terça-feira, 28 de outubro de 2014

TEOLOGIA CONTEMPORRANEA


                                 TEOLOGIA CONTEMPORANEA              
                                      INTRODUÇÂO

Telogia e Novos Paradigmas: Desafios ao Pentecostalismo Contemporâneo.A inculturação da fé e o anúncio da ação salvífica de Deus em contextos diferentes do horizonte interpretativo dos primeiros missionários foram desafios sempre presentes no Cristianismo.

Todo e qualquer conhecimento ou teoria explicativa da realidade, seja no passado, seja no presente, quer seus proponentes estejam cônscios disso ou não, está fincado de um modo ou de outro em algum paradigma. Lembremos que o Cristianismo é uma religião histórica, assim como a fé cristã é uma fé inculturada. Desde sua gênese a fé cristã fincou-se em seu contexto cultural, explicando-lhe sob os fundamentos da revelação e dando vividamente a fé sentido sincrônico, contextualizado e inculturado. 
A linguagem da Escritura é humana, teológica e socialmente condicionada às estruturas da língua, do contexto histórico-social, e à hermenêutica de sua época. A inspiração é divina, mas a transmissão da verdade é inculturada. A explicação dos mistérios do Reino de Deus, por exemplo, é feita por meio de elementos culturais (rede, semente, fermento, mostarda) inteligíveis ao mais simples camponês. 
A própria comunidade cristã do primeiro século enfrentou o desafio de configurar a fé ao contexto helênico, e de encontrar nas diversas culturas elementos que pudessem ser reinterpretados sob a ótica da fé cristã (At 17. 15s). Os matizes socioculturais do judaísmo, mediante os quais a iniciativa salvífica de Javé foi experimentada e interpretada, foram adaptados, condicionados e até substituídos pelos missionários entre os gentios. A inculturação da fé e o anúncio da ação salvífica de Deus em contextos diferentes do horizonte interpretativo dos primeiros missionários foram desafios sempre presentes no Cristianismo. 
A recepção da fé cristã não esteve apenas condicionada aos elementos da cultura daqueles que a anunciaram como também dos que a receberam (At 14. 8s). Assim, ao comunicar a fé no contexto heleno-latino, os cristãos do primeiro século não empregaram tão somente o horizonte histórico do judaísmo, mas as categorias ontológicas dos gregos, trazendo, consequentemente, mudanças na linguagem querigmática ao substituir o primeiro pelo segundo.
Nos primeiros catorze séculos da era cristã, os teólogos cristãos encontravam na teoria geocêntrica de Cláudio Ptolomeu uma justificativa lógica e contemporânea para admitirem a literalidade do relato de Josué 10.12-14. Tempos depois, com a ascensão da teoria heliocêntrica de Nicolau Corpênico (1473-1543), já não era mais possível aceitar o geocentrismo, mas explicar a perícope à luz do novo paradigma que se desenvolvia. Francis Bacon (1561-1626) apesar de abandonar o raciocínio silogístico de Aristóteles e desenvolver o raciocínio indutivo, estava convencido de que o número dos planetas era sete. Quão distintas são as concepções científicas copernicanas e baconianas das admitidas hoje pela física e astronomia! Isto lembra-nos da urgência de reconsiderarmos, à medida que a sociedade avança, os fundamentos epistemológicos sob os quais baseamos as teorias, quer científicas, quer teológicas.
Em especial, dois pensadores cristãos desafiam os teólogos contemporâneos a repensarem a linguagem teológica contemporânea. O primeiro deles, A. T. Queiruga propõe à Teologia de nosso tempo uma releitura global da Tradição e da Bíblia, recuperando a riqueza de sua experiência e de sua capacidade de suscitação maiêutica. Preocupado com os novos paradigmas das ciências modernas e com as respostas obsoletas da teologia, o teólogo sugere mais do que uma renovação e atualização do vocabulário teológico, deixando assim intactos os esquemas de fundo. 
Para Queiruga é necessário retraduzir o conjunto da teologia dentro do novo mundo criado a partir da ruptura da Modernidade, uma vez que os pressupostos metodológicos e as grandes categorias da teologia estiveram fincados durante muito tempo na época pré-moderna. As proposições teológicas fundavam-se nas premissas aristotélicas, tomistas, e no dualismo e dúvida cartesianas – apesar deste último reconhecer as mudanças de seu tempo e propor mudanças paradigmáticas. A crise no cristianismo, atesta o teólogo, deve-se fundamentalmente ao desajuste produzido por essa derrocada teórica e sua incapacidade de responder dialogicamente aos problemas elencados pela nova situação. A fé tornou-se inadequada e antiquada ao novo contexto que a circundava. Torna-se, portanto, necessário alocar a teologia na nova situação criada pela entrada na Modernidade. A crise da teologia contemporânea, segundo o autor, consiste exatamente em reconhecer e responder aos novos reclamos que a Modernidade impõe. Isto posto, é ingente necessário que os teólogos reflitam que: 

a) A relação com o objeto da teologia mudou; a consciência dessa relação mudou; 
b) É necessário construir uma nova relação, e elaborar conscientemente a teologia no seio de um novo paradigma. 

No bojo dos novos paradigmas, a Modernidade trouxe duas dimensões da vida humana que é inútil combatê-las, cabendo-nos o compromisso de redirecioná-las: a autonomia e historicidade; uma nova objetividade e subjetividade religiosa. Queiruga propõe assim cinco fundamentos para compreender a proposta da renovação da linguagem teológica:  

a) Um paradigma não pode ser julgado a partir do outro; Não se deve misturar elementos de paradigmas diferentes;
b) Atenção para a consequência do discurso; 
c)  verdadeiro pensar dentro do novo paradigma;
d) Recuperação crítica do muito que permaneceu impensado, pendente ou reprimido na tradição.

O segundo teólogo que destaco é H. Küng. Este teólogo apresenta apropriadamente o paralelismo das mudanças de paradigmas nas ciências e, consequentemente, na teologia. Fundamentado na obra clássica de Thomas S. Khun, A estrutura das Revoluções Científicas, o autor desenvolve a argumentação de que ao se mudar o paradigma explicativo das ciências em determinada época necessariamente altera-se a teologia daquele período específico. 
Todavia, assim como nas ciências, o novo é resistido e rechaçado na teologia pelos representantes dos postulados tradicionais, em processo de superação. O autor procura provar que apesar de haver diferenças metodológicas entre as ciências naturais e as ciências do espírito (Geisteswisseschaften), é válida a aproximação epistemológica e a comparação paradigmática entre a teologia e as ciências naturais. 
Para provar sua assertiva define os macros, meso e microparadigmas nas ciências e os compara igualmente à teologia. Assim como, ao tratar do surgimento do novo, descreve cinco pistas de reflexão e analogia entre as duas ciências: 
a) Autoridade da obra e do autor e dos conhecimentos acumulados;Crise do modelo anterior;
b) Aparecimento de um novo paradigma; Resistência e conversão ao novo paradigma; 
c) Assimilação do novo pelo antigo, substituição ou continuidade paralela do antigo com o novo, especificamente, na teologia.

As dificuldades de a ciência teológica substituir um paradigma hermenêutico por outro está intrinsecamente relacionado às metanarrativas ainda estudadas e empregadas para a explicação da realidade. E, conforme o autor, há diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas ciências e na teologia. Küng parte da premissa de que o ponto de partida e objeto da teologia diferentemente das ciências naturais são a mensagem cristã, conforme se apresenta na Escritura. Embora científica, a teologia cristã é determinada por um referencial histórico e pela historicidade. A verdade cristã é uma verdade histórica e, por conseguinte, se distingue das teologias míticas dos gregos e supra-histórico-filosófica dos filósofos, pois se trata de uma justificação racional da verdade da fé cristã cujo objeto é a realidade de Jesus, de Deus e do homem. 
Outra característica que distingue a ciência teológica das ciências naturais e históricas é o fato de que, enquanto estas estão vinculadas ao passado e ao futuro e apenas à tradição, a teologia cristã está “vinculada à sua origem”. Isto posto, os escritos vetero e neotestamentários não apenas designam a origem histórica da fé cristã como também sua instância última definitiva. 
A fim de acentuar ainda mais essas diferenças, o autor retoma as cinco teses para melhor apresentar as distinções:

a) Os teólogos clássicos tradicionais têm autoridade secundária [tese sobre a ciência norma];

b) A crise na teologia não deriva apenas da própria evolução da ciência teológica, mas também por situações históricas concretas [tese sobre a crise como ponto de partida]; 
c) Um testemunho original constitui para a teologia testemunho fundamental e definitivo [tese sobre as mudanças de paradigmas];
d) Existe o perigo de na teologia usar a decisão científica em favor de certos paradigmas teológicos, numa decisão a favor ou contra a fé [tese sobre conversão e os fatores extracientíficos]; 
e) Quando a teologia e a Igreja rejeitam um modelo hermenêutico determinado, a rejeição se transforma facilmente em condenação e a discussão é substituída pela excomunhão. Identificam-se Evangelho e teologia, realidade eclesial e sistema eclesiástico, conteúdo da fé e expressão da fé! [tese sobre as três possíveis saídas de um conflito].

Vimos deste modo como dois importantíssimos teólogos modernos estão discutindo os atuais problemas da teologia contemporânea. Nenhuma tradição é obrigada a aceitar tais proposições, mas é sensato considerá-las seriamente, se de fato há algum interesse em dialogar com a pós-modernidade e fazer a fé inteligível no mundo de hoje. Cabe à teologia pentecostal encontrar o seu próprio caminho num mundo que se fechou para ouvir as vozes teológicas fincadas em paradigmas ultrapassados.

NOTAS FONTE  Esdras Costa Bentho é pastor, pedagogo, teólogo pentecostal e Mestre em Teologia pela PUC, RJ.


A EXISTÊNCIA DE DEUS: Elementos para uma teologia cristã
Elementos de Teontologia
Introdução

As Sagradas Escrituras não se preocupam em provar a existência de Deus. Sua existência é fato estabelecido. Esta é a razão pela qual a Bíblia não oferece ao homem moderno qualquer prova racional quanto à existência de Deus. “No princípio criou Deus” (Gn 1.1), é o prólogo insofismável das Escrituras. Deus existe antes de tudo e de todos! Nesta simples e contundente afirmação a Bíblia nega:

a) o ateísmo: para o qual Deus não existe;

b) o politeísmo: para o qual existem muitos deuses;

c) o evolucionismo: para o qual a matéria evoluiu "continuamente";

d) o fatalismo: para o qual a vida surgiu do acaso, sem qualquer propósito;

e) o agnosticismo: para o qual Deus não pode ser conhecido.


A segunda parte da proposição sagrada não deixa de ser menos apologética: "... criou Deus os céus e a terra". Nesta verossímil afirmação a Escritura nega:

a) o panteísmo: que confunde Deus com a criação;

b) o materialismo: que afirmar a eternidade da matéria.

A primeira declaração da Escritura acerca de 'Ĕlōhîm (O Criador, o Forte e Poderoso Senhor) é um testemunho irrefutável de sua existência soberana. O Senhor é 'Ĕl hashshāmāyin, isto é, o "Deus dos céus" (Sl 136.26), incapaz, portanto, de ser confundido com a criatura, ou como afirma o nome 'Ĕl 'ēchād, literalmente "o Único Deus" (Ml 2.10), impossível de ser confundido com outros deuses. Por conseguinte, a Sagrada Escritura só reconhece o Único e Soberano Deus de Israel.

Teorias que Negam a Existência de Deus

1. Ateísmo

O vocábulo ateu é formado pelo prefixo grego de negação a (“não”, “provação”, “negação”) e pelo substantivo theos, isto é, “deus” ou “Deus”. Literalmente, atheos significa “sem Deus”. A palavra “ateísmo”, no entanto, é formada pelos dois termos anteriores e o sufixo “ismo” que denota “doutrina”, “sistema”, ou “ensino”. O ateu é aquele que não crê em Deus, enquanto o ateísmo designa a filosofia ou os ensinos dos ateus. Ateísta é aquele que nega a existência de Deus e acredita que existam provas contra a existência do Divino.

O ateísta procura explicar todas as coisas a partir da matéria, do natural e visível. Nas Escrituras, o ateísmo professo é considerado mais um problema moral do que filosófico ou existencial. O néscio (hb. nābāl) que nega a Deus (Sl 14.1), não o faz por motivos filosóficos, mas pela suposição prática de que pode viver sem Ele (Sl 10.4). As Escrituras também reconhecem a possibilidade de “suprimir” de modo deliberado e, portanto, culpável, o conhecimento de Deus (Rm 1.18).

Segundo o contexto neotestamentário o ateísta não é apenas aquele que não crê na existência de Deus, mas pode ser também um teísta que não conhece o verdadeiro Deus: “Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8.5,6).
Em Efésios 2.12 lemos: “naquele tempo, estáveis sem Cristo [khōris Christou], separados da comunidade de Israel e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem Deus [atheoi] no mundo”. (grifo nosso). O termo grego atheoi, neste contexto, tem o sentido de “não pertencente a Deus”, “sem Deus”, em vez do significado corrente de negar racionalmente a existência de Deus, como o fazem os filósofos ateus. Esse ateísmo é mais prático e moral do que existencial e filosófico. Observe que atheoi em Efésios, não pretende afirmar que a pessoa não crê em alguma divindade, mas que ignora a existência do Deus de Israel. É assim que devemos entender o advérbio de negação khōris, traduzido em diversas passagens por “separadamente”; “à parte de alguém”; “longe de alguém”. Literalmente a expressão khōris Christou, quer dizer “longe de Cristo”, “afastado de Cristo” e não antichristo, isto é, “contrário ou oposto a Cristo”.

2. Politeísmo

A expressão paulina em 1 Co 8.5 theoi polloi, isto é, “muitos deuses”, formam a palavra “politeísmo”. O politeísmo como sistema filosófico-religioso acredita que existem diversas divindades. Segundo Geisler o politeísmo "é a cosmovisão que afirma a existência de muitos deuses finitos no mundo".  Para o politeísta há o "deus da água, do fogo, da guerra" e assim por diante. O politeísmo, como anteriormente afirmamos, é uma forma de ateísmo, segundo o contexto do Novo Testamento. O politeísmo está engajado contra o monoteísmo cristão.

3. Agnosticismo

O termo agnosticismo é formado pelo a privativo ("não" – negação) e pelo substantivo gnōsis, isto é, "conhecimento"; literalmente "não-conhecimento". Agnosticismo é a filosofia religiosa que afirma a impossibilidade de se conhecer a Deus. Segundo o agnóstico não é possível saber se Deus existe ou não. O agnóstico critica o ateu e o teísta pelas pressuposições que assumem: a convicção de que Deus não existe e a certeza de que Deus existe. Por extensão, designa aquele que acredita que não existam provas suficientes para provar ou negar a existência de Deus. Teologicamente, o agnosticismo afirma que é impossível ao homem obter conhecimento a respeito de Deus. Não se pode provar ou refutar Sua existência. O agnosticismo é um sistema que contradiz a si mesmo, pois se não é possível saber com absoluta certeza, como eles mesmos estão certos de que não é possível negar ou confirmar a existência de Deus? Quando o vocábulo foi criado em 1869 por T.H. Huxley (1869) era usado para designar o ceticismo religioso.

4. Panteísmo

A palavra “panteísmo” procede do prefixo pan, "muito", "tudo", e do substantivo theos, literalmente significa “tudo é Deus”. Esta expressão refere-se aos sistemas religiosos que identificam Deus com o mundo. Para o panteísta tudo é Deus. O panteísmo confunde Deus com a natureza, o Criador com a criação: árvores, pedras, terra, água, todos são partes, segundo afirmam, de Deus (Rm 1.23). Deus e a criação são apenas um – indivisível, indissociável, imanente. O panteísmo também defende a imanência radical de Deus, pois crê que Deus está e é tudo. Como já observamos anteriormente, a Bíblia não confunde o Criador com a criatura, muito menos ensina a natureza como emanação divina. Deus, embora ativo na história, está separado das coisas criadas e controla toda a criação. Ele não é idêntico às criaturas, em menor ou maior grau. O panteísmo também nega o caráter pessoal de Deus ao identificá-lo com o mundo material.

5. Materialismo

O materialismo declara que a única realidade é a matéria, o tangível, as coisas concretas, não espirituais. Não crê na existência de Deus porque não O vê. Todas as coisas se explicam naturalmente e através dos agentes físicos e materiais. O materialismo, frequentemente, tem sido colocado em oposição à vida, à mente, à alma ou ao espírito. Uma preocupação com a matéria tem significado, tradicionalmente, uma preocupação com os prazeres mundanos e os confortos físicos em contraste com o bem religioso e espiritual.

Afinal, é possível definir a Deus?

Todas e quaisquer definições intelectuais acerca de Deus se confinam à limitação humana: “Porventura, alcançarás os caminhos de Deus ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso” (Jó 11.7). Definir, em última análise, significa limitar. Envolve a inclusão do ser ou objeto definido dentro de uma determinada classe. Deus não pode ser satisfatoriamente definido. Ele é muito mais do que as palavras significam. O Eterno não está confinado aos sentidos da limitada linguagem humana.
Hegel chamava de "consciência infeliz", o fato de o finito, o homem, tentar definir o Infinito, Deus. Temos neste ponto o desafio e confronto da linguagem apofática e catafática na teologia. A linguagem do Mistério e do revelado, do cognoscível e Incognoscível, do Transcendente e do imanente, o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão. Como afirma a Bíblia a respeito de Deus, hā'ēl haggādôl wehannōrâ – "Deus, grande e terrível" (Ne 1.5; 4.14; 9.32; Dt 7.9). Quem é suficientemente sábio para compreender a sublimidade dessas palavras?
Porém, a Bíblia declara a existência de Deus e revela seu caráter e natureza com bases racionais suficientes para se estabelecer um conceito coerente a respeito dEle, de seus atributos e natureza. Ninguém pode definir a Deus satisfatoriamente à parte daquilo que as Escrituras afirmam acerca de Deus. Lembremos, com muita humildade e devoção, que Deus não pode ser definido em sua natureza transcendente, pois Ele é o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último. Ele é O Eterno (Jo 1.18).



Os teólogos se dividem em dois grupos que se destacam pelas diferenças ideológicas. Um grupo é marcado pela presença de eminentes teólogos clássicos do protestantismo que se firmaram numa linha calvinista, e que se consideram defensores de fidelidade sem reservas às Escrituras Sagradas. Nesta galeria figuram C. Hodge (1799 – 1878), B. B. Warfield (1851 – 1921), A. Kuyper (1837 – 1920), H. Bavinck (1854 – 1921), L. Berkhof (1873 – 1956).
O outro grupo apresenta uma linha de pensamento teológico com tendências que devem ser analisadas sob cuidados específicos, porquanto, podem conduzir a situações que comprometem a integridade da Revelação divina na Escritura Sagrada. A autoridade divina das Escrituras Sagradas em termos da sua inspiração, infalibilidade, inerrância, suficiência, necessidade, fidedignidade, recebe deste grupo um veredicto às vezes questionável, contestador, próprio de uma postura teológica que se abre ao chamado liberalismo teológico, de quem F. F. Schleiermacher é o pai (1768 – 1834) e o filósofo I. Kant é o avô (1724 – 1804). Os maiores destaques recaem sobre K. Barth (1886 – 1968), E. Bruuner (1889 – 1965), R. Bultmann (1884 – 1976) e P. Tillich (1886 – 1965).

Sob o crivo das Escrituras

Todos esses teólogos, cada qual à sua maneira, convencidos da veracidade de suas convicções ideológicas pessoais, oferecem parcela de contribuição no campo teológico. Reafirmamos que, dentro da perspectiva reformada, não dispomos de outro parâmetro para orientar o julgamento crítico que se impõe, além da Escritura, a Palavra de Deus. Daí, a necessidade imperiosa de entender a elaboração teológica de cada um sob o crivo das Escrituras Sagradas. Seja o teólogo, arauto do liberalismo, ou aquele outro ardoroso fundamentalista, ou, ainda, tantos outros que oscilam entre esses dois pólos (a neo-ortodoxia), o importante é que nenhum deles permaneça alheio ao estudioso dessa área.  
Os teólogos fiéis e submissos à Palavra fortalecem nossa fé e a tornam mais adulta e vigorosa. Outros, cujo posicionamento é ostensivo e visceralmente oposto ao nosso, agem de maneira positiva compelindo-nos ao exame bíblico mais profundo para que, no confronto, estejamos “preparados para responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). A advertência de João Calvino é sempre oportuna e sábia: devemos falar quando as Escrituras falam, e calarmo-nos quando as Escrituras se calam.. 

Entretanto, uma nova postura exegética está sendo postulada e defendida hodiernamente. trata-se de uma configuração crítica e analítica que estabelece uma leitura hermenêutica a partir da semiótica da cultura.Examinar as diferentes camadas sociais presentes num determinado texto, ou mesmo livro. A história da transmissão da cultura e recepção das tradições e como estas configuram um determinado texto da literatura. Portanto, considerar-se-á  caminho percorrido e o possível desenvolvimento das camadas literárias.
Verifica-se a estrutura de grupos religiosos, sua influencia, força literária e histórica, seus aspectos sócio-culturais e políticos etc.; como este grupo religioso específico postulou e articulou suas tradições na literatura e foi fonte de reflexão no decorrer dos anos.
Assim, a semiótica entre em comum acordo com a metanarrativa; na prática textual, uma metanarrativa é todo o discurso que se vira para si mesmo, questionando a forma da produção da narrativa. A técnica de construção de uma metanarrativa obriga o autor a uma preocupação particular com os mecanismos da linguagem e da gramática do texto.

FONTE DICIONARIO DE TEOLOGIA CONTEMPORRANEO



Teologia Contemporânea é o estudo de Deus contextualizado com o nosso tempo e a evolução dos dogmas e dos pensamentos formados a respeito das doutrinas bíblicas frente aos desafios de nossos dias. A Teologia segue a História e, pelo menos historicamente, subdivide-se tal qual os períodos conhecidos. Para conhecermos melhor, devemos vasculhar na história da Teologia os fundamentos da Teologia Contemporânea, ou seja, percorrer os caminhos, os rastros ou pistas que formam o escopo da teologia do período em questão.  
Um Pouco de História Antes de Kant

Teologizamos desde o Éden, mas para delimitarmos um ponto de partida é louvável que comecemos com a Teologia Patrística, isto é, a teologia desenvolvida pelos pais da igreja, os discípulos dos apóstolos e seus escritos indo até Agostinho.
Durante esse período a teologia era incipiente, com alguns erros crassos, por outro lado, dogmas que foram desenvolvidos nessa época dão sustentação, até hoje, às doutrinas mais fundamentais do Cristianismo. Nascida da necessidade de combater as heresias orientais no que diz respeito, principalmente à doutrina da Pessoa de Cristo, Sua Divindade e Sua Obra, foi responsável pela elaboração dos credos que defendiam a fé cristã, bem como pela exclusão dos hereges. Foi o berço da teologia cristã e um dos períodos áureos do saber teológico.
Mais tarde veio o papado e deu-se início ao período conhecido como Idade Média ou Idade das Trevas, como preferem alguns, porque pouco ou quase nada se descobriu na área do conhecimento científico. A Igreja tornou-se a detentora do poder religioso e temporal, logo todo saber estava sob seu controle e dizia o que era certo ou errado, como detentora do conhecimento.
Podemos dizer que Tomás de Aquino foi o mais importante teólogo da Idade Média. Usando a lógica aristotélica, procurou sintetizar os princípios da fé e da razão e provar pela razão a existência de Deus, valendo-se de argumentos racionais. Aquino entendia que o homem poderia encontrar Deus pela razão e assim desenvolveu uma teologia natural ao casar a teologia com a filosofia. Na realidade, Tomás de Aquino foi um monstro do saber e até hoje sua doutrina é utilizada pela cúria romana.
Nos tempos de Tomás, os intelectuais eram clérigos, quer dizer, tinham formação nas Universidades Católicas (um dos legados da Idade Média), logo a Europa tinha uma formação católica e nada parecia ameaçar a hegemonia da igreja do papado, pelo contrário, estava consolidada a civilização cristã, com reis e príncipes sujeitos ao bispo de Roma. Mas, não por muito tempo. A sociedade estava mudando e a igreja desse tempo não acompanhou as mudanças, ou como diz Jonh Landers: “não descobriu recursos para manter-se diante das novas realidades”. O sistema feudal havia surgido durante as invasões bárbaras, é nesse período que houve um esvaziamento nas cidades, o comércio quase desapareceu e as pessoas viviam em condições de subsistência agrícola.
A sociedade feudal era composta por três classes: nobres (cavaleiros que protegiam os lavradores e as terras), clérigos (a igreja) e camponeses (lavradores).
Com a volta da paz, as cidades voltaram a crescer e com elas os comerciantes, os artesãos. Os novos moradores da cidade não eram nem nobres, nem camponeses. Nasce então a classe média. Os comerciantes tornaram-se ricos, mas não tinham título de nobreza. Precisavam ter reconhecida sua superioridade, mas a igreja não abria as portas das universidades, senão para os clérigos, daí então, a resposta aos problemas foi: “humanitas”. Os humanistas pretendiam desenvolver toda a capacidade do indivíduo e por isso esse novo estilo de educação veio a chamar-se humanismo. Onde poderiam encontrar um currículo mais humanizante? Entenderam que Roma, que havia declinado, teve seu momento de ouro, e se retornassem aos escritos dessa era áurea poderiam reviver os dias gloriosos do Império Romano, em outras palavras alcançariam o conhecimento dos antigos apesar de pagãos.
Buscando conhecer os escritos de Virgílio, Sêneca, Cícero, Ovídio e outros, denominaram o seu próprio tempo de Renascença, em contraste com o período de mil anos de trevas de onde acabavam de emergir. Contudo, em sua busca pelos clássicos, não encontraram um modelo para a moral e a religião, mas modelos para a arte e literatura. É interessante observar que os humanistas não rejeitaram o cristianismo e a religião, e isso fez com que eles também buscassem indagações sobre a Bíblia nos originais. Descobriram pelos estudos que os padres de seu tempo não conheciam o grego e o hebraico e “mal rezavam a missa em latim”, e mais importante, descobriram que havia uma lacuna, uma distância muito grande entre o Cristianismo apresentado no Novo Testamento e a prática religiosa de sua época.


A Reforma

Com as invasões dos bárbaros e a queda de Constantinopla (1453), marcou-se o início do período da história chamado de História Moderna. Tempo das grandes navegações e conquistas de portugueses e espanhóis, tempo dos descobrimentos, tempo do renascimento artístico, literário e avanço em todas as ciências como matemática, física, entre outras.
Com o declínio de Roma, os reis que estavam sob seu cetro começavam a rejeitar a autoridade do papa como representante de Deus na terra e contestavam seu domínio temporal sobre suas terras. Dentre as muitas arbitrariedades, a venda de indulgências foi a gota d’água que faltava para eclodir a reforma.
Mas, foi do estudo das Escrituras que surgiu a Reforma Protestante. A teologia dos reformadores era também um retorno aos escritos antigos, as Escrituras. O período de Tomás de Aquino ficou conhecido como Escolasticismo ou Tomismo (sec. XIII e XIV), quando defendiam uma teologia natural onde o homem poderia encontrar Deus pela razão. A Reforma Protestante rompeu com a filosofia escolástica e voltou à Palavra. O lema dos reformadores foi: Sola Scriptura, Solus Crhistus, Sola Fide, Sola Gratia e Soli Deo Gloria! Após a reforma o período de 1618 a 1648 ficou conhecido como Guerra dos Trinta Anos. Somente entre os alemães, calcula-se que morreu um terço da população. Começa-se então a questionar o valor da religião. Depois de “mil anos de trevas”, a tentativa de restauração desencadeia um genocídio jamais visto numa sociedade dita cristã. Inicia-se uma busca para solucionar o problema da guerra, contudo, a essa altura o mundo já havia mudado o suficiente para estabelecer uma idéia antropocêntrica, capaz de mudar a história e dar novo rumo à humanidade, sem Deus.
  

Renne Descartes

Tendo como ponto de partida a universalidade da razão, Descartes identificou duas faculdades do intelecto: a intuição e a dedução. Pela primeira, temos idéias claras, porém simples. Através da segunda, descobrimos conjuntos de verdades ordenadas racionalmente. Segundo Descartes, devemos desconfiar das percepções sensoriais, responsabilizando-as pelos frequentes erros do conhecimento humano, o verdadeiro conhecimento das coisas externas só pode ser conseguido através do trabalho lógico da mente. Suas idéias se resumem em uma frase: “Tudo o que percebo muito claro e distintamente é verdadeiro”. As principais doutrinas de Descartes são as seguintes:

a) Existe um Ser superior que controla a natureza e existe por si mesmo, não precisando de outro para existir.
b) A alma não é o princípio da vida, mas a consciência.
c) Certas idéias são inatas na mente, sem serem derivadas da experiência.
d) Não se pode confiar plenamente no valor do conhecimento (epistemologia), com suas perguntas: Como sei? Como posso estar certo?

Em resumo, o Cartesianismo afirma que, para conhecermos a verdade, é preciso, de início, colocar todos os nossos conhecimentos em dúvida, questionando tudo para, criteriosamente, analisarmos se, de fato, existe algo na realidade de que possamos ter plena certeza. O Cartesianismo influenciou grandemente a filosofia moderna, que, por sua vez, influenciou a teologia.

O Iluminismo

O Iluminismo nasceu dentro de um espírito de otimismo ideológico que buscava solução para os problemas da humanidade através da razão. Foi nessa busca que surgiu o iluminismo como resposta a todas as perguntas do homem daquele tempo. Enquanto o Renascimento inspirou-se no passado e retornou aos antigos, o Iluminismo vislumbrou um futuro glorioso que seria construído a partir do presente. A humanidade alcançaria um progresso jamais visto e as gerações seguintes seriam ainda mais prósperas. O homem era o centro, o ser humano seria capaz de construir um mundo melhor, mais feliz, mais próspero, mais... Deus estava fora do primeiro plano. Com a influência de Descartes, no passado, o pensamento iluminista, via-se cada vez mais próximo da ciência e disposto a levar tudo ao crivo da razão. Por conta disso havia uma tendência a desprezar o sobrenatural, o milagre e a intervenção divina, agora a razão, a ciência tinha resposta para tudo. Os iluministas não eram ateus, muitos deles eram cristãos muito fiéis aos princípios cristãos. 







Kant

Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, constitui um marco na história do pensamento contemporâneo. As idéias de Kant frutificaram com tamanha força que seu pensamento foi comparado ao de Sócrates. Após 12 anos da publicação de sua obra Crítica da Razão Pura, mais de duzentos livros foram escritos sobre sua filosofia.
Kant distingue duas formas básicas do ato de conhecer:
- O conhecimento empírico (a posteriori) - aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos.
- O conhecimento puro (a priori) - aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos. Nasce puramente de uma operação racional.

Na prática, Kant seguiu os princípios filosóficos de Descartes, tornando-os mais sofisticados. Seus principais conceitos são:
- As várias provas da existência de Deus: teologia, cosmologia, ontologia - parte da metafísica que estuda o ser em geral e suas propriedades transcendentais. Ou seja, a experiência prova a existência de Deus, haja vista existirem em toda parte sinais de ordem e propósito realizados com grande sabedoria.
- Há uma contradição fundamental no homem: embora orientado para o bem, tem, de fato, uma inclinação para o mal.

Hegel

George Hegel (1770-1831), filósofo alemão, cursou durante cinco anos o seminário protestante de Tubingen, preparando-se para a carreira eclesiástica. Ao deixar o seminário, afastou-se da religião e produziu muitos trabalhos que refletem a influência do racionalismo de Kant. Para Hegel, o objetivo da religião é o mesmo da filosofia: conhecer a Deus.
A unidade da escola hegeliana foi desfeita após sua morre, surgindo o Hegelianismo de direita e o de esquerda: A direita reduziu o Hegelianismo à afirmação do Deus pessoal e da mortalidade da alma.
Na esquerda, destacou-se David Friedrich Strauss (1808- 1874), famoso, teólogo radicalmente critico, que, em sua obra “A Antiga e a Nova Fé”, ataca o Novo Testamento, aceita a teoria da evolução e reduz a Pessoa de Jesus a um mero homem. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Jesus é uma figura meramente histórica.

Feuerbach

Curiosamente, dois movimentos anti-religiosos mais importantes dos séc. XIX tomaram Hegel como seu ponto de partida. São as filosofias de Feuerbach e de Marx. Ludwing Feuerbach (1804-72) estudou teologia em Heidelberg, e depois foi para Berlim a fim de estudar filosofia e aprender de Hegel.

Ao passo que Hegel dissera que toda a realidade era uma manifestação do Espírito Absoluto, Feuerbach calmamente contou aos seus leitores que este espírito nada mais era senão a natureza. “A natureza, portanto, é o fundamento do homem”. Feuerbach também podia concordar com Schleiermacher que o âmago de toda a religião é um senso de dependência absoluta, mas aquilo de que o homem depende e de que se sente dependente, nada mais é senão a natureza.

O ser divino nada mais é senão o ser humano, ou melhor, a natureza humana purificada, libertada dos limites do homem individual. Todos os atributos da natureza divina são, portanto, da natureza humana. A teologia nada mais é senão a antropologia - o conhecimento de Deus nada mais é senão um conhecimento do homem.

Feuerbach não era tanto um ateu quanto um ateísta, estava protestando contra a idéia de um Deus lá fora, sobre e acima do universo, tomando Hegel como seu ponto de partida, chegou à conclusão de que o hegelianismo deve ser transcendido. Ficou com a natureza, que passou a endeusar. Fala de um Deus que é diferente da natureza.


Marx e o Materialismo Dialético

Karl Max (1818-83) nasceu na Renânia de pais judeus que mais tarde se tornaram luteranos. Hegel tinha morrido cinco anos antes de Marx ir para Berlim, mas conforme Marx disse mais tarde, seu legado intelectual “influenciava pesadamente os vivos”. Marx associou-se com um grupo de hegelianos divergentes que se chamavam espíritos livres.
Marx tinha dívidas conscientes e inconscientes para com o pensamento de Hegel. Mas ao passo que Hegel considerava toda a realidade como sendo a operação do Espírito Absoluto, Marx seguia a Feuerbach o crédito de ter “fundado o materialismo genuíno e a ciência positiva”. Ao fazer do relacionamento social entre o homem e seu próximo o princípio básico desta teoria. Mas ao invés de reinterpretar a religião, Marx passou a denunciá-la como sendo a inimiga de todo o progresso. O homem faz a religião, a religião não faz o homem. O Estado e a sociedade produzem a religião. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo.
O vácuo deixado pela religião devia ser preenchido pelo materialismo. Ficou para Engels, Lenin e outros elaborarem a plena doutrina ortodoxa do Materialismo Dialético. É assim a justificativa da evolução da sociedade do feudalismo para o capitalismo, do capitalismo para o socialismo, e o socialismo para o comunismo. Em cada caso, a mudança realizou-se através de lutas das classes.

Nietzsche

Friedrich Nietzsche, filho e neto de uma família de pastores luteranos, o mesmo tem sido descrito como profeta mais do que um pensador sistemático. Se, porém, Nietzsche era um profeta, era um porta-voz autonomeado em prol da humanidade. E o objeto do seu ataque era Deus.O ponto de partida de Nietzsche é a não existência de Deus. O homem, portanto é deixado por conta própria. Visto que Deus não existe, o homem deve elaborar seu próprio modo de vida. Se, pois, Deus já não existe, o homem tem de enfrentar tudo sozinho.
A receita de Nietzsche achava-se nas doutrinas complementares da vontade de ter poder, da reavaliação de todos os valores, e do super-homem. O super-homem nada tem a ver com a doutrina nazista da superioridade racial. O super-homem é o homem que reconhece a situação humana que cria seus próprios valores. Ele mesmo não desconhece a angústia, mas triunfa sobre a fraqueza, e a despreza nos outros. 
Não é difícil perceber por que Nietzsche foi adotado como filósofo do Socialismo Nacional. Para Nietzsche, deve haver uma limpeza total, O homem deve começar do zero, e decidir pela sua própria vontade aquilo que é certo e errado.

Darwin e a Evolução

O fator individual mais poderoso de longe, que minou a crença popular na existência de Deus nos tempos modernos foi a teoria da evolução, de Charles Darwin. Havia duas partes principais na sua teoria, a evolução, a sugestão de que a vida conforme a conhecemos desenvolveu-se paulatinamente no decurso de milhões de anos a partir de ancestrais comuns e possivelmente de um único ser protótipo, a outra, e da seleção natural, ou seja, a sobrevivência dos mais aptos. A fim de existirem, as plantas e os animais precisam alimentar-se uns dos outros. Aqueles que desenvolvem novas capacidades e se adaptam ao seu meio-ambiente com mais rapidez são aqueles que sobrevivem.
Reconhece-se que a teoria tinha de pressupor que isto acontecia às vezes de modo muito repentino, e que não ficava claro como as aves descendiam dos répteis, os mamíferos dos quadrúpedes anteriores, os quadrúpedes dos peixes, ou os vertebrados dos invertebrados. Mesmo assim, o evolucionismo veio a ser um tipo de lei que explicava o comportamento do universo. (O que buscavam os racionais do período pré-iluminismo). Além disso, embora as passagens finais de Darwin façam algumas referências respeitosas ao Criador, o impacto principal do seu pensamento estava claro. A evolução remove a necessidade de crença em Deus.
Foi em grande medida através de Herbert Spencer (1820-1903) que a evolução chegou ao homem na rua. Spencer via a luta pela existência em todas as esferas da vida. A evolução convenceu-o que não se devia interferir com a natureza, e que, portanto, ele deveria opor-se à educação estatal, às leis em prol dos pobres e à reforma habitacional tanto os capitalistas quanto os socialistas fizeram bom uso da evolução. Negociantes tais como Andrew Carnegie e J.D. Rockfeller diziam a si mesmos que, embora o indivíduo talvez sofresse no decurso dos fatos dos grandes negócios, tudo isto fazia parte integrante da lei da concorrência.
Os eclesiásticos estavam divididos entre si acerca da evolução. Havia aqueles como Deão Church e o Arcebispo Frederick Temple que acreditavam que a evolução não era incompatível com a crença no Criador. Outros, porém, tais como C.H. Spurgeon, eram francamente cépticos. Eram necessárias mais provas. Darwin ainda teria que escavar os elos que faltavam. Um efeito duradouro e lastimável do sucesso da Origin foi que os biológicos ficaram viciados em especulações incapazes de verificações.

A ALTA CRÍTICA

Do latim “altus”, significa elevado; e do grego “kriticós”, significa julgar. A Alta Critica é o nome dado ao método literário pelo qual se determina a autoria, a data, as circunstâncias, etc., em que foram compostos os livros sagrados. Por ele, também se verifica as fontes literárias e a confiabilidade histórica das Escrituras. A Alta Crítica é um método científico no qual não se leva em conta a inspiração plenária das Escrituras. Vale-se, apenas, dos meios de autenticação, como as descobertas arqueológicas, a análise histórico-cultural, os estudos geológicos. O problema é que, na Bíblia, há inúmeros episódios que não podem ser comprovados cientificamente, e é aqui que os teólogos modernistas encontram margem para pôr em descrédito as verdades sagradas.
Na verdade, o método da Alta Crítica, em si, é importante e necessário para se fazer a exegese bíblica. Mesmo os teólogos comprometidos com a inspiração plenária da Palavra de Deus o utilizam. Infelizmente, os teólogos modernistas usam-no para outra finalidade nada nobre: duvidar da inerrância das Escrituras. Vê-se que o problema não está no método, mas em sua utilização. 


         A Alta Crítica e o Liberalismo Teológico

O Liberalismo Teológico não é uma religião ou uma organização ideológica possuidora de templos, funcionários ou sociedades. Trata-se de uma tendência de ajustar o Cristianismo aos conceitos criados a partir da Alta Crítica da Bíblia, da ciência e das divagações filosóficas. Tal tendência apresenta-se sob diversos outros títulos: Modernismo, Racionalismo, Nova Teologia, etc.
Os Fundamentos históricos dessa tendência remontam o ano de 1753, quando Jean Astruc (1684-1766), francês, professor de Medicina em Paris, publicou, anonimamente, em Bruxelas, o livro Conjecturas Sobre as Memórias Originais que Parecem Ter Sido Usadas por Moisés na Composição do Gênesis. Astruc, que foi médico do rei Luz XV, da França, duvidou da origem mosaica do Pentateuco e de sua historicidade. Até então, a autoria de Moisés era inquestionável, e a atitude de Astruc ensejou outros questionamentos por parte de teólogos desprovidos do compromisso com a inspiração plenária da Palavra de Deus. Entende-se, todavia, que Moisés é o autor do Pentateuco, e há evidências internas e externas que comprovam isso.

  
Conseqüências do Mau Uso da Alta Crítica pelos Teólogos Modernistas.

Em resumo, mediante a Alta Crítica, os teólogos modernistas cometem os seguintes erros:
- Questionam o inquestionável, atribuindo contradições ao texto sagrado.
- Para eles, Jesus deixa de ser Deus e Homem perfeito, para ser apenas um profeta, destituído de todos os seus atributos.
- Enfatizam o relativismo, contribuindo para o rebaixamento dos padrões morais, para o surgimento de atitudes irreverentes em relação à Divindade, além de gerarem dúvidas acerca da inspiração plenária das Escrituras.

LIBERALISMO TEOLÓGICO MODERNO

Do latim, “liberare” significa tornar livre. Movimento que, tendo início no final do século XIX na Europa e nos Estados Unidos, tinha como objetivo extirpar da Bíblia todo elemento sobrenatural, submetendo as Escrituras a uma crítica científica e humanista. No liberalismo teológico, via de regra, não há lugar para os milagres, profecias e a divindade de Cristo Jesus. O principal instrumento do liberalismo teológico não é a revelação: é a especulação. Em suma: trata-se de uma abordagem meramente filosófica da Palavra de Deus. E, como as coisas espirituais só podem ser discernidas espiritualmente, explica-se pois o abismo que se forma entre a revelação e a especulação. 


        Nomes Principais do Liberalismo Teológico

Friedrich Schleiermacher (1768-1834)
 - Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiões falsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm por objetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o Cristianismo a melhor delas. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções da burguesia culta e liberal, Scheleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelos racionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora considerado liberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth.

Johann David Michalis (1717-1791) –
 Teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiração literal das Escrituras Sagradas.

Adolf von Harnack (1851-1930)
 - Teólogo protestante alemão, defende sua obra principal História dos Dogmas, a evolução dos dogmas do Cristianismo pela helenização progressiva da fé cristã primitiva. Para ele, o cristão tem todo o direito de criticar livremente os dogmas, que são a tradução intelectual do evangelho. Em outra obra, A Essência do Cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie de confiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia.

Albrecht Rtschl (1822-1889)
- Teólogo alemão ensinou que a Teologia não pode seguir Georg Hegel, filósofo alemão tributário da filosofia grega, do racionalismo cartesiano e do idealismo alemão. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear-se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.

David Friedrich Strauss (1808-1874)
- Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubigen com apenas 24 anos. No ano de 1841 lançou, em dois volumes, Fé Cristã - Seu Desenvolvimento Histórico e Seu Conflito com a Ciência Moderna, negando completamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática. Em 1864, publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir o Jesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Em sua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, procurou mostrar a impossibilidade do Cristianismo no mundo moderno, propondo então a sua substituição por um materialismo de cunho evolucionista. Suas obras exerceram grande influência sobre os intelectuais da época. Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre uma observação imparcial e o Cristo da fé. Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica, histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou e não procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença e a origem do mito nos evangelhos. Segundo seu conceito, não somos mais cristãos, mas simplesmente religiosos. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos, contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao Antigo Testamento. Em resumo, Jesus não é uma figura histórica, e da vida dele nada sabemos, sendo tudo mito e lenda. Philip Schaff comenta que Strauss professa admitir a verdade abstrata da cristologia ortodoxa, “a união do divino e humano, mas perverte-a, emprestando-lhe um sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas à gloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala”.

Sorem Kierkegaard (1813-1855)
- Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidas religiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de natureza psicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou Teologia na Universidade de Copenhague, licenciando-se em 1841. Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-la muito pouco cristã. Para o teólogo dinarmaquês, entre as atitudes (fases) estética, ética e religiosa da vida, não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entre elas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética ou desta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-se instantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa. Para Kierkegaard, só o Cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendo o panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra o medo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, por não ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveis entre o Cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entre esta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.
São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferença entre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para a verdadeira existência, etc. Eis alguns deles: No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletida, faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; no estágio ético, o homem assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que não pode fazer, no estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que seja, e que se alcança este estado proposto por Deus através de algo que vem de fora - o próprio Deus; O tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; e a eternidade significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade, possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a eternidade intercepta o tempo; O objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, o que ela chama “a verdade”; mas os fatos, claramente aceitos jamais encerram a verdade; A essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física: liberdade versus tempo; O único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado; ignorante e conhecedor de tudo. 





       Fonte  Harvie MConn, Teologia Contemporânea

§                      Bibliografia consultada

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ROMEIRO, Paulo. Super-Crentes: O Evangelho Segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os Profetas da Prosperidade – São Paulo: Mundo Cristão, 1998. 7ª Edição.
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. Rio Grande do Sul: Editora Sinodal e Edições Paulinas.
[...] Também foram utilizadas várias resenhas dos livros de Barth, Brunner, Bultmann, John Robinson, Paul Tillich, Teilhard Chardin, Leonardo Boff, entre outros, bem como artigos compilados da internet.

Neste trabalho apresentamos as principais escolas teológicas do século vinte e seus respectivos arautos. É claro que nessa abordagem, alguns nomes inevitavelmente ficaram de fora, e outros, como Emil Brunner, não puderam ser apresentados em um capítulo próprio. Não tivemos com isso nenhuma intenção de reduzir a importância Brunner ou qualquer outro teólogo contemporâneo, apenas tentamos apresentar os nomes associados às respectivas escolas, e nesse aspecto, o nome de Brunner está bem associado ao de Karl Barth e à teologia dialética.
Nossa exposição começou com uma abordagem panorâmica do pensamento de Kant, Marx e Darwin, e da influência desses pensadores sobre a teologia contemporânea. Apesar de ser mencionado já na introdução, demos também a Immanuel Kant um capítulo à parte, pois temos considerado que sua influência sobre a teologia do século vinte é maior que o de qualquer outro. Um contemporâneo de Kant que também influenciou a teologia do século vinte foi Soren Kierkgaard, mas não lhe dedicamos um capítulo especial porque entendemos que ele foi um teólogo cristão e não especificamente um filósofo secular como Kant e Marx. Também entendemos que seu nome caberia melhor em um ensaio sobre a teologia do século dezenove, o que um dia faremos, se Deus permitir.
O teólogo de maior projeção dentro da teologia contemporânea é Karl Bath. Consideramos injusto que nomes como Barth, Bultmann e Tillich, tenham tanta repercussão quando outros como Pannemberg e Cullmann, muito mais ortodoxos que os três primeiros, são quase ignorados. Parece que a popularidade de um teólogo está mais relacionada ao grau de inovação que ele apresenta do que com a coerência lógica, bíblica e sistêmica de seus escritos. A grande lição que o século vinte nos ensinou foi: “saia da linha ou seja esquecido”. Ainda bem que não escrevemos nossas obras para obter lisonjas dos homens.
Barth inspirou-se na filosofia existencialista e principalmente em Kant para elaborar o seu conceito teológico de Deus, definindo-o como Totalmente-Outro. Ao fazê-lo, inevitavelmente isola Deus do outro lado do abismo, tornando difícil conhecê-lo e relacionar-se com ele. Seguindo Kant, ele faz distinção entre Historie Geschichte, alegando que a primeira diz respeito à história objetiva e secular, enquanto o segundo diz respeito à história subjetiva e sacra, sendo equiparada à própria fé. Os milagres, a ressurreição e outros atos sobrenaturais narrados na Bíblia não são Historie, e sim Geschichte, portanto, não devem ser confrontados na esfera secular. Em suma, tais acontecimentos não são eventos históricos. Uma distinção semelhante ocorre em Bultmann, que propõe uma distinção entre história e fé, entre o Jesus histórico e o Cristo kerigmático. Para Bultmann, o Jesus descrito nos evangelhos não é o Jesus histórico, e sim uma mera narrativa mítica. Ele insiste que a Bíblia está cheia de mitos, e que deve ser desmitificada por nós. Bultmann também nega todo valor objetivo da Bíblia como Palavra de Deus, equiparando-a a qualquer narrativa antiga. Quanto aos milagres, ele é cético: todas as narrativas miraculosas não passam de mitos.
Para refutar a teologia de Bultmann, surge o Dr. Oscar Cullmann com a Heilsgeschichte, ou simplesmente “História da Salvação”. Para Cullman não existe duas histórias, uma cristã e uma secular, aliás, ele sequer admite uma história secular. Para ele, toda história é História da Salvação. A história abrange os atos portentosos de Deus em favor da nossa redenção. Uma característica interessante de Culmann é que ele aceita o desafio de Bultmann e apresenta suas elucubrações partindo de alguns pressupostos da crítica formal, porém, discordando dele quanto às conclusões. A sua ênfase é extremamente cristológica, o que levanta inclusive algumas objeções sobre a sua teologia. De qualquer forma, a teologia de Cullman é uma ponta de esperança para o pensamento teológico contemporâneo, bem como Pannemberg, que construiu a sua teologia tendo por base a história. Em uma época em que os teólogos faziam questão de distinguir entre teologia e história, Wolfhart Pannenberg construiu uma teologia sobre o alicerce da história, salvando assim a historicidade do cristianismo.
Porém, apesar de Cullmann e Pannemberg terem prestado um relevante serviço á ortodoxia (ainda que nenhum deles é considerado literalmente ortodoxo), nem todos os teólogos contemporâneos assumiram a mesma postura. A maioria deles parecia estar mais ligada às idéias de seu tempo do que à Palavra de Deus, aliás, a própria expressão “Palavra de Deus” caiu em desuso no decorrer do século vinte.
Na década de sessenta, surge um grupo de teólogos cujo exacerbado esforço era elaborar uma teologia que estivesse mais próxima dos problemas da humanidade. O problema é que essa idéia foi levada ao extremo. O patrono da teologia secular, Dietrich Bonhoeffer ficou conhecido por participar de um complot contra a vida de Hitler. É essa teologia ativista que os teólogos secularistas propõem. A Cidade Secular, de Harvey Cox, Honest to God, do “bispo” John Robinson, foram as principais obras desse movimento. Outro importante teólogo secularista foi Paul Van Buren. Ele foi sem dúvida o mais radical deles. Nessa mesma época surge na América Latina a Teologia da Libertação, com pressupostos bastante semelhantes. Buscando inspiração não na Bíblia, mas na filosofia socialista de Karl Marx, essa nova escola teológica agitou o cenário teológico nas décadas de sessenta e setenta. No Brasil, o principal expoente dessa nova e estranha doutrina é o ex-padre e posteriormente professor da PUC-SP, Leonardo Boff. A heresia fomentada por católicos romanos como Juan Luís Segundo, Hugo Assman e Gustavo Gutiérrez Merino; e protestantes como Rubem Alves, Emílio Castro, José Míguez Bonino e o então missionário no Brasil, Richard Shaull, buscava consolidar uma teologia que pudesse oferecer respostas ao clima ditatorial e à crise econômica latino-americana. A resposta por eles é uma afronta à teologia, sobretudo à teologia protestante, pois faz do marxismo o maior dos atos de Deus na história.
Várias outras tentativas de amoldar a teologia à praxe modernista também foram elaboradas. Joseph Fletcher afirmou que a moral não é absoluta. Nossos atos não deveriam ser julgados por padrões absolutos e uma ética relativa se infiltrou na teologia contemporânea. Usando pressupostos do existencialismo, do pragmatismo e das filosofias relativista e positivista, a Ética Situacional apregoa uma teologia na qual os fins justificam os meios. Não há conduta errada quando se quer alcançar um fim nobre. Esse pragmatismo também está presente na Teologia da Libertação e na Teologia Secular, mas nada tem a ver com a Bíblia, que nos ensina que melhor é o sofrer fazendo o bem do que fazer o mal para que os advenham bens. Pecar deliberadamente para que a graça seja mais abundante, militância contra governos que se oponham aos nossos valores, tudo isso soa dissonante ao supremo às palavras de Jesus no sermão do monte. Somos bem-aventurados quando somos perseguidos e vilipendiados, e não o contrário. A Ética Situacional, assim como outras teologias modernas, nega o sobrenaturalismo das escrituras e se esforça para reinterpretar as narrativas miraculosas em termos existenciais. Desse modo, a morte de Cristo não foi substitutiva, e sim uma demonstração de amor.
Em seu afã de apresentar uma teologia que pudesse se adequar aos padrões mundanos e às crenças seculares, muitos teólogos do século vinte perderam completamente o senso de direção. Como homens loucos, eles corriam desesperados em busca de uma associação que pudesse “salvar” à teologia. A Bíblia cada vez mais parecia um livro ultrapassado e cada vez mais os teólogos procuravam muletas seculares para amparar à Bíblia. Vemos isso na teologia do padre católico Teilhard Chardin. Esse teólogo católico teve a mente tão doutrinada pelas teorias evolucionistas que chegou a apresentar o próprio Deus, aquele que a Bíblia descreve como imutável, como um Ser em evolução. Não é preciso dizer que ele teve que fazer um esforço hercúleo e muita eisegese para conciliar o criacionismo bíblico e o evolucionismo, duas teorias totalmente opostas uma à outra.
Outra mostra desse desespero é a teologia de Jurgen Moltmann, conhecida como Teologia da Esperança. Essa teologia é de ênfase escatológica, mas a escatologia de Moltmann nada tem a ver com a noção tradicional que envolve o retorno de Cristo e a entrada dos crentes no estado eterno. Na perspectiva de Moltmann, nem mesmo Deus é eterno, uma vez que ele decidiu entrar no tempo, tornando-se um ser meramente temporal. Esse conceito tem suas base na filosofia ateísta de Nietzche e aparece também na Teologia do Processo. O “Deus Finito” não é o único problema da teologia de Moltmann: ele também nega que a ressurreição de Cristo seja um fato histórico. Ora, “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”. A moralidade de Molmann, assim como a de Fletcher, é relativa e pragmática. Para ele não existe o problema da violência versus não-violência. A questão central não é a violência em si, e sim se a violência é justificável ou injustificável. Para Cristo, porém, a violência é desaconselhável em qualquer situação.
Charles Hatshorne é o preconizador da Teologia do Processo. A característica principal dessa teologia é a afirmação de que Deus é um ser temporal e está sujeito ao tempo, bem como a mudanças e a evolução moral. É fácil fazer um paralelo entre Moltmann e Chardin: assim como Moltmann, ele afirma que Deus tornou-se finito e temporal, e como Chardin, ele assevera que Deus está em constante processo evolutivo. Contudo, apesar da semelhança com as teologias de Moltmann e Chardin, a principal influência de Hatshorne foi o matemático e filósofo Alfred North Whitehead. Essa teologia também é conhecida pelo nome de Teísmo Aberto e Teísmo do Livre-Arbítrio. Deus, segundo essa concepção, não é um Ser Onisciente, mas um ser finito e limitado ao tempo. Ele fatalmente não pode prever o futuro. A conseqüência direta dessa teologia é simples: se Deus não tem o controle dos contingentes futuros, não há nenhuma razão para depositarmos nele alguma confiança. Esse teísmo anti-bíblico mina toda confiança que o crente deposita na Bíblia, e deve ser logo descartado.
O teólogo mais controverso do século passado, no entanto, não foi Hatshorne, Bultmann ou Barth, mas um que se posicionou bem na fronteira entre esses dois pensadores: Paul Tillich. Valendo-se de pressupostos existencialistas e liberais, Tillich elaborou uma teologia que ficou conhecida pelo nome Teologia do Ser. Ele propõe reinterpretações da Bíblia, muito das quais beiram o absurdo. Entre as doutrinas por ele modificadas estão a encarnação, a natureza do pecado e a própria salvação. Sua própria teologia está baseada em um ser impessoal, reduzido à mera força racional e criadora. A ressurreição também é reinterpretada por ele, retirando assim a base da esperança cristã (cf. 1Co 15.13-19). Embora em alguns círculos Paul Tillich seja citado como o “teólogo dos teólogos”, da perspectiva conservadora ele não passa de um herege.
Reservamos os dois últimos capítulos para abordar dois movimentos que estão em acelerado crescimento em nosso país, à saber, o pentecostalismo e o neopentecostalismo. Nascido na Califórnia, o moderno movimento pentecostal teve como principal pregador o pastor William Seymour, e o principal teólogo e sistematizador das doutrinas pentecostais foi Charles Parham. Não foi apenas a importância dessas duas teologias no cenário brasileiro que lhe renderam um lugar especial neste trabalho, mas também a dissociação dessas dois movimentos das demais escolas contemporâneas de intrepretação teológica. O pentecostalismo, como já vimos, encontra suas raízes no Movimento de Santidade e tem em John Wesley seu principal antecessor. Trata-se de uma tentativa de voltar à fé cristã primitiva, de tal forma que o movimento foi chamado em seus primórdios de Restauração da Fé Apostólica. Muitos excessos foram cometidos nessa tentativa de retorno ao modo de culto primitivo, mas isso não desqualifica o movimento como um todo. De modo geral, podemos perceber no pentecostalismo certo frescor. Ele surge como chuva serôdia em meio ao árido cenário teológico do século vinte e mantém-se na contramão de Bultmann, Barth, Tillich e dos demais teólogos de influência no século vinte. Hoje, mais de um século depois, olhamos ao nosso redor e indagamos pelas igrejas liberais e neo-ortodoxas. Como disse o Rev. Hernandes Dias Lopes em palestra no congresso Vida Nova de Teologia, “as igrejas liberais nasceram fadadas ao fracasso”. É simplesmente impossível encontrar uma só igreja liberal com membresia superior a cem membros. As igrejas pentecostais, ao contrário, vivem abarrotadas e há constante necessidade de se construir novos templos.
O neopentecostalismo surge na década de setenta como uma deturpação do movimento pentecostal e como reflexo de uma cultura capitalista. O próprio neopentecostalismo é um materialismo disfarçado de cristianismo, prostrado ante Mamon em adoração. A tendência dos “poderosos” sempre foi usar o poder em benefício próprio, e não demorou para que um grupo de pentecostais, esquecendo do exemplo de Jesus na tentação de Mateus capítulo quatro, estabelecesse uma teologia para verter as bênçãos espirituais em materiais e essas sobre si mesmos. Kenyon, Cooperland e Hagin formam a ala mais materialista do movimento, enquanto Benny Him endossa a fileira espiritualista. No Brasil, os principais expositores desse movimento pragmático-mercantil são RR. Soares e Edir Macedo. Atualmente há também pregadores pentecostais aderindo à idéias do movimento neopentecostal, como por exemplo o Pr. Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, que inclusive escreve livros sobre prosperidade e promove a Bíblia de estudo do Morris Cerrullo, a Bíblia da Batalha Espiritual e Vitória Financeira, que já ganhou o apelido de Bíblia do Milhão.
É difícil enumerar uma a uma as diversas conclusões à que chegamos, haja vista que ao final de cada capítulo são apresentadas várias objeções às respectivas escolas, e repeti-las agora seria uma tarefa enfadonha e pouco proveitosa. A análise da teologia do século vinte nos ensina pelo menos três coisas. A primeira é que do ponto de vista conservador, nem sempre há justiça em teologia. Parece que para ganhar projeção no meio evangélico é preciso romper com os antigos padrões e fomentar o erro no seio da cristandade.
A segunda conclusão à que chegamos é que mui dificilmente um pensador escapará às idéias do seu tempo. Os teólogos do século vinte foram grandemente influenciados pelas idéias teológicas e filosóficas de pensadores anteriores a eles. Quer seja por Immanuel Kant, Sheleiermacher e Soren Kierkgaard, como no caso de Brunner, Barth, Tillich e outros tantos teólogos neo-ortodoxos, ou por Nietzche e Overback, como é o caso de Jurgen Moltmann, o certo é que nenhum deles escapou das influências do seu tempo. Qualquer que leia a obra de Teilhard Chardin logo se dará conta de que o evolucionismo para ele está acima da teologia e que as idéias de Darwin são mais aludidas por ele que os portentosos atos de Cristo. Até no pentecostalismo podemos perceber as idéias previamente concebidas por John Wesley e no neopentecostalismo, vemos de cara a influência da filosofia pragmatista norte-americana e até mesmo idéias da seita Ciência Cristã. Tudo isso torna o trabalho do teólogo muito árduo, aumentando a necessidade de apologistas cristãos entre nós. A verdade é que herdamos uma teologia deturpada, fruto do casamento da teologia com a filosofia existencialista. Isso porém, não significa que toda filosofia seja ruim; há também a boa filosofia e como disse C.S. Lewis, “se não há razão para existir a filosofia, que ela exista ao menos para refutar a filosofia ruim”. O problema é quando a filosofia ruim ou irracional arroga para si o status de verdade universal.
A terceira conclusão é que embora seja muito difícil escapar do nosso invólucro cultural, não devemos sujeitar a nossa teologia às novas tendências, correntes filosóficas e modismos pós-modernistas, à fim de agradar as mentes contemporâneas. Essa tentativa foi feita no século passado por neo-ortodoxos e liberais, e fracassou. No entanto, aquelas igrejas que permaneceram fiéis à tradição reformada e ao cristianismo histórico, permanecem até hoje. A razão disso é que o homem não está simplesmente buscando uma doutrina para concordar; ele está em busca de uma fé para viver. A necessidade do homem ainda é a salvação. É por isso que um evangelho sem cruz, sem salvação, ressurreição ou imposições morais, ainda que pareça agradável aos ouvidos no início, logo será abandonado: Ele fatalmente fracassa por não pode satisfazer às exigências da alma humana.
Diante de tudo o que temos exposto, ainda permanece uma pergunta: Até que ponto nós somos ortodoxos? Muitos teólogos do século passado se perderam nas idéias do seu tempo de tal forma que as suas abordagens dificilmente podem ser consideradas cristãs.    E a nossa teologia? Ela ainda pode ser considerada cristã? Ora, hoje estamos analisando a teologia do século vinte, mas amanhã serão analisados os pressupostos teológicos do século vinte e um. O que dirão da nossa teologia? Ou será que nós não temos pressupostos? Sim, os temos. E na verdade, nós analisamos e julgamos a teologia contemporânea à luz das nossas pressuposições, isso porque, como bem afirmou o controverso Rudolf Bultmann, “é impossível exegese sem pressupostos”. Portanto, nesse início de século, faz-se necessária a avaliação dos nossos paradigmas e não apenas a simples adequação dos mesmos à interpretação bíblica. Precisamos olhar para os erros do passado e com muita cautela construir a teologia do futuro. Devemos nos esforçar ao máximo para fazer da Bíblia o nosso pressuposto básico, se quisermos construir um edifício teológico bem alicerçado para o futuro.

Terminamos assim a nossa introdução à difícil matéria de teologia contemporânea. Não foi possível apresentar uma obra completa ou fazer uma analise dos pormenores dentro de cada escola. Entendemos que tal esforço cabe mais a uma enciclopédia que a um ensaio de teologia. A nossa principal intenção, além de introduzir estudantes de teologia no panorama teológico do século vinte, é levá-los a refletir sobre as bases sobre a qual a teologia do século passado foi edificada, incitá-los a pensar de modo crítico e com isso propor uma analise concernente ao fundamento sobre o qual construiremos a teologia do século vinte e um. Agora, cabe a cada teólogo fazer a sua parte nesse edifício, e amanhã, com certeza, saberemos o resultado dessa construção.  No momento, uma música do cantor evangélico João Alexandre parece representar bem o quadro do protestantismo brasileiro. Esperamos que o que hoje é um fato, amanhã seja apenas história.

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