sexta-feira, 27 de março de 2015

RELATIVISMO MODERNISMO VIGIA

                                

                     Relativismo e Cultura Cristã

Uma visão cristã das várias formas de relativismo

O vocábulo “relativismo”, procede de dois termos latinos: “relatīvus” e “ismo”. O primeiro que se traduz por “relativo”, “referente”, “respeitante”, “que indica relação”, procede do verbo “refērre” cujo sentido primário é “levar”, mas também “trazer”, “refletir”, “referir” e “relatar”. O segundo, “ismo”, é um sufixo que tanto pode derivar do grego “ismos” quanto do latim “ismo”, mas que ambos denotam sistema, ou doutrina filosófica.
Para compreendermos o relativismo é necessário esclarecermos o conceito de relação (já presente na definição do termo) como categoria do pensamento e conexão objetiva entre uma coisa e outra. Segundo o filósofo Edmund Husserl, o relativismo foi enunciado pela primeira vez por Protágoras de Abdera, filósofo pré-socrático, ao afirmar: “O homem é a medida de todas as coisas, do ser daquelas que são e do não ser daquelas que não são”. O sentido deste aforismo é que cada pessoa em particular depende das coisas, não de sua realidade física, mas de sua forma conhecida. Logo, o conhecimento é subjetivo, relativo e sensual, ou seja, “passa pelos sentidos”. A questão levantada é se o homem tem ou não capacidade de conhecer a íntima natureza das coisas e a lei moral absoluta. Se a expressão “o homem” tratar-se de cada ser ou do indivíduo, a forma de relativismo proposta é subjetiva, isto é, circunscrita à pessoa, ao individuo. Assim teríamos tantas verdades quanto são as pessoas. Deve-se observar, entretanto, que o relativismo apresentado nesta afirmação protagoriana é relacionada ao “relativismo do conhecimento ou gnosiológico”. Segundo Protágoras, o conhecimento racional é absoluto, enquanto o sensível, é relativo.

Vejamos o relativismo na filosofia aristotélica e contemporânea.

Na filosofia aristotélica são relativas as coisas cujo ser depende de outras. Nesse conceito, o relativo é oposto ao absoluto, isto é, que existe por si mesmo. Absoluto, portanto, é a Causa sem causa, enquanto o relativo é uma consequência proveniente de uma causa e que depende dela para ser explicada. O absoluto é autossuficiente, enquanto o relativo, não. O absoluto corresponde à existência de Deus e o relativo aos seres criados. Modernamente, no entanto, o relativismo é a teoria que nega a existência de qualquer teoria, regra, moral, ética ou qualquer outro tipo de verdade que assuma para si o postulado de absoluto, inequívoco ou transcendente.

O relativismo, como observamos nos conceitos anteriores, assume diversas categorias ou classificações. Entre elas destacamos:

Relativismo Cognitivo (Conhecimento relativo)
Segundo o relativismo cognitivo, gnosiológico ou do conhecimento, toda opinião é justificável em razão de suas respectivas evidências. Não existe qualquer questão objetiva as quais um conjunto de normas deva ser aceito. O ateu, por exemplo, está certo por negar a existência de Deus; o cristão está correto ao afirmar que Deus existe. O conhecimento do primeiro é materialista ou naturalista, o do segundo, teológico ou teleológico. No entanto, todas as duas opiniões são relativas. Não se pode assegurar qual das duas é absolutamente verdadeira. Mas, observemos que uma afirmação nega a outra. Portanto, as duas não podem estar certas. Uma está correta enquanto a outra está equivocada. Uma atesta de acordo com a verdade, enquanto outra, segundo a mentira. O relativismo, por conseguinte, é contraditório. De acordo com esta corrente, todas as formas de conhecimento são relativas ao mesmo tempo em que não explicam a toda realidade ou verdade, mas delas, apenas possuem partes ou relampejos.

Relativismo Ético (Ética relativa)
O relativismo ético acredita que nada é objetivamente mau ou bom, e que a definição de bem ou de mal, depende de um ponto de vista particular da cultura ou de um período histórico. Segundo os relativistas, a moral e a ética são determinadas por condições mutáveis, diferentes e contraditórios. Portanto, não se pode absolutizar o conceito de bom ou mau, bem ou mal. Não existe qualquer critério absoluto de moralidade ou ética; logo, qualquer norma ética e moral são arbitrárias e inconsistentes.

Relativismo Radical (Ceticismo)
O relativismo radical é a posição assumida pela corrente filosófica conhecida como “ceticismo”. Segundo o ceticismo o homem não pode chegar a qualquer conhecimento objetivo, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento. Para o cético, tudo é relativo, pois não é possível afirmar com certeza sobre qualquer possível verdade. 

Apesar da teoria relativista de nosso tempo, o cristianismo ensina os valores absolutos. Os princípios e valores cristãos são opostos às normas e valores do mundo. Em primeiro lugar porque nós, os cristãos, cremos na existência de um só Deus, cujas leis regem não apenas o Universo, mas nossas vidas, planos e vontade. A cultura mundana, no entanto, nega a existência de Deus, ou então vive como se Deus não existisse (Sl 14; 53). Os valores cristãos possuem, pelo menos, três características principais. São universais, absolutos e imutáveis, pois procedem da vontade do Deus Pessoal Absoluto, Imutável e Universal. Vejamos em pormenor.

Universal. Os valores cristãos são universais em função de estarem fundamentados na moral divina. Nosso Deus é um ser moral. Os atributos divinos atestam que o Senhor é santo (Lv 11.44; 1 Sm 2.2), justo (2 Cr 12.6; Ed 9.15), bom (Sl 25.8; 54.6), e verdadeiro (Jr 10.10; Jo 3.33). Portanto, Ele é o padrão moral daquilo que é santo – oposto ao pecado –, daquilo que é justo – oposto a injustiça –, daquilo que é bom – oposto ao que é mau, e daquilo que é verdadeiro – oposto a mentira. Tudo o que é puro, justo, bom e verdadeiro têm sua origem no caráter moral de Deus. Logo, os valores morais são universais porque procedem de um Legislador Moral universal.

Absoluto. Absoluto é aquilo que não depende de outra coisa, mas existe por si mesmo. Os valores cristãos são absolutos porque procedem de um Deus pessoal que não depende de qualquer outro ser para existir. Ele é eterno (Dt 33. 27; Sl 10.16); existe por si mesmo (Êx 3.14), e tem a vida em si mesmo (Jo 5.26). Deus também é absoluto porque não está sujeito às épocas (1 Tm 1.17; 2 Pe 3.8; Jd 25). Ele governa eternamente o Universo (Sl 45.6; 145.13), e, seu reinado é de justiça (Hb 1.8). Portanto, as leis santas e justas de Deus são absolutas, porque procedem de um Legislador Absoluto.

Imutável. Imutável é a qualidade daquilo que não muda. Os valores cristãos são imutáveis porque o Senhor Deus é imutável. Ele não muda (1 Cr 29.10; Sl 90.2), é o mesmo em todas as épocas (Hb 13.8; Tg 1.17). Suas leis se conformam ao seu caráter moral, pois Ele é fiel (2 Tm 2.13). Portanto, os valores cristãos são imutáveis porque estão fundamentados no caráter perfeito e imutável de Deus. 

Lembremos que:

A verdade é absoluta, mas o conhecimento que os homens possuem sobre ela pode ser relativo. Até fins da Idade Média, as autoridades eclesiásticas de então, acreditavam, fundamentado no livro de Josué, que a Terra era o centro do Universo. Outros, acreditavam que a Terra era plana e que os mares eram habitados por serpentes aladas, sereias e outros terríveis monstros. No Iluminismo e na época contemporânea, sabe-se que a Terra é que circula em torno do Sol e, não o contrário. Que a Terra é uma esfera e não um cubo. O que mudou? A verdade ou o conhecimento do homem sobre ela? A Terra não mudou de cubo para esfera ou passou a girar em torno do Sol. O nosso conhecimento que mudou, passando de falso para verdadeiro e, não a absoluta verdade de que a Terra é uma esfera e que circula ao redor do Sol. 

A verdade é absoluta, não existem verdades relativas. A verdade de uma sentença matemática é universal: 5 + 5 = 10, isto em qualquer lugar a todas as pessoas. A verdade é absoluta ou veraz. A palavra veraz é a raiz da palavra “veracidade”, que significa “verdade”, ou aquilo que é sempre verdadeiro, sem qualquer sombra de dúvida. Quando você aprendeu a simples verdade de que 2+2=4, o seu professor estava falando com uma autoridade veraz. Este é um fato que não tem que ser arbitrado, discutido ou justificado. Ele é verdadeiro. É uma declaração irrefutável de um fato matemático. Como no exemplo acima, qualquer coisa que é verdadeira possui autoridade pelo fato de ser verdadeira. O apóstolo Paulo reconheceu isto: “Porque nada podemos contra a verdade... “ (2 Co 13.8).

A verdade tem Autoridade. Rejeitar a verdade é incorrer em julgamento: “Para que sejam julgados todos os que não creram na verdade (...)” (2 Ts 2.12). Deus, o Pai, fala a Verdade: Deus sempre diz a verdade; portanto, as palavras dele têm autoridade veraz: “Deus não é homem, para que minta... porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria e não o confirmaria” (Nm 23.19). A Bíblia é a Autoridade Veraz: É uma autoridade maior que qualquer posição na Igreja, na Ciência ou na Filosofia. (cf. Is 8.1). Deus engrandeceu o seu próprio nome e a sua Palavra acima de todas as coisas (Sl 138.2).




Filosofia e Religião

A descrença religiosa dos filósofos
Na filosofia, a religião não desfruta de uma definição unívoca. Os filósofos ocidentais a definiram de modo distinto e controverso. Uns criticaram acidamente a religião enquanto outros a conceituaram de modo positivo.

Entre os que se opuseram à religião encontramos FEUERBACH, que a considerava uma invenção humana que se origina na fobia, no medo; KARL MARX, a definiu como "ópio para o povo"; uma invenção da sociedade capitalista para exploração e um instrumento de evasão para os oprimidos e de justificação para os opressores; COMTE, patrono do positivismo, ao descrever as vias do conhecimento humano (religiosa, metafísica e científica), classificou a religião como um estágio de ignorância, ultrapassada pela ciência; já NIETZSCHE, que afirmara a “morte de Deus”, mas nunca apresentou a certidão de óbito, considerava a religião um empecilho ao desenvolvimento do super-homem. A teoria resistiu até mesmo após a mudança ortográfica! FREUD criticou a posição dos filósofos anteriores e acreditava que a religião era um processo de sublimação de uma luta primordial entre os membros do clã doméstico. Para Freud, Deus é uma projeção da culpa familiar e a religião uma neurose obsessiva universal da humanidade, isto é, "um delito coletivo". HEIDEGGER, por sua vez, sustentava que a filosofia não pode falar positivamente a respeito de Deus e da religião.

O fato de os filósofos da descrença negarem a religião não reduziu o seu valor e muito menos sua presença na mundanidade. Eles talharam a lápide, convocaram a elegia fúnebre, mas o defunto nunca compareceu ao enterro!
Hoje, entretanto, o desafio não é o da negação, mas da relativização da religião e do sagrado difuso, hedonista e unidimensional.


Visão escatológica do progresso

Visão da história e progresso na obra dos filósofos e artistas
Paul Klee, o mestre da escola Bauhaus, deixou à posteridade uma iconografia expressionista intitulada Angelus Novus. A pintura, por suas características rústicas, ilude o observador desatento. Porém, não escapou à interpretação de um dos mais destacados filósofos da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin.

Em sua obra crítica, Teses Sobre a Filosofia da História (1940), Benjamin interpreta Angelus Novus de Klee como "um anjo a ponto de afastar-se para longe daquilo que está olhando fixamente", com os olhos arregalados, boca aberta e as asas estendidas. De acordo com a hermenêutica de Benjamin, o "anjo da história" deve ter este aspecto. Para o filósofo, a visão que os homens têm da história, como um encadeamento de acontecimentos racionais e positivos é, na visão do anjo, uma catástrofe singular, que empilha incessantes escombros diante de seus pés. Conclui, "o que chamamos de progresso é esta tempestade".

O progresso intempestivo e inconsequente mergulhou o homem num lamaçal de insegurança e desconfiança nos projetos rotos da modernidade. O sucateamento das reservas hídricas, a ilógica ótica industrialista predatória, e o progresso de rapinagem que depreda as florestas colocando a vida humana e planetária em perigo, deixaram o homem pós-moderno incerto acerca de seu presente e do futuro de suas gerações.

 A visão pessimista da história e progresso humanos de Benjamin só pode ser comparada à Ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht, que afirma em um dos versetos: "Pensa na escuridão e no grande frio que reinam nesse vale, onde soam lamentos."

Um futuro lúgubre e gélido, onde se encontram a dor e o lamento, já manifestos no presente histórico. Na pena dos artistas e filósofos, a visão escatológica da história semelha-se às denúncias dos profetas e apocalíptica cristã. A constatação óbvia por todos os observadores nacionais e internacionais, tanto no passado como no presente, é que o nosso mundo está enfermiço: pela avareza, ingratidão e violência e, como consequência, o planeta e suas reservas naturais estão comprometidos pela ganância de seu inquilino.

Os cristãos, nós não somos contrários ao progresso. Mas nos opomos à cultura industrial rapinante que hipoteca o futuro das próximas gerações. Somos mordomos, administradores desse lindo e maravilhoso lar ofertado pelo Criador! Não se pode salvar a terra, se primeiro não sararmos o homem. O homem, para ser verdadeiramente curado das mazelas que o aflige, necessita ser curado definitivamente da doença ignorada pela ciência, não reconhecida pela psicologia e desprezada pela educação, o pecado. Não é possível salvar o planeta se primeiro o homem não for salvo!




Teologia e Reducionismo Antropológico

As dimensões da natureza humana: mundanidade e espiritualidade
O eminente teólogo holandês, Edward Schillebeeckx (1914-2009), diante das ameaças do secularismo e do existencialismo, buscou resgatar a dimensão religiosa do homem de seu tempo. Schillebeeckx defendia o conceito de que o homem é antes de tudo um ser-no-mundo, mas que transcende o mundo tanto no plano horizontal, como também em uma trans-ascendência, definida pelo teólogo como uma abertura para Deus.

Schillebeeckx lutava contra a indiferença religiosa de seu tempo que, fundamentada no existencialismo heideggeriano e no secularismo, reduzia o homem às dimensões física, lógica e mundana sem qualquer abertura para Deus. Em sua antropologia teológica entendia que o ser não pode ser reduzido à horizontalidade com o mundo, ao plano da mundanidade, limitado à concepção da filosofia do Dasein – ser-aí. Mesmo que ser-aí implique em uma abertura e possibilidade para o mundo, não pode o homem ser particularizado às dimensões terrenal e secular. O homem não se reduz à matéria e mundanidade, mas sublima a horizontalidade na verticalidade, entendida como uma abertura para Deus.

O existencialismo e secularismo afirmavam o fim da metafísica e a independência do homem de sua dimensão espiritual, o início do engajamento humano nas realidades existenciais e terrenas, e a indiferença religiosa. Schillebeeckx, no entanto, afirmava a existência e realidades terrenas (ser-no-mundo), mas enfatizava a trans-ascendência do homem sobre o mundo ao abrir-se para Deus. O homem não se reduz a ser-no-mundo, mas transcende os limites terrenos através de sua verdadeira identidade e dimensão espiritual.

Para compreendermos essa assertiva, permita-me o letor a uma breve digressão. Segundo a Bíblia, na criação entraram em processo duas importantes dimensões humanas: a mundanidade e a transcendência. Criado do “pó da terra” e posto em um paraíso terreno, o ser-aí estava aberto para se lançar compreensivelmente sobre o seu mundo; aberto à descoberta, cultura, ciência, existência e humores, entretanto, não estava reduzido à mundanidade.

A dimensão terrena foi criada a partir de matéria já presente na criação, tornando o homem um ser terrenal. Todavia, o fôlego de vida, a natureza e verdadeira identidade do homem, os elementos que o constituem diferente de todos os seres vivos, não foram criados por mediação (matéria existente), mas por imediação e doação graciosa. Deus soprou em suas narinas o fôlego de vida e o homem foi feito ser vivente – cônscio de si, do mundo (horizontalidade) e de Deus (verticalidade). Foi uma doação livre, espontânea. Deus tirou de si e doou ao homem. Criaram-se, por originação, a real identidade e natureza do homem. O homem foi criado aberto para o mundo e para Deus. Portanto, limitar o homem à dimensão terrenal é reducionismo antropológico.

Portanto, é necessário que a teologia cristã resgate a dimensão religiosa do homem e vença a indiferença religiosa de nosso tempo. A história encarregou-se de provar que as teorias filosóficas, psicológicas, sociológicas ou antropológicas, entre muitas outras correntes do pensamento humano, de fato, à parte das Sagradas Escrituras, não são capazes de responder as mais profundas indagações existenciais do homem moderno. O problema não se circunscreve à exterioridade: falta de moradias, de educação, de trabalho, de cultura, mas à interioridade, ao distanciamento do homem de seu Criador. Longe do Criador restaram ao homem apenas o vazio e a espera. O vazio em razão de perder o sentido da vida autêntica dada por Cristo, e a espera, porque vive na expectativa de amuletos tecnológicos e religiosos que preencham o vazio existencial. O vazio e a inquietação humana serão plenamente preenchidos e satisfeitos na relação certa com o Criador, através de Cristo – a pessoa divino-humana.

Em 1968 Schillebeeck foi alvo de processo da Congregação para a Doutrina da Fé em razão de sua defesa positiva e aproximação com o secularismo, mas isso é outra história.....

 


Discernimento em tempos modernos

O desafio de discernir os modelos culturais modernos
O termo discernir, do hebraico nākar  e do grego diakrinō, quer dizer "distinção”, “separação”, “julgar”; isto é, “fazer distinção”, “fazer separação”. O termo hebraico aparece pela  primeira vez em Gênesis 27.23, no contexto em que Isaque é enganado por Rebeca e Jacó. O vocábulo é traduzido por “não o conheceu” (RC) ou “não o reconheceu” (RA). Na passagem em apreço, o termo significa literalmente “discernir algo por alto”. Contudo, outros vocábulos hebraicos traduzem o sentido considerado: sāpat(Êx 18.16); shama (2 Sm 14.17); yada (2 Sm 19.35); nākar (Ed 3.13), entre outros. Todos com o sentido que diz respeito à percepção, compreensão e julgamento (Jó 6.30; Sl 19.12; Ez 44.23; Jn 4.11). 

No grego do Novo Testamento, a palavra diakrinō aparece dezoito vezes com o sentido de “julgar”, “discernir”, “fazer distinção”, “separar”. O termo descreve tanto o discernimento das coisas naturais quanto das espirituais. Nas páginas de o Novo Testamento o termo, ao que parece, é citado pela primeira vez em Mateus 16.3 (RC) aludindo ao “discernimento” dos tempos e estações naturais. Porém, o vocábulo não se restringe apenas a essa observação, mas prolonga-se no versículo, pois a supressão do vocábulo na parte seguinte pressupõe o seu uso: “...sabeis diferençar a face do céu e não conheceis os sinais dos tempos?”. Portanto, há o uso combinado de ginōskete diakrinein, isto é, “sabeis discernir”, nas duas sentenças: “sabeis discernir a face do céus”; “não sabeis discernir os sinais dos tempos”. Confira, por exemplo, o texto da RA “Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?”. 

No texto de 1 Coríntios 11.31, o vocábulo é usado em relação ao autojulgamento do crente: “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos [heautous diekrinomen], não seríamos julgados”. Trata-se, na verdade, da auto-análise que o crente faz de si mesmo e, mediante a qual, participa conscienciosamente da Ceia do Senhor. Todavia, há outros que assentam-se à mesa do Senhor sem discerni-lhe o corpo: “Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo [diakrinōn to sōma] do Senhor”.  

O discernimento pode manifestar-se também como um conhecimento sobrenatural que o Espírito Santo concede a determinados membros do Corpo de Cristo para julgar ou discernir os espíritos: “...e a outro, o dom de discernir os espíritos [diakriseis pneumatōn]...”. O discernimento de espíritos, aludido no presente texto, é um dos extraordinários dons que concede ao crente a capacidade de discernir os espíritos, julgar as profecias e as motivações cristãs, entre outras espetaculares manifestações. Embora certos membros do Corpo de Cristo possuam este dom, todos os crentes são desafiados a “provar se os espíritos são de Deus, porque  já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4.1). O termo joanino para “provar”, não é diakrinō, mas dokimadzō, isto é, “colocar em prova”, “testar” ou “examinar”. Não somos escusados de frisar, que este último procede da raiz dok, cujo sentido é “perceber”, “pensar”, “pressupor”, “crer”. Traz a ideia de estar convencido de que isto ou aquilo está errado ou certo. Também pressupõe chegar a certeza das coisas mediante a repetidos testes. Portanto, somos advertidos e orientados pela Palavra de Deus a julgar a procedência das motivações humanas, das profecias, dos movimentos de caráter messiânico entre outros. 

O discernimento, portanto, é uma capacidade do crente maduro de acordo com Hebreus 5.14: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”. O crente maduro, no original teleiōn, é aquele que tem as suas faculdades cognitivas exercitadas na piedade e doutrina cristãs. Este é capaz de separar, julgar, testar, distinguir ou discernir tanto o bem como o mal [diakrisin kalou te kai kakou]. O termo kalōs, traduzido neste texto por “bem”, trata-se da capacidade para discernir a qualidade das ações morais humanas que lhes confere um caráter moral correto, bom ou útil. Já, o vocábulo kakōs, significa literalmente “erradamente”, “impiamente”, “mal”, ou seja, tudo o que se opõe à virtude, à probidade, à honra. Nesse âmbito, o crente é desafiado a discernir a cultura, a mídia, a política, a educação, a religião, comparando e confrontando-os com os postulados das Sagradas Escrituras. 

Vejamos em perspectiva: 

Mídia:
O crente é desafiado a discernir a indústria de entretenimento de seu tempo. Muitos produtores de filmes, novelas e outros tipos de programas de entretenimento não possuem qualquer tipo de compromisso com os valores morais e com as Sagradas Escrituras.


Política:
O cristão exerce dupla cidadania – celeste e secular. É desafiado, portanto, a viver como cidadão dos céus, membro da família dos santos, mas sem deixar de relacionar-se com o contexto social que lhe é próprio. Neste sentido, deve exercer sua cidadania secular, participando como cristão das responsabilidades sociais que lhe cabe. É necessário e  plausível que o cristão discirna entre os partidos políticos e candidatos que disputam entre si pelo voto da igreja. Que valores defendem? O que pensam seus candidatos sobre o aborto, a igreja, a família? Quais as motivações que os levam ao pleito? Essas questões são pertinentes aos desafios da igreja hodierna.

Entretenimento:
O homem é um ser lúdico. Se compraz em atividades que despertam sentimentos de bem-estar, quietude, divertimento. Mas, quais são os entretenimentos apropriados para os cidadãos celestes? Que tipo de ocupação lúdica merece o precioso tempo dos cristãos? O cristão é desafiado, diante da atual indústria de entretenimento, a discernir as atividades lúdicas de nosso tempo. Muitas denominações cristãs têm cometido equívocos e extravagâncias neste ponto.

Religiosa:
O contexto religioso atual exige que o crente exerça mais do que nunca, o modelo discernente de Daniel e de seus companheiros diante do politeísmo babilônico. Quando se trata de religiões politeístas, antropomórficas ou animistas, o cristão prontamente as rejeita. Mas quando está em voga uma pseudodoutrina, que mistura o sentido correto de um texto bíblico com uma aplicação errônea, ou vice-versa, muitos crentes sucumbem. Outros correm atrás de doutrinas e ensinos espetaculares, de novidades, de shows motivacionais que em sua maioria torcem a cruz de Cristo.  Imagens religiosas que choram, que soltam raios, falsos cristos e profetas, falsas campanhas espirituais que prometem o céu na terra, terrenos no paraíso, entre outras mentiras materialistas, desafiam o crente fiel. 

Visto que o crente santo e fervoroso, aspira por uma experiência que o eleve acima da mediocridade espiritual tão comum em tempos pós-modernos, é ele, e não os indolentes, quem mais necessita do discernimento espiritual.

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