sexta-feira, 27 de março de 2015

A IMPORTANCIA DO LOUVOR

                        

                        A IMPORTANCIA DO LOUVOR

Desde os tempos antigos o ser humano buscou formas de entrar em contato com Deus e agradar o Seu coração. Criou expressões corporais (danças, inclinações, prostrações...), utilizou elementos da natureza (flores, plantas, animais), formulou palavras, frases ou discursos e pôs tudo isso a serviço da celebração da vida e do Criador, e em toda sua existência, a música tem sido uma grande companheira destas celebrações. Celebrar significa, dar importância, festejar em massa, realizar uma ação solene, honrar, exaltar, cercar de cuidado e de estima. O ser humano é celebrativo por natureza. As pessoas se reúnem para celebrar aniversários, conquistas, promoções no emprego, aprovação no vestibular, formatura, vitórias esportivas etc. Os povos de todos os tempos e culturas possuíam e possuem ritos festivos para celebrar momentos centrais da vida. Muitas dessas celebrações são ritos religiosos ligados ao nascimento, adolescência e casamento. Deus se agrada de celebrações que engrandeçam o Seu nome e é por esse motivo que nossos cultos metodistas devem conter liturgias criativas, que possuam um aparato musical bastante rico, com hinos, cânticos avulsos, louvor congregacional, corais, solos, danças, e se possível, orquestras.

 

O povo chamado Metodista é pioneiro quando se fala em hinologia cristã.  A palavra "liturgia" significa originalmente "obra pública", "É o conjunto de ritos, orações, "e cantos do culto público" que a Igreja presta a Deus, e que é determinado ou reconhecido pela autoridade eclesiástica competente. Carlos Wesley, um dos fundadores do movimento metodista foi o maior hinista da história cristã com aproximadamente 6.500 composições, e a tradição litúrgica daquela época, estava literalmente inserida em suas celebrações. Eles utilizavam os mecanismos que possuíam em mãos na época, para abrilhantar seus cultos.

 

Na tradição cristã, a liturgia mostra  que o povo de Deus toma parte na "obra de Deus". Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua Igreja, fazendo a obra de nossa redenção. A liturgia também é um diálogo entre Deus e seu povo. Esse era o pensamento dos fundadores do movimento metodista John e Carlos Wesley. No ano de  1730, quando surgiu oficialmente em Oxford, Inglaterra, o chamado "Clube Santo". João e Carlos Wesley, William Morgan e Bob Kirkham começaram a reunir-se para estudarem e cultuarem ao Senhor. Chegaram a organizar uma pequena sociedade em suas reuniões. Certamente eles também cantavam variedades de hinos ao Senhor tendo em vista o dom de compor hinos que Carlos Wesley possuía. Obviamente eles entendiam que a liturgia era uma expressão de fé. Jesus tendo fixado sua morada entre nós, revelou-nos quem é o Pai e ensinou-nos a comunicar-nos com Ele e louva-lo utilizando meios diversos de adoração inseridos em uma liturgia.

 

A variedade musical de nossas igrejas chegou a um nível de pobreza bastante acentuado. Hoje em dia quase não encontramos mais coros mistos quartetos, duetos, corais jovens, corais masculinos e femininos. Hoje, só se fala em louvor. Isso é muito bom, mas entendo que não é somente isso que Deus quer de nós. O Senhor é um Deus bastante criativo. Ele fez o mundo repleto de variedades na fauna, flora etc. Ele exige de nós um prefeito louvor. Um louvor variado. Não discriminatório. Um louvor agradável aos Seus olhos. O grande erro desse modismo musical, é que os dirigentes de música das igrejas locais abraçaram um estilo musical e desprezaram  em gênero número e grau os demais.

 

A parte musical da liturgia do culto de uma igreja local pode ser renovada, contendo muitas variedades musicais que venham agradar a todos os membros; carismáticos, progressistas e tradicionais.

 

 

 

HINOS: A utilização de hinos avulsos e do Hinário Evangélico pode ser feita, porém com uma roupagem moderna, sem retirar a tradição de suas composições. Nosso Hinário Evangélico possui um acervo maravilhoso de hinos belíssimos. Podemos selecionar os melhores e aplicá-los no culto.  Não podemos obrigar nossos irmãos, antigos fundadores de nossas igrejas locais a se adaptarem com os sons barulhentos e de nossas baterias que, na maioria das vezes são mal tocadas. Permitamos que esses amados irmãos também tenham os seus momentos de fé, contrição e enlevo espiritual no culto.

 

 

RITMOS: É essencial a utilização de louvores com ritmos variados na parte musical do culto. Se faz necessário que aprendamos a selecionar um repertório aprazível ao público e principalmente ao Senhor.

 

 

 

ANDAMENTOS: Essa parte é mais voltada para o baterista. Ele deve procurar tocar os cânticos com os seus andamentos originais.Não deve puxar para mais ou para menos. Deve

fazer o que está escrito. Os andamentos musicais são classificados em 3 espécies: Vagarosos, Lentos e Apressados (ou Rápidos). Os andamentos Vagarosos são: Grave, Largo, Lento e Adágio. Os andamentos Lentos são: Andante, Andantino, Larguetto, Alleg

ro, Marcial, Minueto, Scherzo, etc. Os andamentos Rápidos são: Alegro, Allegro Vivace, Presto e Prestíssimo: Para marcar os andamentos musicais o aparelho mais usado é o Metrônomo de Maezel.

GRUPOS MUSICAIS: O Coordenador do Ministério de Música e Louvor da igreja local deve usar de criatividade e organizar grupos musicais, tais como duetos, quartetos, corais jovens, adultos, solos. Isso enriquece a liturgia do culto e retira um pouco daquela mesmice de uma igreja cantar dez corinhos e ficar uma hora de pé todos os domingo, e nada mais.

BANDAS/ORQUESTRAS: Se a igreja Local tiver condições, organize bandas, Big Bands, Orquestras, Bandas Gospel. Seria mais uma opção para abrilhantar a liturgia do culto.

INSTRUMENTOS MUSICAIS: Se puder, utilize uma variedade de instrumentos musicais; não fique preso somente no teclado, bateria, guitarra e contrabaixo elétrico. Já pensou em utilizar no seu Ministério de Louvor uma trompa, um violino, viola, violoncelo, contrabaixo de cordas, clarineta, flauta doce ou transversal, um violão acústico. Crie um

nipe de metais: saxofone, trompete, trombone. São instrumentos de boa aceitação.

 

BACK VOCAL: Na ministração do louvor, líder deve criar no seu grupo um back vocal, dividir as  vozes, trabalhar bem a questão da dinâmica, procurando melhorar a cada passo a qualidade vocal de seus cantores.

 

 

 

TEMPO DOS CÂNTICOS: Não deve demorar muito na ministração dos louvores. O

ministro deve selecionar cânticos que tenham a ver com o momento do culto.

 

ALTURA DOS INSTRUMENTOS MUSICAIS E MICROFONES: O técnico de som deve regular bem o instrumental, vocal e back vocal. Ele não deve se esquecer de que existe uma vizinhança nas proximidades da igreja. Deve aumentar o som o suficiente para que a igreja ouça com nitidez.  

Creio que, com esse artigo percebeu-se o quanto que, a execução de uma boa  música enobrece a liturgia de um culto metodista. Por isso, amado pastor, invista na qualidade musical de sua igreja local. O nosso povo chamado Metodista e, principalmente o Senhor Jesus, merecem.

 

 

 

 

 

Rev. Edson Mudesto é pastor coadjutor na Igreja Metodista de Ricardo de Albuquerque,  Ministro de Louvor, regente da Big Band e professor de música (edmud@uol.com.br).

 

 

 

 

Martin Luther (1483-1546)

Biografia e Obra Musical

 Martim Lutero

Martin Luther (1483-1546) HPD nº 15, 18, (49), 57, 82, 88, 90, 97, 106, 147, 155, 185, 291

 

Nasceu em 10 de novembro de 1483 em Eisleben. Faleceu em 18 de fevereiro de 1546 em Eisleben. Sepultado na Igreja do castelo em Wittenberg. Martin era o 2º filho do mineiro Hans Luther. De 1488 a 1497 Martin freqüentou escola na cidade de Mansfeld, para onde seus pais se haviam mudados. Depois de um ano em Magdeburgo, foi matriculado na escola em Eisenach. Nesta cidade participou da Currenda. Era um grupo de meninos que cantavam hinos nas ruas e praças, em troca de esmolas ou alimentos. Madame Cotta, atraída por esse fato, deu-lhe, nos dias de penúria, hospitalidade em sua casa. Em 1501 Lutero matriculou-se na Universidade de Erfurt, a partir de 1505 estudou Direito, a pedido do pai.

Interrompendo os estudos, tornou-se monge da ordem de Agostinho em Erfurt. Ocupou no mosteiro de Erfurt o lugar de corista e cultivou desse modo a arte pela qual tinha verdadeira paixão. 1507 Lutero foi ordenado como sacerdote, e depois passou a estudar teologia. Em 1508 foi transferido para o convento em Wittenberg, e assumiu a cadeira de filosofia na Universidade. Em 1509 foi promovido para Bacharel, e em 1212 Doutor em teologia. Passou então a lecionar sobre Salmos e Carta aos Romanos. Ensinando redescobriu o evangelho da salvação por graça pela fé.

Em 1517, com as 95 Teses contra Indulgência, desencadeou o movimento da Reforma. Seguiram algumas discussões, e em 1521 foi excomungado e perdeu os direitos de cidadão. Sob a proteção do Príncipe Frederico o Sábio passou algum tempo como refugiado no Wartburgo de Eisenach, onde traduziu o Novo Testamento. Depois, voltou a morar em Wittenberg, de onde organizou a igreja evangélica (visitações e Catecismos, 1529) e terminou a tradução da Bíblia (em 1534). Em 1529 casou com Katharina von Bora.

A poesia e música sacra de Lutero começaram em 1523. Depois do martírio de dois jovens evangélicos em Bruxelas Ein neues Lied wir heben an, (Iniciamos um novo cântico) um hino que em 12 estrofes conta o triste acontecimento, e louva a Deus pela firme fé dos dois jovens, que não temeram a morte na fogueira. No mesmo ano (1523) ainda criou letra e melodia do hino Nun freut euch, lieben Cristen g'mein... = HPD nº 155: Cristãos, alegres jubilai, um hino de ação de graças sobre a maior bênção que Deus nos ofereceu gratuitamente em Jesus Cristo.

 

Depois (em 1524) Lutero fez hinos baseados em Salmos (Salmo 12, 14, 67, 124, 128 e 130). traduziu e adaptou hinos que já existiam em língua latina, p.ex.Veni redemptor gentium de Ambrosio de Mailand, (por volta de 386) e Veni creator spiritus de Hrabanus Maurus (em 809). Além disso ampliou corinhos (Leisen) e antífonas existentes em língua alemã. Preparou também hinos para dias festivos e hinos didáticos que ensinam o Catecismo (Dez Mandamentos, Credo, Pai Nosso).

Os primeiros hinos foram impressos e distribuídos em folhas avulsas. Em 1524 oito destas folhas foram unidas num caderno, com o título Etlich christlich Lieder, Lobgesang und Psalm, dem reinen Wort Gottes gemäss... (Alguns cânticos, hinos e salmos, conforme a Palavra de Deus). No mesmo ano de 1524 ainda foram editados: em Erfurt o Enchiridion (Manual), com 25 hinos, e em Wittenberg o primeiro hinário luterano (com 32 hinos em alemão e 5 em latim; sendo grande parte da autoria de Lutero) intitulado Geistlich Gesang-büchlein (Hinariozinho Sacro) organizado por Johann Walther, e que contém um prefácio de Lutero. Em 1529 seguiu outra edição de um hinário em Wittenberg. Nela se encontram, da autoria de Lutero, principalmente cânticos litúrgicos e melodias para textos de outros autores. - Outros hinos de Lutero, depois de criados, apareceram nos anos seguintes nas re-edições dos diversos hinários.

 

Martim Lutero - hinos

 

 

Martim Lutero - música

A música é a maior das dádivas de Deus. Ela tem tão frequentemente me estimulado e inspirado, que sinto o desejo de pregar.

A música teve um papel muito importante no desenvolvimento da Reforma. Lutero escreveu vários hinos que se tornaram verdadeiras prédicas musicadas. Ele entendia que a música deveria estar a serviço da proclamação do Evangelho.

Veja os hinos de Martim Lutero inseridos no Hinário Hinos do Povo de Deus:

HPD nº 15 Eu venho a vós dos altos céus. = Vom Himmel hoch da komm ich her, (EG nº11), letra de 1535, melodia em 1539. O próprio Lutero deu a este hino o título Ein Kinderlied auf die Weihnacht Christi (Uma canção para crianças a respeito do Natal de Cristo). No Natal de 1534 a família Lutero já contou com 5 filhos: Hans, Lene, Paul, Martin e a recém-nascida Margarete (*17/12/1534).

HPD nº 18 Louvado sejas, ó Jesus 5 estrofes, = Gelobet seist du, Jesus Christ, dass du Mensch geboren bist(EG nº 10). A 1ª estrofe deste hino já existia por volta de 1380 em Medingen. Lutero acrescentou 1524 as 2ª até 7ª estrofes deste lindo hino de Natal.

HPD nº 49 Ó Jesus, Cordeiro, tiras o pecado e o mal = Christe du Lamm Gottes (EG nº 36). A melodia deste Agnus Dei provavelmente é de Lutero (1525?).

HPD nº 57 Cristo entregou-se à morte, = Christ lag in Todesbanden (EG nº 57), de 1524, um hino para Páscoa baseado, em parte, na Seqüência: Victimae paschali laudes de Wipo von Burgund (do séc.11).

HPD nº 82 Ó Santo Espírito do Senhor, dá-nos fé e verdadeiro amor = Nun bitten wir den Heiligen Geist (EG nº 76), Lutero acrescentou (em 1524) as 2ª até 4ª estrofes ao Kyrie-eleison de Pentecoste, que existia já no século 13.

HPD nº 88 Nós cremos todos num só Deus, Criador de céu e terra = Wir glauben all an einen Gott (EG nº 85) de 1524, a confissão de fé (Credo) baseado numa estrofe em latim de Breslau 1417, e Zwickau por volta de 1500.

HPD nº 90 Deus, o teu Verbo guarda a nós = Erhalt uns Herr, bei deinem Wort (EG nº 91) letra e melodia de Lutero em 1543.

HPD nº 97 Deus é castelo forte e bom = Ein feste Burg ist unser Gott (EG nº 90) Letra e melodia de Lutero, que se tornou o hino principal dos cristãos luteranos. O poeta Heinrich Heine chamou o hino Castelo Forte é o Nosso Deus de a Marselhesa da Reforma. Era a canção marcial da Igreja Militante, em seu terrível conflito com a hierarquia de Roma. A data em que foi escrito não se sabe ao certo; tem-se como provável o ano de 1529, ano em que o famoso Protesto, que deu lugar ao nome Protestantes aos evangélicos, foi apresentado na dieta de Espira.

HPD nº 106 Clemência dá-nos, ó Senhor = Es wolle Gott uns gnädig sein (EG nº 92) baseado no Salmo 67. Letra de Lutero em 1524; melodia do séc.15, arranjo de Ludwig Senfl, 1522, adaptado por Matthäus Greiter, 1524. Recomendado por Lutero como hino para o final do culto, pedindo a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo na terceira estrofe.

HPD nº 147 Das profundezas clamo a ti. Senhor, meu Deus,ó escuta = Aus tiefer Not schrei ich zu dir (EG nº 140) baseado no Salmo 130. Letra e melodia de Lutero, em 1524; (existe uma outra melodia da autoria de Wolfgang Dachstein, de 1524).

HPD nº 155: Cristãos, alegres jubilai = Nun freut euch, lieben Cristen g'mein... (EG nº 148) de 1523, com todas as 10 estrofes traduzidas. E´ um bom resumo da nossa confissão evangélica.

HPD nº 185 Deus Pai, no Reino celestial = Vater unser im Himmelreich (EG nº 159) Letra e melodia de Lutero em 1539. Ilustra as preces da Oração Dominical, e explica, na última estrofe, o significado da palavra Amém. (Pode ser cantado também pela melodia mais viva do HPD nº 161).

HPD nº 291 A paz nos queiras conceder = Verleih uns Frieden gnädiglich (EG nº 298). Letra e melodia de Lutero, em 1529, baseado na antífona Da pacem, Domine do século 9.

Traduções de mais outros 8 hinos de Lutero encontram-se no antigo Hinário da IECLB editado em São Leopoldo, em 1964:

Nº 25 – O hino de Natal Vom Himmel kam der Engel Schar (EG nº 12) Letra de Lutero em 1543. Tradução: A voz dos anjos vem dos céus.

Nº 83 - A antífona do século 11 Veni Sante Spiritus, reple cerca de 1480 foi adaptado ao alemão por Ebersberg: Komm, Heiliger Geist, Herre Gott.(EG nº 75) Lutero acrescentou (em 1524) mais duas estrofes. Espírito Santo de Deus, os corações dos crentes teus preenche com teu sagrado ardor.

Nº 92, baseado no Salmo 124: Wo Gott der Herr nicht bei uns hält, (EG nº 93). Texto das 3ª e 4ª estrofes de Lutero (1524 sob título de Wär Gott nicht mit uns diese Zeit), sendo as demais estrofes da autoria de Justus Jonas (1524). Se Deus não nos fortalecer.

Nº 110, baseado no Salmo12: Ach Gott, vom Himmel sieh darein, (EG nº 89). Letra e melodia das 1ª - 4ª estrofes em 1524; a 5ª estrofe foi acrescentada em 1545. Dos céus contempla, ó Pai e Deus, e vê, compadecido.

Nº 139 - O Kyrieleison para Santa Ceia Gott sei gelobet und gebenedeiet (EG nº 133) já existiu por volta de 1350. Em 1524 Lutero acrescentou as 2ª e 3ª estrofes. Tradução: Louvado seja Deus, seja bendito, pelo pecador aflito. Seu santo corpo e sangue nos tem dado,...

Nº 207 - Letra e melodia de de Lutero em 1529 Herr Gott, dich loben wir (EG nº 242), baseado na litania Te Deum laudamus do séc.4: Senhor, louvamos-te – e agradecemos-te.

Nº 221 - Um hino sobre morte e vida eterna Mit Fried und Freud ich fahr dahin in Gottes Wille (EG nº 304) com melodia e letra de Lutero, baseado no cântico de Simeão: nunc dimitis (Luc.2,29-32). Tradução: Do mundo parto alegre e em paz, Deus o ordena;...

Nº 266 - Da Antífona do século 11 Media vita in morte sumos já em 1456 se conhecia a 1ª estrofe em alemão em Salzburgo: Mitten wir im Leben sind mit dem Tod umfangen (EG nº 305). Lutero acrescentou em 1524 as 2ª e 3ª estrofes. Dia e noite, sem cessar, nos rodeia a morte.

 

Reforma e Música

 

 

 

Além de estar no centro de um novo movimento teológico, Lutero estava também no centro de um novo movimento musical. Martim Lutero foi, dentre os reformadores do seu tempo, o único a reconhecer o valor inestimável da Música e de recebê-la de braços abertos. Lutero pensou, trabalhou e utilizou a Música de modo singular na sua época, dispensando especial atenção para o uso e a função que a mesma passaria a ter na Igreja. É certo que ele apreciava todas as artes, a pintura, a escultura, a arquitetura. Isto porque ele entendia e enfatizava as expressões artísticas como parte da criação de Deus, uma dádiva de Deus para ser usada na proclamação da Palavra.

 

Entretanto, é certo também que, sobretudo, Lutero amava a Música e, em suas preleções sobre Gênesis (1535-1545), escreveu: Os milagres que se apresentam aos nossos olhos são muito menores do que aqueles que apreendemos com os nossos ouvidos. Sobre a Música, disse também, em 1538, no prefácio que escreveu para uma coleção de canções intituladaSymphoniae iucundae (que quer dizer ´Música agradável´) e que é um dos seus escritos mais completos e ´sistemáticos´ sobre Música: A Música é uma esplêndida dádiva de Deus e eu gostaria de exaltá-la com todo o meu coração e recomendá-la a todos [...] e, por mais que eu queira exaltá-la [a Música], a minha exaltação será insuficiente e inadequada.

 

Com base nessa particular e profunda perspectiva, Lutero iniciou, sem meios termos, a ´sacudida´ mais completa que a música sacra já recebera, ou seja, estabelecer o canto comunitário como ingrediente vital do culto, colocando a música nos lábios e nos ouvidos das pessoas e, consequentemente, nos seus corações e na sua estima.

 

A partir deste conceito reformador, Lutero possibilitou que a Música e o canto comunitário, uma atividade que era apenas tolerada e aparecia em raríssimas ocasiões na Igreja medieval, adquirisse um novo status, o status de elemento central e indispensável no culto da Reforma Luterana. Assim Lutero o fez, porque estava convicto que não era suficiente que as pessoas estivessem apenas presentes às missas (cultos), mas as suas súplicas deveriam ressoar dos seus próprios lábios por meio de canções que pudessem traduzir o arrependimento e a contrição das suas almas e a sua fé e o seu louvor irromperem jubilosos em canto e música. Martim Lutero vislumbrou isso de modo especial por meio do que mais tarde foi denominado Coral Luterano, colocando em textos poéticos, na língua comum e em melodias cantáveis e bem compostas, a Palavra e a fé evangélica. Rapidamente, os hinos da Reforma espalharam-se pela cultura oral da Alemanha do século XVI.

 

Não há dúvidas de que um dos maiores aportes de Lutero foi o seu entendimento de que a música da Reforma deveria falar sobre o Evangelho diretamente para as pessoas. Ele estava convicto de que o tipo de hino que uma congregação canta determina o tipo de Teologia/espiritualidade destas pessoas. Caso se queira que esta Teologia/espiritualidade reflita o Evangelho, então, há que se ter em alta consideração e se cuidar muito bem daquilo que está sendo cantado pelas pessoas. Lutero pôs as mãos à obra, cercando-se da ajuda e do conhecimento dos melhores Poetas e Músicos da época, que ele fez questão de escolher a dedo. Lutero e os seus colaboradores não rejeitaram as tradições musicais da sua época. Pelo contrário, de forma genuína e genial, usaram e incorporaram à música das Igrejas da Reforma as práxis musicais existentes! Atentemos para algumas dessas principais práxis.

 

A música da Reforma Luterana herdou a grande tradição musical da Idade Média e da Renascença, que consistia basicamente da música polifônica e do canto gregoriano. Nestas ricas tradições, praticamente não havia espaço para o canto congregacional de cunho popular. Diferentemente, outra grande tradição musical da época da Reforma, a versão metrificada dos Salmos cantada em uníssono e a cappella (sem acompanhamento), abria vastas possibilidades para o canto congregacional. Nesta tradição, não havia espaço para uma arte musical mais elaborada. Lutero e as gerações de Músicos luteranos que o seguiram nos séculos posteriores fizeram uso de ambas as correntes, combinando a tradição musical mais artística e elaborada com o canto congregacional de cunho popular.

 

O resultado musical desta combinação foi o Coral Luterano, com os seus textos poéticos centrados no Evangelho e escritos no vernáculo (na língua local) e não mais em Latim, com melodias vigorosas e com saltos e extensões de voz pensadas para o canto grupal, com cadências (pontos de repouso) ao final das diversas frases, com estruturas rítmicas fortes e baseadas em padrões de ritmo recorrentes. No seu conjunto, estas características resultaram em composições musicais em que texto e melodia formam uma totalidade, permitiram que o Coral Luterano fosse percebido como algo familiar e possibilitaram que comunidade, Coros e Instrumentistas se sentissem confortáveis, ´em casa´, enquanto cantavam e tocavam.

 

Lutero levou adiante a sua reforma na Música, ocupando-se não apenas com resultados musicais finais, como adaptação e composição de novos hinos, escritos sobre Música, publicações de hinários, missas cantadas, etc., mas, como educador que era, preocupou-se igualmente com a base, com a formação e o ensino. Lutero tinha clareza que a Música deveria ser uma parte integral da educação das crianças e da formação de Professores e Ministros e foi inflexível em acentuar essa importante tarefa. Dentre várias das suas falas a respeito, salienta-se: A necessidade exige que a Música permaneça nas escolas. Um Professor deve saber cantar, do contrário não o considerarei. Antes que um jovem seja admitido ao Ministério, ele deve praticar Música na escola.

 

Martim Lutero agiu diretamente com as instâncias públicas, responsáveis pela educação e formação de lideranças. Em 1524, Lutero escreveu e fez recomendações ´Aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas´, destacando sobre a Música: Falo por mim mesmo, se eu tivesse filhos e tivesse condições, não deveriam aprender apenas Línguas e História, mas também deveriam aprender a cantar e estudar Música. Mais tarde, já pai, ele escreveu ao Reitor Marcus Crodel: Estou lhe enviando meu filho João para que seja incluído no grupo de meninos que serão instruídos em Gramática e Música [...]. E diga a Johann Walther que eu oro por seu bem estar e que confio meu filho a ele para aprender Música, pois eu, é claro, formo Teólogos, mas gostaria também de formar Filósofos e Músicos.

 

Johann Walther, a quem Lutero enviou o seu filho para estudar Música, é considerado o primeiro chantre (Diretor Musical) luterano e foi um dos grandes Compositores e Poetas da época, além de conselheiro musical e amigo pessoal de Lutero. Em 1538, Walther publicou uma obra em rimas, de cunho didático, intitulada ´Louvor e Exaltação à Arte da Música´, na qual desenvolveu toda uma Teologia da Música. Para esta publicação, ele pediu a Lutero que escrevesse um prefácio. Acompanhando o espírito do escrito de Walther, Lutero escreveu em versos o ´Prefácio a Todos os Bons Hinários´ e, seguindo o costume de Poetas, Pintores e Escultores da época, de representar a Música como uma figura feminina, colocou os seus versos nos lábios da ´Dama Música´ (citado em um fragmento abaixo), exaltando as suas qualidades, expressando a sua admiração e libertando a Música de uma gama de ideias que limitava o seu uso e as suas possibilidades, tendo-a como uma atividade essencial e vivificante na Igreja, uma legitima viva vox Evangelii, a viva voz do Evangelho.

A Dama Música [assim diz]: Dentre todos os prazeres sobre a terra não há maior que seja dado a alguém do que aquele que eu proporciono com meu canto e com doces sonoridades. Não pode haver má intenção onde houver companheiros cantando bem, ali não há zanga, briga, ódio nem inveja; toda mágoa tem que ceder, mesquinhez, preocupação e o que mais atribular não mais oprimem o coração. [...] E, [a música] rainha de todos, rouxinol que o coração de todos alegrará com o seu canto maravilhoso. Por isso, devemos ser-lhe sempre agradecidos. mas primeiro a Deus, nosso Senhor, que por sua Palavra a criou para ser sua própria cantora e da música amante. Para nosso querido Senhor ela entoa seu cântico, em seu louvor noite e dia, a ele eu ofereço meu canto e agradeço por toda a eternidade.

Prof. Dr. Werner Ewald

(formado em Música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre/RS, Doutor em Etnomusicologia/Musicologia, em Chicago, nos Estados Unidos, trabalha como Professor Adjunto, em regime de dedicação exclusiva, no Centro de Artes-Bacharelados em Música, na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), dedica-se à pesquisa na área de Música e imigração, Música e religiosidade e hinologia, é autor e tradutor de livros e artigos sobre Música e etnia, Música e religião e sobre Música e protestantismo em obras nacionais e internacionais, sendo, ainda, integrante da Comissão do Hinário da IECLB)

Fonte: Jornal Evangélico Luterano, 2012, outubro - Portal Luteranos


 

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