido pelo poder de suas próprias armas, nem poderá evadir ou escapar dele, pois os exércitos do terror marcharão contra ele de todos os lados. Joel emprega uma descrição semelhante da desesperança total da resistência contra os exércitos atacantes da destruição (Joel 2:5).

Os gafanhotos tinham caudas com ferrões (9:10). Os naturalistas dizem-nos que o escorpião sacode a cauda constantemente a fim de atacar, e que o tormento causado por sua picada é muito severo. Outra leitura de Apocalipse 9:10 é: Havia ferrões, e seu poder estava em suas caudas para ferir. Seduzido pelo pecado, apenas para ser destruído por seus dentes como os de leões, o pecador que vai após o pecado certamente há de receber a picada como a de escorpiões.

Os gafanhotos tinham rei (9:11). Salomão, um dos maiores naturalis­tas do passado, diz-nos que os gafanhotos comuns não têm rei (Provérbios 20:37). Mas os horríveis escorpiões que João descreve possuem um líder cruel. De Joel aprendemos que a hoste invasora não vagueia sem destino, mas que cada um anda em sua rota designada. As forças destrutivas que João retrata estão sob as ordens do diabo, que é o rei dos poderes infernais. Enquanto o anticristo será a personificação da influência maligna de Satanás, o comandante do exército dos gafanhotos é o próprio Satanás, mencionado como Abadom, e Apoliom (nomes que têm significados similares).

Abadom significa “perdição” e é o nome dado ao local de destruição. “Não há cobertura para o Abadom”—isto é, perante Deus (Jó 26:6). Veja também Provérbios 15:11.

Apoliom é a forma grega do nome hebraico e significa “destruidor”. Satanás é o rei destas hordas de gafanhotos e é o espírito de destruição que inspira estas hostes terríveis. Este quadro vivido revela Satanás como “o destruidor dos gentios” (Jeremias 4:7)—não somente do cristianismo corrupto, mas também do judaísmo apóstata.

Quão significativa é a afirmação: Passado é já um ai! Que alívio é livrar-se do terror da meia-noite e do tormento! Mas os que rejeitam a Deus não terão descanso; o pior ainda está por vir: “Eis que depois disto vêm ainda dois ais.”

A Sexta Trombeta (9:13-21)

O juízo desta segunda trombeta de ais embora se pareça com o juízo da trombeta anterior, tem natureza muito mais grave. Aos vastos exércitos, aos poderes do cavalo, ao leão, e aos escorpiões são acrescentadas forças novas e desoladoras. As multidões são mais numerosas e as cabeças dos cavalos mais parecidas com as do leão. Ao soar o sexto anjo, João ouve “uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro que estava diante de Deus” (9:13). O altar de ouro estava na presença imediata de Deus e recebia orações e adoração do povo de Deus. Aqui o altar de ouro lembra-nos que os juízos que se seguem vêm em resposta ao clamor dos santos perseguidos e martirizados: “Até quando, ó Senhor?”

O quarteto distinto de anjos possui uma missão sombria a realizar, e sua voz autoritária e unida leva a resposta de Deus aos clamores de seus filhos que sofrem. Agora serão vingados. O número quatro é significativo pois é o número da terra e sugere universalidade. Temos as quatro estações do ano e os quatro pontos cardeais. Os quatro metais e as quatro bestas de Daniel 2 e 7 representam os quatro impérios universais—Babilônia, Medo-Persa, Grécia e Roma. As quatro divisões da raça humana são nações, tribos, povos e línguas (Apocalipse 7:9).

Chifre simboliza força e poder (Salmo 132:17) e o altar de ouro fala do privilégio de adoração e da comunhão que foi possível mediante o sangue derramado no altar de bronze. Acorrentados em obediência amorosa ao altar até o momento necessário, os quatro anjos (escravos do amor de Deus) são libertados para realizar sua tarefa mortal. Este quarteto angelical é diferente dos quatro anjos retentores de 7:1-3, pois a missão daqueles é reter as forças do mal. Aqui os quatro anjos libertam os poderes destruidores e operam na região delimitada do rio Eufrates.

O rio Eufrates merece ser chamado grande pois tem 2865 quilôme­tros de extensão e é o rio mais comprido e mais importante da Ásia Ocidental. Na fronteira nordeste da Palestina, este rio constituía-se linha de defesa contra os poderosos inimigos de Israel, os assírios. Às vezes suas águas transbordavam levando tudo o que encontravam pela frente. É por isso que Isaías usou o rio como símbolo da destruição do avanço dos assírios ao executar os juízos divinos sobre Israel (Isaías 8:5-8). Como usado por João, embora o elemento destruidor seja limitado à “terça parte”, o mesmo rio é o local do juízo de Deus sobre o mundo perdido. Foi no Eufrates que o pecado humano teve início e onde Satanás exerceu domínio por tanto tempo. Agora experimenta a punição divina (Apocalipse 9:14; 16:12).

Os ministros angélicos da retribuição não podem agir sem o sinal de Deus. São retidos por uma “hora, dia, mês e ano”. Estes períodos de tempo referem-se à retenção dos anjos, e não à duração do ministério da destruição. Por quanto tempo foram retidos não o sabemos. Tudo o que sabemos é que não podem atacar até o momento determinado pelo relógio de Deus. Estavam sempre prontos para desincumbir-se de sua tarefa, mas não foram libertados até que chegasse o momento exato determinado nos conselhos de Deus (9:15). Os juízos de Deus são retidos em suas limitações divinas.

Que o juízo do sexto selo será grave e avassalador pode ver-se pela afirmativa de que “a terça parte dos homens” será morta. Sob o terceiro selo a quarta parte foi morta (6:8), e agora morre um terço das três quartas partes restantes. Que morticínio aguarda os habitantes de todo o território associado com o Eufrates!

Em 9:16-19 João descreve 200 milhões de cavaleiros. Para o morticínio terrível dos ímpios, Deus ordena que saiam suas reservas, e uma hoste tão invasora e vingativa não é constituída de seres humanos, mas de encarnações demoníacas. As guerras globais fazem com que nos acostumemos a falar e agir em termos de milhões e ver milhões morrerem. Pense nos milhões de milhões de mortes associadas com a Segunda Guerra Mundial!

João vê uma época em que Deus há de permitir que um grande e avassalador exército limpe a terra dos que há muito o desprezaram. Um dentre cada três seres humanos sucumbirá nas mãos destes cavaleiros do inferno, cuja armadura de defesa é uma combinação de fogo, de jacinto e de enxofre—símbolos de tormento eterno. Como o expressa J. Stafford Wright:

João agora vê todos os horrores da guerra. Em seus dias a cavalaria era uma das forças mais terríveis, e ele vê esta em primeiro lugar. Mas enquanto olha, toma consciência de que estes não são cavalos comuns, mas monstros estranhos que destroem com a fumaça que lhes sai da boca, e de outras bocas na ponta das caudas como as de serpentes. Não há dúvida de que foi permitido a João ver os instrumentos destruidores na forma de artilharia. Sob a inspiração de Satanás, o homem transforma tudo para sua própria des­truição e guerra sucede a guerra.

Referências bíblicas quanto às qualidades do cavalo são numerosas, mas pouco se diz do seu uso como animal de carga ou com finalidades agrícolas. Era proibido aos judeus multiplicar cavalos por causa do risco de esses cavalos afastarem-nos do coração de Jeová (Deuteronômio 17:16). O Egito foi famoso por seus cavalos de guerra e nas Escrituras o cavalo é visto como o símbolo da guerra, assim como o asno simboliza a paz. O êxito na guerra e na conquista é associado com os cavalos que João descreve (Apocalipse 6:1-8; Zacarias 6:1-8). Sob a sexta trombeta, os gafanhotos, com sua destruição e agonia, dão lugar aos cavalos—horrendos e pavorosos; agentes agressivos e militares de rapina e morticínio.

Tinham cabeça como de leão (9:17). Você já tomou tempo para estudar a cabeça de um leão, num zoológico ou numa foto? Que majestade, coragem, força e audácia suas feições representam! Não é de admirar que se refira ao leão como o rei da selva. Estes cavalos do juízo, com cabeças como de leão, são investidos com todas as qualidades temíveis dos leões.

Tinham bocas de fumaça (9:17). Satanás há de armar sua hoste de quatro pernas com uma trindade de forças ofensivas e destruidoras: fogo, fumaça e enxofre. Estes elementos saindo da boca dos cavalos transmitirão ao ímpio um antegosto da agonia do lago do fogo. Arrotando vapores infernais, os cavalos manifestarão prazer diabólico em sua tarefa. Mais referências a estes símbolos de angústia podem ser encontradas em 2:18; 14:10; 19:20.

Tinham caudas como serpentes (9:19). Na Escritura, cauda é símbolo de profetas falsos e de ensinamento falso (Isaías 9:14, 15). Seu uso no Apocalipse expressa a influência maligna de Satanás, a falsidade e a injúria (12:4). . .cabeças, e com elas causavam dano” (9:19) mostra que a astúcia de Satanás é dirigida inteligentemente. A cabeça é emblemática do trono do governo moral, da inteligência e do poder (Isaías 7:8, 9; Zacarias 6:11; 1 Coríntios 11:3-10). Que esperança pode ter o pecador contra tal combinação de sutileza satânica e sabedoria mal dirigida?

O fato de que a terça parte dos homens é morta pelo fogo, fumaça e enxofre que saem das bocas dos cavalos não exerce nenhum efeito de sobriedade sobre o restante dos homens. O limite da paciência divina foi alcançado, de modo que Deus permite que os merecedores de sua ira colham o que semearam. Esquecimento ou desafio persistente de Deus termina no abandono à sorte merecida. Os apóstatas poupados persistem em sua dureza de coração a despeito dos terrores horríveis dos cavaleiros do inferno. Lemos duas vezes: “Não se arrependeram.” Por causa disto, permite-se ao pecado operar seu juízo inevitável.

Ao descrever o período dos fins dos tempos da era gentia, Jesus declarou que “a iniquidade abundará”. Aqui resumimos algumas formas da pior iniquidade durante os últimos dias.

Adoravam aos demônios. Demonismo, adoração a Satanás, e magia negra hoje em dia são comuns. Vivemos em um mundo demonizado. João prediz o tempo quando a hoste demoníaca será adorada aberta e universalmente.

Adoravam a ídolos. O restante dos homens têm ídolos sem vida, segundo sua posição social. Os ricos têm deuses de ouro e de prata. A classe média possui ídolos de bronze e de pedra. Os pobres têm ídolos de madeira. Desta forma dupla de idolatria, Satanás e ídolos, aparecem os feitos malignos.

Eram assassinos. “Não se arrependeram dos seus homicídios.” Nosso Senhor disse que Satanás foi homicida desde o princípio; ele instigou Caim a assassinar seu irmão Abel. Desde o primeiro homicídio do mundo, incontáveis milhões de pessoas têm sido assassinadas, inclusive grandes multidões de crentes como mártires por sua fé. Em nossos dias, a cota de homicídios é assustadora, mas nos dias que João descreve, sendo os homens energizados por Satanás, o homicídio será praticado ainda mais habitualmente.

Eram feiticeiros. A feitiçaria e o trato ilícito com os espíritos (que é parte integral do espiritismo ou espiritualismo) aumentaram rapida­mente durante os últimos 50 anos e lançam sombra negra sobre o futuro. Fortemente condenada na Escritura, a feitiçaria encontra sua própria sorte quando o juízo desce sobre todos os que operam com “espíritos familiares”. É interessante notar o fato que a palavra “feiticeiro” é pharmakos no original, de onde nos vem a palavra farmácia. De uma raiz que significa “encantamento” a palavra passou a significar “droga”.

A. T. Robertson diz: “A palavra farmácia, como aplicada a drogas e remédios, certamente evoluiu de um péssimo ambiente, mas ainda há um mau odor acerca dos remédios patenteados.” Certamente chega­mos a uma era drogada, quando drogas variadas distorcem as mentes de multidões, especialmente de grande parte da juventude de nossos dias. O arrependimento estará longe dos viciados em narcóticos na era da Tribulação.

Eram fornicadores. Quando Deus e a justiça são rejeitados, e quando a impiedade geral prevalece, que mais se pode esperar a não ser a indulgência nas formas mais desabridas da cobiça sem freios? Divórcios fáceis zombam dos laços sagrados do matrimônio. As uniões são quebradas quase tão rapidamente quanto feitas. Nossos padrões morais baixos são sombra da condição corrupta do mundo quando do soar da sexta trombeta.

Eram ladrões (9:21). Jamais na história mundial os furtos foram tão generalizados como o são hoje. Roubos de lojas, bancos e outros estabelecimentos comerciais alcançaram um número assustador. A massa de homens que não foram mortos pelos cavaleiros do inferno terão pouco respeito pelos direitos uns dos outros. O evangelho do dia será: “Cada um por si e o diabo por todos.” O homem se enriquecerá às custas do próximo. Gangsters internacionais, sem nenhuma consideração pela propriedade alheia, tornar-se-ão mais comuns à medida que a era se deteriora, mas sua destruição é certa.

Antes de tratarmos do parêntese entre as sexta e a sétima trombetas, recapitulemos os significados das primeiras seis.

As primeiras quatro trombetas mostram-nos o homem como cidadão de um mundo infestado pelo pecado; tudo acima dele e ao seu redor fala da maldição ocasionada pela queda do homem.

quinta trombeta apresenta o homem como pecador, e mostra-nos que o mundo todo “jaz no maligno”. Os pecados do homem, portanto, procedem do diabo, e seus pecados acarretam tormentos enviados pelo inferno.

sexta trombeta torna claro que os juízos sobrevêm aos pecadores por virtude de leis fixas segundo as quais o pecado deve inevitavelmen­te ocasionar sofrimento. Os juízos divinamente infligidos lembram-nos da verdade que “Deus ira-se contra o ímpio todos os dias”. Ao soar desta trombeta está simbolizada a imposição positiva dos juízos divinos sobre o homem. Uma vez que o homem fica sem desculpa, seu escape do castigo é impossível.




Bibliografia H. Lockyer +www.ebareiabranca.com 





                                 O GOVERNO DO ANTICRISTO                 

 Apocalipse 13.1-9.

1 - E eu pus-me sobre a areia do mar e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e, sobre os chifres, dez diademas, e, sobre as cabeças, um nome de blasfêmia.
2 - E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés, como os de urso, e a sua boca, como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio.
3 - E vi uma de suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta.
4 - E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?
5 - E foi-lhe dada uma boca para proferir grandes coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois meses.
6 - E abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu.
7 - E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda tribo, e língua, e nação.
8 - E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.
9 - Se alguém tem ouvidos, ouça.


Em Apocalipse 13, a Palavra de Deus apresenta-nos uma tríade do mal: O Dragão (o Diabo), a Besta que emerge do mar (o Anticristo) e a que emerge da terra (o Falso Profeta). O Apocalipse nos mostra que o Anticristo e o Falso Profeta são agentes utilizados pelo Diabo para estabelecer um falso governo de paz e, desde o início da era mundial, executar seu plano para destruir a humanidade. As Escrituras descrevem algumas características singulares para a realidade desse tempo, os últimos dias: Apostasia (2 Ts 2.3,7); Grande Tribulação (Mt 24.29,30); e Revelação do Homem do Pecado (Dn 7.24,25; 2 Ts 2.3,8,9). 


A TRÍADE MALIGNA

O Dragão

“Um gigantesco dragão de muitas cabeças e muitos chifres. Este dragão é identificado, no versículo 10 [Cap. 12], como Satanás. Assim como o cavalo vermelho, em 6.3, significa sangue e morte, também o vermelho deste dragão é uma referência ao fato de Satanás ser um assassino desde o princípio (Jo 8.44)” (Horton, pp.160,61).

O Anticristo

“Apesar de João não usar o nome ‘Anticristo’, o grego anti primariamente significa ‘em vez de’. Ele buscará ser o substituto daquele que foi Deus ungido. Noutras palavras o Anticristo não admitirá ser o Anticristo. Clamará ser o Cristo real, o fidedigno cumprimento das profecias que apontam para o rei que está vindo para implantar o seu reino” (Horton, p.172).

O Falso Profeta

“[...] O Falso profeta estará a frente da igreja apóstata durante a primeira parte da Grande Tribulação (os verdadeiros crentes já terão sido arrebatados para o encontro com o Senhor Jesus nos ares). Assim, o Falso Profeta tornar-se-á o líder do sistema religioso mundial que o Anticristo estabelecerá na última parte da Grande tribulação [...]” (Horton, p.181).

Governo: Capacidade ou possibilidade de exercer controle sobre um povo.

Se lermos atentamente os jornais, concluiremos que o cenário já está montado para a ascensão de um governo único no mundo. O que era apenas ensaio há três décadas, já começa a ser encenado no Ocidente com os aplausos do Oriente.
As nações, fustigadas pela globalização, suspiram por um líder com poderes ilimitados, a fim de reordená-las econômica e politicamente. É o que se depreende dos discursos proferidos nos organismos internacionais. O caos parece iminente.
Abramos, agora, a Bíblia. As profecias mostram-nos como fato o que parecia ficção: o guia mundial, a quem a Palavra de Deus denomina de Anticristo, está mais próximo do que supomos. Ele aguarda apenas o momento apropriado, para assumir o controle absoluto da terra sob a proteção de Satanás.
Igreja do Senhor, preparemo-nos para a volta de Jesus!

 QUEM É O ANTICRISTO

A Bíblia apresenta o Anticristo como um personagem real. Não é lenda nem ficção literária.
 Definição etimológica. De origem grega, a palavra Anticristo significa, etimologicamente, aquele que se levanta contra Cristo, colocando-se em seu lugar (1 Jo 2.22).
 Definição teológica. O Anticristo é o representante máximo de Satanás. É a sua mais perfeita representação (1 Jo 2.18). Trata-se de um homem que, aliciado pelo Diabo, colocar-se-á à sua inteira disposição, com o intuito de governar o planeta em seu nome.
Ele é conhecido também como a “besta que sobe do mar” e o “homem da iniquidade” (Ap 13.1; 2 Ts 2.3). Daniel no-lo mostra como o “assolador” (Dn 9.27).

 O APARECIMENTO DO ANTICRISTO

 Tempo. O Anticristo manifestar-se-á logo após o arrebatamento da Igreja. A sua chegada coincidirá com a Septuagésima Semana de Daniel (Dn 9.27). E o seu governo terá a duração de três anos e meio (Ap 13.5). Após esse período, enfrentará a ira do Cordeiro: a Grande Tribulação.
 Lugar. A sede política de seu governo será a cidade que, no Apocalipse, chama-se Babilônia (Ap 14.8). A hermenêutica profética permite-nos identificá-la com a metrópole que, no passado, sediou o Império Romano. Quando este reedificar-se, o Anticristo haverá de tomar a cidade de Roma como sede administrativa.
Sua capital religiosa será Jerusalém que, espiritualmente, recebe do Evangelista os cognomes de Sodoma e Egito (Ap 11.8). Por ocasião da Septuagésima Semana de Daniel, o Santo Templo já estará reconstruído. E nele assentar-se-á o Anticristo como se fora Deus, reivindicando uma adoração que cabe apenas a Deus (Dn 9.27; Mt 24.15; 2 Ts 2.4).
De Roma e de Jerusalém, a Besta que sobe do mar governará o mundo todo por quarenta e dois meses (Ap 13.5). Nessa empreitada, será sustentado pelo Dragão e pelo Falso Profeta.


 O SUSTENTO DO GOVERNO DO ANTICRISTO

O Anticristo contará com o suporte de dois tenebrosos personagens: um espiritual: o Dragão; e o outro humano: o Falso Profeta.
 O Dragão. O Dragão é identificado no Apocalipse como a Antiga Serpente (Ap 12.9). Conhecido também como Diabo e Satanás, foi o responsável pela primeira apostasia da humanidade, ao induzir Adão e Eva ao pecado (Gn 3.1-7). Nos últimos dias, seduzirá a raça humana a cometer a segunda grande apostasia da história: adorá-lo como deus na pessoa do Anticristo.
Os historiadores futuros certamente verão essa última rebelião da família adâmica como a Queda das quedas e a Apostasia das apostasias.
 O Falso Profeta. Embora não passe de um embuste, o Falso Profeta será convincente e irresistível. Seus milagres e prodígios serão de tal forma grandiosos que até fogo fará descer do céu (2 Ts 2.9; Ap 13.13). O apóstolo Paulo chama seus milagres de mentirosos. Ele realizará dois grandes sinais. O primeiro será uma falsa ressurreição: fará com que o Anticristo, dado como morto num possível atentado, volte à vida (Ap 13.3). Diante do acontecido, a humanidade exclamará: “Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?” (Ap 13.4).
Se o primeiro sinal causou admiração e espanto, o que não diremos do segundo? Ele ordenará aos que habitam na terra que ergam uma imagem à besta que sobrevivera à ferida mortal. Em seguida, dará vida à estátua, que se porá a falar (Ap 13.14,15). Com esses prodígios, convencerá todos a aceitarem a plataforma de governo do Anticristo.

. A PLATAFORMA DE GOVERNO DO ANTICRISTO

O Anticristo usará de todos os artifícios, quer naturais quer sobrenaturais, visando:
 A promoção da mentira. Representante do pai da mentira, o Anticristo terá por objetivo apagar toda a verdade que Deus imprimiu na Bíblia, na consciência humana e na história. Somente assim, conseguirá aprisionar a humanidade (2 Ts 2.11). Ele já começou o seu trabalho relativizando a verdade, inclusive a teológica.
 A promoção do pecado. O Anticristo é conhecido também como o “homem do pecado” (2 Ts 2.3). Hoje ele promove o homossexualismo, o aborto e a eutanásia, como se tais pecados e iniquidades fossem virtudes teológicas. Amanhã, quando assumir o governo do mundo, promoverá o genocídio dos que não lhe aceitarem o sinal, e não haverá ninguém para levantar a voz contra esse crime (Ap 20.4).
 A promoção do culto a Satanás. Durante o seu governo, constrangerá a humanidade a adorar o Dragão e seus demônios (Ap 9.20). A fim de que a idolatria, em seu mais alto grau, espalhe-se por toda a terra, o Anticristo levantar-se-á contra Deus e contra os que o adoram (2 Ts 2.4).
 A promoção de uma economia única. O Anticristo sabe que, somente controlando a economia do mundo, conseguirá subjugar a política internacional. Por isso, instituirá um código, conhecido como a marca da besta, para que sem o seu número ninguém possa comprar ou vender (Ap 13.16-18). Com a globalização da economia, os governos caminham nesse sentido, não pressentindo o que os espera num futuro bem próximo.


Quando o Anticristo proclamar já ter alcançado todos os seus objetivos, o Dia do Senhor virá e ele sofrerá repentina destruição (1 Ts 5.3). Isso acontecerá após o seu quadragésimo segundo mês de governo (Ap 13.5).
O que a Bíblia chama de Grande Tribulação abater-se-á sobre o reinado do Anticristo, levando-o à completa ruína. É a ira do Cordeiro sobre o império do mal (Ap 6.16).
Jesus Cristo destruirá o império do Anticristo, para implantar o Reino de Deus em sua plenitude: “Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Ap 11.15).


A Marca da Besta

Através da história, vem-se tentando identificar o Anticristo nos ditadores e tiranos. Quando me encontrava em Israel em 1962, um judeu convertido disse-me para prestar atenção no nome de Richard Nixon, pois vertido em hebraico soma exatamente 666. Mais tarde, um irmão da Itália contou-me que a inscrição dedicada ao papa, e que pode ser vista no interior da basílica de São Pedro, em Roma, em algarismos latinos, também soma 666. É digno de nota que alguns escribas antigos substituíssem o número 666, por 616, para que se encaixasse com o nome de calígula. A igreja primitiva, unanimemente, rejeitou o artifício.
O Apocalipse, contudo, nada fala sobre a soma de números do nome da besta. A única chave é esta: ‘é o número de um homem’. Expositores da Bíblia interpretam o seis para simbolizar a raça humana. O três para designar a Trindade. A tripla repetição — 666 — pode simplesmente significar que o Anticristo é um homem que crê ser um deus, membro de uma trindade composta pelo Anticristo, Falso Profeta e Satanás (2 Ts 2.4; Ap 13.8)” (HORTON, S. M. Apocalipse: As coisas que brevemente devem acontecer. 2.ed., RJ: CPAD, 2001, p.185).


                      2 Tessalonicenses 2.1-14.

1 - Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele,
2 - que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o Dia de Cristo estivesse já perto.
3 - Ninguém, de maneira alguma, vos engane, porque não será assim sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição,
4 - o qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus.
5 - Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco?
6 - E, agora, vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado.
7 - Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que, agora, resiste até que do meio seja tirado;
8 - e, então, será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca e aniquilará pelo esplendor da sua vinda;
9 - a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira,
10 - e com todo engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem.
11 - E, por isso, Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira,
12 - para que sejam julgados todos os que não creram a verdade; antes, tiveram prazer na iniquidade.
13 - Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade,
14 - para o que, pelo nosso evangelho, vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo.
 .
A palavra “anticristo” só é mencionada na Bíblia em 1 e 2 João. Através de um jogo gramatical (singular e plural), o apóstolo faz distinção entre o “anticristo” (referindo-se ao governante mundial no tempo da Grande Tribulação), e “anticristos”, (aqueles que antecedem em seus ensinos o ministério do Ditador Mundial — 1 Jo 4.3). O prefixo “anti” tem o sentido básico de “em lugar de”, “oposto a” ou “semelhante a”, mas na epístola de João significa “contrário a”. Porém, o texto de 2 Tessalonicenses 2.4, conjuga dois sentidos: o de “contrário a”: “... o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus...”, e o de “semelhante a”, pois afirma que ele : “... se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus”.
Quanto a sua natureza, o Anticristo será “segundo a eficácia de Satanás” (2 Ts 2.9), quanto ao seu caráter, será “o iníquo” (2 Ts 2.8), quanto a sua personalidade, “um orador cativante” (Dn 7.20; 2 Ts 2.11), quanto a sua missão, “opor-se a Deus” (v.4), quanto a sua influência, “mundial”, pois governará sobre todas as nações (Ap 13.8; Dn 8.24; Ap 17.12), quanto a Israel, será “o grande adversário” (Dn 7.21,25; 8.24; Ap 13.7).

Embora o Anticristo não se haja manifestado ainda plenamente, o seu espírito aí está, transtornando igrejas, torcendo as Sagradas Escrituras, alterando a configuração política das nações e apoderando-se dos organismos internacionais, objetivando a instauração de seu império numa rebelião aberta contra Deus.
Quando o apóstolo João afirmou que o mundo jaz no maligno, queria ele deixar bem claro que todos os recursos, quer humanos, quer materiais, acham-se devidamente aparelhados para acolher o homem do pecado.
Nesta lição, veremos quem é o Anticristo e por que buscará ele apoderar-se do planeta. Estejamos, pois, alertas! Que o Diabo não tenha lugar na Igreja de Deus!

 QUEM É O ANTICRISTO

As Sagradas Escrituras traçam-nos um nítido perfil do personagem que, durante a Septuagésima Semana de Daniel, haverá de dominar o mundo, subjugando todas as coisas ao império de Satanás. Vejamos, pois, como a Bíblia o descreve.
 O arquiinimigo de Deus e seu Cristo. O Anticristo será a mais completa personificação de Satanás e o seu mais autêntico representante. Seu objetivo será:
a) Levantar-se contra o Cristo de Deus; e
b) Postar-se em lugar de Cristo, como se fora ele o messias que haveria de trazer a libertação a Israel e a salvação a toda a humanidade (Jo 5.43; 2 Ts 2.4). Aliás, é exatamente isto o que significa a partícula grega anti: “contra e em lugar de”. O Anticristo, pois, é aquele que se coloca no lugar de Cristo e contra Cristo se levanta.
 O representante maior do Diabo. Segundo mostram os textos bíblicos, o Anticristo, ainda que pareça sobrenatural, será um ser humano como outro qualquer (Ap 13.12). Assim a Bíblia o intitula:
a) O príncipe que há de vir (Dn 9.26);
b) O que vem em seu próprio nome (Jo 5.43);
c) Aquele que se assentará no templo de Deus (2 Ts 2.4);
d) O homem do pecado (2 Ts 2.3).
 A Besta. Por que o Anticristo é assim chamado? Devido à sua natureza, arrogância e prepotência. Erguendo-se ele contra Deus, intentará a perpetuação de seu império e a anulação do Reino de Cristo. Assim como o Diabo, no início, usou a serpente para enganar Eva, usará agora o animal de feroz aparência para ludibriar as nações logo após o arrebatamento da Igreja. Nesta ocasião, manifestar-se-á ele plenamente (2 Ts 2.6).

 A MISSÃO DO ANTICRISTO

Tem o Anticristo como missão implantar o domínio de Satanás em todo o mundo, a fim de que este seja transformado no Reino das Trevas. Eis suas missões principais:
 Criar uma religião, onde seja o Diabo reverenciado por todos os que, desprezando a verdade, apegaram-se à mentira. Nesta esfera, ele é assistido pelo falso profeta (Ap 13.11-18).
 Estabelecer uma economia fortemente centralizada, através da qual forçará os habitantes da terra a aceitarem o sinal da besta (Ap 13.17,18).
 Destruir as bases da religião divina, para que todos venham a crer em suas mentiras: “O qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus” (2 Ts 2.4).
 Enganar a Israel, fingindo ser o seu messias e, em seguida, destruí-la, numa tentativa sem precedentes de frustrar os planos de Deus com respeito ao estabelecimento definitivo e pleno dos filhos de Abraão na formosa terra (Dn 9.27; Ap 12.12-17).
 Destruir os que se hão de converter durante a Grande Tribulação, objetivando desarraigar da terra quaisquer testemunhos concernentes ao Deus Único e Verdadeiro e ao seu Unigênito (Ap 7.9-17).
 Multiplicar a iniquidade no mundo. Afinal, o Anticristo é conhecido como o homem do pecado e o iníquo (2 Ts 2.3). Ele, portanto, é o grande promotor da iniquidade.

 A DOUTRINA DO ANTICRISTO

Eis as bases da doutrina a ser implantada pelo homem do pecado:
 Substituir Deus pelo Diabo. Em muitos centros de estudos cristãos, o Senhor Deus já foi substituído pelo homem. Haja vista as teologias liberais, divorciadas da Palavra de Deus que se enveredaram pelo antropocentrismo, afirmando ser o homem a medida de todas as coisas (Sl 10.4; Ez 28.2). E, agora, já se busca substituir, descaradamente, Deus pelo próprio demônio!
 Criar um messias para Israel, visando promover um pseudo-salvador para toda a humanidade. Quando os judeus perceberem que o Anticristo não é, de fato, o seu Cristo, mas um impostor, tentará ele destruir a descendência de Abraão (Dn 9.27).
 Concretizar o que, desde que fora expulso do céu, o Diabo intenta fazer. Colocar o Diabo no lugar de Deus, a fim de que ele receba uma adoração que é exclusiva do Todo-Poderoso. A resposta de Deus para todas essas maquinações do Maligno está no Salmo 2. Ler também 2 Ts 2.8; Ap 19.19,20.

 O ANTICRISTO NO TEMPLO DE DEUS

Já que a Besta e o Falso profeta atuarão como antideuses, o reino de Satanás haverá de funcionar como o anti-reino de Deus.
Portanto, o momento de maior triunfo de Satanás será introduzir o seu representante no Santo Templo em Jerusalém. Ele assim agirá, a fim de que:
 Os judeus aceitem o Anticristo como o seu messias. “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (Jo 5.43).
 A verdade seja erradicada. “E com todo engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E, por isso, Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira” (2 Ts 2.10,11).
 Sejam suspensos os sacrifícios de Deus. “E ele firmará um concerto com muitos por uma semana; e, na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador” (Dn 9.27).
Quando isto acontecer, será deflagrada toda a ira de Deus tanto sobre o Anticristo como sobre os seus adoradores. Mostrará Deus, uma vez mais, que não dividirá a sua glória com ninguém. 

Escreve Paulo que o Anticristo será destruído pela Palavra de Deus (2 Ts 2.7,8). No Apocalipse, assim está narrado o seu fim: “E a besta foi presa e, com ela, o falso profeta, que, diante dela, fizera os sinais com que enganou os que receberam o sinal da besta e adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados vivos no ardente lago de fogo e de enxofre” (Ap 19.20).O Senhor Jesus Cristo mostrará a todos que o seu poder é irresistível. Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores.Senhor Jesus, não nos deixes ser seduzidos pelo engano nem pelas mentiras do adversário. Que possamos, nestes instantes que ainda nos restam, agir de maneira santa e irrepreensível até que venhas buscar a tua Igreja. 
“O Anticristo será um homem personificando o Diabo, porém, apresentando-se como se fosse Deus (Dn 11.36; 2 Ts 2.3,4). [...] A Besta ou Anticristo será uma personagem de uma habilidade e capacidade desconhecida até hoje. Será o maior líder de toda a história; acima de qualquer famoso general ou governante mundial conhecido. Será portador de uma personalidade irresistível. Sua sabedoria e capacidade serão sobrenaturais. Além da ação diabólica direta, outros fatores contribuirão decisivamente para a implantação do governo do Anticristo, como poderio bélico, alta tecnologia e poder econômico.
Será um grande demagogo. Influenciará decisivamente as massas com seus discursos inflamados (Ap 13.5). A Bíblia diz que toda a terra se maravilhará após a Besta (Ap 13.13). Exercerá uma influência e um fascínio extraordinário sobre as massas. [...] O Anticristo será recebido ao aparecer como solução dos problemas e crises sociais e políticas que fustigam o mundo inteiro, para os quais os líderes mundiais mais capazes não encontram solução” (GILBERTO, A. O calendário da profecia. 16.ed., RJ: CPAD, 2003, pp.48-9). 



As Sete Taças Ap 15:1—16:21

Chegamos agora a dois capítulos de espanto excepcional. Tendo examinado os instigadores da horrível iniquidade da terra, passamos agora ao juízo terrível das taças. Castigos severos e finais estão prestes a ser infligidos em sucessão aguda e rápida. Assim como o pecado alcançou seu clímax com o homem da iniquidade como já vimos em ebdareiabranca, também agora os juízos de Deus hão de cair do Deus do juízo sobre uma terra culpada. Nos capítulos que agora examinamos temos detalhes concernentes aos juízos de Deus que precedem seu grande dia de ira. Como veremos, o derramar da sétima taça completa a ira de Deus.


O preparo (15:1-8).

1. Vi no céu outro sinal grande e admirável, sete anjos tendo os sete últimos flagelos, pois com estes se consumou a cólera de Deus. A palavra traduzida “sinal” significa milagre ou aparição maravilhosa, como em 12:1,3. Com o simbolismo das sete trombetas João retratou uma série de castigos divinos, na forma de pragas e tormentos, para acordar a humanidade para a verdadeira realidade de Deus. Esta série agora alcança seu clímax; com os flagelos das sete taças, Deus terá derramado total­mente sua cólera no contexto particular das pragas que antecipam o jul­gamento final. O significado destas palavras não é que a ira de Deus acabou; a besta, o falso profeta e todos os que persistirem na maldade ainda serão lançados no lago de fogo, na manifestação derradeira da cólera de Deus contra o pecado. Temos de tomar estas palavras em seu contexto escatológico particular: a cólera de Deus durante a grande tribulação é uma tentativa de fazer com que os adoradores da besta se in­clinem diante da soberania de Deus.

2. Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo, e os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome. Instantes antes das últimas pragas João tem uma visão proléptica dos que venceram a besta. Estes são os santos-mártires mortos pela besta por sua perseverança sob perseguição, sua obediência firme aos mandamentos de Deus e sua fé em Jesus (14:12). Eles venceram a besta por meio do seu martírio, pois nem na morte eles negaram o nome de Jesus. Recusaram adorar a besta, in­clinar-se diante da sua imagem (13:15), e receber o número do seu nome. Apesar de a besta tê-los morto, foram eles que a venceram, permanecen­do fiéis a Jesus; frustraram o propósito dela. Temos de presumir que a perseguição dos santos pela besta continua durante o período dos sete flagelos.

Não há razão suficientemente forte para não interpretarmos o mar de vidro como sendo aquele que estava diante do trono de Deus (4:6). O pensamento central deste simbolismo é que estes vencedores da besta es­tão diante do trono, na presença de Deus. A besta pensou que os venceria matando-os; mas sua morte somente os transportou da terra para o céu. A vitória final foi deles. O mar de vidro mesclado com fogo provavelmente é um símbolo de que este período é de julgamento dos que vivem na terra; pode também se referir à perseguição sangrenta pela qual os ven­cedores passaram. As harpas de Deus que eles tinham em suas mãos são outro símbolo da sua vitória. Harpas expressam louvor e adoração a Deus (5:8; 14:2); os vencedores expressam sua alegria pela vitória cantando hinos de louvor.

3. E entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. Os exegetas estão discutindo se isto quer dizer que eles estão cantan­do dois cânticos ou somente um. Gramaticalmente parece que eles estão cantando dois: um de Moisés e outro do Cordeiro. Pelo contexto a ideia é que os vencedores cantam um hino de triunfo, que tanto os santos do An­tigo Testamento como os do Novo sabiam cantar, porque todos cantam da libertação pelo mesmo Deus. Talvez o cântico de Moisés seja o da liber­tação do Êxodo, quando os israelitas louvaram a Deus por tê-los tirado do Egito. O cântico do Cordeiro, no contexto, não é um hino de salvação pes­soal; é um hino pela libertação do ódio e da hostilidade da besta. Da mes­ma maneira como Deus libertou Israel do Egito, mesmo derramando pragas sobre os egípcios, ele também libertou os santos de adorar a besta, derramando seus juízos sobre os que a adoram.

O hino não fala de redenção espiritual, mas exalta os poderosos feitos de Deus. Isto forçosamente inclui os meios que Deus usa para manifestar sua cólera contra os que perseguiram os santos. O hino está quase totalmente expresso em linguagem do Antigo Testamento, porque Deus é o Deus que liberta o seu povo. Suas obras são grandes e admiráveis (veja Sl 92:5; 111:2; 139:14). Ele é o Senhor Deus, Todo-poderoso, à luz de quem os poderes da besta têm limites. Seus caminhos, mesmo permitindo que os santos sofram, são justos e verdadeiros. Ele é realmen­te o Rei das nações. A versão “Rei dos santos” (ARC), é de um texto gre­go mais recente e não tem muito apoio. Outra versão possível é “Rei dos séculos” (IBB). Neste tempo de grande tribulação, quando parece que a besta tem poder ilimitado para executar seus propósitos demoníacos con­tra os homens e perseguir os santos — na hora mais escura da história da humanidade, quando parece mesmo que Satanás é o deus deste século (Co 4:4), os mártires cantam um hino de louvor a Deus, reconhecendo que ele é o Deus vivo e verdadeiro. Eles exaltam o nome de Deus porque, ao contrário de evidências externas, ele é de fato o Rei, de todas as nações e todas as épocas, inclusive durante o tempo de martírio. Este hino é uma das expressões de fé mais comoventes de toda a literatura bíblica.

4. Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? pois só tu és santo; por isso todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos. Fora do contexto estas palavras podem ser interpretadas no sentido de salvação de todas as nações. Nas cartas de Paulo também há trechos correspondentes que soam a salvação universal, tirados do contexto. É plano de Deus “fazer convergir nele todas as coisas” (Ef 1:10). “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2:10-11). E “por meio dele recon­ciliasse consigo mesmo todas as coisas que sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1:20). Afirmações como estas, porém, devem ser compreendidas dentro do plano bíblico. A Bíblia está sempre olhando no futuro para um dia em que Deus reinará na terra, cercado somente pelos que têm seu prazer em adorá-lo. “Todas as nações que fizeste virão, prostrar-se-ão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome” (Sl 86:9). “Irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó. ...Ele jul­gará entre os povos” (Is 2:3-4; cf. 66:23). “Desde o nascente do sol até ao poente é grande entre as nações o meu nome” (Ml 1:11). É esta a meta do Apocalipse: estabelecer uma cidade onde todas as nações encontrarão cura (22:2). Isto não significa salvação universal: somente que o Reino de Deus será constituído de uma união de pessoas de todas as nações, que ale­gremente se entregam para adorar e cultuar a Deus.

É digno de nota que os mártires não cantam de si mesmos nem de como venceram a besta: eles estão ocupados totalmente com a soberania, além disto não há nenhum vestígio de vingança pessoal contra os inimigos que são atingidos pelo castigo divino.

Os atos de justiça que se fizeram manifestos são as sentenças ju­diciais de Deus em relação às nações, de misericórdia ou de condenação. Para Babilônia e seus habitantes que adoram a besta elas significam ira de Deus; mas as pessoas reconhecerão que “verdadeiros e justos são os teus juízos” (16:7).

5. Depois destas coisas olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do testemunho. As sete últimas pragas estão por começar, e são retratadas pelo esvaziar de sete taças que estão na mão de sete anjos que vêm da presença de Deus. O santuário de Deus já apareceu algumas vezes no Apocalipse. João viu, em uma visão proléptica, o santuário de Deus no céu aberto, com a arca da aliança (11:19). Isto foi para lembrá-lo da fi­delidade de Deus às promessas de sua aliança. Aqui a fidelidade de Deus também exige o julgamento do mal.

Este versículo mistura duas referências históricas: a tenda do testemunho, no deserto, e o templo que mais tarde foi construído em Je­rusalém. O tabernáculo no deserto era chamado de “tabernáculo do tes­temunho” (Êx 38:21; Nm 10:11, 17:7; At 7:44). Ele se tornou modelo para o templo, quando este foi construído em Jerusalém, e o templo, por sua vez, foi usado como modelo para a habitação de Deus no céu.

6. E os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do santuário, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos ao peito com cintas de ouro. Geralmente João não descreve a aparência dos muitos anjos que aparecem em seu drama escatológico. A vestimenta destes anjos tem o ob­jetivo de destacar o esplendor destes seres celestiais. Não há razão para pensar que as cintas de ouro indicam funções sacerdotais.

7. Então um dos quatro seres viventes deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias de cólera de Deus. Os quatro seres viventes estavam perto do trono de Deus (4:6); isto é a maneira simbólica de dizer que os sete flagelos estavam integralmente autorizados por Deus. Taça era um prato raso usado para beber e derramar libações. A mesma palavra é usada para as taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, nas mãos dos vinte e quatro anciãos (5:8). Pode haver aqui uma alusão deliberada às taças que contêm o incenso da oração. As orações dos san­tos têm a função de trazer sobre o mundo a manifestação derradeira da justiça e da ira de Deus. A ênfase na eternidade de Deus — aquele que vive pelos séculos dos séculos — lembra que, apesar de parecer que o mal domina os acontecimentos da história humana, Deus é eterno e ninguém pode se interpor aos seus planos, nem mesmo a maldade satânica e demoníaca.

8. O santuário se encheu de fumaça, procedente da glória de Deus e do seu poder, e ninguém podia penetrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos. No Antigo Testamento quando Deus se manifestava aos homens ele costumava aparecer em uma glória tal que ninguém podia ficar de pé diante dele. “Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo” (Êx 40:35). Os sacerdotes não conseguiram entrar no templo de Salomão quando este foi dedicado, porque a glória da presença divina enchia a casa (Rs 8:10). Quando Isaías teve a visão de Deus no templo, cercado de serafins, os fundamentos da construção tremeram à voz divina e o Santuário se encheu de fumaça (Is 6:4). Ezequiel caiu sobre sua face quando teve a visão do templo cheio da glória do Senhor (Ez 44:4). A ênfase não é tanto sobre a impossibilidade de se aproximar de Deus, mas sobre sua majestade e sua glória, em comparação com tudo que é humano e mundano.

Há certas semelhanças entre as pragas trazidas pelas sete taças e as trazidas pelas sete trombetas, e ambas as séries têm semelhanças com as pragas do Egito. As pragas das sete taças, no entanto, são bem mais in­tensas e devastadoras. As pragas das primeiras quatro trombetas atingem primeiramente o ambiente do homem e não tanto a este próprio, mas o primeiro flagelo atinge os homens diretamente. Temos de ver estas pragas no contexto da luta titânica entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, retratada com traços tão vívidos no capítulo 12. Estas pragas não são a expressão da ira divina contra o pecado em geral, mas são o castigo por más ações individuais. A ira de Deus é derramada sobre aquele que quer frustrar o plano divino para o mundo — a besta — e sobre os que são leais a ela.

Entre os primeiros seis selos e o sétimo houve um interlúdio, e tam­bém entre as seis primeiras trombetas e a sétima. Nesta terceira série não há interrupção; o sétimo flagelo é a destruição de Babilônia, que veremos na próxima lição — a capital do império do Anticristo. O que o sétimo flagelo anuncia é descrito em detalhes nos dois capítulos seguintes. Estes flagelos são a resposta de Deus ao último e maior esforço de Satanás para derrubar o governo divino.




            Então começa a ira do Cordeiro.


 A ira de Deus

Sete anjos e sete pragas formam os meios de expressão da ira de Deus. A expressão “ira de Deus” ocorre seis vezes no Apocalipse (14:10, 19; 15:1, 7; 16:1, 19), é deveras medonha e devia infundir terror nos corações de todos os não-salvos da terra.

“Sete anjos” (distintos dos sete anjos altamente honrados e relacio­nados com as trombetas) saem do santuário (15:6), a residência imediata de Deus e dos anjos. Do santuário de outrora saíram os sacerdotes como ministros da graça. Agora os anjos emergem dele como ministros do juízo.

O tabernáculo do testemunho é uma frase sugestiva. Para Israel este era o símbolo da presença de Deus e de sua provisão para seu povo. Agora, porém, a santidade de Deus exige castigo do ímpio, e portanto, temos as “testemunhas” do juízo, segundo a natureza de Deus contra a besta e contra todos os inimigos de seu povo. David Brown diz: “Aqui entra em campo, de maneira adequada, o tabernáculo do testemunho, onde a fidelidade de Deus vinga seu povo com juízos sobre seus inimigos; juízos que estão prestes a se desencadear. Precisamos dar uma olhada no Santo dos Santos a fim de compreender a mola secreta e o fim do trato justo de Deus.

Estes sete anjos estão vestidos de maneira condizente com o caráter justo de sua missão, e também de maneira que se parece com o Senhor (1:13). Comparando com 19:8 descobrimos que o linho puro indica justiça, enquanto os cintos de ouro, à altura do peito, (não na cintura) sugerem a obra do juízo compatível com a natureza santa de Deus.

As “sete últimas pragas” sugerem finalidade e término, e assim a aparição do número sete é especialmente adequada. Chegamos ao ciclo final da visitação do juízo. É claro que as taças não trazem o fim da ira divina, como já vimos em ebdareiabranca, uma vez que mais ataques de vinganças devem ocorrer quando Cristo vier em pessoa (19:11-21). O que temos a esta altura é a conclusão dos juízos providenciais de Deus. Estas taças estão “cheias da ira de Deus”. “Cheias” significa terminado ou consumado. Para Deus o futuro é tão certo como se fosse passado, cuja realização é tão segura como a sua Palavra.

As Harpas de Deus

Este prefácio aos últimos juízos devastadores de Deus inclui uma linda descrição dos mártires vitoriosos que estão com o Senhor. O parágrafo de 15:2 a 15:4 é tomado de vitória, louvor e adoração.

Louvores corais celestes são representados pela harpa, que com sua combinação de notas solenes e grandes, acordes suaves e ternos indica o louvor e a adoração de Deus (1 Cr 25:6). As harpas de Deus (significando que os instrumentos, músicos e tema são dele) eram partes dos instrumentos do céu, usados somente para o louvor de Deus. Parece que os dois grupos celestes de cantores e harpistas mencionados em Apocalipse 14:2 e 15:2 representam a mesma hoste vitoriosa.

O palco no qual os harpistas se encontram é comparado a um mar de vidro misturado com fogo. No mar de vidro Walter Scott vê um estado fixo de santidade, de pureza interior e exterior. O mar sugere vastidão e vidro sugere calma sólida ou paz assentada e quieta.Diz Words­worth: “Um mar de vidro [expressa] suavidade e brilho; e este mar celeste é de cristal (4:6), declarando que a calma do céu não é como a dos mares terrenos, perturbada por ventos, mas cristalizada numa eternidade de paz.” Apresentada como se estivesse em pé sobre o mar de vidro, a companhia de mártires chegou ao seu descanso e também a esta nova posição como adoradores que venceram.

O mar de vidro misturado com fogo introduz outro elemento. Estes santos emergiram vitoriosos de sua tribulação de fogo. Temos três inimigos a enfrentar: o mundo, a carne e o diabo, mas os cantores tinham um quarto inimigo a derrotar: a besta. Foi alcançada a vitória sobre a besta, sobre sua imagem, sobre sua marca e sobre “o número do seu nome”, e agora eles triunfam por causa de uma vitória total e completa.

O cântico que acompanha as harpas tem o som de um grande poema. E um cântico de vitória como o de Moisés depois de atravessar o mar Vermelho. Dois cânticos são combinados: o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. O cântico de Moisés é o triunfo sobre o mal pelos juízos de Deus. É um cântico que celebra a derrota de Faraó e de suas hostes no mar Vermelho (Êx 15). (Este cântico mosaico não deve ser confundido com o cântico profético de Deuteronômio 32:1- 44.) O cântico de Moisés, magnífico como é, celebra apenas a redenção terrestre. A graça e glória do cântico que foi apresentado à margem leste do mar Vermelho eram associadas com o poder sobre os inimigos de Israel no Egito, pelos juízos de Deus.

O cântico do Cordeiro, entretanto, possui natureza diversa. Este cântico, dirigido pelo Cordeiro como Capitão de nossa salvação, implica a exaltação do Messias rejeitado, daquele que sofre. Cantado pelo remanescente fiel que morreu dentre o Israel infiel e apóstata, este cântico dos sofredores vitoriosos no céu celebra a Deus e ao Cordeiro.

Ao examinarmos os assuntos deste cântico duplo encontramos Deus exaltado de várias maneiras. Primeiramente, louvam-se as suasobras. A frase “grandes e admiráveis” é repetida em 15:1, 3, indicando a vingança da justiça de Deus, de modo que possa ser glorificado no grande final de suas lides. No título divino combinado Senhor Deus Todo-poderoso temos um vasto reservatório de poder—consolo para os santos e presságio para os inimigos de Deus.

Os caminhos de Deus são exaltados como “justos e verdadeiros”. Ao castigar seus inimigos Deus agirá em harmonia com seu próprio caráter. Este juízo imparcial será distribuído pelo “Rei dos séculos”. O ponto em questão da controvérsia do Senhor com a terra é se ele ou o homem de Satanás, a besta, é o rei das nações. Na véspera de as taças descerem sobre o reino da besta, os cantores vitoriosos saúdam o Senhor como o verdadeiro Rei das nações.

A adoração de Deus também contribui para este cântico admirável. Dão-se as razões pelas quais o Senhor deve ser glorificado: “Pois só tu és santo!

Os cantores sobre o mar de vidro celebram a santidade de Deus. Eles o temem e glorificam-no como o único digno de ser chamado santo. A besta colocou-se como Deus, mas o coro vitorioso escolheu a santidade em face de um mundo tomado pelo pecado e agora está onde reina toda a santidade verdadeira.

“Por isso todas as nações virão e se prostrarão diante de ti.” Os juízos de Deus infundirão temor em seus inimigos. Antecipando o domínio universal do Senhor, os santos celebram o reconhecimento mundial de sua supremacia. Vemos aqui o cumprimento de profecias tais como o Salmo 148; Isaías 2:2-4; 56:6, 7; Zacarias 14:16, 17.

“Porque os teus juízos são manifestos!” O plural, juízos, indica a manifestação dos atos justos do julgamento. E por ser ele justo ainda quando dispensa julgamento e vingança, deve ser glorificado. Estas são deveras palavras lindas que vêm dos que passaram pelos horrores do tormento da besta.

Comentando esta cena única, F. B. Meyer diz: “Os que foram criados na dispensação de Moisés e os seguidores do Cordeiro na presente dispensação, juntos com todas as almas dos santos que venceram, constituirão um vasto coro. Contudo, por mais que se examine o cântico de Moisés, não se conseguirá encontrar uma nota que iguale a este em sublimidade. Aqui estão os santos de Deus, treinados para distinguir as belezas do governo e comportamento justo e santo, capacitados do seu ponto de vantagem na eternidade a examinar a história inteira das lides divinas, adorando-o como Rei dos séculos, e reconhecendo que todos os seus caminhos foram justos e verdadeiros. Que confissão! Que reconhecimento!

A Glória de Deus

A seção final deste notável capítulo (15:5-8) é também introduzida por outro “eis” (omitido em várias versões). Este parágrafo se inicia com a habitação de Deus e se encerra com a glória divina. Visto como tudo no parágrafo está ligado com a glória de Deus, examinemos estes versículos com essa ideia em mente.

William Newell argumenta a favor de um santuário literal de Deus no céu, mas achamos que a palavra “santuário” é usada pelo que representa simbolicamente—a saber, habitação de Deus, onde pode ser encontrado e adorado. Do santuário saem os sete anjos com as sete pragas, que representam a visitação final de Deus de juízos sobre as nações.

A apresentação das taças aos anjos por um dos seres viventes indica que esses seres viventes são os executores do governo judicial de Deus. Sendo “cheios de olhos”, esses seres dignificados compreendem profundamente os propósitos de Deus, e portanto, apresentam aos anjos acontecimentos horríveis. Já foi salientado haver três passos na obra do juízo de Deus:

1.      Os anjos são comissionados e equipados no santuário (15:6).
2.      Os anjos recebem as taças de ouro cheias da ira de Deus de um dos seres viventes (15:7).
3.      Os anjos não podem dar um passo no ato do juízo até que Deus, com autoridade, dê a ordem (16:1).

Tudo isto sugere que as obras e caminhos de Deus ainda no juízo são calmos e medidos. E isto é o que esperaríamos daquele que “vive pelos séculos dos séculos”. É o Deus eterno que está prestes a lançar praga sobre a terra culpada, devastando-a com sua fúria. Nunca nos devemos esquecer de que ele é glorificado tanto no juízo como na graça.

Antes de deixarmos este capítulo preparatório somos apresentados à nuvem de fumaça de Deus que cobre tudo no santuário por um pouco de tempo. A fumaça, é claro, simboliza a presença de Deus (Êx 19:18; Is 6:4). Ninguém podia entrar no santuário por causa da presença de Deus manifestada em glória e poder durante a execução dos juízos das taças. Fumaça da glória e poder de Deus enchia o santuário. Moisés não podia entrar na tenda do testemunho (nem os sacerdotes entrar no santuário) por causa da glória do Senhor (Êx40:34, 35; 1 Rs 8:10, 11). O que temos aqui não é a glória em si mas a fumaça da glória de Deus. Não é o incenso que enche o santuário, mas fumaça, que é a glória de Deus manifestada em juízo. Certamente que há uma finalidade nesta cena toda que nos enche os corações do mais intenso assombro! Deus está prestes a lidar com os rebeldes da terra.

O versículo que abre o capítulo 16 é rico em significação. Primeiro temos “vinda do santuário, uma grande voz”, que tem sido interpreta­da de várias maneiras. É possível que se refira à voz de Deus, uma vez que agora chegamos às taças da sua ira. Cristo não é mencionado até que Deus, pessoalmente, execute o juízo. Como já sugerimos, o Apocalipse é o livro da voz, e sempre que se encontra a palavra “voz”, subentende-se uma compreensão inteligente do assunto em questão. Lemos de uma grande voz, de uma alta voz e de uma forte voz. Tais adjetivos descrevem o caráter da voz e também a natureza do anúncio.

Aqui, a grande voz sai do santuário, vinda do Santo dos Santos. Por exigir a santidade de Deus o juízo sobre um mundo apóstata, a ira de Deus queima com ardor feroz: “Ide. . . derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.” Foi dada a Cristo uma ordem diferente ao se preparar para deixar os seus: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda a criatura.” Mas agora a graça é retirada. Já não é a taça da salvação mas a taça da ira de Deus.

O Pentecoste testemunhou o derramamento do Espírito e com tal efusão houve a manifestação de uma bênção. Mas agora chegamos a outro derramamento: fúria sem mistura está prestes a descer sobre a terra. A plenitude da ira divina é esvaziada em cada taça, que por sua vez é derramada sobre um mundo culpado. A oração do remanescente judaico sofredor é respondida nas terríveis sete pragas prestes a cair: “E aos nossos vizinhos, deita-lhes no regaço, setuplicadamente, a injúria com que te injuriaram, Senhor” (Sl 79:12).

Temos, nas taças de ouro, um pouco mais de vislumbre da ira de Deus. A palavra para “taças” é “tigelas” ou “copos” e representa os vasos de boca larga usados no santuário, e que eram cheios de incenso aromático. Agora os vasos, santificados pelo uso do templo e serviço, estão cheios da ira justa de Deus e estão destinados ao juízo. E a largura da boca dos vasos tenderia a fazer com que seu conteúdo fosse derramado de uma só vez, implicando a rapidez avassaladora dos ais.

Desta ira dupla, diz William Newell: “Lembre-se constantemente que o próprio Cristo deve vir, afinal, e pisar o lagar sozinho em sua ira (Is 63:3-5). A ira de Deus é geral, mundial e à vista da iniquidade e idolatria do homem. A ira do Cordeiro é particular, contra o anticristo e seu rei, e contra os exércitos unidos com o duplo propósito de impedir Israel de ser uma nação (Sl 83:4) e de determinar guerra contra o Cordeiro (Ap 19:9; Zc 12:10) a fim de impedir que ele resgate o Israel sitiado.”

Estes dois capítulos devem ser estudados em conjunto porque provêm detalhes para o que se afirma em termos gerais nas palavras de abertura de 11:18: “Iraram-se, na verdade, as nações; então veio a tua ira e o tempo de serem julgados os mortos. . .” no capítulo 15 são-nos dadas as preparações para as taças e no capítulo 16 a execução delas.

O sinal ou maravilha do capítulo 15 estende-se até o final do capítulo 16. De fato, 15:1 é resumo de tudo o que se segue. Os anjos, na realidade, não recebem as taças até 15:7, mas no versículo inicial são vistos, por antecipação, como já as possuindo. Neste grande e maravilhoso sinal que João viu temos a finalização de um trio de sinais. O “grande sinal” da mulher (Israel) é apresentado em 12:1. “Outro sinal”, do dragão, o antagonista de Cristo e seus conselhos, é apresentado em 12:3. E aqui temos “no céu ainda outro sinal, grande e admirável”. Os três sinais são vistos no céu, o lugar da habitação imediata de Deus. O terceiro sinal (mais solene do que os dois primeiros por causa de sua associação com a ira de Deus sobre a besta) é “grande” em que algo de importância enorme deve ser revelado. “Admirável” indica que a paciência divina se esgotou, e que a visitação
terrível do juízo divino está prestes a sobrevir aos apóstatas da terra.

Parece que o conteúdo do capítulo 15 gira em torno de três frases de peso: a ira de Deus (15:1, 7), as harpas de Deus (15:2) e a glória de Deus (15:8).

A ira de Deus

Sete anjos e sete pragas formam os meios de expressão da ira de Deus. A expressão “ira de Deus” ocorre seis vezes no Apocalipse (14:10, 19; 15:1, 7; 16:1, 19), é deveras medonha e devia infundir terror nos corações de todos os não-salvos da terra.

“Sete anjos” (distintos dos sete anjos altamente honrados e relacio­nados com as trombetas) saem do santuário (15:6), a residência imediata de Deus e dos anjos. Do santuário de outrora saíram os sacerdotes como ministros da graça. Agora os anjos emergem dele como ministros do juízo.

O tabernáculo do testemunho é uma frase sugestiva. Para Israel este era o símbolo da presença de Deus e de sua provisão para seu povo. Agora, porém, a santidade de Deus exige castigo do ímpio, e portanto, temos as “testemunhas” do juízo, segundo a natureza de Deus contra a besta e contra todos os inimigos de seu povo. David Brown diz: “Aqui entra em campo, de maneira adequada, o tabernáculo do testemunho, onde a fidelidade de Deus vinga seu povo com juízos sobre seus inimigos; juízos que estão prestes a se desencadear. Precisamos dar uma olhada no Santo dos Santos a fim de compreender a mola secreta e o fim do trato justo de Deus.

Estes sete anjos estão vestidos de maneira condizente com o caráter justo de sua missão, e também de maneira que se parece com o Senhor (1:13). Comparando com 19:8 descobrimos que o linho puro indica justiça, enquanto os cintos de ouro, à altura do peito, (não na cintura) sugerem a obra do juízo compatível com a natureza santa de Deus.

As “sete últimas pragas” sugerem finalidade e término, e assim a aparição do número sete é especialmente adequada. Chegamos ao ciclo final da visitação do juízo. É claro que as taças não trazem o fim da ira divina, como já vimos em ebdareiabranca, uma vez que mais ataques de vinganças devem ocorrer quando Cristo vier em pessoa (19:11-21). O que temos a esta altura é a conclusão dos juízos providenciais de Deus. Estas taças estão “cheias da ira de Deus”. “Cheias” significa terminado ou consumado. Para Deus o futuro é tão certo como se fosse passado, cuja realização é tão segura como a sua Palavra.

As Harpas de Deus

Este prefácio aos últimos juízos devastadores de Deus inclui uma linda descrição dos mártires vitoriosos que estão com o Senhor. O parágrafo de 15:2 a 15:4 é tomado de vitória, louvor e adoração.

Louvores corais celestes são representados pela harpa, que com sua combinação de notas solenes e grandes, acordes suaves e ternos indica o louvor e a adoração de Deus (1 Cr 25:6). As harpas de Deus (significando que os instrumentos, músicos e tema são dele) eram partes dos instrumentos do céu, usados somente para o louvor de Deus. Parece que os dois grupos celestes de cantores e harpistas mencionados em Apocalipse 14:2 e 15:2 representam a mesma hoste vitoriosa.

O palco no qual os harpistas se encontram é comparado a um mar de vidro misturado com fogo. No mar de vidro Walter Scott vê um estado fixo de santidade, de pureza interior e exterior. O mar sugere vastidão e vidro sugere calma sólida ou paz assentada e quieta.Diz Words­worth: “Um mar de vidro [expressa] suavidade e brilho; e este mar celeste é de cristal (4:6), declarando que a calma do céu não é como a dos mares terrenos, perturbada por ventos, mas cristalizada numa eternidade de paz.” Apresentada como se estivesse em pé sobre o mar de vidro, a companhia de mártires chegou ao seu descanso e também a esta nova posição como adoradores que venceram.

O mar de vidro misturado com fogo introduz outro elemento. Estes santos emergiram vitoriosos de sua tribulação de fogo. Temos três inimigos a enfrentar: o mundo, a carne e o diabo, mas os cantores tinham um quarto inimigo a derrotar: a besta. Foi alcançada a vitória sobre a besta, sobre sua imagem, sobre sua marca e sobre “o número do seu nome”, e agora eles triunfam por causa de uma vitória total e completa.

O cântico que acompanha as harpas tem o som de um grande poema. E um cântico de vitória como o de Moisés depois de atravessar o mar Vermelho. Dois cânticos são combinados: o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. O cântico de Moisés é o triunfo sobre o mal pelos juízos de Deus. É um cântico que celebra a derrota de Faraó e de suas hostes no mar Vermelho (Êx 15). (Este cântico mosaico não deve ser confundido com o cântico profético de Deuteronômio 32:1- 44.) O cântico de Moisés, magnífico como é, celebra apenas a redenção terrestre. A graça e glória do cântico que foi apresentado à margem leste do mar Vermelho eram associadas com o poder sobre os inimigos de Israel no Egito, pelos juízos de Deus.

O cântico do Cordeiro, entretanto, possui natureza diversa. Este cântico, dirigido pelo Cordeiro como Capitão de nossa salvação, implica a exaltação do Messias rejeitado, daquele que sofre. Cantado pelo remanescente fiel que morreu dentre o Israel infiel e apóstata, este cântico dos sofredores vitoriosos no céu celebra a Deus e ao Cordeiro.

Ao examinarmos os assuntos deste cântico duplo encontramos Deus exaltado de várias maneiras. Primeiramente, louvam-se as suasobras. A frase “grandes e admiráveis” é repetida em 15:1, 3, indicando a vingança da justiça de Deus, de modo que possa ser glorificado no grande final de suas lides. No título divino combinado Senhor Deus Todo-poderoso temos um vasto reservatório de poder—consolo para os santos e presságio para os inimigos de Deus.

Os caminhos de Deus são exaltados como “justos e verdadeiros”. Ao castigar seus inimigos Deus agirá em harmonia com seu próprio caráter. Este juízo imparcial será distribuído pelo “Rei dos séculos”. O ponto em questão da controvérsia do Senhor com a terra é se ele ou o homem de Satanás, a besta, é o rei das nações. Na véspera de as taças descerem sobre o reino da besta, os cantores vitoriosos saúdam o Senhor como o verdadeiro Rei das nações.

A adoração de Deus também contribui para este cântico admirável. Dão-se as razões pelas quais o Senhor deve ser glorificado: “Pois só tu és santo!

Os cantores sobre o mar de vidro celebram a santidade de Deus. Eles o temem e glorificam-no como o único digno de ser chamado santo. A besta colocou-se como Deus, mas o coro vitorioso escolheu a santidade em face de um mundo tomado pelo pecado e agora está onde reina toda a santidade verdadeira.

“Por isso todas as nações virão e se prostrarão diante de ti.” Os juízos de Deus infundirão temor em seus inimigos. Antecipando o domínio universal do Senhor, os santos celebram o reconhecimento mundial de sua supremacia. Vemos aqui o cumprimento de profecias tais como o Salmo 148; Isaías 2:2-4; 56:6, 7; Zacarias 14:16, 17.

“Porque os teus juízos são manifestos!” O plural, juízos, indica a manifestação dos atos justos do julgamento. E por ser ele justo ainda quando dispensa julgamento e vingança, deve ser glorificado. Estas são deveras palavras lindas que vêm dos que passaram pelos horrores do tormento da besta.

Comentando esta cena única, F. B. Meyer diz: “Os que foram criados na dispensação de Moisés e os seguidores do Cordeiro na presente dispensação, juntos com todas as almas dos santos que venceram, constituirão um vasto coro. Contudo, por mais que se examine o cântico de Moisés, não se conseguirá encontrar uma nota que iguale a este em sublimidade. Aqui estão os santos de Deus, treinados para distinguir as belezas do governo e comportamento justo e santo, capacitados do seu ponto de vantagem na eternidade a examinar a história inteira das lides divinas, adorando-o como Rei dos séculos, e reconhecendo que todos os seus caminhos foram justos e verdadeiros. Que confissão! Que reconhecimento!

A Glória de Deus

A seção final deste notável capítulo (15:5-8) é também introduzida por outro “eis” (omitido em várias versões). Este parágrafo se inicia com a habitação de Deus e se encerra com a glória divina. Visto como tudo no parágrafo está ligado com a glória de Deus, examinemos estes versículos com essa ideia em mente.

William Newell argumenta a favor de um santuário literal de Deus no céu, mas achamos que a palavra “santuário” é usada pelo que representa simbolicamente—a saber, habitação de Deus, onde pode ser encontrado e adorado. Do santuário saem os sete anjos com as sete pragas, que representam a visitação final de Deus de juízos sobre as nações.

A apresentação das taças aos anjos por um dos seres viventes indica que esses seres viventes são os executores do governo judicial de Deus. Sendo “cheios de olhos”, esses seres dignificados compreendem profundamente os propósitos de Deus, e portanto, apresentam aos anjos acontecimentos horríveis. Já foi salientado haver três passos na obra do juízo de Deus:

1.      Os anjos são comissionados e equipados no santuário (15:6).
2.      Os anjos recebem as taças de ouro cheias da ira de Deus de um dos seres viventes (15:7).
3.      Os anjos não podem dar um passo no ato do juízo até que Deus, com autoridade, dê a ordem (16:1).

Tudo isto sugere que as obras e caminhos de Deus ainda no juízo são calmos e medidos. E isto é o que esperaríamos daquele que “vive pelos séculos dos séculos”. É o Deus eterno que está prestes a lançar praga sobre a terra culpada, devastando-a com sua fúria. Nunca nos devemos esquecer de que ele é glorificado tanto no juízo como na graça.

Antes de deixarmos este capítulo preparatório somos apresentados à nuvem de fumaça de Deus que cobre tudo no santuário por um pouco de tempo. A fumaça, é claro, simboliza a presença de Deus (Êx 19:18; Is 6:4). Ninguém podia entrar no santuário por causa da presença de Deus manifestada em glória e poder durante a execução dos juízos das taças. Fumaça da glória e poder de Deus enchia o santuário. Moisés não podia entrar na tenda do testemunho (nem os sacerdotes entrar no santuário) por causa da glória do Senhor (Êx40:34, 35; 1 Rs 8:10, 11). O que temos aqui não é a glória em si mas a fumaça da glória de Deus. Não é o incenso que enche o santuário, mas fumaça, que é a glória de Deus manifestada em juízo. Certamente que há uma finalidade nesta cena toda que nos enche os corações do mais intenso assombro! Deus está prestes a lidar com os rebeldes da terra.

O versículo que abre o capítulo 16 é rico em significação. Primeiro temos “vinda do santuário, uma grande voz”, que tem sido interpreta­da de várias maneiras. É possível que se refira à voz de Deus, uma vez que agora chegamos às taças da sua ira. Cristo não é mencionado até que Deus, pessoalmente, execute o juízo. Como já sugerimos, o Apocalipse é o livro da voz, e sempre que se encontra a palavra “voz”, subentende-se uma compreensão inteligente do assunto em questão. Lemos de uma grande voz, de uma alta voz e de uma forte voz. Tais adjetivos descrevem o caráter da voz e também a natureza do anúncio.

Aqui, a grande voz sai do santuário, vinda do Santo dos Santos. Por exigir a santidade de Deus o juízo sobre um mundo apóstata, a ira de Deus queima com ardor feroz: “Ide. . . derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.” Foi dada a Cristo uma ordem diferente ao se preparar para deixar os seus: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda a criatura.” Mas agora a graça é retirada. Já não é a taça da salvação mas a taça da ira de Deus.

O Pentecoste testemunhou o derramamento do Espírito e com tal efusão houve a manifestação de uma bênção. Mas agora chegamos a outro derramamento: fúria sem mistura está prestes a descer sobre a terra. A plenitude da ira divina é esvaziada em cada taça, que por sua vez é derramada sobre um mundo culpado. A oração do remanescente judaico sofredor é respondida nas terríveis sete pragas prestes a cair: “E aos nossos vizinhos, deita-lhes no regaço, setuplicadamente, a injúria com que te injuriaram, Senhor” (Sl 79:12).

Temos, nas taças de ouro, um pouco mais de vislumbre da ira de Deus. A palavra para “taças” é “tigelas” ou “copos” e representa os vasos de boca larga usados no santuário, e que eram cheios de incenso aromático. Agora os vasos, santificados pelo uso do templo e serviço, estão cheios da ira justa de Deus e estão destinados ao juízo. E a largura da boca dos vasos tenderia a fazer com que seu conteúdo fosse derramado de uma só vez, implicando a rapidez avassaladora dos ais.

A Primeira Taça  Sobre a Terra (16:2)

Há algo de expressivo na execução das sete pragas. As taças, como um todo, implicam ação rápida. Golpeando, como relâmpago, destroem o reino da besta, que havia tomado para si mesma o reino do mundo. Destruição repentina sobrevirá à besta e aos seus adoradores, e não poderão escapar.

Os juízos das trombetas limitam-se, mais ou menos, ao mundo romano, mas os juízos das taças hão de cobrir a terra e devem constituir a guerra total de Deus sobre o mundo. As taças são a resposta de Deus a Satanás e destruirão seu império. Nas trombetas, o poder de Satanás é liberado a fim de dar andamento a seus objetivos. Nas taças, Deus desencadeia todo o seu poder a fim de pôr termo à obra sombria de Satanás. Entrega a seus anjos controle direto sobre todas as forças naturais, e esses anjos, por sua vez, executam o julgamento que está escrito.

Na primeira taça da ira vemos uma praga parecida com a sexta praga egípcia (Êx 9:8-12), a primeira a afligir os corpos dos egípcios. David Brown afirma: “A razão pela qual a sexta praga egípcia aqui é a primeira é por ter sido dirigida contra os magos egípcios, Janes eJambres, para que não pudessem permanecer na presença de Moisés; de forma que aqui a praga é enviada sobre os que na adoração à besta haviam praticado a feitiçaria. Assim como se submeteram à marca da besta, da mesma forma devem levar a marca do Deus vingador.

Neste sentido, ficamos a imaginar se “a chaga ruim e maligna” não afligirá a parte do corpo que leva a marca da besta—a saber, a fronte e a palma da mão. “Sofrimento físico, sem dúvida, adicionar-se-á à angústia dos homens, mas as feições principais e predominantes será o trato judicial com a alma e com a consciência—sofrimento que excede de muito qualquer aflição corporal.” Mas certamente não podemos afastar-nos das chagas literais—feridas ruins, malignas e supuradas!

A palavra usada para “chaga” significa uma úlcera feia que se extravasa de forma altamente ofensiva. Em Êxodo 9:8 Moisés e Arão jogaram cinzas da fornalha para o alto, à vista de Faraó, as quais desceram sobre homens e animais na forma de terríveis tumores. Tanto aquelas pragas como estas devem ser tomadas literalmente, como prova o fato de as feridas medonhas da primeira taça ainda estarem sobre os homens na quinta taça das trevas, onde lemos de “dores e chagas” (16:11). Estas feridas abertas indicam desesperança e também horripilância; elas são incuráveis (Dt 28:27, 35) e devem ser suportadas como prenúncio da angústia do inferno.

A Segunda Taça  No Mar (16:3)

Uma feição notável das sete taças não somente é sua semelhança com as pragas do Egito, mas também com as das trombetas. Nas taças, entretanto, não há o julgamento limitado das trombetas. Nesta segunda taça da ira temos um quadro de um homem assassinado e ensopando-se em seu próprio sangue. O mar e tudo o que nele há tornou-se “como um cadáver deitado em seu próprio sangue coagula­do”. Sob a terceira trombeta apenas a terceira parte do mar tornou-se em sangue (8:8), contudo aqui a destruição não é parcial, mas completa. Terminados os juízos, sobrarão poucas pessoas para entrarem no milênio.

E por que o mar cobre maior porção da terra, esta praga será largamente difundida em seu poder de acarretar a morte. Sangue, a marca vívida e terrível da morte, foi derramado abundantemente pela besta. Mas agora o sangue dos mártires há de ser vingado. A besta começa a colher o que semeou.

É sangue por sangue! Não há palavras para descrever a condição terrível das coisas enquanto milhões de criaturas marinhas mortas cobrem a superfície dos oceanos. O mau cheiro destas carcaças horríveis e putrefatas será grande demais. Com todos os seres viventes marinhos mortos, quanto de poluição e doença conterá tal mar de sangue!

A Terceira Taça  Nos Rios (16:4-7)

O terceiro anjo, presidindo sobre as águas, derrama sua taça nos rios e nas fontes das águas, isto é, as fontes do mar. Todas as fontes de progresso e bem-estar nacional entram em juízo porque o comércio e a vida, em geral, dependem dos rios, canais e fontes. Rejeitamos a aplicação inteiramente simbólica de “rios” como a vida comum da nação caracterizada por princípios reconhecidos e aceitos de governo, e “fontes das águas” como as fontes de prosperidade e bem-estar transformadas em sangue (envenenado moralmente). Sustentamos que o anjo da guarda que controla as águas as poluirá num instante.

Dois anjos aparecem nesta declaração dos juízos justos, recíprocos e retributivos de Deus. Primeiro, o anjo das águas (16:4) usa a expressão peculiar da eternidade de Deus—“que és e que eras”. Como o Justo, Deus não exagera no mínimo grau a medida justa de juízo estrito. Os apóstatas haviam derramado o sangue dos santos e dos profetas, e agora a justiça retributiva opera à medida que os assassinos do povo de Deus são forçados a beber a água tornada em sangue. Recebem terrível condenação. São dignos de morte medonha, que agora aparece como amostra da segunda morte no lago do fogo.

Refere-se ao segundo anjo como o anjo do altar (16:7). Mais corretamente, é o próprio altar que fala. A primeira parte do versículo 7 pode ser traduzida por “ouvi o altar [personificado], dizendo”. Neste altar, as orações dos santos são oferecidas a Deus, e debaixo dele encontram-se as almas dos mártires que clamam por vingança sobre seus inimigos e sobre os inimigos de Deus. Assim o anjo e o altar, representando o céu inteiro, admitem que os juízos de Deus são justos e verdadeiros. Todos, dentro do santuário celeste, estão do lado de Deus à medida que ele age como o grande vingador dos seus. Os clamores dos altares desde a época de Abel agora serão vingados para sempre (Mt 23:35).

A Quarta Taça  Sobre o Sol (16:8, 9)

Sob a quarta trombeta escurece-se a terça parte do sol (8:12), mas aqui o poder abrasador do sol intensifica-se. “Foi-lhe permitido que abrasasse os homens com fogo.” Esta há de ser a bomba H de Deus. Não interpretamos o sol simbolicamente nesta passagem (como autoridade suprema governamental representada pelo mundo romano revivificado), mas como o sol real, de cujo calor nada pode escapar (Sl 19:1-6). Tendo controle completo sobre suas obras criadas, Deus intensifica o calor do sol e com isso causa grande morticínio. Descrevendo o grande e terrível dia do Senhor, o profeta Joel declarou:

O sol e a lua escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor (Jl 2:10).

Sob a primeira trombeta as árvores e a relva verde foram queima­das, mas agora Deus aplica sua política da terra abrasada aos corpos dos homens. Podemos nós imaginar a angústia terrível que as multidões experimentarão ao serem abrasadas por esse calor intenso? A versão de Almeida traduz bem a ênfase do grego, ao dizer: “Os homens foram abrasados com grande calor”—isto é, aqueles homens que em 16:2 são descritos como possuindo a marca da besta. Assim como aconteceu com as pragas do Egito, aqui também, nestas pragas do juízo, o povo de Deus fica imune. Assim como os três jovens hebreus foram preservados na fornalha de fogo, assim também o remanescente será protegido por Deus (Ap 7:16; Dn 3:27).

E como o coração de Faraó foi endurecido a despeito da amostra do poder absoluto de Deus sobre sua criação, assim também aqui o sofrimento físico extremo falha em produzir qualquer mudança de coração: “Não se arrependeram para lhe darem glória.” Em vez de serem esmagados pelos juízos de Deus e clamar por misericórdia, estes homens apenas blasfemaram o seu nome. O castigo merecido engrossa os lábios e endurece o coração; os fogos dos juízos falham em purificar. Por ser a bondade da graça que leva ao arrependimento (Rm 2:4), os homens que não são ganhos por meio da graça jamais serão ganhos.

Podemos apenas especular sobre o que poderia ter acontecido se tivesse havido arrependimento santo da parte destes homens com sua carne em fogo. Teria Deus, com autoridade sobre as pragas, parado a tempestade de sua ira e uma vez mais abençoado os arrependidos com seu favor? A tragédia será a falta absoluta de humildade e pesar da parte do homem pelo pecado. Um juízo duplo como o calor abrasador e ausência de água potável falhará em produzir qualquer mudança de coração. Por ser este povo réprobo por completo, Deus os abandonará.

A Quinta Taça  Sobre o Trono da Besta (16:10, 11)

Nesta quinta taça da ira, o juízo se derrama sobre o trono da besta que foi erigido em imitação arrogante do trono de Deus. O dragão deu seu trono para a besta (13:2). A obra-prima de Satanás agora é ferida no centro e sede do seu poder. A besta, uma pessoa real, como instrumento de Satanás, está condenada. E está claro que os súditos deste reino de imitação, e também seus executivos, sentem o golpe da vingança divina. William Newell sugere que o trono da besta será a Babilônia reconstruída no rio Eufrates—a antiga capital de Satanás na terra de Sinar, onde a maldade deve receber “uma casa” no final dos tempos (Zc 5:5-11).

Finalmente o desafio ímpio e insolente: “Quem é semelhante à besta? quem poderá batalhar contra ela?” (13:4) é para sempre respondido. Sob o domínio da besta, Satanás constrói um vasto império, mas Deus não há de ficar para trás: fere o reino da besta com a escuridão. Porque amaram mais as trevas do que a luz, escuridão tão negra como a da praga dos egípcios (Êx 10:21-23) agora sobrevêm aos seguidores da besta. Esta horrível escuridão sugere as trevas que devem suportar para sempre.

Tais trevas sem alívio fazem com que os homens mordam de dor as suas línguas. Este juízo parece acontecer simultaneamente com os efeitos das pragas anteriores. As dores e chagas da primeira taça tornam-se mais assustadoras pelas trevas. William Ramsay lembra-nos que a expressão “mordiam de dor as suas línguas” é única na Bíblia e indica uma agonia mais intensa e excruciante. Tal ação sugere ira por causa da desilusão de suas esperanças e da derrocada de seu governante e reino. Planejam vingança mas não a podem efetuar; daí a sua fúria. Sofrendo angústia mental e física, mordem os lábios e línguas.

É interessante notar que a parte do corpo com a qual estes rebeldes pecaram é a mesma que agora sofre a angústia. Blasfemaram o Deus do céu, Aquele que controla a luz e a escuridão. Juras terríveis procederam de seus lábios contra o nome de Deus e contra o próprio Deus. Agora estes blasfemadores mordem as línguas!

Até mesmo o acúmulo de pragas, em vez de mera sucessão, falha em produzir mudança de coração, pois lemos de novo que não se arrependeram de seus feitos. Sua vontade está indomada. Não correm lágrimas de penitência. Abandonados aos seus feitos malignos, golpes ainda mais pesados devem descer de Deus a fim de quebrar-lhes a vontade obstinada.

Devemos salientar que esta taça da escuridão não deve ser confundi­da com o escurecimento dos corpos celestes logo antes da aparição de Cristo em 19:11-16. O que vemos nesta quinta taça é um dos sinais que nosso Senhor deu em sua descrição do período da Tribulação (Lc 21:8-38). Para o remanescente na terra haverá luz bastante, assim como Israel teve luz em suas habitações durante as pragas egípcias.

A Sexta Taça  Sobre o Rio Eufrates (16:12-16)

O sexto flagelo (16:12-16).

12. Derramou o sexto a sua taça sobre o grande rio Eufrates, cujas águas secaram para que se preparasse o caminho dos reis que vêm do lado do nascimento do sol. Este flagelo é diferente dos outros, porque não in­flige uma praga sobre a humanidade, mas serve de preparo para a batalha final. Ele é semelhante à sexta trombeta, quando quatro anjos foram soltos de além do rio Eufrates, para liderar uma invasão de exércitos praticamen­te incontáveis de cavalaria demoníaca, que matou a terça parte da raça humana (9:13-19). Vimos que no Antigo Testamento o rio Eufrates é o limite da terra prometida, e atrás dele hordas de pagãos aguardavam por uma oportunidade de invadir o povo de Deus (veja 9:14). Os profetas às vezes viam o rio Eufrates secar como prelúdio para o momento em que Deus reunirá seu povo disperso em seu próprio país (Is 11:15-16,4 Esdras 13:14). No presente exemplo o rio seco representa simbolicamente a remoção da barreira que retinha as hordas pagãs.

“Os reis que vêm do lado do nascimento do sol” não são definidos com mais detalhes, nem sua função é identificada. Alguns comentadores veem aqui um conflito civil entre os reis do oriente e os reis do mundo todo (v. 14), mas no texto não há nenhum indício disto. A conclusão mais natural é que os reis do oriente — as hordas pagãs — reúnem suas forças às dos reis do mundo (civilizado) todo, para combater o Messias, porque estamos claramente diante da “peleja do grande dia do Deus Todo-poderoso” (v. 14). Mais adiante lemos que a besta é auxiliada por “dez reis, os quais ainda não receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a besta, durante uma hora” (17:12). Junto com a besta eles combatem o Cordeiro (17:14). Estes dez reis podem ser os reis do oriente, como também os reis do mundo todo. Em qualquer caso João prevê uma confederação de dois grupos de reis que auxiliam a besta no combate com o Cordeiro.

Muitos comentadores afirmam — como se isto fosse evidente no tex­to — que os reis do oriente são os partos, que agora invadem o mundo civilizado sob a liderança de Nero redivivus. Isto, porém, é pura especulação. Conforme a lenda, Nero reconquistaria Roma; nesta passagem os reis se aliam ao Anticristo para se oporem ao Todo-poderoso. Se a alusão fosse à lenda do Nero redivivus, a besta como líder deveria vir do oriente, enquanto que no texto ela já tem seu trono em Babilônia e aceita ajuda destes reis estrangeiros.

13. Os “reis que vêm do leste” de repente desaparecem da narrativa, que continua falando do dragão e da besta. Pela primeira vez aparece o termo falso profeta; ele é a segunda besta que surgiu da terra para dar apoio à besta em suas exigências blasfemas. Os três espíritos imundos semelhantes a rãs, saindo da boca dele, são a maneira de João descrever a inspiração demoníaca dos inimigos de Deus na grande batalha final. Ao soar da sexta trombeta veio do oriente uma praga terrível afligir os ho­mens, matando a terça parte da humanidade. Aqui o quadro é diferente; os espíritos maus não afligem as pessoas, mas as inspiram para que se aliem ao dragão, à besta e ao falso profeta. João quer dizer que este movimento não é meramente político ou militar, mas uma manifestação escatológica histórica da luta secular entre Deus e Satanás. A palavra traduzida “imundos” é a mesma usada tantas vezes nos evangelhos para se referir a demônios como espíritos imundos (Mc 1:23; 3:11; 5:2). Eles são semelhantes a rãs talvez para manter a analogia com a praga das rãs no Egito (Êx 8:6).

14. Porque eles são espíritos de demônios pode ser traduzido melhor por “porque eles são espíritos demoníacos”. Demônios são seres espiri­tuais, por isso não podemos dizer que eles têm espíritos; eles são espíritos. Para os reis do mundo inteiro veja o comentários ao v.12. João antevê uma aliança de governadores humanos, inspirados por demônios, que com­baterão o Messias.

A peleja do grande dia do Deus Todo-poderoso não é uma frase comum na Bíblia. As expressões comuns são o dia do Senhor (veja 1 Ts 5:2), o dia de Cristo (Fp 1:10), ou o dia do Senhor Jesus Cristo (1 Co 1:8). Alguns intérpretes tentam encontrar alguma diferença de significado en­tre estes termos, como se representassem dias diferentes, mas isto é impos­sível. Na verdade são tão iguais e cambiáveis que somente a palavra “o dia”, ou “aquele dia”, sem adjetivos, pode ser usada para designar o úl­timo dia (l Co 3:13; 2 Ts 1:10). O evangelho de João refere-se com frequência ao “último dia” (Jo 6:39; 11:24; 12:48). Pedro fala do “dia de Deus” (Pe 3:12). O dia do Senhor é o momento em que todo o plano redentor de Deus estará consumado, de salvação e julgamento, tanto de indivíduos, como da igreja, e de toda a criação. João vê o ódio que se expressou durante os séculos da história humana em termos de hostilidade e perseguição ao povo de Deus chegando ao “grand finale”, quando todos os que governam a terra se juntam para uma batalha derradeira. Os profetas do Antigo Tes­tamento falaram muito de uma batalha como esta, entre o povo de Deus e seus vizinhos pagãos (Sl 2:2-3; Is 5:26-30; Jr 6:1-5; Ez 38; J13:9-15).

15. À vista da crise iminente representada pela batalha entre Deus e as forças do mal o próprio Jesus diz uma palavra à igreja, para advertir seu povo e lhes falar da realidade que há por trás dos acontecimentos históricos imediatos. A guerra dos reis aliados, sob a liderança do Anticristo, não é a última realidade: é o fato da volta do Senhor. É neste evento que a esperan­ça dos santos se concentra. Este versículo é uma interrupção da passagem, para proporcionar à igreja a perspectiva correta.

Ele virá como vem o ladrão. Outras passagens do Novo Testamento comparam a vinda de Jesus com a de um ladrão (veja 3:3). A ideia não é de astúcia, nem da surpresa da volta do Senhor, mas de que ela não é esperada. Paulo diz que Cristo vem como ladrão (Ts 5:2), mas isto somente em relação aos que não estão preparados: “Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse dia como ladrão vos apanhe de surpresa” (1 Ts 5:4). Para os que estão despertos, atentos, sua vinda não será surpresa, inesperada, mas uma libertação feliz da situação trágica do mundo em que se encontram... João presume que estas pessoas estarão vigiando. Esta tradução não deixa bem claro o significado do grego. Em português “vigiar” significa estar concentrado em um objeto, não dei­xando que nada desvie nossa atenção. Talvez este seja o argumento mais eficiente para a volta do Senhor “a qualquer momento”, isto é, antes da tribulação. É impossível “vigiar” a não ser que o acontecimento esperado possa acontecer a qualquer hora, ou seja, antes da grande tribulação. O termo grego, no entanto, significa simplesmente “estar desperto”. Jesus exorta seus discípulos a estarem acordados, porque não podem saber quando ele voltará (Mt 24:42). Ele ilustrou isto dizendo: "Mas considerai isto: Se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria (isto é, ficaria acordado) e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso ficai também vós apercebidos; Porque, à hora em que não cuidais, o Filho do homem virá” (Mt 24:43-44). A ênfase é colocada integralmente sobre a volta imprevista do Senhor, e por causa desta época de incerteza os crentes nunca podem se acomodar e dormir, têm de estar sempre acor­dados. Dormir significa dizer: “Paz e segurança” (Ts 5:3), quer dizer, perder de vista as coisas verdadeiramente importantes da vida e pensar que a segurança pode ser encontrada a nível humano, em vez de em ter­mos de nosso relacionamento com Cristo. Para estes “sobrevirá repen­tina destruição, como vem a dor do parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão” (1 Ts 5:3). No presente contexto João pre­sume que a igreja não perdeu a perspectiva e não perdeu de vista os valores espirituais realmente importantes, apesar de a besta reinar em triunfo sobre as nações.

A advertência guarda as suas vestes, para não andar nu, e não se veja a sua vergonha não é terminologia muito usada, mas o significado é claro. A igreja de Laodicéia tinha sido advertida contra pobreza e nudez espiritual, e aconselhada a comprar “vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez” (3:18). Isto é uma exortação ao zelo espiritual.

16. Então os ajuntaram no lugar que em hebraico se chama Armagedom. Depois de exortar a igreja a ficar desperta, João conclui a narrativa dos espíritos imundos que reúnem os reis da terra para a batalha, acrescentando que eles os trazem a um lugar chamado Armagedom. Isto são preparativos da batalha que será descrita em 19:11ss., quando Cristo vem como guerreiro vitorioso para derrotar seus inimigos.

A palavra “Armagedom” é difícil de interpretar; o equivalente em hebraico seria har megiddon — a montanha de Megido. O problema é que Megido não é uma montanha, mas uma planície, localizada entre o lado da Galiléia e o mar Mediterrâneo, parte do vale do Jezreel(ou Esdraelon). É um campo de batalha famoso na história de Israel. Foi em Megido que Baraque e Débora derrotaram Jabim, o canaanita (Jz 5:19); ali morreu Acazias, rei de Judá, ferido por Jeú (2 Rs 9:27) e Josias, na batalha contra o faraó Neco (2 Rs 23:29; 2 Cr 35:22). Não está claro por que João fala da montanha de Megido; R. H. Charles diz que até agora ninguém deu uma interpretação convincente a esta passagem; ela não aparece na literatura hebraica. Charles sugere que a referência à montanha como lugar da batalha final seja tirada de Ez 38:8,21; 39:2,4,17, onde o profeta vê uma batalha escatológica sobre as montanhas de Israel. Seja qual for a origem do termo, está claro que com Armagedom João quer dizer o lugar da batalha final entre os poderes do mal e o Reino de Deus.notas Eld Ladd,coment.do apocalipse,1990) 


Os eruditos divergem na interpretação desta passagem. Certo comentarista sugere que o secar do rio Eufrates é uma figura da própria Babilônia, situada às suas margens. Mas nada se encaixará no contexto a não ser o rio Eufrates tomado literalmente, cuja largura forma grande barreira, difícil de ser transposta tanto por indivíduos como por exércitos. A secagem deste rio permitirá aos exércitos asiáticos (descritos no capítulo 19) marchar sem impedimento à Terra Prometida, da qual o rio Eufrates é a fronteira leste.

O importante a ser lembrado é que tanto o rio Nilo (Is 11:15) como o Eufrates devem secar-se literalmente. Assim, os limites ocidental e oriental de Israel estarão abertos aos invasores, e Israel estará desprotegida aos ataques de todos os lados. Com a secagem do rio Eufrates, os exércitos orientais sob seus respectivos reis então alcançarão seu objetivo.

Estes reis, que vêm “do oriente”, marcharão sem impedimento algum contra a Terra Prometida. Como o emblema nacional do Japão é o sol nascente, pode ser que essa nação agressiva partilhe no avanço das hordas asiáticas. Não é terrível a ideia de que incontáveis milhões de asiáticos hão de cruzar o leito seco do Eufrates e unir forças com a besta contra Israel? Tal ímpeto de nações unidas antes do grande dia da ira é medonho ao extremo. Cegamente, correm para o morticínio por atacado, quando o sangue chegará aos freios dos cavalos.

Note-se o uso frequente de “grande” neste capítulo. Mediante o ministério milagroso da besta, as multidões estarão acostumadas a grandes coisas. Sensacionalismo estará na ordem do dia. Grandes acontecimentos, com suas influências enganadoras, serão ocorrências diárias. Mas o próprio Deus dará ao povo algumas “grandes” coisas; não para prazer, mas para disciplina:

Uma grande voz (16:1)
Um grande calor (16:9)
Um grande rio (16:12)
Um grande dia (16:14)
Um grande terremoto (16:18)
Uma grande cidade (16:19)
A grande Babilônia (16:19)
Uma grande saraiva (16:21)
Uma grande praga (16:21).

Nos versículos 13 a 16 do capítulo 16, que alguns escritores tratam como parêntese, temos a trindade satânica dirigindo a combinação mais gigantesca de forças da oposição jamais testemunhada na terra. Tendo a supervisão pessoal de Satanás, as forças mundiais unem-se para sua condenação.

Nesta sexta taça da ira temos a trindade do mal—o dragão, a besta e o falso profeta—arregimentando todos os reis da terra para a batalha, não somente contra Israel mas contra o próprio Deus. “Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntos conspiram contra o Senhor e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas” (Sl 2:2, 3).

As Três Rãs

A trindade maligna do mistério da iniquidade é comparada a três espíritos imundos, semelhantes a rãs (16:13). Embora três rãs fossem o brasão original da França, país que tem sido centro de infidelidade, socialismo e espiritismo, não cremos na interpretação exclusivamente histórica desta parte (ou de qualquer outra parte) dos capítulos 4 a 22. E por ser a profecia muitas vezes progressiva ou cumulativa, há uma visão modificada do princípio de interpretação que procura combinar os sistemas históricos e futuristas. Assim, pode haver cumprimentos parciais de algumas seções do Apocalipse sem esgotar sua significação. Apontam para um cumprimento completo no futuro. Os intérpretes deste ponto de vista duplo vêm no Nazismo, no Fascismo e no Comunismo as três rãs da visão de João.

Muitos dos manuscritos da besta leem: “Como se fossem rãs.” Aqui temos o antítipo da praga das rãs enviadas sobre o Egito, milagre que os mágicos foram capazes de duplicar (Êx 8:7). Uma feição conspícua do ministério da besta serão os grandes sinais e maravilhas realizados por meios satânicos. O dragão, a besta e o falso profeta são apropriadamente comparados a repelentes rãs. Assim como as rãs coaxam à noite nos pântanos e charcos, assim também estes espíritos imundos nas trevas do erro ensinam mentiras na sujeira de lascívias imundas. Alford fala da “imundície e do barulho pertinaz da rã”. Os escritores e poetas gregos viam as rãs como habitantes do lago estígio, ou rio do inferno. Estes espíritos saem das bocas dos três ímpios que formam a trindade infernal (sendo a boca a sede principal de influência). De várias passagens das Escrituras concluímos que a boca é a fonte e o meio de destruição (Ap 1:16; 2:16; 9:17; 19:15; Is 11:4). O dragão há de ser consumido pelo sopro da boca do Senhor (2 Ts 2:8).

O espírito imundo que sai da boca do dragão simboliza a infidelidade orgulhosa que se opõe ao Senhor e ao seu Ungido (Cristo). O espírito imundo que sai da boca da besta representa o espírito do mundo nas políticas dos homens, quer seja a democracia sem lei, quer o despotismo, nos quais o homem é colocado acima de Deus. O espírito imundo que sai da boca do falso profeta representa o espiritismo mentiroso e a ilusão religiosa dominante nos dias do engano satânico.

Nesta trindade satânica, com seu ministério de operação de mila­gres, temos uma combinação de poder infernal direto, força bruta apóstata e terrível influência maligna para o propósito horrendo de reunir milhões de pessoas para a guerra. O esforço final do inferno a fim de derrubar o céu está próximo, e seu resultado é Cristo dominar como rei do mundo (19:17-21). Na sua vinda, ele lidará eficazmente com esses três espíritos imundos, assim como o fez com os que se opuseram a ele enquanto estava na terra.

Visto que o ajuntamento dos reis do mundo com a besta é sinal da vinda de Cristo a fim de destruir seus inimigos, os santos são exortados a vigiar esperando sua volta. Manda-se ao remanescente fiel uma palavra de ânimo e de advertência: “Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas vestes, para que não ande nu, e não se veja a sua nudez” (16:15). Aqui temos um parêntese de grande importância espiritual. Deve-se compreender claramente que esta não é uma mensagem para a igreja, embora o princípio subjacente da bem-aventurança associada com o vigiar (e da vergonha com o viver descuidado) seja aplicável aos santos de todos os tempos.

O “eis” e o “bem-aventurado” definitivamente se relacionam com os santos da Tribulação. Ao seu redor haverá multidões dormindo na escuridão moral e espiritual. Vivendo num estado de segurança falso, congratulam a si mesmos por um estado de “paz e segurança”. Mas repentina e inesperadamente o Senhor, como um ladrão de noite, surpreenderá e destruirá os povos reunidos por agências satânicas contra o Senhor e seu Ungido. Os que acreditam que a igreja há de passar pela Grande Tribulação dão grande importância a este versícu­lo, mas Cristo não vem para sua igreja como um ladrão. Ele volta para a igreja como o noivo, já que a igreja é sua noiva. Com a vinda de um ladrão há pavor e medo, pois ele vem para roubar-nos de nossas posses e destruir nossos bens (1 Ts 5:2, 4; Mt24:43; 2 Pe 3:10). Não somos da noite nem das trevas, e portanto não tememos a volta de nosso Senhor.

É claro, em relação com nosso andar devemos esforçar-nos para ter vestes sem manchas, em uma vida sem ter do que se envergonhar e sem nudez moral. O perigo que os santos enfrentarão, os que viverem na época em que os espíritos imundos estiverem operando, é o de negligenciar a esperança do advento e com isso exporem-se ao olhar dos anjos e de um mundo sem Deus—“nu” ou tendo falta pública de direção e proteção divina.

O bispo Lightfoot sugere que pode haver uma alusão nesta advertên­cia à vigilância a um costume judaico no serviço do santuário. Vinte e quatro vigias ou companhias eram nomeadas todas as noites para guardar as várias entradas dos santuários sagrados. Certo indivíduo era nomeado como capitão ou comandante sobre os outros, e era-lhe dado o nome de “homem da montanha da casa de Deus”. Seu dever era dar volta aos vários portões durante a noite a fim de verificar se seus subordinados eram fiéis em seus serviços. Ele era precedido por homens que levavam tochas e esperava-se que cada sentinela vigilante saudasse sua aparição com a seguinte senha: “Tu, homem da montanha da casa, paz seja contigo!” Se, por falta de vigilância, ou por causa do sono, tal coisa fosse negligenciada, o ofensor era surrado com a vara do ofício, e suas vestes queimadas e ele era marcado com a vergonha.

A Batalha do Armagedom

Como trememos ao tentar visualizar o que acontecerá com as nações unidas em ódio imorredouro a Deus e a seu Cristo à medida que se ajuntam pelos espíritos imundos para a batalha naquele dia do Deus Todo-poderoso! Que morticínio universal! A História prova que há épocas quando as nações são tomadas da paixão pela guerra e que os historiadores não podem explicar por completo. É isto o que acontecerá na guerra contra Deus.

Quão cegamente serão levadas as hordas da terra contra Aquele que as criou! (Veja o Sl 2; Ap 17:14; 19:19.) A frase “e eles os congregaram” (16:16) pode ser traduzida por “ele os congregou”. Se o “ele” foi retido pode representar Deus, que lhes dá poder sobre os espíritos imundos. Ninguém pode ler o Apocalipse como um todo sem perceber que Deus está por trás das cenas e dos atores no juízo judicial do livro. Em retribuição justa ele permite que os chefes apóstatas da terra reúnam as multidões no monte de Megido.

E, considerando que o Armagedom testemunhará a batalha mais sangrenta de toda a história, devemos examinar brevemente a significação histórica e profética do campo de batalha mais terrível da terra. O Armagedom fica ao pé do monte Carmelo, que foi cena de muito morticínio no passado. Armagedom significa “monte da destrui­ção” ou “morticínio” e esse nome é bem adequado. Atualmente o nome é Har, que significa “monte”, e Magedom ou Megido que vem de uma palavra cuja raiz significa “separar” ou “massacrar”. A área limitada de Megido não permitiria a presença de vastos números de homens, mas o nome também pode significar a vizinhança mais ampla de Israel, onde, por agência satânica, as nações da terra serão esmagadas.

Megido foi palco da derrota dos reis cananeus pela interposição miraculosa de Deus sob Débora e Baraque. Como aliado da Babilônia, Josias foi derrotado e morto em Megido. O prantear dos judeus na época logo antes que Deus interfira por eles contra todas as nações que se dispuseram contra eles é comparado ao lamentar de Josias em Megido (Jz 5:19, 20; Zc 12:11; 2 Cr 35:22-25).

Mas pode-se fazer a pergunta: “Por que o Armagedom é escolhido como local de congregação?” Bem, as nações reúnem-se aí a fim de esmagar e exterminar a Israel! “Astutamente formam conselho contra o teu povo, e conspiram contra os teus protegidos. Dizem eles: Vinde, e apaguemo-los para que não sejam nação, nem seja lembrado mais o nome de Israel. Pois à uma se conluiam; aliam-se contra ti” (Sl 83:3-5). Deus, entretanto, domina e intervém. Embora as nações se lancem com poder combinado contra o Senhor e seu povo, a fúria divina é desencadeada e a destruição sobrevêm às hordas arrogantes. Israel é libertado e seus inimigos cruéis mortos. E na destruição completa das nações, decide-se sobre a soberania da terra e também sobre o direito de Israel de possuir sua própria terra.

A Sétima Taça  No Ar (16:17-21)
O sétimo flagelo (16:17-21).

O sétimo flagelo é um relato antecipado do julgamento de Deus sobre Babilônia, a sede do poder da besta. O relato detalhado do jul­gamento e a queda de Babilônia segue nos próximos dois capítulos (17-18), que será comentado na próxima lição. Alguns comentadores encontram aqui dois eventos diferentes: uma derrota preliminar de Roma, que dá ao Anticristo poder universal, se­guida do julgamento de Roma por Deus. Mas João já antecipou diversas vezes o fim, tanto em termos de salvação como de julgamento, para depois estender-se sobre os eventos do fim (veja em 6:12ss.; 11:15ss.; 14:8; 14:14ss., 15:2ss.). Na verdade João já tinha anunciado a queda de Babilônia (14:8), de maneira antecipada. Assim como o sexto selo trouxe o dia da ira de Deus (6:12-17), e assim como a sétima trom­beta fez um anúncio do fim (11:15ss.), assim o sétimo flagelo traz o jul­gamento de Babilônia, acrescentando os detalhes deste julgamento mais adiante.

17. Então derramou o sétimo anjo a sua taça pelo ar, e saiu grande voz do santuário, do lado do trono, dizendo: Feito está. Esta voz aparentemente é a mesma do v. 1 — a voz de Deus — já que vem do templo e do trono de Deus. A voz anuncia prolepticamente, a consumação do julga­mento de Deus sobre a capital da besta. A frase “Feito está” representa uma só palavra grega que indica ação completa. Novamente nos depa­ramos com a técnica literária de João, de anunciar um fato como realizado, para depois detalhar o conteúdo do fato.

18. Ao pronunciamento da sentença sobre a capital da besta seguem os fenômenos apocalípticos que são manifestações da glória e do poder de Deus: relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu grande terremoto, como nun­ca houve igual desde que há gente sobre a terra. Fenômenos semelhantes tinham seguido a sétima trombeta (11:19), e estavam relacionados com a visão de Deus em 4:5 e com a preparação para o soar das sete trombetas (8:5). Estes fenômenos são manifestações comuns do poder e da glória divinos.

19. O resultado desta teofania é o colapso completo da civilização humana, ateísta. A grande cidade, Babilônia, a capital da besta, se dividiu em três partes; em outras palavras, foi transformada em ruínas. Em 11:8 as mesmas palavras, “a grande cidade”, foram usadaspara Jerusalém; mas o contexto deixa bem claro que nesta passagem a cidade em questão é Babilônia. Jerusalém já tinha sido destruída em um grande terremoto (11:13). Nesta visão João vê a cidade sendo arruinada por um terremoto; tudo o que esta destruição significa está descrito de diversas maneiras nos dois capítulos seguintes.

Caíram as cidades das nações. Mais uma vez João vê antecipada­mente a destruição das cidades que apoiaram a besta. Os detalhes estão em 17:12-14, onde diz que o Cordeiro guerreará contra os reis que apoiaram a besta, vencendo-os. Veja também 18:9, onde os reis da terra lamentam a queda da grande cidade.

Lembrou-se Deus da grande Babilônia para dar-lhe o cálice do vinho do furor da sua ira. Babilônia deu às nações da terra “do vinho do furor da sua prostituição” para beber, deixou “os reis da terra se prostituírem com ela” e possibilitou aos comerciantes da terra “enriquecerem à custa da sua luxúria” (18:3). Deus, por seu lado, dá a Babilônia e às nações que a seguiram um outro cálice para beber, o cálice da sua ira. Este tema já foi comentado em 14:8,10.

“Lembrou-se Deus da grande Babilônia.” Estas palavras são do­lorosas. Durante o curto período do reinado do Anticristo parecerá que Deus esqueceu o seu povo. O mal aparentemente estará vencendo; não há perspectivas de libertação. Meu Deus não esquece. Deus se lembra, e ele se lembrará do poderoso inimigo do seu povo, para lhe retribuir com justiça.

20. Mais uma vez João descreve o fim que ainda não veio, que compreenderá a renovação de todo o sistema criado e o início de um novo céu e nova terra. Isto só se realiza depois da volta de Cristo (19:11ss.), e será mesmo um sistema totalmente transformado (21:lss.). João já pode dar uma ideia de como será isto falando, em linguagem apocalíptica, do fim do sistema antigo: Toda ilha fugiu, e os montes não foram achados. João já usou em uma passagem anterior expressões semelhantes para descrever a vinda do fim: quando o sexto selo foi aberto ele deixou transparecer a dis­solução do sistema atual (6:12ss.).

21. Também desabou do céu sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de um talento; e, por causa do flagelo da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande. Não sabemos com certeza que medida de peso foi usada, mas parece que as pedras pesavam mais de cinquenta quilos.

A narrativa apocalíptica de João está agora se aproximando rapidamente do seu fim. Ele nos levou através do tempo de grande tribulação, com a terrível perseguição dos santos pelo Anticristo, e nos mos­trou uma civilização rebelde e anticristã, que não se curva e não se ar­repende sob a ira de Deus derramada sobre ela nas pragas das sete trom­betas e das sete taças. O sétimo flagelo não foi uma praga, somente anunciou o fim, a destruição de Babilônia em particular, um acontecimento já anunciado (14:8). Agora só falta relatar a vinda do fim. João dá primeiro o lado negativo da vitória divina, ou seja, a destruição da civilização rebelde, anunciada pelo sétimo flagelo (capítulos 17 e 18), e depois fala da volta de Cristo em triunfo, seu reinado vitorioso, e por fim o estabelecimento do novo sistema, com novo céu e nova terra (capítulos 19-22).

Bibliografia  George Ladd,coment. do apocalipse,1990


Tudo o que temos sob a taça anterior é preparatório para o derramamento final de ira de Deus, o grande dia da ira de Apocalipse19:11-16. Então, e só então, os rebeldes serão esmagados e removidos da terra (Mt 13:40-43). Na sexta taça temos a conglomeração das nações da terra contra Israel para a batalha contra Deus e o remanescente de seu povo (Is 11:15, 16). Agora sobrevêm uma destruição que excede em magnitude tudo o que jamais foi testemunhado desde que o homem deu início à sua história de sofrimento fora do jardim do Éden.

O sétimo anjo derramou sua taça no ar. Por que todos os homens respiram o ar, que é essencial à vida, aqui temos o juízo divino visitando o fôlego de vida dos povos. E por que Satanás é mencionado como príncipe da potestade do ar (Ef 2:2), temos também nesta taça a consumação do juízo sobre as influências perniciosas do diabo. Assim, o reino de Satanás sofre sob esta praga horrível. A “grande voz” é a voz de Deus, como no versículo 1 do capítulo 16, exceto que aqui o santuário e o trono se unem. No santuário resideDeus e no trono ele reina. A voz divina clama: “Está feito”, significando que a série toda de pragas agora está completa. Está feito! Aconteceu. Compare a voz de Deus nesta consumação final com a voz de Cristo na cruz quando a obra da expiação foi completada: “Está consumado!” O “está consumado” do Salvador foi totalmente rejeitado, de modo que aqui vem o “está feito” do Juiz da terrível retribuição divina.

Chegou o fim da ira de Deus. Mais tarde acontecerá a exibição medonha da ira do Cordeiro. Sob a sétima taça, Deus dá à Babilônia “o cálice do vinho do furor da sua ira”. Esta frase sugere raiva fervente e ira incontida, e a ambas encontramos referência em Jeremias30:23, 24. Aqui se afirma o fato da destruição da Babilônia. Nos capítulos 17 e 18 temos o relato com mais detalhes do breve resumo dado sob esta taça. Deus é o Criador; ele produz convulsões de natureza tal como a que lançou a terra no caos antes da criação do mundo.

Três Expressões da Ira

Nos “relâmpagos e vozes e trovões” (sempre expressivos do poder dominante do juízo) temos a fórmula da visitação divina calculada para infundir terror nos corações dos homens. Estes sinais e expressões da ira retributiva são visitados sobre a terra na forma do maior terremoto que a terra já experimentou. Todos os terremotos até esta altura nada significam quando comparados com esta sublevação sem paralelo. (Veja Hb 12:25, 26).

As Três Partes da Cidade

Tão destruidor é este vasto terremoto que Jerusalém é dividida em três partes. Roma e todas as grandes cidades da terra são reduzidas à ruína. Destrói-se para sempre toda a soberania exercida sobre os reis da terra, que Roma e Babilônia representam. “A grande Babilônia” é individualizada como estando madura para “o grande terremoto” e “uma praga. . . excessivamente grande.” O lugar e seu orgulho são condenados à destruição eterna (Jr 51:62-64), cuja destruição é celebrada no céu em Apocalipse 19:1-4.

Para aumentar o terror da hora há o desaparecimento de ilhas e montes. Sob o sexto selo estes foram “removidos dos seus lugares” (6:14). Aqui eles “fugiram” e “não mais se acharam”. Que catástrofe maciça!

O ato coroador do juízo é a queda de saraivas enormes sobre a terra. A saraiva, como já mostramos, é símbolo da ira divina (Is 28:2; Ez38:22). (Para outras saraivas, veja Ap 8:7; 11:19.) Ninguém pode imaginar completamente quais serão os efeitos desta última saraivada súbita e devastadora. A natureza esmagadora e avassaladora deste juízo torna-se clara ao lembrarmo-nos de que as pedras da saraiva “pesavam quase um talento” cada. Um talento equivalia, aproximadamente a 20 quilos. Assim a severidade do juízo reservado contra o dia da batalha e guerra no “tesouro da saraiva” de Jeová é horrível ao extremo (Jó 38:22, 23; Sl 105:32).

Estes juízos, porém, resultam em blasfêmia em vez de arrependi­mento! A persistência no pecado endurece a consciência. A tragédia é que o homem não se quebranta nem se arrepende; permanece sem mudança. Com a exposição do poder judicativo de Deus, os homens deviam ter-se voltado para ele, dando-lhe glória; em vez disso, perecem amaldiçoando-o. Que efeito diverso a apresentação do poder de Deus exerce sobre o seu povo: dão glória ao Deus do céu (11:13).

Bibliografia H. Lockyer +www.ebareiabranca.com  ,coment.do apocalipse G.E LADD,1980



Babilônia, a meretriz (17:1-6a).

Não nos devemos olvidar que o Apocalipse foi originalmente escrito para a igreja cristã primitiva, que sofria perseguições por parte do império romano. Essa perseguição era especialmente intensa porque os cristãos se recusavam a adorar ao imperador romano, conforme se requeria no culto ao imperador. A besta saída do mar representa a Roma secular e pagã. Historicamente, representa o imperador Nero; profeticamente, o «Nero redivivo» ou anticristo. A besta saída da terra representa a Roma religiosa, o culto ao imperador (historicamente falando); mas, profeticamente, ela representa o «João Batista» do anticristo, o falso profeta, que promoverá por todo o mundo o culto ao anticristo, mediante os meios de comunicação em massa. Na antiguidade, a própria cidade de Roma fora deificada, e uma deusa, chamada «Roma», veio a ser a deusa protetora das cidades romanas da Ásia Menor. Roma era a divindade tutelar de Cartago. Em 29 a.C., foram erigidos por Otávio templos dedicados a «Dea Roma» e a «Divus Julius». Também houve templos dedicados ao próprio Otávio em Pérgamo, na Nicomédia e na Bitínia. Os remanescentes desses templos pagãos até hoje podem ser vistos em Pérgamo. E isso talvez seja os restos do «trono de Satanás», que figura na epístola à igreja de Pérgamo, neste livro do Apocalipse. Parece que o culto de Roma estava associado à adoração dos «imperadores falecidos», ao passo que o culto ao imperador dirigia-se aos imperadores reinantes. De tudo isso é que se desenvolveu uma espécie de doutrina da «Roma eterna». Não há que duvidar que o vidente João, no capítulo que passamos a comentar, zombava dessa ideia, sendo provável também que ele fustigava todas as formas da «idolatria romana», representadas no culto a Roma e no culto ao imperador.

meretriz, que figura neste capítulo, é essa idolatria romana de muitas facetas, ainda que o culto ao imperador seja o ponto mais destacado, conforme se vê por todo o Apocalipse. Roma se tornara o centro das formas mais ousadas e horrendas de idolatria; mas João predisse que nada disso perduraria, pois estava condenado a sofrer a mais contundente derrota que se possa imaginar. Também não se deve duvidar que João esperava que isso ocorresse em seus próprios dias, pois não antecipava a aplicação a «longo prazo» de suaspredições. Nessa expectação, que não se cumpriu em seus próprios dias, João não se mostrou diferente dos profetas do A.T., como Isaías, que esperava o reino messiânico para imediatamente depois do julgamento da Assíria (ver os capítulos dez e onze do livro de Isaías); ou como Daniel, que pensou que o fim ocorreria imediatamente após o julgamento de Antíoco IV Epifânio. Jeremias esperava oreino para imediatamente depois do retorno do exílio. É evidente, pois, que as visões dos profetas ultrapassavam seu próprio entendimento e as suas expectações pessoais, que tão frequentemente ficaram sem cumprimento, ainda que Deus tenha decretado seu cumprimento para os últimos dias.

Normalmente, as predições bíblicas têm um cumprimento a curto prazo e outro a longo prazo. Portanto, nos «últimos dias», veremos o aparecimento tanto de um império político, a federação dos dez reinos, controlada pelo anticristo, que terá a cidade de Roma como seu centro, como também veremos o aparecimento de um novo «culto ao imperador», que consistirá da adoração conferida ao homem do pecado. Esse culto tornar-se-á tão forte que dominará as mentes dos homens e os tornará virtuais escravos da malignidade; pois Satanás será adorado por intermédio do anticristo (ver Ap 13:4). A maior perseguição religiosa de todos os tempos será promovida pelos aderentes do culto ao anticristo; e essa adoração será corrupta e maligna de tal modo que fará o comunismo parecer santo comparativamente.

Para o vidente João, essa «idolatria», quer em seu aspecto antigo - «culto ao imperador», quer em seu aspecto futuro - «culto ao anticristo», é a «meretriz». Mas essa meretriz também será a Roma política e econômica. Não se duvida que João não pôde antecipar muitas das «implicações» dessas predições. Somente os próprios acontecimentos nos ensinarão o que precisamos saber acerca dessas coisas.

A dupla destruição. É claro que nos capítulos dezessete e dezoito deste livro, nas sete visões da condenação de Roma, se retrata a destruição tanto «política» quanto religiosa de Roma. Porém, erraríamos se fizéssemos unicamente a Igreja Católica Romana ser a Roma «religiosa». Sem dúvida, porções de todas as denominações cristãs serão atraídas para o terrível culto ao anticristo. Muitos dos chamados cristãos serão enganados, encarando o anticristo como um novo Messias. Na verdade, entretanto, o «culto» ao anticristo será uma religião inteiramente nova, combinando ideias e crenças do oriente com as do ocidente. Também será uma religião extremamente «antidivina» e «anticristo», por inclinar-se para as ideias do ateísmo e do agnosticismo. Tornar-se-á algo tão imensamente maligno que o comunismo parecerá algo santo, paralelamente a isso.

Não cremos que qualquer denominação verdadeiramente evangélica venha a ser enganada de tal modo que aceite esse culto ao anticristo como algo provindo do Senhor, e que dê lealdade ao anticristo. O mais provável é que as denominações evangélicas venham a ser «purificadas» pelo fogo da tribulação, e que finalmente se formará a unidade de todas as denominações evangélicas, e um «movimento subterrâneo» (porquanto a igreja visível desaparecerá, tão atroz será a perseguição religiosa). Não há como chamar o «romanismo» de a meretriz tonta com o sangue dos santos e dos mártires de Jesus, quando, historicamente, reconhecemos que isso é uma referência ao «culto ao imperador». Esse culto era algo inteiramente fora dos círculos cristãos. Mas é verdade que o culto ao anticristo, em muitos lugares do mundo, se assemelhará, pelo menos no princípio, com uma espécie de «neocristianismo». Todavia, todas as denominações cristãs que realmente sejam formadas de pessoas regeneradas, e que se apegam às doutrinas centrais da Bíblia, como a «trindade», a «divindade de Cristo», etc., não poderão ficar enganadas para sempre.

Duvidamos que a Roma do décimo sétimo capítulo deste livro seja o «romanismo», e que a do capítulo dezoito seja a Roma «secular e comercial». Devemos considerar esses quadros apenas como ângulos diversos de uma única coisa. Ambos retratam a «meretriz», porquanto ambos representam a Roma pagã e ímpia - uma do ponto de vista do culto ao imperador, e outra do ponto de vista político eeconômico de Roma. Particularmente em foco, por toda a parte, está a «cidade de Roma», e isso ocorre em ambos esses citados capítulos. (Ver Ap 17:18, onde a «meretriz» é aquela «grande cidade». Comparar com Ap 18:7, que retrará a «rainha», o que aponta para a mesma figura feminina -mas note-se que essa rainha é uma prostituta). Isso se harmoniza com Ap 17:2-5. Outrossim, Ap 18:10 mostra que continua em foco a «cidade» de Roma. O decimo nono versículo reitera a ideia. Mas a cidade «subentende» o império inteiro, por ser seu centro e capital. Essa é uma interpretação que se coaduna com o que sabemos que João atacava em seus dias; e supomos que outro tanto se dará no caso do aspecto profético dos capítulos dezessete e dezoito. Temos aqui as «sete visões» da queda de Roma, e, naturalmente, cada visão dará um ponto de vista diverso de uma mesma e única queda. Profeticamente falando, isso retrata a queda do anticristo, porquanto seu poder envolverá muitos aspectos, religioso, político, militar, etc. Em todos esses aspectos, entretanto, ele cairá; e é isso que os capítulos dezessete e dezoito do Apocalipse estão descrevendo. Notemos que em Ap 17:9 e ss. temos a Roma «política», mas imediatamente antes disso, no sexto versículo deste capítulo, temos uma alusão inequívoca ao «culto ao imperador», que perseguia aos cristãos que não anuíam a esse culto. Portanto, não há como pôr o capítulo dezessete em contra distinção ao décimo oitavo capítulo, estabelecendo qualquer distinção básica entre eles, a não ser que ali são retratados diferentes aspectos da queda da mesma Roma.

Também não devemos ver aqui o reavivamento da «literal cidade de Babilônia», que viria a ser a capital política e comercial do anticristo. Babilônia é apenas um código para Roma, conforme se vê nas notas expositivas sobre Ap 14:8; e é evidente que o vidente João escreveu contra Roma, e não contra a literal cidade de Babilônia. Isso é uma verdade histórica, e também será uma verdade profética. A profecia bíblica demonstra claramente (ver Ap 17:9 e ss.) que o centro de atividades do anticristo será a literal cidade de Roma, e não a cidade de Babilônia, reconstruída.

Para alguns intérpretes, o trecho de Ap 17:16 fala de uma «Roma religiosa», que a Roma política se deleitará em destruir. É o décimo oitavo capitulo deste livro presumivelmente aludiria a essa Roma política, diante de cuja queda subsequente o mundo inteiro selamentará. Porém, não são retratadas aqui duas Romas, uma política e outra religiosa. Os povos oprimidos se «alegrarão» ante a queda de Roma (ver Ap 17:16), mas, ao perceberem que isso os prejudicará, pois Roma os tornou ricos, se lamentarão. Os pequenos poderes sempre se regozijam ante a queda dos poderes maiores, mas geralmente logo descobrem que seu bem-estar está vinculado a estes últimos, pelo que têm motivos de pensar novamente, com maior sobriedade.

O décimo oitavo versículo deste capítulo mostra que a «cidade» de Roma está essencialmente em foco, embora ela represente o império todo. Alguns intérpretes supõem haver aqui uma clara distinção (nos capítulos dezessete e dezoito), entre a cidade de Roma e o império romano.

A razão por que alguns eruditos fazem tão radical distinção entre as duas Romas é que, nos versículos dezesseis a dezoito, há a predição de uma destruição de Roma por parte da besta e sua federação de dez reinos. O pano de fundo histórico disso é a tradição (que nunca teve lugar, historicamente falando) de que o «Nero redivivo», que era identificado com o anticristo nas antigas tradições cristãs, retornaria a Roma, à testa de um exército parta, a fim de assaltá-la, cometendo «matricídio». (Ver os Oráculos Sibilinos 5:363-369). Portanto, é fácil entender isso «historicamente». Porém, como entender isso profeticamente não é tão fácil. Os intérpretes protestantes não têm dificuldades aqui, pois supõem que o anticristo, após ter cooperado com a Igreja Católica Romana, utilizando-sedela (como também de seus aliados, as denominações protestantes apóstatas), repentinamente destruirá toda a imensa organização. Mas, apesar disso ser uma conveniente interpretação «protestante», de forma alguma é certo que isso é o que se deve ver aqui. Provavelmente haverá a unidade dos cristãos apóstatas (de todas as denominações) que prestarão lealdade ao anticristo e promoverão seu culto, os quais serão subsequentemente perseguidos e destruídos por ele; e isso poderia cumprir o aspecto profético das descrições à nossa frente. Contudo, sentimo-nos sobre terreno precário quando começamos a «nomear as denominações». Esse «cristianismo apóstata» sem dúvida se unirá a muitíssimas outras religiões mundanas, porquanto a influência do anticristo será universal. É claro que o anticristo não procurará destruir o culto que o incensa, mas tão-somente um certo aspecto do mesmo, e as denominações cristãs apóstatas, por exemplo, poderão cair em seu desagrado, sendo reduzidas a quase nada. A predição sobre a destruição da «meretriz» (ver o decimo sexto versículo deste capítulo), provavelmente inclui a ideia que todas as religiões do mundo desaparecerão, por serem destruídas, ou serão absorvidas no culto ao anticristo. Todas as religiões, excetuando seu culto imediato, terão de existir apenas subterraneamente, incluindo os membros fiéis a Cristo da igreja cristã.

17:1  Veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas;

Essas palavras servem de introdução aos capítulos dezessete e dezoito, juntamente. A grande «meretriz» é o paganismo romano, mas, especificamente, é a «cidade de Roma» (ver Ap 17:18). E é a mesma Roma que é descrita aqui, do princípio ao fim, embora de diversos ângulos e de diferentes maneiras. Sete visões revelam-nos a queda de Roma. Notemos que o trecho de Ap 18:3 enfatiza a «fornicação» de Babilônia; e aqui ela (Roma, chamada «Babilônia»—ver Ap 14:8) é a «meretriz». Há uma única Roma, mas ela é descrita segundo duas perspectivas ou mais; em todos esses aspectos, porém, ela experimentará destruição. Lembremo-nos que João estava escrevendo contra a Roma de seus dias, contra o império que perseguia e matava aos cristãos, tentando fazê-los adorar ao imperador, no «culto ao imperador». Não se deve pensar em duas Romas aqui, e nem na ereção literal da antiga cidade de Babilônia, que alguns estudiosos imaginam que será reconstruída no futuro. Não obstante, há certo contraste entre a cidade de Roma (a meretriz, ver o décimo oitavo versículo deste capítulo) e o império romano em geral, que está em foco nestes capítulos dezessete e dezoito. A «besta» será Roma como um império, mas também será o nerônico anticristo, que incorporará em si mesmo toda a maldade de Roma. Contrastar entre si os versículos terceiro e décimo primeiro deste capítulo.

«...um dos sete anjos que têm as sete taças...» O fato que os anjos dos juízos das taças (descritos individualmente no décimo sexto capítulo) estão envolvidos nas sete visões sobre a queda de Roma, permite-nos ver que isso faz parte das sete últimas pragas, como vimos na lição anterior, por ser um aspecto das mesmas, e não algo distinto delas. O anjo age como um guia, o que é comum no simbolismo apocalíptico. (Ver Ap 7:13).

«...falou comigo...» Em visão mística audível. (já comentamos isso na lição inicial)

«...mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz...» Roma (a meretriz, e, portanto, o império) é chamada de prostituta «grande» devido à sua idolatria e desabrido paganismo, que nega a autêntica adoração a Deus, mas, especialmente, devido ao seu «culto ao imperador», no qual os imperadores reinantes eram adorados como se fossem divindades. Além disso, havia a adoração da deusa «Roma», que eternizava a cidade de Roma e, supostamente, exaltava o sistema romano, promovendo ainda o «culto ao imperador». O simbolismo de «adultério», para indicar idolatria, é uma comum equação judaica.

«Esse julgamento, é claro, é a iminente destruição de Roma, devido à sua idolatria, porquanto ela perseguia aos santos. O retrato da deusa Roma como uma meretriz corresponde ao retrato anterior dos imperadores como uma horrenda besta satânica, além de corresponder ao fato que ela atraía as nações às práticas idólatras, o que é chamado de ‘fornicação’, no quarto versículo. Outrossim, havia nos escritos proféticos bons precedentes para esse simbolismo. João bem pode ter tido consciência que Naum chamara Nínive de meretriz, porquanto seduzia às nações, em face do que terrível condenação sanguinária fora proferida contra ela (ver Na 3:1-4). De modo bem similar, e por razões idênticas, um outro profeta aplicara o mesmo epíteto vergonhoso a Tiro, predizendo sua ruína (ver Is 23:15). Em várias outras passagens, Jerusalém é chamada de meretriz sedutora, desleal ao Senhor e desviada para a idolatria (ver Is1:21; Ez 16:15; conf. Os 2:5). Figuras simbólicas semelhantes são usadas nas profecias sibilinas que predisseram a destruição de Roma, com as seguintes palavras: ‘Ó Roma, descendente amimalhado do Lácio! Tu, virgem com frequência intoxicada por muitos pretendentes, como uma escrava (isto é, prostituta), haverás de casar-te sem cerimônias’. (Oráculos Sibilinos 3:356-358). O gosto dramático de João pelo contraste já pôde ser observado antes. Agora ele está evidentemente preparando o palco para o contraste entre essa ímpia meretriz e a noiva de Cristo, em toda a sua pureza e em seu resplendor, como também entre o bestial consorte da meretriz e Cristo, o Noivo». (Rist, in loc.).

Quem é esta prostituta repugnante?

1.      Historicamente falando, ela representa a Roma pagã e sua idolatria e adoração do imperador.

2.      Profeticamente falando, ela representa o novo paganismo do tempo do anticristo, e especificamente, o cultus dele, a nova idolatria. Certamente a grande parte das denominações cristãs farão parte do cultos do anticristo, tendo entrado numa apostasia de dimensões incríveis. As grandes denominações como a Igreja Católica Romana, as maiores entre as denominações protestantes, aquelas que temmais dinheiro e poder, sem dúvida, serão os líderes neste movimento (do lado cristão dele). Mas a influência do anticristo será universal e através do poder dele, será realizada uma união das religiões ocidentais e orientais. O resultado será um tipo de cristianismo pagão. Este novo cristianismo será hostil aos verdadeiros cristãos, e uma perseguição de grandes dimensões resultará disso. De fato, o anticristo promoverá a maior perseguição religiosa da história humana. A iniquidade do cultus do anticristo dará para o homem uma oportunidade para expressar suas inclinações mais baixas. A mocidade do mundo seguirá o anticristo com todas as suas forças e sentirá uma auto realização extraordinária, não sabendo, ou não querendo saber, a profunda perversão de seu herói. A geração atual, sem objetos sagrados, e envolvida em entorpecentes e outros vícios, quase sem controle, será incorporada, facilmente, no movimento do anticristo. A sabedoria deste mundo que faz da escravidão ao pecado um sinônimo de «liberdade» destruirá uma geração completa e a ceifa será grandemente amarga. Quando o anticristo ganhar seu poder, Marx, Lenin, Stalin, Hitler e outros personagens perversos da história, parecerão bons professores da escola dominical em comparação.

Será, afinal, uma união dos verdadeiros cristãos de todas as denominações, não em termos de organização, mas sim, em termos de compatibilidade de espírito e intenção. Cristo estará fora da igreja no fim deste século (ver Ap 3:20) e o anticristo será seu líder; alguns poucos se reunirão, entre perseguições, no nome do Senhor.

«...sentada sobre muitas águas...» Babilônia, a cidade protótipo da cidade de Roma, estava assim situada, porquanto o Eufrates atravessava por seu centro, e a cidade contava com muitos canais artificiais. (Ver Jr 51:13, onde isso é dito acerca da cidade de Babilônia). Roma, naturalmente, não estava literalmente assentada sobre muitas águas. Alguns supõem que já que Babilônia serve aqui de protótipo de Roma, que o autor, ao assim falar, não tencionava nada de especial, mas apenas visava dar-nos uma descrição mais gráfica. Mas dificilmente esse pode ter sido o motivo do autor sagrado por detrás dessas palavras. Portanto, muitos eruditos supõem que as «muitas águas», neste caso, indicam as «nações». Nesse caso, a grande meretriz seria vista a exercer controle sobre as nações, como se estivesse assentada em um trono, sujeitando-as a todos os seus caprichos. Havia um mito babilônico que aludia ao «abismo», «tiamat»; e alguns estudiosos pensam que as «muitas águas» se referem a esse abismo. Assim sendo, Roma estaria assentada, por assim dizer, sobre o abismo do hades. Porém, não é muito provável que isso é o que o vidente João tinha em mente, embora ele talvez conhecesse tal mito. O décimo quinto versículo fornece-nos a definição tencionada pelo próprio João. As águas são «povos, multidões, nações e línguas».

É interessante observar-se que a cidade de Babilônia adquiriu suas riquezas por meio do rio Eufrates e seus numerosos canais de irrigação. Por semelhante modo, a pagã cidade de Roma coletou as riquezas do mundo e prosperou como uma meretriz ricamente enfeitada.

Outras ideias sobre o primeiro versículo deste capitulo:

1.      Historicamente falando, parece que Ninrode, seguido por muitos, edificou a cidade original de Babilônia, depois dos dias do dilúvio. Nessa cidade havia um templo consagrado a Belo, que mais tarde passou a ser chamado «Baal». Foi ali que Ninrode erigiu a torre de Babel. A primeira grande cidade de Babel, e o reino da Babilônia, eram governados por duas pessoas, um homem e uma mulher. A mulher estava encarregada das funções religiosas do estado, e o homem, das funções políticas. Babilônia veio a tornar-se cabeça de um imenso sistema mundial, conforme os homens viam a extensão do mundo, naqueles dias. Era uma federação iníqua, pelo que o termo «Babilônia» veio a indicar qualquer sistema iníquo, especialmente aqueles dotados de considerável poder e extensão. O programa encabeçado por Ninrode é retratado nos capítulos dez e onze do livro de Gênesis. O nome daquele homem significava «rebelde», e sua pessoa e obra prediziam uma muito maior rebelião e a exaltação do paganismo, que em breve apareceriam em cena. O nome «Babel» significa «portão de Deus», e foi em Babilônia que os homens tentaram criar o seu próprio conceito de Deus, bem como o seu próprio caminho, em rebeldia franca contra o caminho de Deus que fora revelado aos homens. O A.T. mostra a queda tanto deNinrode como da torre de Babel, como também de Babilônia como um estado de âmbito mundial. Por conseguinte, tornou-se um símbolo apropriado para qualquer sistema pagão que rejeite o caminho divino da vida em Cristo. Por essa razão, tanto o vidente João quanto muitos outros autores sagrados, empregaram tal símbolo para aludir à cidade e ao império de Roma. No entanto, repelimos a ideia de alguns estudiosos que pensam que essa cidade será reconstruída nos últimos dias, porquanto nada disso estava na mente do autor sagrado.

Profeticamente falando, o revivido império romano, formado pelo anticristo e sua federação de dez nações, está em foco. Essa federação, com seu culto ao anticristo será o «novo paganismo», muito mais terrível e corrupto que a antiga Roma pagã. Esse culto incorporará em si mesmo a cristandade apóstata, formada de todas as denominações; mas não cremos que uma única denominação particular esteja em foco aqui, com exclusão de todas as demais. A grande «meretriz», entretanto, não se comporá apenas da cristandade apóstata. Será algo muito mais vasto e mais extenso, uma nova religião mundial e enlouquecida, que incorporará o oriente e o ocidente em um maciço esgoto de iniquidade. Será tão estupendamente maligno que fará o comunismo parecer comparativamente santo; e os homens, sobretudo a juventude, seguirá esse novo culto com lealdade cega e com senso de realização.

17:2  com o qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam sobre a terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição.

A referência histórica é a adoração da deusa Roma e ao «culto ao imperador». A idolatria associada a essas formas de culto é chamada aqui de «prostituição», em harmonia com o que se vê no primeiro versículo, onde a própria Roma é chamada de «grande meretriz», e em consonância com o simbolismo do A.T. (Quanto à idolatria simbolizada pelo conceito de «imoralidade» e «adultério», por ser uma forma de infidelidade a Deus, a quem se deve toda a lealdade, ver as seguintes passagens: Is 1:21; Jr 2:20; 3:1,6,8; Ez 16; 15,16,28;31,35,41; 23:5,19,44; Os 2:5; 3:3 e 4:14). Esse simbolismo também foi usado acerca de diversas cidades: Tiro (ver Is 23:15-17); Nínive (ver Na 3:4); e agora Roma é chamada Babilônia, segundo a criptologia do trecho de Ap 14:8.

Esse vil «adultério» de Roma atingiu posições elevadas e baixas, tanto os «reis» quanto os habitantes comuns da terra. João mostra a universalidade do «culto ao imperador» e a adoração de «Roma». Nenhuma localização escapou, e nenhuma pessoa, por ser grande demais (como se não pudesse ser forçada), ou por ser insignificante demais (como se pudesse escapar à atenção), ficou isenta de dar sua lealdade a esse culto. Profeticamente falando, isso também sucederá quando o anticristo subir ao poder. Por pouco tempo ele dominará a terra toda, e todos se encurvarão ante a sua vontade. Por causa disso, tal como na Roma antiga, surgirá uma temível perseguição religiosa, a pior da história, segundo se aprende no sexto versículo deste capítulo, porquanto a «meretriz» ficará intoxicadacom o sangue dos «santos», isto é, dos «crentes», conforme se vê por todo o Apocalipse. Isso sucedeu historicamente. O Apocalipse foi escrito para os «mártires cristãos». Profeticamente, também se aplica a eles.

«Assim como Nínive e Tiro desviaram outros povos, forçando-os a cometer idolatria, agora será com Roma, a meretriz do Mediterrâneo, que seduzirá os ‘reis’, juntamente com seus súditos, fazendo-os ‘beber’ do ‘vinho’ de sua ‘fornicação’; isto é, ela os seduzirá à adoração idólatra de si mesma e seu consorte, e besta, o que o vidente João compara com ‘fornicação’ (comparar com Ap 2:21; 9:21 e 14:8)». (Rist,in loc.).

Outras ideias sobre o segundo versículo:

1.      Os «reis» do tempo da antiga Roma tentaram influenciar Roma para seu autobenefício, no comercio, etc. A fim de receberem esses benefícios, foi mister se tornarem parte do sistema dela, chegando, finalmente, a aceitar seu culto religioso, o «culto ao imperador». Nos últimos dias será necessário aceitar o culto ao anticristo, até mesmo para comprar e vender. (Ver Ap 13:17). Os crentes terão de valer-se do «câmbio negro», até mesmo para obter alimentos. Como conseguirão manter seus empregos e o suprimento de alimentos para as suas famílias?

2.      Todas as nações compartilharam dos vícios e das imoralidades de Roma. O mundo inteiro seguirá o culto ao anticristo, e ficará saturado com sua perversidade. Muitas coisas temíveis sucederão àqueles que se recusarem a tal. Por conseguinte, o Apocalipse é o «manual dos mártires». Adverte, mas também consola à igreja sofredora, assegurando-lhe a vitória final em Cristo. Os capítulos dezessete e dezoito deste livro mostram que Roma será derrubada. Os capítulos dezenove e vinte mostram que Satanás será derrotado. Os capítulos vigésimo primeiro e vigésimo segundo mostram que o bem, finalmente, haverá de triunfar.

17:3: Então ele me levou em espirito a um deserto; e vi uma mulher montada numa besta cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e que tinha sete cabeças e dez chifres.

«...Transportou-me...» Em visão mística, e não fisicamente, ainda que as palavras «no espírito» possam significar «estando em forma espiritual», e isso seria uma projeção do «psique» ou «alma», saindo do corpo. Alguns intérpretes, entretanto, discutem se aqui devemos entender «no espírito» ou «no Espírito». Na verdade, apesar dessa experiência ser causada pelo Espírito de Deus, provavelmente é uma experiência fora do corpo. (Comparar isso com Ap 1:10 e 4:2, onde há algo similar).

«...um deserto...» Lugar desolado, faminto, sedento, habitação apropriada para uma meretriz horrenda. A esse lugar o anjo levou João. (Comparar com Ap 21:10, onde se lê que ele foi levado a um «monte», a fim de ver a descida da Nova Jerusalém, vinda dos céus, como «Noiva de
Cristo»). Sem dúvida há um contraste entre o «monte» e o «deserto», como também a «Noiva» e a «meretriz», sendo possível que João tenha querido que entendêssemos esse vívido contraste.

«...montada numa besta escarlate...» Sem dúvida temos aqui a primeira besta, aquela saída do «mar». (Ver Ap 13:1,2). Neste capítulo há um duplo simbolismo no termo «besta». Fala do império romano, mas também fala do «Nero redivivo», como um indivíduo, que incorporará em si mesmo toda a maldade daquele império. Historicamente falando, foi essa besta antecipada como o anticristo, segundo vê em Ap 13:3 e notadamente, em 17:10,11, mui claramente. Muitos cristãos criam que a reencarnação de Nero seria o anticristo. Outros continuam acreditando nisso, por causa dessa antiga crença, que é aludida no Apocalipse. Profeticamente falando, vemos aqui o próprio anticristo, que terá seu centro na cidade de Roma. Ele é visto aqui como uma besta «escarlate» por haver morto aos «santos». Está manchado com o sangue deles. (Ver o sexto versículo deste capítulo). A meretriz montará sobre o imperador (historicamente), e sobre o anticristo (profeticamente), por ser ele o símbolo de todas as iniquidades de Roma. Portanto, há um vínculo bem próximo entre o poder do imperador e o culto idólatra à sua pessoa. Eles andarão como um cavalo e seu cavaleiro; mas não se tratará de um cavalo comum, e, sim, da horrenda besta do capítulo treze.

Alguns estudiosos creem que, historicamente, a mulher sobre a besta simboliza a conexão entre a adoração à deusa «Roma» e o «culto ao imperador». Porém, parece mais certo ver aquela deusa e tal culto como a «mulher», ao passo que o imperador e tudo quanto ele representa, como a «besta», sobre a qual a mulher cavalga.

«...besta repleta de nomes de blasfêmia...» (Quanto às blasfêmias do anticristo, ver Ap 13:5). Sua blasfêmia é essencialmente ausurpação da adoração a Deus para si mesmo, exigindo isso no culto ao imperador. A passagem de II Ts 2:4, afirma: «...o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus...» Notemos que seus seguidores participarão de sua natureza, pelo que também serão blasfemados (ver Ap 16:9,21). Ele e eles «blasfemarão» de Deus e lhe «difamarão» o nome, que é santo, juntamente com tudo quanto é santificado. E disso consistirá tal blasfêmia.

Em Ap 13:1 vemos muitos «diademas» sobre a cabeça da besta, mas agora esses diademas não são mencionados.

«...com sete cabeças e dez chifres...» Já pudemos ver isso em Ap 12:3 e 13:1. Em Ap 17:9 vê-se a definição das «cabeças». São «sete montes», uma referência à cidade de Roma, em sua posição geográfica. Mas os «montes» também são «reis» (ver o décimo versículo deste capítulo); e esses são os reis «deificados» do império romano, que o vidente esperava que surgissem antes do «oitavo», o anticristo ou «Nero redivivo», aparecer no palco do mundo. João esperava ver o fim pessoalmente, porquanto não antecipava um longo «império romano», e nem a já longa idade da graça, ou da igreja. Os «dez chifres» são «dez reis», de acordo com o décimo segundo versículo deste capítulo, e isso se aplica, profeticamente, à federação de dez reis encabeçada pelo anticristo. Historicamente falando, como é óbvio, isso se aplica aos poderes mundiais que apoiavam Roma. Isso envolveria, quiçá, as províncias cujos governantes eram nomeados pelo senado romano, que podiam governar apenas por um ano (pouco tempo, Segundo se vê no décimo segundo versículo). Mas outros eruditos supõem que esses reis seriam sátrapas partas, que se esperava acompanhassem o Nero redivivo (que era tido e esperado como o anticristo, pelos cristãos primitivos), a fim de destruir a cidade de Roma (ver Ap 17:18), os quais só teriam poder porque acompanhariam a Nero em seu assédio.

A «besta», por conseguinte, incorporará em sua própria pessoa tudo quanto simbolizava Roma, pelo que é equiparada com ela, tal como a besta se comporá de sete cabeças e dez chifres.

Os «deuses» do imperador são repudiados zombeteiramente por João. Suas sátiras contra eles, por fazerem parte da besta satânica, mostram que eles nada serão, exceto veículos para a meretriz. Assim sendo, longe de serem divinos, tais imperadores, no dizer de João, são apenas feras satânicas, que surgiram a fim de destruir tudo quanto é bom e hígido. E assim, em linguagem vívida e dramática, João adverte aos cristãos contra qualquer participação na idolatria romana.

«Roma fora adoradora das leis civis; mas o homem de Patmos descreve amargamente a cidade de Roma como a grande violadora das leis. E com intensa ironia descreve a grande cidade como uma meretriz, que deriva sua força de uma besta apaixonada e poderosa. Platão descreveu a boa vida, que consiste da participação na realidade das grandes e eternas ideias. Do alto e do após-vida é que vem esse grande poder. Mas Roma recebeu poder do que é sub-humano, abusando da vida humana. Um escritor esperto de certa feita escreveu uma história sobre um homem que viveu uma vida dupla. Era membro do grupo de jurisconsultos que traçavam as leis, mas também era um secreto e bem-sucedido violador das leis. Esse livro foi intitulado ‘Lawmaker and Lawbreaker’ (‘Legislador e Transgressor da Lei’). Quando o grande legislador do mundo tornar-se no grande transgressor de tudo quanto é bom nas leis, a situação se tornará realmente uma tragédia profunda e dolorosa. Assim, pois, Roma tornou-se a cidade desregrada, sem lei». (Hough, inloc.).

Outras ideias sobre o terceiro versículo:

1.      A cor «escarlate» que envolve a besta pode referir-se ao «sangue dos santos», que a manchara. Mas outros veem nisso o luxo e as ostentações pretenciosas de Roma, civil ou religiosa.

2.      O deserto fala do ressequido estado espiritual de Roma pagã e seu culto. (Ver os comentários antes da exposição). Esse deserto também pode subentender «desolação iminente», devido ao juízo, o que é descrito nos capítulos dezessete e dezoito. Certamente não há nenhuma localização geográfica específica, como «Europa», «Itália», etc., conforme supõem alguns intérpretes. Alguns veem aqui o «deserto» do mundo, o lugar onde a besta dominará. Mas, apesar disso não ser a aplicação primária do termo, é uma boa aplicação.

3.      Os intérpretes da escola histórica, protestantes, muitos se esforçam por ver a Roma papal em todas essas descrições. Mas o significado transcende esta ideia grandemente.

4.      A mulher e a besta são magnificentes, esplendorosas em suas vestes e em seu poder, mas habitam no deserto. Isso se dá também com muitos «insensatos magnificentes», que se gloriam nos valores da terra, mas habitam em um deserto espiritual.

5.      «Nomes de blasfêmia», tal como em Ap 13:1, exceto que ali esses nomes estão em suas cabeças. Muitas conjecturas têm sido apresentadas sobre o sentido de tais «nomes», e as notas expositivas em Ap 13:1 dão um sumário das ideias. Os intérpretes protestantes veem aqui os muitos títulos e honrarias que a Roma papal tem dado a si mesma. Mas sem dúvida não é isso que está aqui em pauta.

17:4  A mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas; e tinha na mão um cálice de ouro, cheio das abominações e da imundícia da sua prostituição;

Essa meretriz não é uma decaída comum. Suas vestes eram caras e principescas, o que é simbolizado pelo púrpura e pela escarlata. Sua posição era «imperial». Além disso, estava adornada de «ouro e pedras preciosas», recoberta de pérolas. Isso quer dizer que ela será riquíssima. Seu comércio iníquo muito lhe renderá, e ela se enriqueceu com os presentes que lhe foram dados pelos reis. Ela cobrará caro por seus serviços, tornando-se, por assim dizer, a «superprostituta».' Historicamente falando, João descrevia como Roma se enriquecera, sendo reconhecida como Senhora por toda a parte, extraindo das nações todas as riquezas que ela quis. Mas essa mulher riquíssima também é uma prostituta. Roma impunha às nações o seu culto idólatra, afastando-as de Deus. Conforme nos é sugerido por seu simbolismo, João pode ter tido em mente o preço elevado das prostitutas cultuais. A sua renda sustentava o culto e pagava os salários daqueles que cuidavam da adoração nos templos, além de financiar os reparos e a construção de outros templos. Mas para as próprias «meretrizes» ainda sobrava muito. Nos dias de Paulo, Corinto contava pelo menos com mil dessas «prostitutas cultuais»profissionais, pelo que aquela cidade se tornara uma atração turística. Assim, João visualizava a própria Roma como uma daquelas luxuosas meretrizes cultuais. João se espantou, horrorizado, ante a aparência da mulher. Era uma aparência imponente, mas ao mesmo tempo, asquerosa (ver o sexto versículo).

«...tendo na mão um cálice de ouro...» Seus súditos a serviam como se fora uma rainha. Esse detalhe pode ter sido tirado por empréstimo de Jr 51:7, onde Babilônia aparece como um «cálice de ouro» nas mãos de Deus, cheia de vinho que deixava as nações alucinadas ebêbedas (comparar com Ap 14:10 e notar o segundo versículo deste capítulo). Os reis e os habitantes da terra ficaram «intoxicados» com as fornicações dessa meretriz. (Ver também Ap 14:8,10). Tem segura esse «cálice», mas o mesmo é um cálice de «cólera». Aqueles quebeberem do «cálice da meretriz» não poderão evitar, finalmente, o «cálice da ira de Deus».

«....abominações...» No grego é «bdelugma», palavra usada na Septuaginta para indicar todas as formas de impureza cerimonial, sobretudo o que se relaciona a qualquer contato com os ritos idólatras. Esse termo indica, em primeiro lugar, qualquer coisa «detestável», algo digno de repúdio e desdém. A forma verbal, «bdelusso», significa «fazer cheirar mau» ou «ser repelente». O anticristo será a «desgraça mau cheirosa» do mundo, um indivíduo detestável e repelente. O cálice idólatra (fornicação), brandido pela meretriz,está repleto de coisas detestáveis e fedorentas, todas as formas de imundícia. Portanto, aquela que é tão atrativa é mulher doentia e nojenta. É um esgoto de imundícia. Essa é a espécie de ideia que o vidente João desejava transmitir.

Este versículo pode ser confrontado com Dn 11:31; 12:11; 9:27 e Mt 24:15. Antíoco IV Epifânio e o anticristo (o antítipo daquele) são algumas dessas «abominações», dignas de serem repelidas. São atrativos em todo o seu esplendor e pompa. Eles fazem muitos favores a seus seguidores; em última análise, porém, são apenas prostitutos doentes e imundos. Assim é que João descrevia Roma, a Roma pagãe seu culto ao imperador. Trata-se de uma linguagem bastante vívida, cortante e impressionante, que deve ter servido de advertência eficaz para a igreja primitiva, a fim de não se envolver com a adoração à deusa «Roma» ou com o «culto ao imperador».

Outras ideias sobre o quarto versículo:

1.      «Roma é aqui declarada luxuosa, licenciosa e asquerosa. Aqui, tal como no livro contemporâneo de IV Esdras 3:2,29, sente-se ser um mistério que a prosperidade e a permanência pertençam a um estado que apregoa sua impiedade e opressão não apenas desfrutando, mas também propalando os seus vícios» (Moffatt, in loc.).

2.      Conforme fazem acerca de toda a passagem, os intérpretes protestantes veem aqui a Roma papal, com todo o seu luxo.

3.      O «cálice» é um símbolo de «comunhão». A meretriz propaga a comunhão em torno da imundícia e do deboche. Alguns estudiosos chegam a pensar que se trata do cálice da «transubstanciação» romanista; mas certamente isso está longe da verdade.

4.      Algumas prostitutas dão bebidas fortes a seus amantes, ou até mesmo drogas, a fim de arrancar deles o que querem, sobretudo o dinheiro. Talvez haja algo dessa ideia nesse símbolo. É certo, pelo menos, que os homens ficarão intoxicados e totalmente dominados sob o controle da meretriz.

5.      «A aparência dela era alegre e afetada. Ali havia todos os atrativos das honras, das riquezas, da pompa, do orgulho mundanos, próprios para atrair mentes mundanas e sensuais» (Matthew Henry, in loc.).

Variante Textual: A «fornicação dela» é a forma que aparece nos mss A, 1006, 2344, na Vg, no Si(ph). A «fornicação da terra» é a forma que aparece em vários manuscritos insignificantes, evidentemente uma influência com base no quinto versículo, «abominações da terra». O ms Aleph tem um texto composto, «fornicação dela e da terra»; e o saídico diz «da fornicação dela com aqueles da terra». O boárico diz «com toda a terra». Mas a primeira forma certamente é a original. As outras formas representam equívocos e adornos escribais.

17:5  na sua fronte estava escrito um nome simbólico: A grande Babilônia, a mãe das prostituições e das abominações da terra.

«...na sua fronte...» Temos aqui uma marca identificadora, tal como no caso dos adoradores da besta (ver Ap 13:16), ou no caso dos adoradores do Cordeiro (ver Ap 7:3). A besta blasfema tem «nomes» de sua perversão sobre as suas cabeças (ver Ap 13:1), e isso também serve para indicar uma imensa perversão. Não nos é dito o que está escrito sobre as cabeças da besta, mas João informa sobre o que está escrito na testa da meretriz, sem faltar nenhuma letra. Em Roma era costume «marcar» as prostitutas, com um nome na marca, a fim de «rotulá-la». As prostitutas traziam rótulos na testa, para serem identificadas. (Ver Sêneca, Contr. i.2 e Juv. 6.112 e 55.). Essas marcas identificadoras também têm sido feitas em tempos modernos, como os alemães marcaram suas vítimas, ao tempo de Hitler. Até mesmo as meretrizes eram marcadas por eles, e elas se tornavam virtuais escravas da soldadesca. Seja como for, toda a prostituta é reconhecida pelos seus modos e por seus trajes. A pior meretriz de todas fica bem identificada nesta visão.

«...mistério...» Nas páginas do N.T., um «mistério» é uma verdade antes oculta nos conselhos divinos, mas que agora foi revelada. É um «segredo desvendado». Contudo, não pode ser desvendado pela mera investigação humana. Só a revelação divina pode esclarecer um desses mistérios, e o presente contexto o demonstra. (Ver Ef 3:4 sobre a definição neotestamentária de «mistério». Quanto a mistérios do N.T., ver Mt 13:13 e Rm 11:25). João nos revela, como que por iluminação divina, a imensa depravação de Roma e seu «culto ao imperador». O uso da palavra «mistério», neste ponto, nos permite entender que devemos buscar um significado espiritual oculto, na descrição que se segue. Devemos não esquecer que «Babilônia» é Roma, e compreender que sua idolatria é imoralidade espiritual, e que, considerada do ponto de vista espiritual, Roma é uma abominação diante de Deus, embora, aos olhos do mundo, pareça uma rainha adornada de joias caríssimas.

«...Babilônia...» Isto é, «Roma», segundo se vê nas considerações esboçadas em Ap 14:8. Em Roma se vê o reavivamento do sistemaímpios originalmente criado na antiga Babilônia. (Ver as notas expositivas quanto à introdução ao primeiro versículo deste capítulo, a esse respeito).

«...grande...» Por ser vasta, tendo o mundo inteiro sob os seus pés, levando todas as nações do mundo a adorarem perante seus altares. Aqui temos a cidade de Roma, com sua adoração à «Dea Roma» e seu «culto ao imperador».

«...a mãe das meretrizes...» Ela mesma é uma prostituta, o que se vê claramente nos versículos primeiro e segundo. De fato, é a maior de todas elas, aquela que faz o maior número de vítimas. Em seus «adultérios» ela produz muitas filhas, as quais, por sua vez, nascem com as mesmas inclinações dela, e seguem a sua mesma «profissão». Espiritualmente falando, isso significa que Roma tornou-se a influência que causou muitas seitas, nações, sociedades e povos se voltarem para a idolatria, especificamente, para se unirem ao culto ao imperador e à adoração à «Dea Roma». Na Ásia Menor, onde o «culto ao imperador» era seguido com tanto zelo, o que fora incorporado à adoração em muitíssimos templos pagãos, os cristãos certamente entenderiam a sugestão de João.

Essa Dea Roma e o «culto ao imperador» podem ser comparados com a «Magna Mater», a Grande Mãe dos Deuses, representada como uma deusa pura e casta, na Ásia Menor, a qual, desde o ano 204 A.C. vinha sendo adorada em Roma e cercanias. A devassa Roma mostrara o que a idolatria realmente é a despeito dos nomes e tradições por ela patrocinados.

«...das abominações da terra...» Com frequência, a própria idolatria, nos escritos judaicos, é chamada «abominação» e é isso, essencialmente, que se deve compreender aqui. (Ver as notas expositivas sobre essa palavra, no quarto versículo deste capítulo). O cálice de ouro, que a meretriz exibe, está repleto de abominações e imundícias.

Outras ideias sobre o quinto versículo:

1.      Uma comum interpretação protestante diz que a meretriz é a «Roma papal», e que suas filhas imundas são as denominações protestantes apóstatas. O culto final, ao redor do anticristo, sem dúvida enganará a muitos cristãos de todas as denominações; mas os crentes fiéis se afastarão disso e existirão subterraneamente; e haverá certa unidade nesse movimento subterrâneo, pois as muralhas dogmáticas ruirão por terra, ficando de pé tão-somente a verdade bíblica. Porém, a meretriz e suas filhas envolvem mais que as denominações cristãs apóstatas. O movimento incorporará religiões orientais e não-cristãs. O trecho de Ap 18:4 lança o apelo à separação, para que os crentes nada tenham a ver com o culto ao anticristo, sem importar suas vinculações. Essa é a aplicação profética. Historicamente, João estava convocando os cristãos autênticos a não se imiscuírem com o culto ao imperador, algo inteiramente não-cristão.

2.      Que horrenda responsabilidade é a daqueles que são maus, que treinam outros à maldade, ou que os influenciam à depravação!

17:6  E vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue dos mártires de Jesus. Quando a vi, maravilhei-me com grande admiração.

«...vi...» Em visão mística. (Ver sobre isso em Ap 1:10 em ebd areia branca).

«...mulher...» Roma, a meretriz. (Ver as notas expositivas no primeiro versículo deste capítulo).

«...embriagada...» Houve dois grandes pecados praticados pela Roma pagã, nos tempos do vidente João. O primeiro era a sua idolatria, sua fornicação espiritual, o tema da passagem imediatamente anterior. (Ver Ap 17:1-5). Em segundo lugar, Roma martirizava um grande número de cristãos, por se recusarem a prestar culto ao imperador. Esse grande pecado é aqui frisado; e a linguagem simbólica usada é a de uma meretriz embriagada com o sangue dos mártires, que ela sorvera. E o resultado natural é que a meretriz embriagada haveria de querer mais e mais sangue, porquanto assim agem os embriagados. João escreveu este livro para consolar e fortalecer aos mártires em potencial. Escreveu para a igreja cristã. Portanto, somos forçados a interpretar o livro como de aplicação histórica primária à igreja primitiva. Porque, quando o interpretamos profeticamente, temos de aplicar suas predições a outro povo, que não os crentes dos últimos dias?. É evidente que a igreja atravessará a tribulação, se é que o Apocalipse diz a verdade.

«...sangue dos santos...» Esses são os cristãos, os «santos» do N.T. (Ver também Ap 8:3,4; 11:18; 13:7,10; 14:12; 15:3; 16:6; 17:6; 18:24; 19:8; 20:9). Assim, a «igreja» está bem presente nas predições deste livro, até mesmo nos capítulos quarto a décimo nono e não ausente, conforme alguns supõem. (Ver Rm 1:7, no tocante ao termo «santos», que se aplica aos cristãos). Esse é um termo moral, que salienta a «santificação» dos crentes. Sem a santificação ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:4). A santificação é algo necessário à salvação (ver II Ts 2:13). A conversão será falsa, se não for acompanhada da santificação.

«...testemunhas de Jesus...» Essas são as «testemunhas mártires» deste livro, que são tão exaltadas. (Ver as descrições sobre elas, nos capítulos sete e catorze). As «testemunhas» que João descreveu originalmente eram os cristãos que sofriam nos primeiros anos do estabelecimento da igreja cristã. Profeticamente, isso aponta para os «cristãos» que sofrerão sob o anticristo. Cremos que ele já vive à face da terra. Teremos de enfrentá-lo e certamente nossos filhos terão de enfrentá-lo. Terão de ser crentes melhores do que nós, a fim de resistirem à prova.

«...admirei-me com grande espanto...» Não se deve pensar aqui que João manifestou «admiração» pela meretriz, por causa do esplendor dela, apesar de suas inclinações naturais. Tal declaração significa apenas que ele foi muito surpreendido, e que sua mente ficou atônita ante o espetáculo, não podendo entender o que ela significaria. O versículo seguinte mostra que ele precisou receber explicações sobre a meretriz.

Outras ideias sobre o sexto versículo:

1.      Talvez esteja particularmente em foco a perseguição nerônica, descrita tão vividamente por Tácito (Anais xv.44). Profeticamente, a maior perseguição religiosa de todos os tempos, promovida pelo anticristo está em foco.

2.      O conceito de uma nação embriagada de sangue é bastante comum na literatura antiga. (Ver Josefo, Guerras dos Judeus v.8.2, acerca dos enfatuados compatriotas seus, cercados pelos romanos; ver Eurípedes, preservado em Filo, leb. Alleg. iii.71; em Cic. Phil.ii.29; em Suetônio, Tib. 59; em Plínio, História Natural xiv. 22,28; ver também Jr 46:10).

3.      A meretriz e suas filhas são a antítese mesma da moralidade. Mas na igreja de hoje, a atmosfera cultural da Babilônia é destacada. As melodias dos clubes noturnos transformam-se em «hinos evangélicos». São usadas expressões mundanas, e a fé cristã se degrada em face dessa irreverência e pouco caso.

4.      Essas palavras podem ser confrontadas com Ap 12:5,6, onde aparece a mulher no deserto, que deu à luz a um «menino» como já vimos em ebdareiabranca. Alguns intérpretes veem nisso um quadro paralelo. Supõem que a «igreja» é a mulher tanto do décimo segundo capitulo como deste capitulo; assim, a igreja fiel dali é vista como a igreja apóstata daqui. Porém, visto que o vidente João escreveu sobre o «culto ao imperador» (Roma e sua idolatria), ao descrevê-la como a meretriz, não estava falando da igreja em nenhum sentido. Essas passagens só podem ser paralelas verbalmente, mesmo que pensássemos que a mulher do décimo segundo capítulo é a igreja. Na realidade, aquela mulher é a nação de Israel, o seu «menino» é Cristo; e a igreja nem está em foco naquela cena. Por igual modo, a igreja não está em foco aqui, e, sim, o culto ao anticristo, embora isso venha a incorporar supostos elementos cristãos.

5.      «Os agioi (santos)... mártires cristãos. Esses não se contaminarão como os demais homens; mas sua pureza será conquistada ao preço da vida deles» (Moffatt, in loc.).

6.      Os visitantes da cidade de Roma, ao falarem com certo papa, eram por ele instruídos que se queriam relíquias de Roma, bastava tomar um pouco da areia do Coliseu, porquanto tal areia estaria empapada do sangue dos mártires.

7.      Um poder cruel intoxicará aqueles que o brandirem. Há quem sinta um prazer sádico no sofrimento alheio. A perseguição da igreja cristã é ao mesmo tempo longa e terrível. Basta-nos ler o Livro dos Mártires, de Fox. Sabe-se de um pregador que, considerando a história dos mártires, disse: «A igreja cristã tem pago, não com dinheiro, mas com sangue».

17:7    Ao que o anjo me disse: Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher e da besta que a leva, a qual tem sete cabeças e dez chifres.

O anjo veio aliviar a perplexidade e surpresa de João, a sua admiração. Ele estava atônito pelo que vira, e não sabia o que seria. Sua admiração, conforme se vê aqui, se devia essencialmente à sua incapacidade de compreender o que seria, pelo que o anjo faz aqui o papel de intérprete.

«...mistério...» Isso é explicado nos comentários sobre o quinto versículo, com referências a outros «mistérios» e definições que aparecem no N.T.

«...mulher...» Essa é a «meretriz», que representa o império romano e seu «culto ao imperador». (Ver o primeiro versículo). Alguns estudiosos pensam estar em foco a cidade de Roma (ver o décimo oitavo versículo), em contraste com o império romano em geral, porquanto há certa distinção entre a besta e a mulher; e no décimo sexto versículo a besta vem a odiar e a destruir a mulher. As notas introdutórias ao presente estudo procuram explicar por que e como os capítulos dezessete e dezoito parecem expor, por assim dizer, duas Romas ou Babilônias diferentes. Historicamente é fácil explicar isso. A lenda que Nero (ressurreto ou reencarnado) retornaria do exílio, à testa de um exército parta, a fim de destruir Roma (essencialmente a cidade desse nome; ver o décimo oitavo versículo) indica a besta a atirar-se contra a meretriz. Profeticamente, porém, o problema se torna mais difícil. Não se pode identificar a meretriz com qualquer denominação cristã apóstata em particular; mas mui provavelmente a cristandade apóstata se misturará com o movimento em torno do anticristo, identificando-se com a meretriz. O anticristo haverá de destruir certa porção desse culto, aquilo que cair em seu desfavor; mas, em linhas gerais, ele haverá de preservar seu culto, ao invés de destruí-lo. Os acontecimentos propriamente ditos, entretanto, deixarão claras todas essas questões.

«...besta...» A primeira besta, o «monstro saído do mar» (ver Ap 13:1,2), que é o mesmo anticristo (ver II Ts 2:3).

«...sete cabeças...» Esses seriam os imperadores romanos que, segundo João pensava, fechariam o ciclo do império, antes da sua destruição. Também pertencem a Satanás, porquanto o diabo governará por meio de seu falso cristo. O trecho de Ap 13:1 mostra-nos que o anticristo terá essas sete cabeças. Ele será a culminação do governo dos imperadores romanos, incorporando em si mesmo toda a maldade deles.

«...dez chifres...» Isso também é explicado em Ap 12:3, reiterado em Ap 13:1. Os versículos nove, dez e doze deste capítulo nos fornecem as interpretações emanadas diretamente do anjo. Historicamente falando, esses chifres eram os «reis das províncias romanas», que apoiavam ao imperador. Mas alguns estudiosos pensam que esses são iguais aos imperadores, e que os dez se tornariam em sete mediante a eliminação de três deles, Galba, Oto e Vitélio, porquanto seu reinado foi muito breve, eram usurpadores, e foram governantes insignificantes. Isso é impossível quando consideramos o décimo segundo versículo, onde é evidente que os dez serão governantes contemporâneos com a besta, apoiando sua autoridade, embora por pouco tempo, ao invés de serem governantes romanos sucessivos, antes do advento do anticristo. Ver o primeiro versículo deste capítulo, sob «Outras Ideias», ponto dois, para uma identificação tentativa das dez nações da federação do anticristo dos últimos dias.

«...leva a mulher...» Ela é vista «montada» sobre o monstro (ver o terceiro versículo). O império romano e seu culto estão intimamente associados ao imperador (à besta), tal como um cavaleiro está associado ao seu cavalo.

Outras ideias sobre o sétimo versículo:

1.      A meretriz é a cidade (ver o décimo oitavo versículo), mas talvez reputada como representante do império inteiro, que sofreria o açoite do Nero reencarnado, quando retomaria com tropas partas para destruir a cidade. Supõe-se que a lenda que ensinava isso também indicava que ele destruiria o império até certo ponto, e não apenas a cidade.

2.      É possível que o sentido original da «besta» fosse o império romano; e esse seria a mensagem geral de Ap 13:1,2. O trecho de Ap17:3, naturalmente, mostra que o império está em foco, com o uso deste símbolo. Mas, em Ap 17:11-17, a besta é o imperador apenas, a saber, o anticristo, o «Nero redivivo». Esse uso duplo do símbolo pode confundir-nos. Nero, possuído pelos demônios, que se levantaria do próprio hades, reencarnado, dirigiria os partas contra Roma, a meretriz.

     Notas Bibliografia R. N. Champlin,comentario do novo testamento