terça-feira, 28 de outubro de 2014

DOUTRINA DO ARREBATAMENTO DA IGREJA


                  DUAS PALAVRAS GREGAS RELATIVAS AO ARREBATAMENTO

Encontramos várias palavras no grego do Novo Testamento relativas ao arrebatamento que podem aclarar nosso entendimento acerca do arrebatamento. Destacaremos duas palavras principais:

 Parousia. Literalmente quer dizer “presença”, “chegada rápida”, “visita”. É a palavra mais freqüentemente usada nas Escrituras para descrever o retorno de Cristo, pois ocorre 24 vezes. Seu sentido é abrangente porque não define apenas a volta de Cristo até ou sobre as nuvens, mas em outras vezes se refere à Sua volta pessoal à Terra (1 Co 15.23; 1 Ts 2.19; 1 Ts 4.15; 5.23; 2 Ts 2.1; Tg 5.7,8; 2 Pe 3.4). Portanto, o sentido é geral e não específico. A ênfase maior é dada à vinda corporal e visível de Cristo.

 Epiphanéia. Literalmente significa “manifestação”, “vir à luz”, “resplandecer” ou “brilhar”. O sentido é mais específico, porque se refere especialmente à vinda sobre as nuvens. É a volta pessoal de Cristo à Terra que acontecerá com uma manifestação visível e gloriosa (2 Ts 2.8; 1 Tm 6.14; 2 Tm 4.6-8). Parousia é abrangente e pode referir-se tanto à vinda de Cristo para a Igreja como para o mundo. Entretanto, epiphanéia é um termo que especifica a volta de Cristo à Terra de modo mais direto, porque diz respeito à Sua manifestação pessoal ao mundo.

 A diferença entre as duas etapas. Referente ao arrebatamento, Cristo virá até ou sobre as nuvens (1 Ts 4.17). Será de modo invisível para a Terra, porque virá para os Seus santos nos ares. Em relação à manifestação pessoal de Cristo na Terra, Ele virá sobre as nuvens, de modo visível e com os seus santos (Cl 3.4).

No primeiro evento, Cristo, pelo poder da Sua Palavra e com voz de arcanjo, arrebatará, num abrir e fechar de olhos, a Igreja remida pelo Seu sangue (1 Co 15.52). Esse arrebatamento acontecerá antes que venha o Anticristo e instale o seu domínio sobre a terra por sete anos.

O segundo evento da volta de Cristo acontecerá no final dos sete anos da Grande Tribulação, quando Ele irá destruir o domínio do Anticristo e instalar seu reino de mil anos (Ap 19.11; 20.1-60).

                      PARTICIPANTES DO ARREBATAMENTO DA IGREJA

O próprio Senhor Jesus Cristo. Diz a Escritura: “Porque o mesmo Senhor... descerá do céu” (1 Ts 4.16). O apóstolo Paulo dá ênfase ao senhorio de Jesus conquistado no Calvário quando diz : “o mesmo Senhor”. Os vivos em Cristo e os mortos salvos receberão a ordem de comando do próprio Senhor Jesus Cristo.

 O arcanjo. A tradução do texto diverge na forma, mas não anula o fato, conforme está escrito: “à voz do arcanjo” ou “com voz de arcanjo” (1 Ts 4.16). O texto de Daniel indica que o arcanjo Miguel participará do evento da segunda vinda de Cristo (Dn 12.1), mui especialmente da epiphanéia, quando Cristo, rodeado de exércitos celestiais, descerá sobre a Terra, no monte das Oliveiras (Zc 14.3,4; Ap 1.6,7). Porém, no evento do arrebatamento da Igreja, a participação do arcanjo será efetuada pela voz de comando e chamamento, a qual será ouvida apenas pelos remidos.

 Os mortos em Cristo. Naquele dia, os mortos e os vivos em Cristo ouvirão a voz de chamamento da trombeta do Senhor pelo arcanjo, e “num abrir e fechar de olhos” (1 Co 15.51,52), estarão na presença do Senhor nos ares, com corpos glorificados. A palavra “mortos” diz respeito aos santos que ressuscitarão com corpos transformados em corpo espiritual (soma pneumatikon), enquanto que, os corpos dos ímpios permanecerão em suas sepulturas até o dia do Juízo Final (Ap 20.12). Assim como Cristo ressuscitou corporalmente, também, os crentes salvos ressuscitarão corporalmente (Lc 24.39; At 7.55,56). Na lição referente à ressurreição tratamos sobre a natureza dos corpos ressurretos.

 Os vivos preparados. O mesmo poder transformador operado nos corpos dos que morreram no Senhor atuará nos corpos dos crentes vivos naquele dia. Aos tessalonicenses, Paulo declarou: “depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados” (1 Ts 4.17); e aos coríntios, também, disse: “nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados” (1 Co 15.51). Quase que simultaneamente à ressurreição dos mortos em Cristo naquele momento, os vivos em Cristo também ouvirão a voz do arcanjo, e num tempo incontável, serão transformados e arrebatados ao encontro do Senhor nos ares. Os corpos mortais serão revestidos de imortalidade, porque nada terreno ou mortal poderá entrar na presença de Deus. Será o poder do espírito sobre a matéria, do incorruptível sobre o corruptível (1 Co 15.53,54). O arrebatamento dos vivos implica livrá-los do período terrível da Grande Tribulação.

                        ELEMENTOS ESPECIAIS DO ARREBATAMENTO

Alguns elementos especiais e misteriosos indicam a natureza e procedimento do arrebatamento da Igreja na vinda do Senhor.

. Surpresa. Esse elemento é rejeitado por alguns grupos que entendem que não haverá dois eventos distintos: o arrebatamento da Igreja e a vinda pessoal de Cristo. Ora, o que a Bíblia nos ensina é que, a Igreja, constituída pelos mortos e vivos em Cristo, se encontrará nas nuvens com o Senhor. Se por alguns a idéia da surpresa é rejeitada, uma grande maioria cristã prefere o que declara as Escrituras que destacam o elemento surpresa (Tt 2.13; Mt 24.35,36,42-44; 25.13). Esse elemento é fundamental porque a Igreja vive na esperança da vinda do Senhor.

 Invisibilidade (1 Ts 4.17). Por que será um evento invisível e para quem? Será invisível para o mundo material porque os arrebatados serão constituídos somente dos transformados. A transformação será tão rápida, que nenhum instrumento cronológico terá condição de perceber ou marcar o tempo. Quando o crente conquistar esse corpo imaterial, a matéria perderá totalmente sua força (1 Co 15.43,44,49,51,53).

 Imaterialidade (1 Co 15.42, 52,53). Na verdade, a transformação que ocorrerá na vinda do Senhor será extraordinária e gloriosa, pois o que é material se revestirá do imaterial, o corruptível do incorruptível. Todas as limitações da matéria em nossos corpos serão anuladas completamente, pois, literalmente, nossos corpos serão revestidos de espiritualidade.

 Velocidade (1 Co 15.52). Para tentar explicar a velocidade do evento, Paulo usou o termo grego átomos, que aparece no texto sagrado pela expressão “num momento”, cujo sentido literal é indivisível (quanto ao tempo, aqui). A palavra átomos era usada para denotar “algo impossível de ser cortado ou dividido”. Também encontramos outras expressões bíblicas para denotar velocidade, tais como “abrir e fechar de olhos”, ou “o piscar de olhos”. Mesmo em época avançada e de velocidade da cibernética e da tecnologia, nada poderá contar e detectar o momento do milagre do arrebatamento da Igreja.  

                   A IGREJA VAI PASSAR PELA GRANDE TRIBULAÇÃO?


1. O Destino da Igreja rapidamente aproxima-se do seu glorioso desfecho, e bem assim o destino do mundo de modo geral, neste fim do "Século Presente'. O plano divino da redenção chegará à sua conclusão exatamente como Deus o havia planejado e do modo como está revelado nas Escrituras.
 Esse plano prevê que todos os crentes falecidos, em Cristo, serão ressuscitados dentre os mortos, e na mesma ocasião os crentes que estiverem vivos, serão trasladados ou raptados para se encontrarem com Cristo nos ares, ao soar da trombeta. I Ts 4.13-17; I Co 15.51,52. Em Sua palestra com Marta, na ocasião da ressurreição de Lázaro, Jesus indicou que haveria essas duas classes, ao dizer, "Eu sou a ressurreição e a vida". Para aqueles que já faleceram, possuídos da fé em Cristo, Ele é a RESSURREIÇÃO, i.e, o poder suficiente para libertá-los do reino da morte e, para aqueles que estiverem vivos e crentes no Evangelho, Cristo será a VIDA, a energia que transformará, num abrir e fechar de olhos, seus corpos materiais em corpos glorificados.

No Velho Testamento aconteceram dois casos de ar-rebatamento, de homens que, estando na terra, subitamente acharam-se no céu: Enoque, do.s tempos ante-diluvianos (Gn 5.24; Hb 11.5) e o profeta Elias (II Rs 2.11), que foi elevado num carro de fogo.
Em Lucas 9.28-31 encontramos uma espécie de ensaio quanto ao tempo em que Cristo voltará à terra em glória, ensaio esse pelo qual conhecemos o tipo de pessoas que integrarão o Seu reino. No Monte da Transfiguração, junto com Cristo, cuja deidade resplandeceu sobre a Sua humanidade nessa hora, foram vistos Moisés e Elias. Moisés representava aqueles que haviam falecido e Elias aqueles que não experimentarão a morte, ambos participantes da mesma glória que se há de revelar.
Quanto à ressurreição dos crentes Paulo informa em l Co 15.22-24 que "cada um, porém, (será ressuscitado) por sua ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda". A palavra "ordem" no original é "tagmati", que é um termo militar significando tropa militar formada com suas diferentes ordens, indicando, a nosso ver, que haverá distintos grupos de ressuscitados no dia da vinda de Cristo. Os santos ressuscitados após a ressurreição de Cristo (Mt 27.52,53), a grande multidão de salvos durante a Grande Tribulação (Ap 6.9-11) e a ressurreição e rapto das duas testemunhas mártires (Ap 11.7-11), são casos que ilustram essa verdade.

. O Tempo do Arrebatamento da Igreja é um assunto de elevada importância.

A Segunda Vinda de Cristo consiste de um só evanto, contudo, o mesmo se manifestará em duas fases. Primeiramente, ocorrerá o rapto da Igreja que será a trasladação dos crentes, tanto vivos como falecidos, para estarem na presença de Cristo, nos ares, como Paulo explica em I Ts 4.13-18. Após o rapto haverá um período de tempo que durará pelo menos três anos e meio ou mais provavelmente sete anos, durante o qual terá lugar 0 juízo da Igreja, no chamado "Tribunal de Cristo" (II Co 5.10; I Co 3,10-17), onde ela receberá os galardões do Senhor. Também estará presente às bodas do Cordeiro, no céu, na qualidade de "Noiva". Ap 19.6-10. 
Durante este período o Anti-cristo reinará sobre a terra e a Grande Tributação se desencadeará sobre Israel e as nações. Depois disso dar-se-á a "Revelação" de Cristo, em forma visível, sobre as nuvens do céu, quando Ele descerá à terra no Monte das Oliveiras, de onde ascendeu. At 1.11,12; Mt 24.30; Zc 14.4,5; Cl 3.4; I Ts 3.13; Jd 14; Mt 24.27-30. Essa será a Sua manifestação em poder e grande glória a Israel e às nações do mundo. O rapto será um evento secreto enquanto a revelação terá a mais ampla divulgação, todo o mundo tomando conhecimento da mesma. Logo em seguida, Cristo estabelecerá Seu reino de 1.000 anos de paz sobre a terra. (O estudante deve localizar esses eventos no Mapa das Dispensações, vendido em separado). Em Ap 19.8,14 está declarado que Cristo trará consigo "os exércitos que há no céu... com vestiduras de linho finíssimo branco e puro". 
Esses só podem ser os santos previamente arrebatados. Logicamente, esses san-tos não poderiam voltar com ele a não ser que fossem primeiro reunidos a Ele, fato que deverá ocorrer no momento do rapto da Igreja. Esses santos então reinarão com Cristo sobre a terra durante o período milenial. Nosso lugar nesse reino, sem dúvida, será estabelecido enquanto estivermos com Ele no céu, durante o período entre o Rapto e a Revelação. Contrário a esta opinião do rapto pré--Tribulação, alguns ensinam que a Igreja terá que passar pela Tribulação e ser arrebatada depois. Passamos a apresentar

 As Razões Por Que Opinamos que a Igreja não Passará pela Tribulação

1 Nenhuma passagem bíblica declara explicitamente que a Igreja passará pela Grande Tribulação.
Israel, sim, está identificado com a Tribulação e bem como as nações e os ímpios em todo o mundo, mas a verdadeira igreja não é mencionada em conexão com a Tribulação.
2 O livro do Apocalipse trata em geral dos derradeiros sete anos do século atual, a "Septuagésima Semana" revelada a. 
Daniel. Dn 9.27. O apóstolo João, tendo registrado sua visão de Cristo glorificado, no cap. 1, e das sete igrejas, nos caps. 2 e 3, que representam a história da Igreja universal, desde o Pentecoste até ao Rapto, ele, a partir do capítulo quarto, começou a revelar o que aconteceria "depois destas coisas", (4.1), isto é, depois do período da Igreja. Os capítulos 9 a 19 descrevem os tempos da Grande Tribulação. É significativo que em todo esse trecho a Igreja não é mencionada uma só vez, direta ou indiretamente. No capítulo 4 os 24 Anciãos sentados sobre tronos em volta do trono de Deus, como representantes da Igreja arrebatada que já recebera seus galardões e que já se sentara com Cristo em tronos. Portanto, tudo isso indica que durante a Tribulação a Igreja estará com Jesus nos céus. No capítulo 19.8 vemos a Igreja voltando à Terra com Cristo para aqui reinar. Naturalmente, para poder voltar, seria necessário primeiro ter subido com Cristo.
3 A Promessa à Igreja em Tiatira esta: "... dar-Ihe-ei ainda a estrela da manhã". Ap 2.28.
Jesus fez referência à Sua Pessoa como "a brilhante estrela da manhã". Ap 22.16. Não duvidamos que a promessa ao crente, neste caso, de receber a "estrela da manhã", significa ser recolhido à presença do Senhor antes do "levantar do sol", que neste caso representaria o início do reino milenial. A estrela da alva sempre é vista de madrugada, antes da aurora. Em Malaquias 4.1,2 encontramos uma promessa a Israel referente a esse período milenial, que diz: "Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas..." Esse "nascer do sol" ocorrerá justamente após a noite mais escura em toda a história do povo de Israel, a Grande Tribulação. Assim quando esse novo dia, o Milênio, despontar, a estrela da manhã já terá aparecido e a Igreja terá sido recolhida à presença de Cristo para participar com Ele da administração do reino que será inaugurado ao aparecer o "Sol da Justiça".
4 A Promessa à Igreja em Filadélfia, a cidade do "amor fraternal", a Igreja verdadeira dos últimos dias da presente dispensação. 
"Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra Ap 3.10. A expressão "hora da provação", da qual a igreja será guardada, a nosso ver, só pode ser a Grande Tribulação, pois trata-se de algo de âmbito internacional. O estudo do texto no grego original permite a interpretação no sentido de que a Igreja será literalmente "extraída' dessa hora, "guardada" de tal maneira que ela não estará envolvida nos eventos dessa hora difícil.
5 A Grande Tribulação representa um período de juízo ou ira sobre um mundo ímpio, a "igreja" apóstata e Israel em rebeldia. 
Os juízos mais terríveis desse período são justamente os sete "flagelos". Em Ap 15.1 e 16.1,19 nota-se as seguintes fortíssimas expressões: "flagelos... com estes se consumou a cólera de Deus". "Derramai pela terra as sete taças da cólera de Deus". "Lembrou-se Deus da grande Babilônia para dar-lhe o cálice do vinho do furor da sua ira". Em contraste com esse castigo que Deus manda sobre a terra, temos a pro-messa de Jesus em João 5.24 que "Quem ouve a minha palavra... não entra em juízo..." "Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação..." 1 Ts 5.9. "Sendo justificados pelo seu sangue seremos por ele salvos da ira." Rm 5.9. Paulo declara que "Jesus... nos livra da ira vindoura." I Ts 1.10. O ímpio está destinado a sofrer o flagelo de Deus, mas o crente dele escapará.
6 A Grande Tribulação, embora afetando o mundo inteiro tem a ver especialmente com Israel. Jr 30.4-9; Dn 12.1; Mt 24.15,21.
7 A Promessa à Igreja concernente o a r rebata-mento não dispõe de nenhum sinal pelo qual podemos determinar a hora exata da vinda de Cristo. 
Jesus disse que ninguém sabe em que hora o Filho do homem há de voltar. Por outro lado, há vários sinais de medidas cronológicas que se aplicam a Israel, como sejam "semanas", "tempo", "tempos" e "metade de tempo"; "quarenta e dois meses"; "1.260 dias"; "2.300 dias", etc. Mas tais expressões não se referem à Igreja nem ao seu destino. Outra razão por que cremos que o Apocalipse se refira à Grande Tribulação é a menção de tantos sinais e simbolismos nitidamente judaicos, e bem assim esses elementos cronológicos nele encontrados.
8 O Período da Igreja é o período entre a 69a. e a 70a. "semana" (de anos) mencionada em Dn 9.25-27. 
A morte de Cristo (o Ungido) deu-se depois da 69ª. "semana" (vers. 26). Neste ponto teve início a Igreja, o povo "chamado para fora" de todas as nações, como foi falado no Concilio em Jerusalém. At 15.14-17; Am 9.11,12. A 70a. "semana" (7 anos) é o período da Grande "Tribulação de Jacó", Dn 12.1; Jr 30.7; Ap 12.7-9. Sem dúvida, quando se iniciar essa "semana", a Igreja já terá sido arrebatada para estar com o Senhor.
9 O Ensino de Jesus em Lucas 21.25-36 deixa bem claro que o destino de Sua Igreja é escapar do castigo que o mundo sofrerá
No vers..28 diz: "Ora, ao começarem estas coisas (os sinais no sol, na luz, e nas estrelas, a angústia entre as nações, a perplexidade, o terror, etc.) a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a nossa redenção se aproxima." Esta "redenção" refere-se à "redenção do corpo" mencionada em Rm 8.22,23, que é a trasladação do crente no momento do arrebatamento.
10 O Ensino de Paulo também enfatiza que a salvação da Igreja inclui o ser salva da ira vindoura. 
I Ts 1.10; 5.9. Conseqüentemente, devemos esperar a vinda de Cristo e não a vinda da Tribulação. Para o mundo, a vinda de Cristo será uma surpresa, como a chegada dum ladrão. I Ts 5.1-8. Notemos o contraste entre os homens do mundo e os crentes pelo uso das expressões "mas vós" e "nós, porém", nos versículos 4 e 8.
11 A Trombeta de I Co 15.52 e a Sétima Trombeta de Ap 10.7 e Ap 11. 15-19 não são idênticas. 
A "trombeta" de I Co 15.52 tem a ver com o mistério do arrebatamentc da Igreja, assunto que Paulo tratou ao escrever a primeira carta aos Tessalonicenses 4.16,17. O soar dessa trombeta é coisa instantânea, ao passo que a "trombeta" mencionada em Ap 10.7 e 11.15-19 é uma "trombeta" de juízo sobre a terra. É relacionada ao "mistério de Deus", de amplitude muito vasta, abrangendo até o desfecho final do grande plano milenar de Deus, que reúne o reino milenial de Cristo, o juízo das nações, o galardão dos crentes, a ressurreição dos últimos grupos de ressuscitados durante a Grande Tribulação, e mesmo a ressurreição dos incrédulos, ou seja "a segunda ressurreição". 
O que se nota a respeito dessa "trombeta" é que ela representa um período de tempo e não apenas um toque instantâneo como é o caso da outra "trombeta" em I Co 15.52. A referência Ap 10.7 diz: "... nos dias da voz do sétimo anjo..." Esses "dias" incluem realmente as sete "taças" da ira de Deus e levam-nos até ao cap. 20 do Apocalipse. Mas a "trombeta" de I Co 15.52 soa antes da Grande Tribulação. O grande comentador Adam Clarke sugere que Paulo, ao descrever a ressurreição, lançou mão duma fraseologia puramente judaica, pois os rabinos ensinavam que a ressurreição realizar-se-ia numa série de toques de trombeta. O sétimo seria o último quando os mortos levantar-se-iam revestidos de corpos celestiais.
Por essas razões opinamos que seria forçar a interpretação dessas passagens dizer que a "última trombeta", mencionada por Paulo em I Co 15.52, seja a mesma "trombeta" de que fala João em Ap 10.7 e 11.15-19, ensino que teria como alvo indicar que o arrebatamento da Igreja e a ressurreição dos mortos crentes (a primeira ressurreição) realizar-se-iam no meio da Tribulação ou mesmo depois da mesma.
12 O Ensino Típico do Velho Testamento apresenta José como tipo de Cristo. Ele casou-se com Asená, uma gentia, durante o tempo de sua rejeição por parte dos seus irmãos e antes dos sete anos de fome. Gn 41.45. Semelhantemente, Cristo receberá a sua "noiva", que na sua maioria também é gentílica, durante o tempo de sua rejeição por parte dos seus irmãos segundo a carne, isto é, Israel, e acontecendo isto antes dos sete anos da Grande Tribulação.
Enoque sempre foi considerado como tino dos crentes arrebatados antes da Tribulação, pois a sua trasladação deu-se antes do Dilúvio. Jd 14-16; Gn 5.24.

Em Lucas 17.26-30 Jesus fez a analogia entre os dias de Noé no tempo do Dilúvio e os dias de Lõ quando Deus subverteu as cidades de Sodoma e Gomorra. Esses juízos não ocorreram enquanto os seus servos de Deus não estivessem em lugar seguro, Deuis considerou tanto um homem como Ló, um crente relativamente fraco, certamente Ele usará de misericórdia para com Seus verdadeiros santos no fim do tempo, não permitindo que a Noiva de Cristo receba o castigo destinado a um mundo ímpio. Jr 30.7; Ap 7.4-8; 14.1-5. A Igreja é o "sal" preservante do mundo.
 Quando for tirado do meio dos homens, como é previsto em II Ts 2.7-10, então é que o mundo entrará em estado de "putrefação" moral e espiritual. Então será revelado o mistério da iniqüidade, o Anti-cristo, e toda sua operação do erro, que culminará com o juízo direto de Deus sobre esse homem e sobre Satanás que lhe dará esse estranho poder.(notas Laurence Olson ibid)



PAROUSIA


Ou segunda vinda de Cristo, no que tange à igreja cristã. (naquilo que diz respeito a todos os homens, crentes ou incrédulos será colocado em outra oportunidade)

Consideremos os pontos seguintes:

I. Observações gerais:

1. A parousia será uma série de acontecimentos, começando com Armagedom (Ap 16:15), e estendendo até a destruição final da velha terra (II Pe 3:4,12). O tempo do aspecto da parousia que acontecerá antes do milênio é desconhecido (Mt 24:6). O tempo do arrebatamento da igreja é debatido.
2. Será um período de refrigério ou descanso, vindo da parte do Senhor (At 3:19).
3. Significará a restauração de todas as coisas (Rm 8:21; Ef 1:10). O «mistério da vontade de Deus» será cumprido. A segunda vinda será uma série de acontecimentos e até o milênio pode ser considerado parte dela. II Pe 3:4-13 mostra que até o julgamento final e a destruição do velho sistema cósmico fazem parte da parousia no seu sentido mais amplo. O processo histórico será incorporado na grande transição da «parousia». A parousia utilizará o processo histórico para cumprir o mistério da vontade de Deus, mas também transcenderá aquele processo. O cumprimento do mistério da vontade de Deus fará Cristo o centro da Nova Criação, na qual ele será tudo para todos.
4. Consistirá da manifestação, aparecimento e revelação de Jesus Cristo (I Pe 1:7,13).
5. Será o dia de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (Tt 2:13).
6. Também será o Dia de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo (I Co 1:8 e II Pe 3:12).
7. É acontecimento predito nas páginas do A.T. (Dn 7:13); e figura tão freqüentemente no N.T., que é mencionado numa média de um versículo em cada vinte e três. (Ver Jd 14; Mt 25:31; Jo 14:3; At 3:20 e I Tm 6:14).
8. Esse acontecimento será precedido por certos sinais (Mt cap. 24).
9. Sua maneira: será nas nuvens (Mt 24:30 e Ap 1:7); na glória de Deus Pai (Mt 16:27); na glória de Cristo (Mt 25:31), uma verdade literal (At 1:9,11); acompanhado pelos anjos (Mt 16:27); I Ts 3:13 e Jd 14); em Companhia dos crentes (I Ts 4.14); repentino (Mc 13:36); como se fora um ladrão que assalta à noite (I Ts 5:2; II Pe 3:10 e Ap 16:15); será como um relâmpago (Mt 24:27).
10. Propósitos: A glorificação dos santos (II Ts 1:10; I Ts 4:15 e ss); não será para efeito de expiação (Hb 9:28 e Rm 6:9,10); visará a própria glória de Cristo (II Ts 1:10); visará julgar tanto aos salvos quanto aos perdidos (Sl 50:3,4; Jo 5:22; II Tm 4:1; II Co 5:10).
Cumpre-nos observar, por semelhante modo, que tal juízo é vinculado à parousia e não à morte física de cada indivíduo. As questões eternas, pois, não serão fixadas até à segunda vinda de Cristo. Portanto, o poder salvador ou restaurador de Cristo se prolonga pelo mundo intermediário e não se restringe apenas a este mundo físico, terreno.
Cristo destruirá a morte quando de sua vinda (ver I Co 15:25,26). Assim, os seus santos receberão a natureza e a semelhança de Cristo, mediante a ressurreição e a subseqüente glorificação; e isso atua neles, por enquanto, como uma esperança purificadora (ver I Jo 3:2,3 e I Ts 4:14,16). Tal ocorrência redundará em glória tanto para Cristo como para os crentes (ver Cl 3:4). A coroa da glória será dada aos crentes nessa oportunidade (ver II Ts 4:8 e I Pe 5:4). E então terá início o reino milenar de Cristo (ver Dn 7:27; II Tm 2:12; Ap 5:10 e 20:6).
11. Em relação aos crentes, esse acontecimento se reveste agora dos seguintes elementos: Os crentes devem amar a vinda do Senhor (ver II Tm 4:8); devem esperar por ele (ver Fp 3:20; Tt 2:13); devem aguardar a Cristo (ver I Co 1:7 e I Ts 1:10); devem apressar a vinda de Cristo (ver II Pe 3:12); devem orar para seu desenlace (ver Ap 22:20); devem estar preparados para esse dia (ver Mt 24:44; Lc 12:40); devem vigiar a respeito (ver Mt 24:42).
12. Em relação aos incrédulos, a segunda vinda de Cristo serve de motivo de zombarias (ver I Pe 3:3,4); os incrédulos presumem de sua ocorrência tardia (ver Mt 24:48); serão surpreendidos por seu súbito desenlace (ver Mt 24:37-39); serão castigados quando houver tal ocorrência (ver II Ts 1:8,9); e o anticristo será destruído em seu poder e domínio nessa oportunidade, caindo em perdição eterna (ver II Ts 2:8). Ef 1:10, vinculado com I Pe 3:18-20, 4:6, mostra como a missão de Cristo, afinal, terá efeitos imensos e universais, sobre todos os homens, não somente sobre os eleitos. Tudo, afinal, terá seu centro em Cristo, e terá uma utilidade, embora não a mesma dos eleitos, sendo imensamente inferior.
Queremos notificar ao leitor que, nas referências sugeridas acima, nenhum esforço foi feito por nós para distinguir os temas relativos ao «arrebatamento da igreja», dos temas atinentes à segunda vinda de Cristo, na «glória».

II. O tempo do arrebatamento:

Precisamos também considerar a questão do tempo da segunda vinda de Cristo, no que diz respeito à tribulação, e no que concerne à diferença entre o arrebatamento da igreja e a segunda vinda de Cristo. John F. Walvoord, presidente do Dallas Theological Seminary, de Dallas, no Texas, talvez tenha escrito a exposição mais completa que há sobre esse tema. Ele alistou cinqüenta razões pelas quais cria no arrebatamento antes da tribulação, o que significa que a igreja não passaria pelo período da Grande Tribulação. Bastaria a natureza completa de seus estudos para merecer a nossa atenção, mesmo que não concordemos totalmente com tal ponto de vista. Abaixo expomos essas razões, e abaixo oferecemos uma breve crítica.
Para efeito de brevidade, o termo arrebatamento é usado para indicar a vinda de Cristo para a sua igreja, ao passo que a expressão «segunda vinda» é uniformemente usada em alusão à vinda de Cristo à terra, a fim de estabelecer o seu reino milenar, acontecimento esse que todos consideram pré-tribulacional.

Argumento Histórico

1. A igreja cristã primitiva cria na iminência do retorno do Senhor, o que é um ponto doutrinário essencial da posição pré-tribulacional.
2. O desenvolvimento detalhado da verdade pré-tribulacional, durante os poucos séculos passados não prova que essa doutrina seja recente ou que seja uma novidade. Seu desenvolvimento é similar ao das outras principais doutrinas da história da igreja.

Hermenêutica

3. A posição pré-tribulacional é o único ponto de vista que permite uma interpretação literal de todas as passagens tanto do Antigo como do Novo Testamento sobre a Grande Tribulação.
4. Somente a posição pré-tribulacional distingue claramente entre a nação de Israel e a igreja, em seus respectivos programas.

Natureza da Tribulação

5. O pré-tribulacionismo conserva a distinção bíblica entre a Grande Tribulação e a tribulação em geral que a antecede.
6. A Grande Tribulação é devidamente interpretada, pelos que crêem no arrebatamento antes da tribulação como tempo de preparo para a restauração da nação de Israel. (Ver Dt 4:29,30 e Jr 30:4-11). O propósito da tribulação não é preparar a igreja para a glória.
7. Nenhuma das passagens do A.T. sobre a tribulação menciona a igreja (ver Dt 4:29,30; Jr 30:4-11; Dn 9:24-27 e 12:1,2).
8. Nenhuma das passagens do N.T. sobre a tribulação menciona a igreja (ver Mt 24:15-31; II Ts 1:9,10; 5:4-9 e Ap 4 - 19).
9. Em contraste com a posição mid-tribulacional, o ponto de vista pré-tribulacional prove uma explanação adequada para o começo da Grande Tribulação, no sexto capitulo do livro de Apocalipse. Já a primeira dessas posições é refutada pelo ensinamento claro das Escrituras, que diz que a Grande Tribulação começará muito antes da sétima trombeta do décimo primeiro capitulo do livro de Apocalipse.
10. A distinção apropriada é mantida entre as trombetas proféticas das Escrituras através da posição pré-tribulacional. Há base firme para o argumento central do mid-tribulacionismo que a última trombeta do livro de Apocalipse é a última trombeta, não havendo conexão segura entre a sétima trombeta do décimo primeiro capítulo do livro de Apocalipse, a última trombeta do trecho de I Co 15:52 e a trombeta de Mt 24:31. São três acontecimentos distintos.
11. A unidade, da septuagésima semana do livro de Daniel é mantida pelo pré-tribulacionismo. Em contraste com isso, a posição mid-tribulacional destrói a unidade dessa septuagésima semana, confundindo o programa de Israel com o programa da igreja.

Natureza da Igreja

12. O arrebatamento da igreja nunca é mencionado em qualquer passagem referente à segunda vinda de Cristo, após a tribulação.
13. A igreja não está destinada à ira (ver Rm 5:9; I Ts 1:9,10 e 5:9), Portanto, a igreja não poderá entrar no «grande dia da ira deles» (ver Ap 6:17).
14. A igreja não será surpreendida pelo Dia do Senhor (ver I Ts 5:1-9), que inclui a tribulação.
15. A possibilidade do crente escapar da tribulação é mencionada em Lc 21:36.
16. À igreja de Filadélfia foi prometido livramento da«hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra» (Ap 3:10).
17. É uma das características da maneira divina de agir a livrar aos crentes antes de qualquer juízo divino ser infligido contra o mundo, conforme é ilustrado nos livramentos de NoéRaabe, etc. (Ver II Pe 2:6-9).
18. Ao tempo do arrebatamento da igreja, todos os crentes irão para a casa de Deus Pai (ver Jo 14:3), e não retornarão imediatamente à terra, após o encontro com Cristo nos ares, conforme ensinam os post-tribulacionistas.
19. O pré-tribulacionismo não divide o corpo de Cristo quando do arrebatamento com base no princípio dás obras. O ensinamento de um arrebatamento parcial se baseia sobre a falsa doutrina que diz que o arrebatamento da igreja recompensará as boas obras. Trata-se antes de um aspecto final da salvação pela graça divina.
20. As Escrituras ensinam claramente que a igreja inteira, e não apenas uma parte dela, será arrebatada quando da vinda de Cristo para a sua igreja (ver I Co 15:51,52 e I Ts 4:17).
21. Em oposição ao ponto de vista que postula um arrebatamento parcial, o pré-tribulacionismo se alicerça sobre o ensinamento definido das Escrituras que a morte de Cristo nos livra de toda a condenação.
22. O remanescente piedoso da tribulação é retratado como composto de israelitas, e não membros da igreja, conforme é dito pelos post-tribulacionistas,
23. O ponto de vista pré-tribulacional, em contraste com o post-tribulacionismo, não confunde termos gerais como 'eleitos' e 'santos', que se aplicam aos salvos de todos os séculos, com termos específicos como 'igreja' e aqueles que estão 'em Cristo', o que se refere somente aos santos desta era.

Doutrina da Iminência

24. A posição pré-tribulacional é o único ponto de vista que ensina que o retorno de Cristo e realmente iminente.
25. A exortação para nos consolarmos ante a vinda do Senhor (ver I Ts 4:18) só é significativa para o ponto de vista pré-tribulacional, sendo contradita especialmente pelo post-tribulacionismo.
26. A exortação para esperarmos pela 'gloriosa manifestação' de Cristo em favor do que lhe pertencem (ver Tt 2:13) perde sua significação se a tribulação deve ocorrer antes disso. Os crentes, nesse caso, deveriam esperar sinais da vinda de Cristo, apenas.                                                                             
27. A exortação para nos purificarmos, em face do retorno do Senhor, se reveste de maior significação se a vinda de Cristo for iminente (ver I Jo 3:2,3).
28. A igreja é uniformemente exortada a esperar a vinda do Senhor, ao passo que os crentes que estiverem vivos durante o período da tribulação as recomendaque aguardem sinais da volta de Cristo.

A obra do Espírito Santo

29. O Espírito Santo, na qualidade de «restringidor do mal», não poderá ser retirado do mundo a menos que a igreja, na qual habita o Espírito, for retira ao mesmo tempo. A tribulação não poderá começar enquanto essa restrição não for suspensa.
30. O Espírito Santo, na qualidade de «restringidor», será tirado do mundo antes de revelar-se o 'iníquo', que dominará o mundo durante o período da tribulação (ver II Ts 2:6-8).
31. Se for literalmente traduzida a expressão «isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia», ou seja, «isto não acontecerá sem que primeiro venha a partida», ficará claramente demonstrada a necessidade do arrebatamento antes do começo da Grande Tribulação.

Necessidade de um Intervalo entre o Arrebatamento e a Segunda Vinda de Cristo

32. De acordo com II Co 5:10, todos os crentes da presente era deverão comparecer perante o tribunal de Cristo, nos céus, um evento jamais mencionado nas narrativas detalhadas concernentes à segunda vinda de Cristo à terra.
33. Se os vinte e quatro anciões do trecho de Ap 4:1 - 5:14 representam a igreja, conforme muitos expositores bíblicos acreditam, então torna-se necessário o arrebatamento e o galardoamento da igreja antes do início da tribulação.
34. A vinda de Cristo para buscar sua Noiva deverá ter lugar antes da segunda vinda de Cristo a terra, para a festa nupcial (ver Ap 19:7-10).
35. Os santos da Grande Tribulação não serão arrebatados quando da segunda vinda de Cristo, mas continuarão em suas ocupações ordinárias, plantando e edificando casas, e também gerarão filhos (ver Is 65:20-25). Isso seria impossível se todos os santos fossem arrebatados quando da segunda vinda de Cristo à terra, conforme ensinam os post-tribulacionistas.
36. O julgamento dos gentios, que se seguirá à segunda vinda de Cristo (ver Mt 25:31-46), indica que tanto os salvos como os incrédulos ainda se acharão em seus corpos naturais, o que seria impossível se o arrebatamento tivesse lugar quando da segunda vinda de Cristo.
37. Se o arrebatamento tivesse lugar ao mesmo tempo que a segunda vinda de Cristo à terra, não haveria nenhuma necessidade de separar as ovelhas dos cabritos, como algo ocorrido em um julgamento subseqüente, mas a separação teria lugar no próprio ato do arrebatamento dos crentes, antes de Cristo realmente estabelecer o seu trono à face da terra (ver Mt 25:31).
38. O julgamento da nação de Israel (ver Ez 20:34-38), que ocorrerá depois da segunda vinda de Cristo, indica a necessidade de reunir novamente o povo de Israel. A separação entre os salvos e os perdidos, nesse julgamento, obviamente terá lugar algum tempo após a segunda vinda, e seria algo desnecessário se os salvos já tivessem sido separados dos incrédulos por meio do arrebatamento.

Contrastes entre O Arrebatamento e a Segunda Vinda de Cristo

39. Ao tempo do arrebatamento, os santos se encontrarão com Cristo nos ares, ao passo que, na segunda vinda, Cristo retornará ao monte das Oliveiras, vindo assim ao encontro dos santos na terra.
40. Ao tempo do arrebatamento, o monte das Oliveiras ficará intocado, ao passo que o tempo da segunda vinda será formado um grande vale a leste de Jerusalém (ver Zc 14:4,5).
41. Quando do arrebatamento, os santos vivos serão arrebatados, ao passo que nenhum crente será arrebatado em conexão com a segunda vinda de Cristo àterra.
42. Quando do arrebatamento, os santos serão levados para os céus, ao passo que, na segunda vinda de Cristo à terra os santos continuarão à face da terra, sem qualquer arrebatamento.
43. Ao tempo do arrebatamento, o mundo continuará sem julgamento e prosseguirá em seus caminhos pecaminosos, ao passo que na segunda vinda de Cristo o mundo será julgado e a retidão será estabelecida neste mundo.
44. O arrebatamento da igreja é retratado como livramento antes do dia da ira; mas a segunda vinda de Cristo será seguida pelo livramento daqueles que tiverem confiado em Cristo durante a tributação.
45. O arrebatamento é descrito como iminente, ao passo que a segunda vinda de Cristo é precedida por sinais definidos.
46. O arrebatamento de santos vivos é uma verdade revelada exclusivamente no N.T., ao passo que a segunda vinda de Cristo, com suas ocorrências correlatas é uma doutrina que se destaca em ambos os Testamentos.
47. O arrebatamento diz respeito exclusivamente aos salvos, ao passo que a segunda vinda de Cristo envolve tanto os salvos como os perdidos.
48. Quando do arrebatamento, Satanás não será amarrado, ao passo que por ocasião da segunda vinda de Cristo, Satanás será amarrado e lançado no abismo.
49. Nenhuma profecia a ser cumprida há entre a igreja e o arrebatamento, ao passo que muitos sinais terão de ser cumpridos antes da segunda vinda de Cristo.
50. Nenhuma passagem, que trata da ressurreição dos santos, por ocasião da segunda vinda de Cristo, em ambos os Testamentos, menciona o arrebatamento dos santos vivos, ao mesmo tempo.
Não se presume que os argumentos acima expostos estabeleçam por si mesmos a sua validade; antes, apresentamos esses argumentos como apoio e justificação para a discussão previamente exposta, dando o sumário de razões em favor do ponto de vista pré-tribulacional.

A CRITICA

A partir deste ponto apresentamos a critica a esses pontos de vista pré-tribulacionais:
1. Um bom serviço foi feito pelo autor da lista acima, pois apresenta-nos várias formas de distinção, existentes entre os evangélicos de hoje em dia, entre o «arrebatamento» e a «segunda vinda de Cristo», e a relação que ambas essas ocorrências têm para com a igreja cristã, para com os incrédulos, para com a Grande Tribulação e para com o milênio. Isso ajuda-nos a perceber, de maneira geral, como a questão é manuseada em nossos dias, em contraste com o modo como era manuseada em gerações passadas, por aqueles que não estabeleciam tais distinções.
2. Entretanto, devemos salientar que um mero grande número de argumentos, por si mesmos, não prova a validade de tais distinções, a menos que alguns deles, considerados isoladamente, ou todos juntos, realmente sejam convincentes. Ora, aqueles que não acreditam na distinção entre o «arrebatamento» e a «segunda vinda de Cristo», quanto à sua natureza e quanto ao elemento do tempo, não se deixam convencer por aqueles argumentos acima, nem considerados em separado e nem em seu conjunto. Abaixo oferecemos apenas um exemplo de como alguns desses argumentos são negados, através do que se pode ver como podem ser todos eles derrubados. Não nos deveríamos esquecer que qualquer sistema, quando bem desenvolvido, tem boa consciência dos argumentos dos sistemas opostos, pelo que também encerra argumentos e contra-argumentos sobre pontos controvertidos:
a. O argumento histórico: A distinção cronológica entre o «arrebatamento» e a «segunda vinda de Cristo» é uma doutrina recente, que veio à cena apenas a cem anos passados. Portanto, pode tratar-se de uma criação moderna, que dá à igreja da fé fácil um meio de escape para não entrar na prometida Grande Tribulação. Os crentes primitivos criam na iminência do retorno de Cristo; mas não consistia isso de um dogma, mas tão-somente de uma «esperança». (Caso contrário, a igreja primitiva teria incorrido em grave erro de cálculo, pois Cristo não retornou no tempo deles). Mas, quanto à sua «esperança», ela não se cumpriu, o que facilmente pode dar-se também em nosso caso. Por igual modo, Paulo esperava morrer em Roma, e no fim de sua vida terrena parece ter perdido a esperança que veria a Cristoenquanto vivo na carne. Outrossim, estando os crentes primitivos tão distantes daquele evento, não se mostraram muito exatos sobre o que deveriam esperar; e seus sentimentos sobre a iminência do retorno de Cristo não devem ser necessariamente transferidos para a igreja moderna, apesar de ser correto esperarmos pela vinda «breve» de Cristo, precedida por determinados sinais, conforme aqueles que lemos no vigésimo quarto capitulo do evangelho de Mateus. Passagens como essa não antecipam uma vinda de Jesus Cristo em dois «estágios»; e são somente os hiperdispensacionalistas que separam as previsões de Jesus nas categorias «para os judeus» e «para os cristãos», ao passo que o evangelho de Mateus é um documento «cristão», escrito já bem dentro da era cristã.
b. O argumento baseado na hermenêutica: Pode-se acreditar bem firmemente em uma «tribulação» literal, e ao mesmo tempo crer que a igreja cristã passará por ela.
c.  Natureza da tribulação: Limitar a tribulação somente à preparação da nação de Israel para a restauração, e não encarar a tribulação como medida que purificará a própria igreja, como se fora uma espécie de medida preparatória da Noiva para a vinda do Noivo, é fazer com que os capítulos quinto a décimo nono, do livro de Apocalipse, não tenham qualquer aplicação direta à igreja cristã, ao passo que esse livro tem como seu propósito especifico advertir e sustentar a igreja em meio à tribulação; e isso tanto no período da igreja primitiva, que sofria tribulações e perseguições, como prefiguração do que aconteceria futuramente, como também profeticamente, para ajudar a igreja cristã que existir quando ocorrer a «Grande Tribulação». Fazer com que a maior parte do livro de Apocalipse e outras passagens proféticas (como o décimo terceiro capítulo do livro de Marcos e o vigésimo quarto capitulo do livro de Mateus), não ter qualquer aplicação à igreja é estabelecer distinções que as próprias Escrituras não estabelecem, cortando a Bíblia em pedaços, porquanto assevera indiretamente que esses não são, realmente, documentos cristãos, não tendo sido escritos para beneficio da igreja, o que é uma posição insustentável.
d. No tocante à natureza da igreja. Passagens como Ap 3:10, que supostamente indica o «livramento da presença da ira», bem podem não significar isso ao serem consideradas dentro do pensamento que tal versículo foi escrito para uma igreja que naquele exato momento passava por uma hora de teste, a qual foi «sustentada» ou «guardada», mas não foi livrada da presença da tribulação. A igreja primitiva foi «guardada da tribulação» por haver sido preservada de seus maus efeitos; mas não no sentido de ter sido tirada da tribulação. Ora, esse é o mesmo tipo de livramento que aguarda a futura igreja cristã. Em sentido algum a igreja do fim está destinada à ira; mas poderá sofrer os efeitos da ira divina que sobrevirá ao mundo, até ao ponto em que ela mostrar-se mundana, necessitada de purificação desses elementos, embora a ira final de Deus não se descarregue contra ela. Se há alguma coisa evidente no mundo de hoje, é que a igreja precisa desesperadamente dessa purificação.
3. A obra do Espírito Santo. O Espírito Santo, na qualidade de «restringidor», será realmente tirado do caminho antes que a grande tempestade comece a açoitar; mas isso não significa que ela não possa permanecer com sua igreja durante a tempestade, protegendo-a até ao ponto em que isso não impeça a tempestade.
4. Contrastes entre o Arrebatamento e a Segunda Vinda para julgar. Ninguém pode negar que há trechos bíblicos que descrevem diferentemente a segunda vin­da de Cristo, mostrando os elementos variegados, complexos e aparentemente contraditórios que há ali, porquanto muitas condições e povos, terrenos e celestiais, estão ali em foco. Porém, tudo quanto pode ficar provado por essa observação é que se trata de uma ocorrência complexa e dotada de efeitos de longo alcance, e não que deve ser dividida meramente em duas fases cronológicas separadas.
É melhor dizer que a segunda vinda de Cristo será uma série de acontecimentos, sobre um tempo considerável, e que alguns deles se aplicarão à igreja, e outros aos outros homens.
Nenhuma tentativa é feita aqui para apresentar uma refutação completa. Longos artigos têm sido escritos sobre o tema, ao longo das linhas aqui sugeridas. O argumento em favor do arrebatamento anterior à Grande Tribulação não é tão forte como seus defensores dão a entender. Todavia, a questão não está resolvida sob hipótese alguma. Este comentário toma a posição que qualquer exame do problema, em face do que dizem as Escrituras e mediante o uso de argumentos favoráveis e contrário, não pode solucionar a questão além de qualquer dúvida, e que somente os acontecimentos da história, em desdobramento podem aclarar o assunto, a menos que Deus ache por bem dizer-nos qual a verdade final sobre a matéria, mediante profecia ou revelação, e assim unir a igreja em torno da questão. O mais provável, entretanto, é que os próprios acontecimentos venham a esclarecer tudo. O autor deste comentário crê pessoalmente na necessidade de purificação, através, pelo menos parte da Tribulação, e que assim a igreja sofrerá para seu próprio benefício; e também que esses acontecimentos ocorrerão num futuro bem próximo. A experiência demonstrará tudo para nós, ao passo que nossos argumentos em prol e contra esta ou aquela posição servem somente para deixar-nos na dúvida, até que os próprios acontecimentos ocorram.
III. A vinda literal de Cristo. A palavra «literal» normalmente é usada para indicar o que é físico ou visível e, com freqüência, «real». Mas a vinda de Cristo pode ser «real», ainda que não seja física e nem visível para todos os homens. Pelo menos, para a igreja e para o Israel, será visível. Cristo recolherá para si mesmo os seus santos, e passará a reinar sobre a terra; mas este «reino» poderá ocorrer «espiritualmente». Isso não indica uma maneira «irreal» e, sim, «real», de uma maneira diferente do que partes da igreja ordinariamente pensam. Afinal de contas, o que é «real», e mesmo «mais real», não é o que é material, mas antes, o que é espiritual. Portanto, uma elevada glória poderá ser dada à igreja, havendo grande transformação física à face da terra, um autêntico milênio, mesmo sem a forma visível de Cristo fazer-se presente. Seja como for, Cristo é o poder que há por detrás de ambas as coisas, e ele reinará verdadeiramente, «literalmente», embora talvez não se manifeste sob forma visível. Ainda temos muito que aprender sobre o que significará a manifestação particular do segundo advento de Cristo, no que diz respeito à terra. Dizemos uma vez mais que os próprios acontecimentos, à medida que se desenrolarem, esclarecerão isso para nós, se Deus não o fizer mais claramente de antemão. A segunda vinda de Cristo será um acontecimento real e literal, mas talvez ocorra inteiramente de forma espiritual (para o mundo físico). Deus, entretanto, esclarecerá isso para nós, quando estivermos preparados para receber tal esclarecimento.
IV. A igreja cristã primitiva esperava esse acontecimento em seus próprios dias. (Ver I Ts 4:15 e I Co 15:51). Não esperavam que houvesse um longo «período da igreja», entre o primeiro e o segundo adventos de Cristo. Em todos os séculos a igreja cristã deverá compartilhar dessa atitude, a fim de preservar essa esperança, para que ela atue como um elemento purificador (ver I Jo 3:2,3). Esta própria primeira epístola aos Tessalonicenses, a qual mostra-nos quão viva era essa esperança, de modo que alguns cristãos primitivos tinham suspenso até mesmo o trabalho físico, com suposta base na iminência da vinda de Cristo, serve de demonstração dessa expectação. É mesmo possível que as declarações do Senhor Jesus que se encontram em Mt 24:34 e 16:28 tivessem sido influências determinantes dessa atitude da igreja primitiva. Essas passagens dizem, respectivamente: «Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça». E: «Em verdade vos digo que alguns aqui se encontram que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino». Por outro lado, há passagens bíblicas, como At 1:7 e Mc 13:32 que impossibilitam toda a idéia de cálculo aproximado de tempo, deixando o assunto como questão aberta.
V. A segunda vinda de Cristo será desvendamento e concretização do senhorio de Cristo, tanto para o mundo como para a igreja. Será um gigantesco passo na direção da restauração de tudo, segundo os termos do primeiro capitulo da epístola aos Efésios. No trecho de Ef 1:10 podemos ver acerca do «mistério da vontade de Deus», que se cumprirá quando do retomo de Jesus Cristo, como um fato ou potencialmente, devido ao poder e autoridade que Cristo assumirá naquela oportunidade, ainda que não se manifestem de imediato todos os efeitos da tomada daquela autoridade, conforme se vê no décimo quinto capítulo da primeira epístola aos Corintios e na passagem dos capítulos décimo nono a vigésimo segundo do Apocalipse. Cristo será, afinal, «tudo para todos», (como Ef 1:23 pode ser traduzido).
O termo grego mais freqüentemente usado para indicar a volta de Cristo é «parousia», que significa «presença» ou «chegada». De fato, esse vocábulo veio a ser usado como termo técnico pára indicar esse acontecimento, o qual também é denominado «segunda vinda», a fim de distingui-lo da primeira vinda de Cristo.

            Notas Enciclopedia de Filosofia e teologia,Normam R.Champlin,2010


A «Parousia» - Poder Determinante dos Deveres Cristãos (3.1-18)

Sumário (Não deixe de ver todos até o v 18)

1.      Critérios para a condenação da heresia que nega a «Parousia» (3.1,2)
2.      Os ímpios, destruídos pelo dilúvio, foram os precursores dos que agora negam a «parousia» (3.3-7)
3.      Provas extraídas do A.T. em apoio à «parousia» (3.8-10).
4.      Aplicação ética da «doutrina da parousia» (3.11-13).
5.      Epístolas de Paulo em apoio à doutrina da «parousia» (3.14-17).
6.      Conclusão e Bênção (3.18).

1. Critérios para a condenação da heresia que nega a «Parousia» (3.1,2)

No segundo capítulo desta epístola, se encontra longa denúncia contra a natureza moral depravada dos falsos mestres gnósticos da Ásia Menor. No capítulo seguinte, o autor sagrado aborda um de seus erros doutrinários centrais - a negação da realidade da parousia, ou segundo advento de Cristo, o que é encarado como dotado de elementosdebilitadores. Provavelmente, esta segunda epístola de Pedro foi escrita em um período em que a doutrina da «segunda vinda de Cristo a qualquer ocasião» estava começando a perder o seu poder na igreja. Portanto, o presente capítulo é, essencialmente, a demonstração de como a falta de fé na «parousia» servia de elemento corruptor da natureza moral dos mestres gnósticos. Quanto ao elemento do tempo desse evento, o autor sagrado argumenta que a longa espera, da parte do homem, pode ser apenas um breve momento, de acordo com a mentalidade divina (ver II Pe 3:8). Este argumento, em si mesmo, subentende o afastamento da ardente expectação da «parousia», típica dos cristãos primitivos. Dificilmente podemos imaginar Paulo a falar desse modo, porquanto dava a impressão de que se incluía entre os vivos, por ocasião do retorno do Senhor a esta terra. (Ver I Ts 4:15 e I Co 15:51 acerca desta expectação, que supomos fosse geralmente aceita pela igreja cristã primitiva).

O autor sagrado começa por trazer tanto os profetas do A.T. como os apóstolos do Senhor para as fileiras que defendem a doutrina da parousia (Ver II Pe 3:2 e ss.). Ele subentende que a inteira tradição profética continha esta previsão, e que ela também previu que zombadores haveriam de negá-la e de rejeitá-la. A «parousia» dará início a um julgamento de fogo. Nisso, o autor sagrado parece mesclar a doutrina normal da «parousia» com a doutrina da destruição da terra e de todo o universo, mediante o fogo, o que normalmente, dentro das explicações proféticas do cristianismo, será algo que terá lugar muito mais tarde, já no fim do milênio, ou mesmo já dentro do futuro remoto, na eternidade. Por toda esta epístola, pode-se observar que o «juízo final» é associado à parousia, pelo que não há distinções claras acerca dos eventos principais do futuro, no tocante ao juízo.

Os julgamentos referidos em II Pe 2:4 subentendem a concretização do julgamento por ocasião da «parousia», e não muito após o juízo do grande Trono branco. Evidentemente, o autor sagrado não estabelecia distinções de «tempo» nesses acontecimentos, que são características do Apocalipse e da teologia cristã posterior. De fato, no décimo versículo, ele faz o remoto «dia do Senhor» (o verdadeiro «julgamento final», que se vê no vigésimo capítulo do livro de Apocalipse) ser identificado com a «parousia». Certamente que não devemos confundir a «parousia» com a imensa conflagração que assinalará o fim do sistema de universos, conforme o conhecemos hoje em dia. Que o autor sagrado falava acerca da «parousia» ou segundo-advento de Cristo, fica demonstrado pelo fato que ele, tal como os primitivos cristãos, via este acontecimento como algo bem próximo, tendo denunciado os zombadores que o negavam ou o odiavam.

3:1: Amados, já é esta a segunda carta que vos escrevo; em ambas as quais desperto com admoestações o vosso animo sincero;

«...Amados...» Uma maneira bastante comum de aludir aos crentes, subentendendo sua participação no amor de Deus, como filhos, juntamente com a «santa família», a igreja. Mas esta palavra também assinala a transição para um novo assunto, pelo que é um artifício literário. (Ver novamente esta palavra nos versículos oito, catorze e dezessete deste capítulo. Comparar com I Pe 2:11 e 4:12). Esse termo é usado por mais de cinqüenta vezes no N.T., indicando indivíduos ou comunidades inteiras.

«...segunda epístola...» Geralmente se pensa que temos aqui alusão à primeira epístola de Pedro. Entretanto, alguns estudiosos o negam, com base nos argumentos seguintes:
1. Esta segunda epístola de Pedro é dirigida a crentes judeus, ao passo que a primeira epístola de Pedro é dirigida a crentes gentios. Assim, as comunidades endereçadas eram diferentes, não podendo haver aqui alusão a uma carta que seus leitores -origirmis não receberam.
2. O próprio Pedro pregara aos endereçados desta segunda epístola de Pedro, mas aparentemente isso não sucedeu no caso dos leitores da primeira epístola (comparar I Pe 1:12 com II Pe 1:16).
3. O conteúdo da primeira epístola de Pedro não é descrito aqui com exatidão, pelo que aquela epístola não pode estar em foco neste ponto.
A maioria dos intérpretes, entretanto, concorda que há aqui certa alusão à primeira epístola de Pedro; mas muitos deles acreditam que isso é artificial, visando obter autoridade apostólica para esta epístola, a qual, na realidade, não teria sido escrita pelo apóstolo Pedro.

«...despertar com lembranças...» Estas palavras podem subentender que a primeira epístola teve os mesmos propósitos que esta segunda. Mas a leitura de ambas mostranos que elas abordam temas inteiramente diversos. Ambas falam sobrea parousia ou segunda vinda de Cristo, mas esta segunda epístola foi escrita para denunciar aos hereges gnósticos, ao passo que a primeira foi escrita para encorajar uma igreja que sofria perseguições.

«...mente esclarecida...» No grego é «eilikrine», isto é, «sem mistura», «puro». A raiz parece ser «eile», o «calor do sol» e «krino», «julgar», «testar», «discernir», ou seja, «algo testado pelo calor do sol». Tal palavra também pode significar «testado pela luz do sol» ou «aclarado pelo sol», conforme é demonstrado por qualquer bom léxico grego. Seu uso aqui, com o sentido de «sincero», provavelmente é o tencionado pelo autor sagrado. Suas mentes ainda não tinham sido pervertidas ou corrompidas pela heresia gnóstica; continuavam a crer na «parousia» ou segundo advento de Cristo, e pelo menos alguns deles tinham escapado da sensualidade gnóstica. O autor sagrado espera manter seus leitores pensando desse modo, sem importar que os gnósticos negassem essa doutrina ou não.

A primeira epístola de Pedro, em concordância com a segunda, tem em comum o apelo à autoridade dos profetas e apóstolos (ver I Pe 1:10-12; II Pe 1:4,16-21 e 3:2). Ambas salientam reiteradamente a segunda vinda de Cristo como uma das verdades fundamentais da tradição apostólica (ver I Pe 1:4-7; 4:5,7,13,18; 5:4,10; II Pe 1:11,19; 2:9; 3:4,7,8,10-13). Certas similaridades como estas podem ter levado o autor sagrado a sentir-se justificado a ver sua epístola como uma espécie de continuação da primeira.

3:2: para que vos lembreis das palavras que dantes foram ditas pelos santos profetas, e do mandamento do Senhor e Salvador, dado mediante os vossos apóstolos;

«...palavras...» A mensagem geral da retidão, conforme agora fora anunciada pela mensagem cristã, contrária à heresia gnóstica, tanto quanto à doutrina, como quanto à ética. Mas, está particularmente em foco a palavra «profética», que prediz sobre a segunda vinda de Cristo, a «parousia». Os leitores da epístola não eram ignorantes, e seriam tidos como responsáveis pela luz recebida. Isso pode ser comparado ao paralelo do décimo sétimo versículo da epístola de Judas, onde as «predições dos apóstolos» são vistas como confirmatórias da expectação sobre o segundo advento de Cristo. Antes, nesta mesma epístola, já tivemos ocasião de ver a combinação do testemunho dos profetas do A.T. com o testemunho dos apóstolos do N.T., como pano de fundo e apoio do ensinamento sobre a «parousia». (Ver II Pe 1:12-21). Ali se vê que a segunda vinda de Cristo foi prefigurada pela sua «transfiguração».

«...mandamento do Senhor e Salvador...» O trecho de II Pe 2:21 diz: «santo mandamento», indicando o evangelho cristão, que traz consigo a «exigência moral». Assim também, aqui, o evangelho é chamado de «mandamento», indicando que o mesmo envolve várias «exigências» que os crentes devem observar. Isso contradizia a licenciosidade dos gnósticos, que eles queriam que fizesse parte da moralidade cristã, através de seus falsos ensinamentos. Mas também fica inclusa a necessidade da aceitação de certas crenças que fazem parte do sistema cristão, corretamente entendido, incluindo a «parousia». A lealdade ao Senhor exige a lealdade ao ensino sobre seu segundo advento, como parte imprescindível deste sistema.

«...Senhor e Salvador...» Os títulos que aqui vemos também figuram em II Pe 2:20. Aquele que tem a Jesus como seu Salvador e Senhor não abandona o evangelho em favor de ensinamentos falsos que porventura penetrem na cristandade. Todo o que tem a Jesus como Senhor terá uma vida santa. Os gnósticos degradavam a Cristo e tinham abandonado o conceito de seu senhorio absoluto. (Ver Cl 2:19 acerca disso). Eles pensavam que os «aeons» ou «emanações angelicais» fossem tantos outros «senhores», aos quais adoravam, e que seriam mediadores da salvação.

«...mandamento...» Essa palavra (no grego, «entole») é usada em outras porções do N.T. como «ensinamento», dotada de autoridade e de poder irresistível sobre os crentes. Em sua forma verbal, ver Mt 17:9; 28:20; Jo 15:14,17; At 1:2; 13:47. Em sua forma nominal ver Jo 13:14; 14:15,21 e 15:10,12. (Comparar também com I Jo 2:3,4,7,8; 3:22-24; 4:21; 5:2,3; II Jo 4-6). Os «mandamentos» de Cristo, confirmados pelo ensinamento dos apóstolos, deve permanecer de pé, em oposição a «fábulas engenhosamente inventadas» (ver II Pe 1:16). Os apóstolos precisam ser reputados sucessores dos profetas do A.T., em que o ensinamento deles é suplementado e desenvolvido pelo ensinamento dos apóstolos. Os gnósticos, entretanto, negavam a autoridade do A.T.

2. Os ímpios, destruídos pelo dilúvio, foram os precursores dos que agora negam a «parousia» (3.3-7)

A seção que ora se inicia é, essencialmente, o adorno do trecho de Judas 17,18, com o propósito de frisar a «parousia» como porção essencial do evangelho dos apóstolos. O autor sagrado lança mão, novamente, da narrativa sobre o dilúvio, a fim de ilustrar certo aspecto de sua mensagem. Antes (em II Pe 2:4-10), isto fazia parte de uma seção que busca mostrar quão inevitável é o juízo dos ímpios. Nos dias de Noé foi pregada uma mensagem que anunciava um cataclismo, a «vinda» de um grande acontecimento que significaria a prestação de contas e a punição das vidas más. Os homens ignoraram propositalmente as advertências, ridicularizando-as.

Isto não pode impedir o julgamento divino. Assim também, hoje em dia, os homens zombam da doutrina da «parousia» ou segunda vinda de Cristo. A «parousia» será, igualmente, uma prestação de contas e um julgamento, em que os homens serão chamados a dar contas da vida que levam. Também há, agora, os escarnecedores.

3:3: sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores com zombaria, andando segundo as suas próprias concupiscências,

«...Tendo em conta...» Trata-se da mesma expressão achada em II Pe 1:20. Ao aprendermos e sabermos, certas coisas se revestem de importância primária. Para os crentes, a fé na «parousia» é uma delas. Os versículos onze a treze deste capítulo mostram a importância da «parousia» para a ética cristã, pois é impossível salientar-se exageradamente a exigência moral do evangelho. Portanto, acima de tudo quanto se possa mencionar, que se saiba «primeiramente isto»: a «parousia» é uma doutrina veraz embora muitos zombem dela.

«...últimos dias...» Temos aqui uma expressão que pode revestir-se de boa variedade de significações. Os judeus viam-na como algo que indica «dias imediatamente antes da manifestação do Messias». No cristianismo veio a significar «dias imediatamente antes do segundo advento de Cristo». Algumas vezes se reveste de um significado profético, em que essa vinda é transferida para um período posterior; normalmente, porém, significa «nosso próprio tempo», o qual é visto como algo que precede imediatamente a vinda de Cristo. Assim, neste ponto, o autor sagrado alude aos «seus próprios dias», quando fala em «últimos dias». Suas palavras, pois, para ele, não são primariamente preditivas de alguma data remota e indeterminada. Ele acreditava que já vivia nos «últimos dias». Do ponto de vista profético, os intérpretes crêem que Escrituras, tal como a que temos à nossa frente, embora falem de condições que caracterizavam os tempos apostólicos, são essencialmente preditivas. Assim, pois, nas páginas do N.T., as palavras «últimos dias» se referem, especificamente, ao tempo que antecederá imediatamente à segunda volta de Cristo. Portanto, as condições que havia na igreja primitiva, que os escritores sagrados consideravam como os «últimos dias», eram somente simbólicas e preditivas em sua natureza. Na realidade, não viviam nos «últimos dias», embora assim pensassem. A igreja, em qualquer época de sua história, espera a segunda vinda de Cristo como acontecimento possível a qualquer instante. Esta é uma esperança purificadora para os crentes.

Essa expressão sempre traz consigo a idéia de tempos perturbados, prenhes de apostasia, de ganância, de concupiscência, de toldas as formas de iniqüidade. Esse era o ponto de vista dos judeus, relativamente às condições que haveria imediatamente antes da manifestação do Messias. Os cristãos primitivos, pois, retiveram essa mesma idéia, mas no tocante ao tempo imediatamente anterior à «nova manifestação» de Cristo. (Ver Dn 9:25. No N.T., ver Jo 6:39,40,44,54; 11:24; 12:48; At 2:17; II Tm 3:1; Hb 1:2; Tg 5:3; I Pe 1:5,20; I Jo 2:18; Jd 18; Clemente, Rom. 14:2; Barnabé 16:5). A tradição cristã associava, igualmente, a vinda de Cristo, com o aparecimento do anticristo, que antecederia àquela, por pouco. (Ver o segundo capítulo da segunda epístola aos Tessalonicenses, especialmente seu terceiro, versículo, acerca deste tema).

«...escarnecedores...» A própria circunstância de que tais homens se estejam levantando, a negarem a «parousia», na opinião do autor da epístola, era prova de que ele já vivia nos «últimos dias», porquanto a segunda vinda de Cristo, naturalmente, será acompanhada por tais condições, e a tradição profética já tinha antecipado tal coisa. Aqueles escarnecedores eram ímpios, sem regra moral alguma, mas continuamente andavam segundo suas próprias concupiscências. Embora afirmassem ser os mais santos dentre os mortos, viviam no excesso da auto-indulgência. Estes eram, exatamente, os tipos de homens que o autor sagrado via que entrariam nas fileiras do cristianismo não muito antes da «parousia» ou segundo advento de Cristo.

O aparecimento de zombadores e de falsos mestres, na igreja, são sinais sobre os «últimos dias». (Ver I Jo 2:18 e ss.).

«Com essas palavras, o apóstolo Pedro lança seu ataque contra a negação da «parousia», o erro doutrinário que subjaz às extravagâncias morais dos falsos mestres. Mas, ele tinha em vista esse tema, desde o início de sua epístola». (Bigg,in loc).

3:4: e dizendo: Onde está o promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde oprincipio da criação.

Comenta Homrighausen (in loc): «Os «zombadores» mundanos, seculares, pareciam estar com a razão. Não levavam a sério o mundo espiritual, pelo que nada tinham a ver com o cumprimento mais amplo da vida e da história. E aquela gente presa a esta terra tem seus contemporâneos atuais. Estes não estão interessados pela segunda vinda de Cristo. Até mesmo os crentes, cuja esperança desde há muito vem sendo adiada, se inclinam por perder seu interesse pela mesma. Muitos não se apegam mais ao literalismo da fé profunda da igreja. O método científico tem diluído a realidade, ao ponto da mesma tomar a natureza prosaica da continuidade. Qualquer idéia de interferência vinda de fora, no mundo de processos inflexíveis, é ridicularizada como um absurdo. A segunda vinda é uma curiosidade teológica, uma espécie de ameaça religiosa que é brandida pelos evangelistas de fogo e trovão, uma pura ficção criada por mentes temerosas e férvidas. Afinal de contas, ano se sucede a ano, e geração se sucede a geração, e século se sucede a século. Nada tem havido de novo debaixo do sol, e nada haverá de novo no futuro. A mentalidade horizontal do secularista, a mentalidade fechada do naturalista, a mentalidade indisposta do pagão, não podem perceber qualquer coisa no cumprimento daquilo que foi iniciado na Palestina, anos atrás».

As respostas de Pedro a tais atitudes são essencialmente três, que alistamos abaixo:

1. Argumento baseado na história. A história tem tido seus eventos incomuns, seus cataclismas. Por exemplo, consideremos o dilúvio. Isto mostra que coisas assim podem suceder, e cremos que algo assim sucederá novamente. O processo histórico não é algo necessariamente contínuo, sem interrupções abruptas e modificações repentinas. A «parousia» transforma­rá repentinamente ao mundo, afetando os seus habitantes.

2. Ao tratarmos com o «Deus eterno», precisamos perceber sua estimativa acerca do tempo, que não é igual à nossa estimativa. Para a mente divina, não há qualquer grande demora. As coisas têm lugar quando ele quer que assim seja, e tudo dentro do breve dia concebido pela mente divina. Assim sendo, o autor sagrado ensina aqui que os homens têm uma perspectiva limitada que perverte sua estimativa sobre as coisas.

3. A própria «demora» não envolve negligência divina, mas antes, Deus deseja dar oportunidade de arrependimento e salvação a todos. Essa demora é uma dádiva divina aos homens. Havia um antigo ditado entre os judeus que dizia que, se todos os judeus se tornassem penitentes por um único dia, o Messias viria imediatamente. Mas ele agora não vem pela segunda vez porque o Senhor espera que os homens encontrem a sua salvação; a «parousia» é retratada, nas páginas do N.T., como o fator determinante das fronteiras eternas, o fim da oportunidade para alguém obter a «salvação», em contraste com as condições do presente. Quais «outras formas» de oportunidade Deus possa dar, estão fora do alcance de nossa capacidade. O primeiro capítulo da epístola aos Efésios indica que alguma forma de reconciliação e harmonia será estabelecida em redor de Cristo, como Cabeça, em todo o universo, em toda a criação; mas isso não significa que os homens participarão da vida dos eleitos. A eternidade definirá o que isso significa.

«...promessa...» Esta foi proferida por profetas e apóstolos, estando registrada nas Escrituras proféticas. A negação da «parousia», por parte dos mestres gnósticos, era, parcialmente, a negação da revelação divina. Estes homens tinham perdido a fé na Palavra revelada.

Os crentes do primeiro século, em contraste com isso, acreditavam que a grande promessa do retorno de Cristo seria cumprida no próprio tempo da vida terrena deles. (Ver I Ts 4:15 e I Co 15:51).
«...vinda...» No grego é «parousia», que literalmente significa «presença», «aparecimento», termo que veio a ser um termo técnico para a «segunda vinda de Cristo». O autor sagrado não faz a distinção entre o «arrebatamento» e a «segunda vinda de Cristo» e o «juízo final», conforme se percebe no vigésimo capítulo do livro de Apocalipse. Sua mente fundia tudo juntamente. A teologia cristã posterior estabeleceu várias distinções entre estes eventos, embora algumas destas distinções, mais provavelmente, não sejam válidas.

Os homens, devido à impaciência, perdem de vista essas coisas, pretendendo interromper os ordeiros planos de Deus, por um toque súbito da corneta de Gabriel, pondo fim a tudo. Muitos estudiosos, como Lutero, se têm maravilhado que Deus desde há muito, não tenha tocado o sinal de fim da perversidade humana, mas antes, continue a tolerar aos homens. Charles Beard, um bem conhecido historiador, declarou que uma coisa a história nos tem ensinado, a saber:

Embora os moinhos de Deus moam lentamente, Contudo, moem excessivamente fino. (Longfellow).

«...pais dormiram...» Pais do V.T., e possivelmente, pais da igreja. O primeiro par de gerações cristãs conservava firmemente a crença na «parousia». Mas, agora, estas gerações já tinham falecido, e nada tinha acontecido. Por que continuariam outros a conservar as expectações daqueles? E nestes nossos próprios dias, mui distantes do tempo em que os cristãos pela primeira vez tiveram tal expectação, podemos raciocinar do mesmo modo. Contudo, o aparecimento do anticristo em nossa época haverá de mostrar que «nem todas as coisas continuam as mesmas». É possível que a alusão que aqui se faz aos «pais» seja mais lata, incluindo até mesmo os patriarcas israelitas. No tempo deles, esperavam o Messias. Bem, ele veio e instaurou uma radical mudança. Se ele veio uma vez, certamente virá novamente. Assim sendo, se ao assim argumentarem os mestres falsos teciam alusão aos pais judeus, o argumento deles, em favor da continuidade da história, sem a intervenção de crises espirituais significativas, não é um bom argumento.

Os filósofos, de modo geral, excetuando os estóicos (os quais esperavam uma conflagração final de todas as coisas), falavam tanto da eternidade passada da matéria, como de sua continuidade por toda a eternidade futura. Filo assim se manifestou, e vários escritos rabínicos expressam o mesmo sentimento. Mas a doutrina petrina da conflagração geral (ver os versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo) contradiz esse ponto de vista de uma essencial «imutabilidade». Talvez os falsos mestres da Ásia Menor pretendessem comprovar sua doutrina de «continuidade» mediante a citação de escritos filosóficos e rabínicos. (Ver Filo, de mundo, 2). Ali a «continuidade» é uma idéia alicerçada sobre «a lei eterna do Deus eterno».

A própria história serve de prova de que todas as coisas não têm continuado a mesma coisa «desde o princípio da criação». Isso não é verdadeiro nem no tocante ao estado da matéria, porquanto tem ocorrido cataclismas; e nem no tocante às questões espirituais, pois o Messias já se manifestou uma vez. Jerusalém foi destruída no ano 70 D.C., e, novamente, em 132 D.C., e toda uma comunidade e um sistema religioso foram apagados. Os falsos mestres da Ásia Menor terminaram por contemplar ambos os acontecimentos. A história mostrou ser contrária à tese deles—continuidade ininterrupta. Tomaram a posição absurda de que não pode haver surpresas.

«Esse argumento cético é empregado com força crescente, à medida que se vão passando novas gerações. E terá maior força justamente antes da falácia ser inequivocamente exposta às vésperas do dia do juízo». (Plummer, in loc).

O próprio Senhor Jesus exortou-nos à vigilância e à prontidão, embora tenha proibido a marcação de datas. (Ver Mt24:34).

3:5: Pois eles de propósito ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde antigüidade existiram os céus e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste;

«...deliberadamente esquecem...» As notas expositivas sobre o versículo anterior demonstram que a própria história é contrária à teoria da «imutabilidade», pregada pelos falsos mestres gnósticos. O autor sagrado salienta dois exemplos, a saber: a criação e o dilúvio. A própria criação foi uma drástica modificação na ordem de coisas e o dilúvio não foi menos do que isso. Além de ser drástica modificação, o dilúvio também foi um julgamento. Eventos como esses os gnósticos ansiavam por olvidar. Isso não estava de acordo com os seus argumentos, e, naturalmente, os homens gostam de ignorar aquilo que enfraquece suas opiniões e doutrinas. Há grande vaidade nos homens, quando supõem que são os guardiães de toda a verdade divina. Se ouvem alguma idéia nova, e seus cérebros não se sentem em conforto com a mesma, imediatamente a rejeitam como algo sem valor. A Academia Francesa da Ciências, há alguns séculos atrás, declarou solenemente que é «fisicamente impossível que pedras caiam do céu». E, assim, as universidades que tinham recolhido meteoritos se sentiram , embaraçadas, doando ou jogando fora suas coleções de meteoritos. Os homens de ciência, naquela época, tinham visão acanhada por demais para incorporar esse acontecimento (observado por testemunhas oculares) em seu sistema de crenças. Assim também, quando um representante de Edison foi enviado a demonstrar o «toca-discos» a essa mesma academia, sua demonstração sobre a «cera falante» foi interrompida, quando expulsaram o homem fisicamente para fora do recinto. Ficaram irados e declararam que: «Qualquer tolo sabe que a cera não pode falar». Acusaram o homem de perpetrar um «truque barato de ventriloquismo».

«Se alguém dirigir sua atenção para as novidades do pensamento, em seu próprio período de vida, observará que quase todas as idéias realmente novas se revestem de um certo aspecto de insensatez, quando são apresentadas pela primeira vez». (Alfred North Whitehead).

Assim também, há homens religiosos que pensam que seus sistemas são finais e perfeitos. Limitam a verdade de Deus a certas fronteiras e sempre será considerado «herege» aquele que procura ampliar esses limites. Mas os limites estabelecidos pelos homens geralmente são as limitações de seu próprio entendimento e não limites autênticos.

«...pela palavra de Deus...» Em outras palavras, a criação veio à existência pela palavra de Deus. Em seguida, o mundo humano e o reino animal que fora criado pereceram nas águas do dilúvio (ver o sexto versículo deste capítulo). O ato criador foi uma modificação abrupta no curso das coisas; o dilúvio foi outra modificação súbita. Ao usar a expressão «palavra de Deus», o autor sagrado deixa entendido que a mesma «palavra», sem forma falada e escrita, dada através dos profetas, assegura-nos que modificações repentinas podem ocorrer e realmente ocorrerão. Assim, nos versículos oitavo a décimo deste capítulo, ele mostra que as Escrituras do A.T. concordam com sua tese, não com a teoria gnóstica da «imutabilidade». O ensinamento dos apóstolos concordava com o A.T., nesse particular. As seguintes passagens neotestamentárias falam sobre a «parousia» ou segundo advento de Cristo: Mt 10:23; 16:28; 23:4,27-31,34, 42; At 1:11; I Ts 4:16,17; II Ts 1:7-9; Tg 5:8,9; Ap 2:5,25 e 3:11.

«...céus...» A forma plural é usada aqui, como é comum nas páginas do N.T. Os judeus contemplavam a existência de sete céus. A forma singular, «céu», seria uma doutrina estranha para eles. Por isso é que Paulo falava dos «lugares celestiais», nos quais habitavam anjos bons, anjos maus, homens, e, no ponto mais elevado dos céus, o próprio Deus. (Ver Ef 1:3).

Notemos que primeiramente foram criados os céus, e depois a terra. Isso indica, mui provavelmente, as «esferas espirituais» de tipo não-material, e então secundariamente, os céus estrelados. Isso concorda com a narrativa do primeiro capítulo do livro de Gênesis e com a literatura rabínica, que apresentam primeiramente a criação espiritual, então a criação dos céus físicos, e somente depois a criação desta terra.

«...a qual surgiu da água e através da água...» Essa expressão tem provocado muitas dificuldades. Poderia subentender que o autor sagrado aceitava a antiga noção grega de que um dos quatro elementos básicos é primário. Os quatro elementos básicos seriam a terra, o ar, o fogo e a água. O autor sagrado talvez concordasse com a idéia que a «água» é o elemento primário, e que, mediante várias modificações na condensação e na
rarefação, foi ela usada para criar os outros elementos.

Essas palavras, contudo, não se aplicam bem à narrativa do Gênesis, em que o globo terrestre aparecia «coberto de águas», e então foram separadas» as terras das águas, etc. Se isso é tudo quanto o autor sagrado queria dizer com essas palavras, então ele declarou a questão de maneira simples e peculiar. A maioria dos estudiosos acredita que está em foco o trecho de Gn 1:9, e que o aparecimento da terra seca, emergindo, da massa de água, é tudo quanto está em foco aqui. Isso, porém, pode ser uma explicação que simplesmente evita a dificuldade, ao invés de aclará-la. O que significa «pela água» ou «através da água»? Certamente isso se adapta às antigas explicações, oferecidas pela filosofia grega, muito melhor do que a noção de que a simples separação entre terras e águas está aqui em pauta. Se não é isso que está em foco, então haverá aqui alusão a alguma noção metafísica obscura, a respeito da qual não temos qualquer conhecimento, o que explicaria a obscuridade do próprio texto sagrado.

Alford (in loc.), conjectura que «pela água» são palavras que indicam que a «água» acima, que desce mediante a chuva, é o meio pelo qual a terra continua «existindo». Podemos supor que ele aludia a «formas de vida», existentes na terra, através da água. Faucett (in loc), faz da «água» o «agente» da formação da superfície da terra, de tal modo que a vida pode posteriormente ser encontrada ali, em um lugar próprio para sua habitação. Outros estudiosos supõem que tudo quanto está aqui focalizado é que a «água» foi misturada compactamente com os elementos terrestres, e que as duas coisas «perfazem» a natureza do nosso mundo. Águas subterrâneas, pois, estariam aqui especialmente em foco.

Tais explanações são possíveis, mas de maneira alguma são as soluções corretas. Nas Homílias Clementinas xi.xxiv temos a antiga idéia de que as coisas foram feitas partindo da água; isso mostra que a antiga noção metafísica dos gregos continuava sendo aceita por alguns e tornou-se, parte da teologia de alguns cristãos. Portanto, é possível que esta idéia esteja em foco no presente versículo. De qualquer modo, sem importar as noções metafísicas utilizadas pelo autor sagrado, é claro que está em foco a criação, como algo que ocorreu pelo poder da palavra de Deus. E isso foi uma modificação radical de qualquer condição que porventura tivesse existido antes disso. Pela mesma «palavra» (de conformidade com a tradição profética do A.T.) a «parousia» ou segundo advento de Cristo também teria lugar. E a «parousia» será uma modificação radical, de conseqüências extremamente grandes e profundas.

3:6: pelos quais coisas pereceu o mundo de então, afogado em água;

As súbitas modificações que poderão ocorrer, poderão ser formas de julgamento, tal como foram o dilúvio e como o será a «parousia» ou segunda vinda de Jesus Cristo. A terra, por assim dizer, foi absorvida à sua forma original, tendo retornado a seu elemento primário, a água. A água cooperou com a palavra de Deus a fim de provocar a destruição de indivíduos altivos e iníquos.

«...o mundo daquele tempo...» Havia uma antiga tradição, refletida no livro de Enoque (lxxxiii.3-5) no sentido que, ao tempo de dilúvio, houve uma espécie de destruição dos céus e da terra, com o surgimento de um novo céu e de uma nova terra. Naturalmente, isso não é cientificamente válido; mas tradução existia, e talvez o autor sagrado faça aqui alguma alusão a isso. A antiga tradição dizia que o universo inteiro retornou a seu elemento primário, a água. É possível que o autor sagrado tenha empregado sua linguagem aqui com o intuito de dar a entender a antiga tradição meramente como um colorido retórico. Seja como for, o dilúvio, sem importar o tipo de julgamento então envolvido, tornou-se o precedente para o autor sagrado pensar que o universo inteiro poderá vir a ser absorvido pelo fogo (ver o décimo versículo deste capítulo).

«Katakleitheis» Desse termo grego é que veio nosso vocábulo moderno «cataclisma», não se podendo justificar uma coisa pela outra. Enfim, houve, distorção na tradução, que serviu apenas para obscurecer o texto sagrado.! A tradução inglesa RSV diz aqui: «...the world that then existed was deluged, with water and perished...», em que o termo «deluged» é tradução de; «katakleitheis». Outras traduções trazem algo semelhante. A destruição, por conseguinte, foi causada por um «cataclisma de água». Outros cataclismas poderão ocorrer. A «parousia» será um cataclisma de fogo. Esse é o ponto a que quer chegar o autor sagrado.

3:7: mas os céus e a terra de agora, pela mesma palavra, têm sido guardados para o fogo, sendo reservados para o dia do juízo e da perdição dos homens Ímpios.

O que sucedeu haverá de suceder novamente, embora de modo um tanto diverso. O processo histórico tem demonstrado essa possibilidade e a revelação mostra que se trata de algo inevitável. Tal como o antigo cataclisma, o novo será um meio de julgar aos ímpios, incluindo aqueles que disserem que nada semelhante poderá ocorrer novamente.

«...céus... terra...» Este versículo, bem como os que o seguem, mostram que o autor antecipava total destruição dos céus e da terra, conforme os conhecemos agora. É estranho, para a moderna escatologia cristã, que associemos isso à «parousia», pois quase todos não entendem que o segundo advento de Cristo será acompanhado de destruição, mas apenas de renovação, em que Cristo assumiria o governo das nações e levaria os homens a juízo. Segundo é mencionado antes, o autor sagrado não faz distinção entre o «arrebatamento», o «segundo advento para julgar» e «o juízo final» (o que incluirá necessariamente a destruição dos atuais céus e da terra atual, sendo trazidos à existência novos céus e nova terra). (Ver Ap 21:1 quanto aos «novos céus e nova terra»). Por igual modo, não há distinções cronológicas claras nesta epístola, pois ela situa tais coisas após o milênio e após o grande Trono Branco.

«...pela mesma palavra...» Qual? A Palavra de Deus, cujo poder entrará em ação, a qual criou a criação original e então a levou à destruição; a qual estabeleceu uma nova ordem de coisas após o dilúvio, mas que levará essa nova ordem a juízo. A Palavra escrita descreve essa «palavra»; mas a expressão que aqui temos não é alusão às Escrituras Sagradas.

«...entesourados...», isto é, guardados como um tesouro, para serem conduzidos a determinado destino. O mundo é o guardião do fogo primário, por assim dizer, tal como o é da água primária. O fogo pode tomar conta do mundo, tal como o fez de certa feita a água. A ciência, naturalmente, tem demonstrado que isso é possível, pois uma explosão cósmica poderia destruir a tudo. Alguns intérpretes relembram-nos que as armas atômicas poderiam deflagrar uma total destruição da terra. No texto presente, porém, estão em vista forças «cósmicas» e naturais, usadas pelas mãos de Deus, por seu decreto, e não a destruição do homem por si mesmo. Seja como for, aquilo que antes era tido como impossível (a saber, a total destruição do próprio universo) é agora considerado como possível. O presente texto assevera que, eventualmente, isso ocorrerá.

Os três mundos. Temos aqui o reflexo da antiga noção judaica acerca da existência de três mundos:
1. O mundo antediluviano (ou universo), que terminou com o dilúvio.
2. O mundo renovado, que é o nosso, mas que eventualmente também perecerá.
3. O «novo mundo», no qual reinará a justiça, quando será restaurada a harmonia original.
Essa é a «nova criação aludida em Ap 21:1». Esse é o «mundo eterno» que não terá fim, e no qual Cristo será exaltado como Cabeça (ver o primeiro capítulo da epístola aos Efésios).

. «...homens ímpios...» Embora Deus os tenha tolerado ( e agora tolera uma geração do mesmo tipo, ver o nono versículo deste capitulo), contudo, finalmente haverá de chegar seu tempo. É que ainda resta alguma paciência divina, que é infinitamente maior que a dos homens. Mas os ímpios que viveram antes do dilúvio (descrito em Gn 6:5) são os «progenitores espirituais» dos atuais homens ímpios, entre os quais se acham os falsos mestres gnósticos. Pais e filhos, dentro do terreno espiritual, haverão de sofrer a mesma sorte.
«Na realidade, a profecia e o testemunho apostólico se combinam, a fim de mostrar que o Deus que formou a terra 'da água e por meio da água', e que de certa feita a destruiu, destruí-la-á pelo fogo, incluindo até mesmo os céus que agora existem (comparar com Enoque 83:3-5; Is 29:6; 30:30; 34:4; 51:6; 66:15,16; Dn 7:9,10; Jl 2:30,31; 3:15,16; Na 1:5,6 e Ml 4:1). Em lugar disso, ele estabelecerá o seu reino. A tradição apostólica não deixa margem para dúvidas sobre essas questões, até onde diz respeito aos membros fiéis da igreja». (Barnett, in loc).
A tradição de que o mundo, antes destruído pela água, seria novamente destruído pelo fogo, era antiga tradição judaica, adotada pelo cristianismo. Josefo (Antiq. 1.2.3) refere-se a um livro de profecias, atribuídas a Adão, que continha tal declaração. Alguns dos próprios gnósticos, provavelmente através da influência do estoicismo, mantinham doutrina similar. Assim também Irineu (i. 7.1) diz que os valentinianos tinham uma doutrina de que «o fogo que se oculta no mundo (fogo primário), a brilhar, a acender e a destruir toda a matéria, se apagará juntamente tom a matéria e ficará extinto». A terra estaria sendo entesourada pelo fogo, que algum dia haverá de irromper e destruir a tudo.
«...dia do juízo...»

«...entesourados...» Esse termo também é usado em II Pe 2:4,9 e em I Pe 1:4. (Quanto ao fato que o termo «destruição» descreve o juízo, o que arruína um homem em relação a seu original destino tencionado, ver II Pe 2:1,3). Nas páginas do N.T., «apoleia» não pode significar «aniquilamento», embora, por si mesma, seja palavra que pode ter esse sentido. Não há qualquer idéia de «proveito» nesse entesouramento, embora outros trechos bíblicos mostrem que os grandes ciclos trazem certo proveito, não apenas destruição. A própria destruição é um meio de redundar em proveito, porquanto limpa do mal à casa universal de Deus. Tão longe estava o autor sagrado de pensar que é impossível a «mudança» radical que ele informa-nos que tais mudanças assinalam os estertores dos ciclos antigos e os começos dos novos ciclos; portanto, trata-se de algo necessário, dentro daquilo que Deus faz. Os elementos necessários para modificações tão radicais residem inerentemente no mundo e no universo. A água de certa feita fez sentir seu peso; chegará a vez do fogo. Mas ambos esses elementos são controlados pela «palavra de Deus», pois esse é seu desígnio divino e seu poder.

Nos escritos de Melito (bispo de Sardes no século II D.C.), no curetoniano siríaco, há um comentário sobre o conceito deste versículo, que é interessante exemplo da exegese antiga: «Houve um dilúvio de água, e todos os homens e criaturas vivas foram destruídos pela multidão de águas; mas os justos foram preservados na arca de madeira, por ordenança de Deus. Assim, também será nos últimos tempos; haverá um dilúvio de fogo, e a terra se incendiará com os ídolos que os homens têm feito; e será consumido o mar, juntamente com suas ilhas; mas os justos serão livrados da fúria do fogo, tal como aqueles justos (foram salvos) na arca, do dilúvio de águas».

3. Provas extraídas do A.T. em apoio à «parousia» (3:8-10).

O autor sagrado expõe três argumentos em favor da «parousia»:
1. O argumento histórico, que mostra que já ocorreram outros cataclismas, e que grandes mudanças históricas têm tida lugar. Assim sendo, a história não favorece à idéia «continuidade sem mudanças radicais», que era a tese dos gnósticos (ver os versículos quarto a sétimo deste capítulo).
2. A mente divina é diferente da mente humana; aquilo que nos parece demorado, não o é necessariamente para ele. Isso pode ser demonstrado pelo A.T. (ver o oitavo versículo).
3. A «demora», na realidade, é uma demonstração de misericórdia, porquanto dá aos homens tempo de se arrependerem, para que assim escapem do juízo que inexoravelmente leva à «perdição» (ver o nono versículo). Não obstante, o «dia do juízo» chegará e será terrível (ver o décimo versículo deste capítulo).

Os crentes que se mostram impacientes e se inclinam por fazer soar a trombeta de Gabriel, se isso lhes fosse possível, a fim de porem fim a tudo, deveriam considerar esses fatores. Há certa verdade divina que podem deixar escapar, devido à sua impaciência. Isso é confirmado em Sl 90:4.

3:8: Mas vos, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.

«...uma cousa...» Isso pode ser negligenciado; mas é uma explicação de suposta «demora». Deus tem determinado seus próprios «tempos e épocas» (ver At 1:7); e estes não se atrasam em suas mãos. Deus não tem pressa, seus planos estão sendo executados dentro de rígido horário. Isso pode envolver a passagem de mil anos; mas, para Deus, isso não é adiamento. Para ele, um período assim é como se fora um só dia. A fim de comprovar tal coisa, o autor sagrado faz alusão ao trecho de Sl 90:4, onde se lê: «Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi, e como a vigília da noite». O autor sagrado dá a entender isso no tocante à «parousia»—para os homens talvez esse acontecimento pareça tardio. Mas o próprio autor sagrado não entendia as coisas assim. Seja como for, «divinamente falando» (conforme se deve compreender a maneira de falar de um crente espiritual), nem mesmo mil anos seriam grande demora.

«...não deveis esquecer...» Os crentes talvez estivessem demonstrando certa impaciência no tocante à doutrina da «parousia», com a tendência de começarem a duvidar de sua validade, porquanto suas expectações ainda não se tinham cumprido. A nossa fé nos orientará na direção da eternidade, modificando nossa mentalidade. Ela nos ensinará a retermos nossas crenças e expectações, sem impaciência. Até mesmo as previsões e declarações do A.T. mostram a validade de nossa fé. Os mestres gnósticos rejeitavam a autoridade do A.T., mas o autor sagrado não hesita em usar esse documento para apoiar seu argumento.

Significados, vistos no presente versículo:

1. A idéia é aplicada aos dias da criação, em que cada um deles é ampliado para envolver «mil» anos. Naturalmente, essa idéia é, pelo menos, «cientificamente absurda». Um dia ou mil anos não é nem mesmo uma gota no balde das eras geológicas necessárias para produzir as modificações que se tem verificado no mundo.

2. Alguns estudiosos supõem que o autor desta epístola quis dizer que não existe a «categoria de tempo» na mente divina. Isso é possível, pois Platão já falara nesse sentido. A filosofia neoplatônica poderia ter levado o autor sagrado a compartilhar dessa crença. Naturalmente, isso foi o começo da teoria da relatividade, pois ali o tempo é pintado como algo não necessariamente aplicado a toda a existência, no mesmo fluxo.

3. Este e o versículo seguinte ensinam, pelo menos, que a misericórdia divina é tão grande que a mente divina perde todo o computo de tempo finito.

4. Alguns antigos pensavam que temos aqui indícios de que o mundo perduraria por seis mil anos, em que cada milênio corresponderia a um dia da criação; o sétimo dia seria o «milênio». Biblicamente falando, isto é, segundo o cômputo cronológico do A.T-, passar-se-ão seis mil anos desde Adão até ao ano 2000 D.C. Naturalmente, a geologia tem demonstrado que já se passaram muito mais de seis mil anos de história humana. Contudo a declaração bíblica pode ser simbólica, representando uma cronologia representativa, e não estritamente histórica. Essa cronologia representativa fala da existência do homem, da criação ao juízo, como se essa perdurasse seis mil anos. Essa tabela de tempo estaria agora quase completa. Muitos eruditos modernos compartilham dessa antiga opinião. Tal idéia também pode ser encontrada no Talmude. (Ver Zohar sobre Gênesis fol 13:4. Ver Bartenora em Mishnah, capítulo sétimo, secção quarta. O sétimo dia, que duraria por mil anos, para os antigos intérpretes judeus, seria o período correspondente ao reinado do Messias, quando ele viesse em seu primeiro advento, mas que o cristianismo percebeu que só ocorrerá quando de seu segundo advento).

5. Este versículo ilustra que os desenvolvimentos históricos, bem como os seus paralelos espirituais, podem envolver períodos longuíssimos, segundo os homens calculam.

6. Ainda outros pensam que, neste contexto, temos a idéia de que Deus «pode punir em um dia os pecados de mil anos»; mas isso não é apropriado ao versículo e ao seu contexto, sem importar o que pensemos do próprio conceito.                                                                                                               

3:9: O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se.

O autor sagrado expõe agora a terceira razão pela qual ele continuava a crer na «parousia»—sua demora «aparente» é apenas a maneira pela qual Deus demonstra a sua paciência, para que os homens possam arrepender-se e escapar do juízo. (Ver as notas de introdução ao oitavo versículo, onde se acham os três argumentos apresentados pelo autor sagrado em favor da «parousia»).

«...não retarda...» No grego é «braduno», «demorar», «adiar», como que mediante despreocupação, indiferença, descuido ou impotência, idéias que os zombadores vinculam ao que lhes parece a «demorada» volta do Senhor.

«...Senhor...» Está em foco a pessoa de Jesus Cristo, cuja «parousia» está sendo esperada. Cristo voltará para fazer deste mundo o seu reino.

«...promessa...» isto é, da «parousia» ou segundo advento de Cristo, o que concretizará plenamente a salvação dos crentes.

«...pelo contrário... ele é longânimo para convosco...» A suposta «demora» do retorno de Cristo tem um bom motivo por detrás. Não se deve à falta de interesse por nós. Bem pelo contrário, é devido ao seu profundo interesse por nós, pois almeja que nos arrependamos, aprendendo que seu caminho é melhor, pois assim podemos escapar ao juízo que o seu retorno inexoravelmente trará. (Isso pode ser comparado com Rm 3:25 e 11:32). Assim sendo, podemos considerar como nossa salvação a «longanimidade de nosso Senhor», segundo se lê no décimo quinto versículo. Em outras palavras, a demora misericordiosa do Senhor, devido à sua longanimidade, resultará na salvação de muitos, pois o tempo extra que assim lhes é dado não será inútil. Muitos são os que tiram proveito do dom divino, para bem-estar eterno de suas almas. Portanto, essa demora, se for corretamente entendida, inspirará os crentes ao evangelismo, pois verão isso como meio de ampliarem a influência do evangelho.

«...não querendo que nenhum pereça...» Isso pode ser confrontado com I Tm 2:4, que diz: «...o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade». Este versículo, juntamente com aquele, nega tanto a «reprovação ativa» como a «reprovação passiva». Em outras palavras. Deus não se ocupa em endurecer as mentes dos homens, para que não aceitem a oferta da salvação; nem os deixa de lado, retendo deles sua graça. A demora da «parousia» serve de prova quanto a isso. A cruz é outra prova disso. A descida de Cristo ao «hades» a fim de pregar o evangelho aos espíritos desobedientes, também é prova da mesma afirmação.

Este versículo, por igual modo, não esquece apenas o «propósito oculto da predestinação». O autor sagrado meramente não contempla qualquer problema quanto à salvação para todos, sem ou com a eleição divina. Há a eleição divina (ver Ef 1:4). Porém embora não entendamos como, isso não é empecilho à real possibilidade de todos virem a ser salvos. Preferimos considerar que a questão é «paradoxal», isto é, um ensinamento que aparentemente se contradiz consigomesmo. Não sabemos dizer como a eleição divina e o livre-arbítrio podem ser verdadeiros, ao mesmo tempo; mas cremos que assim sucede; também cremos que para a inteligência divina (da qual todos haveremos eventualmente de participar não há qualquer contradição inerente a esses ensinamentos. O processo histórico consiste, essencialmente, da demora de Deus em agir; mas isso é necessário, porquanto até mesmo para Deus é preciso muito tempo para convencer os homens que seu caminho é realmente melhor, que esse é o único manancial autêntico de bem-estar espiritual. Em sua sabedoria divina, pois, ele sabe que é melhor esperar um pouco.

«...arrependimento...» Esse é o portão de entrada para a vida, pois é o início da conversão. A conversão consiste da fé e do arrependimento. A conversão é uma mudança de mente e de «direção de alma», operada pelo Espírito Santo, em cooperação com a submissão da vontade humana. Trata-se do primeiro passo da conversão, uma real mudança na qualidade moral do ser, não mera resolução para praticar o que é melhor. É uma espécie de primeiro passo em direção à nossa eventual participação na vida e na natureza de Cristo, o primeiro passo da alma para participar da santidade divina.

Deus é longânimo porque ele é eterno. «Aquele que é de eternidade, a eternidade pode dar-se ao luxo de esperar». (Plummer, in loc). Naturalmente, o plano de Deus envolve uma tabela definida de tempo. Ele sabe por quanto tempo deve esperar, ao passo que os homens podem pensar, erroneamente, que esse adiamento é sinal de desinteresse.

3:10: Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas.

O autor sagrado reafirma aqui o seu ensinamento que, assim como a criação já sofreu a devastação por meio da água, outro tanto sucederá novamente, mas mediante o fogo. (Ver o sétimo versículo deste capítulo quanto às possíveis «idéias metafísicas» por detrás dessa declaração). O autor sagrado emprega, ao que parece, a antiga idéia de Heráclito, posteriormente incorporada no estoicismo, de que o universo tem o «fogo» entesourado como um de seus elementos primários, e que, chegado o tempo certo, o universo inteiro revertera a seus elementos básicos, em imensa e total conflagração. Tal noção também existia no tocante à água. Alguns estudiosos crêem que a água foi o elemento primário, e que mediante condensação e rarefação outras coisas surgiram dela, chegando à existência, segundo as conhecemos, em grande multiplicidade. Assim sendo, por ocasião do dilúvio, todas as coisas, incluindo os céus, reverteram à água, segundo fica implícito nos versículos quinto e sexto deste capítulo. O juízo, portanto, tanto o da água como o do fogo, envolvem reversão aos elementos primários.

O autor inclui os céus estrelados e a terra, e talvez tivesse em mente os céus espirituais também, de tal modo que, bem literalmente, haverá novos céus e nova terra (ver o décimo terceiro versículo deste capitulo e o trecho de Ap 21:1). No tocante ao presente versículo, tem havido certo debate, que indaga se ele indica a «renovação» da antiga terra, mediante o fogo, para que a mesma matéria seja usada na confecção da nova terra, ou se este versículo contempla a total destruição e aniquilamento da terra física e dos Céus estrelados. Levando-se em conta a metafísica estóica, que o autor sagrado provavelmente empregava, certamente ele quis indicar a idéia de aniquilamento total, seguido por completa nova criação; não concebia mera renovação da antiga criação. A metafísica estóica, conforme é explanado acima, não concebia qualquer coisa como uma mera renovação.

«...dia do Senhor...» O autor sagrado não faz qualquer distinção clara, em sua escatologia, acerca da «parousia» e do «juízo final». Ele não alude a «arrebatamento», a «segunda vinda para ajudar», a «milênio» e, finalmente, a «juízo final», o que seria seguido pela criação de «novos céus e nova terra». Os capítulos dezenove e vinte e um do livro de Apocalipse indicam que esses acontecimentos serão entidades separadas (exceto que não haverá qualquer distinção entre o «arrebatamento» e a «segunda vinda para julgar»). Em contraste com isso, o autor sagrado faz a «parousia» incluir todos esses elementos, excetuando o «milênio». Alguns crentes, evidentemente, não tinham qualquer refinamento em seu ensinamento escatológico. Assim, também temos hoje em dia os a-milenistas, os pós-milenistas e os pré-milenistas, todos com diferentes idéias acerca da realidade e da natureza da vinda de Jesus, do milênio e da relação deles mesmos para com o juízo final. Para o autor sagrado, o «dia do Senhor» é a mesma coisa que a «parousia», ao passo que, em outras porções do N.T., esse evento é visto como algo que levará os santos aos lugares celestiais, ou como juízo preliminar para os incrédulos, mas não o juízo final, que deverá esperar até terminar o milênio. Em I Ts 5:2 temos a mesma expressão que se acha aqui; o «dia do Senhor» virá como um «ladrão à noite». Nas Escrituras, essa expressão é usada para aludir a qualquer «intervenção» divina sobre a história humana, podendo incluir eventos distintos como a «parousia», o «milênio» e o «julgamento final». Nenhum desses acontecimentos, isoladamente, exaure o significado dessa expressão. Pode significar até mesmo qualquer julgamento divino direto, como demonstra­ção da ira divina, nada tendo a ver com qualquer intervenção final. O «dia do Senhor» pode ser bom ou mau, ou então ambas as coisas ao mesmo tempo, dependendo de como os homens se tiverem preparado para acolhê-lo. Normalmente, entretanto, essa expressão se reveste da idéia de julgamento divino.

«...como ladrão...» Isso também é dito acerca do «dia do Senhor», em I Ts 5:2, onde a questão é comentada. As idéias centrais são «secretamente», «inesperadamente», «repentinamente», apanhando os homens despreparados. (Ver também Mt 24:43 quanto à figura de linguagem que ali também é aplicada à «parousia»). A vinda de Cristo não permitirá que os despreparados se preparem e se arrependam. Será tarde demais para eles.

«...os céus passarão com estrepitoso estrondo...» Os céus estrelados estão em foco, e talvez até mesmo os céus espirituais. Haverá a reversão ao fogo primário. Não será apenas uma renovação. Será uma total aniquilação. Isso criará tremendo ruído. No grego temos «roidzhdon», um advérbio que significa «sibilante» (aplicado às serpentes), «farfalhante» (aplicado ao movimento rápido das asas dos pássaros) ou «rugido» (aplicado ao vento ou ao fogo). O autor pensava sobre o ruído feito por tremendo fogo, de natureza tão gigantesca que desafia toda a descrição.

«...elementos...» No grego é «stoicheia», derivado de «stoichos», «fileira». Esse vocábulo também era usado para indicar as letras do alfabeto, os «elementos» de um idioma qualquer. Tal palavra era aplicada, pelos filósofos da antigüidade, à terra, ao ar, ao fogo e à água, os elementos primários do universo material. Também era termo usado para aludir aos «espíritos elementares» e às «emanações» angelicais. Neste ponto, seu sentido é «elementos primários» da criação física, sem importar o que o autor sagrado pensasse sobre quais seriam os mesmos. Desde muitos séculos antes de ter sido escrita esta epístola de Pedro, havia uma crua teoria atômica; mas, considerando-se o que fica implícito nos versículos quinto a sétimo do presente capítulo (que abordam os elementos da «água» e; do «fogo») parece que o autor sagrado via os elementos básicos, terra, ar, fogo e água, como o «ABC» da criação física. Seja como for, todos esses elementos primários reverterão ao fogo; e isso será acompanhado por horrendo rugido. A ciência moderna, naturalmente, tem feito progressos suficientes para compreender o que são os «elementos», mas concorda com o texto presente de que a reversão à energia pura, que seria acompanhada por tremenda explosão e dissolução de tudo quanto existe, é possível. Assim sendo, apesar de que a antiga metafísica seja aqui usada para expressar tais idéias, conforme já seria de esperar, contudo, algo bem moderno é ensinado.

«...também a terra...» O mundo físico não escapará a essa universal conflagração.

«...e as obras que nela existem...» Todos os labores humanos se consumirão nessa oportunidade. Isso deixará somente o Deus eterno e sua habitação; e ai do homem que não se tiver arrependido! Repentinamente haverá de aprender que Deus, sendo o Criador, realmente é a única fonte do bem-estar espiritual. Lamentará para sempre ter buscado o bem-estar no mundo material, o que é impossível, se por bem-estar entendermos a felicidade eterna da alma.

Elementos. Consideremos os seguintes pontos a respeito:

1. Na concepção antiga havia quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Até o próprio fogo, conforme o conhecemos em sua manifestação terrena, será reabsorvido no fogo sobrenatural e verdadeiramente primário.

2. Também poderiam estar aqui em foco os elementos do universo, como as estrelas, a terra, etc. As primeiras certamente estão em foco, de alguma maneira. O autor aponta para os «blocos básicos de edificação» do universo físico.

3. Os «espíritos elementares» não podem estar em foco aqui, embora esse fosse um uso legítimo do termo grego «stoicheia». (Ver Cl 2:8,20 quanto a tal uso). Alguns antigos pensavam que as estrelas seriam «animadas», habitações de espíritos (seres angelicais); ou, então, que seriam a própria manifestação luminosa desses seres, os seus corpos, por assim dizer. A astrologia veio a misturar-se com essas noções. Esses «espíritos-estrelas» eram concebidos como seres dotados de influência sobre os homens. Mas o autor sagrado não tinha em mente uma metafísica tão complicada. Não pensava acerca da dissolução das «emanações» de Deus. Os corpos celestes são freqüentemente vistos, nas Escrituras, como coisas afetadas pela destruição que ocorrerá quando do «dia do Senhor». (Comparar isso com os trechos de Mt24:29; Is 13:9,10; 24:23 e 34:4).

4. Aplicação ética da «doutrina da parousia» (3:11-13).
3:11: Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidos, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade,
O ímpio vive para o mundo e para o que nele há; o indivíduo pervertido corrompe os elementos físicos e abusa de seu próprio corpo, que participa dá matéria. O que farão tais homens quando desaparecer a matéria? Os meios de sua satisfação lhes serão tirados. Aqueles que tiverem confiado no mundo eterno serão vistos, então, como aqueles que tomaram a mais sábia decisão. Agora mesmo, conforme diz o autor sagrado, devemos estar comprovando a prioridade do mundo eterno, andando corretamente neste mundo, sem abusar de seus elementos. Essa é a aplicação ética da doutrina da «parousia»; ensina-nos que a satisfação a longo prazo e duradoura só pode ser obtida nas realidades espirituais, porquanto as coisas físicas são temporárias. O homem é uma alma eterna, pelo que também existirá por toda a eternidade. (Ver II Co 4:17,18 e 5:1-10, onde aparece a mesma mensagem). A alma perdurará mais do que este mundo, pois, na realidade, não pertence ao mesmo. O homem se encontra apenas em uma peregrinação, habitando na tenda do corpo. Algum dia, a alma humana retornará ao seu verdadeiro elemento, e será julgada de acordo com o que tiver praticado nesta esfera terrestre.
«Porque os zombadores supõem a permanência das coisas conforme elas são, e não 'esperam pelos novos céus e pela nova terra'. O que é temporal e transitório ocupa a atenção deles. Mas a santidade e a piedade pertencem à ordem eterna. Tal como 'a fé, a esperança e o amor' (ver I Co 13:13), permanecem. As palavras, 'os elementos... serãodissolvidos pelo fogo' e 'vidas de santidade' se referem ao modo como os piedosos se conduzem. A alusão é, fundamentalmente, à 'vida e à piedade' (1:3), que Cristo outorga aos homens. As qualidades pelas quais as vidas dos crentes devem ser caracterizadas, portanto, são amplamente exemplificadas na glória e na excelência de Cristo (ver 1:3). No que diz respeito específico aos homens, essas qualidades são alistadas em II Pe 1:5-7». (Barnett, in loc).
«... santo procedimento...» Uma vida consagrada ao desenvolvimento de virtudes santas, como aquelas alistadas em II Pe 1:5-7; uma vida de santificação (ver I Ts 4:3), de desenvolvimento positivo quanto ao fruto do Espírito Santo em seus variados aspectos (ver Gl 5,22,23), como o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a bondade, a fé, etc. (Comparar também com I Pe 1:15, onde é empregada a mesma expressão).
«...piedade...» No grego é «eusebeia», que indica todas as atitudes e ações piedosas. Mas também é possível que o termo seja semitécnico: «piedade, segundo as exigências da igreja cristã, em contraste com o sistema dos gnósticos. Nas epístolas pastorais, o termo também assume sentido semitécnico, porquanto aquelas epístolas também foram escritas contra a heresia gnóstica, que pervertia a «piedade» substituindo-a por uma ética licenciosa.
No original, ambas as expressões, «santo procedimento» e «piedade» estão no plural, embora várias traduções retenham o singular, por ser isso mais natural nos idiomas modernos.  O plural indica muitas formas e manifestações de conduta santa.
«...tais como...» Como deve ser o crente, terreno ou espiritual? Qual é a nacionalidade ou origem deles? Qual é a pátria dos crentes? As ações de cada qual revelarão a resposta. Pessoas provenientes de países diferentes têm costumes e características diferentes.
3:12: aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão?
Este versículo nada adiciona de novo, mas, por ser um sumário do que dizem os versículos anteriores, é acrescentada maior ênfase. A «parousia», visto que trará uma mudança tão radical, incluindo a destruição total da Criação material antiga, e igualmente o estabelecimento de uma ordem totalmente espiritual, deveria ser ansiosamente aguardada. Por isso mesmo, Jesus ordenou a seus discípulos que «vigiassem» (ver Mt 25:13). Paulo disse: «...vigiemos e sejamos sóbrios» (I Ts 5:6), também em associação ao ensino sobre a «parousia». «Ora, o fim de todas as cousas está próximo; sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações» (I Pe 4:7).
«...apressando...» Consideremos os pontos abaixo:
1. Alguns eruditos assumem a idéia de que podemos «literalmente apressar» a vinda do citado dia, mediante o evangelismo. Dificilmente esse é o sentido dessa palavra, embora, isoladamente, ela pudesse ter tal significado. Ao conduzirmos os eleitos ao seio da família de Deus, presumivelmente o dia de Cristo pode ser apressado. Porém, o plano de Deus é fixo.
2. Outros pensam que a idéia aqui é a de «desejar anelantemente». Esse é um significado legítimo do vocábulo grego, mui provavelmente o sentido tencionado pelo autor sagrado. Pelo menos, isso é o que algumas vezes podem fazer, mas de modo algum poderemos abreviar a ocorrência da «parousia», sem importar o que fazemos. Não obstante, a tradição judaica asseverava que os pecados dos homens impedem a vinda do Messias, e que se todo o povo de Israel, em um único dia, se arrependesse do pecado, o Messias certamente viria logo em seguida, porquanto o empecilho moral seria removido. É possível que, ao escrever assim, o autor sagrado estivesse pensando sobre essa tradição judaica. A santidade, pois, é vista aqui como uma maneira de apressar (literalmente) a vinda de Cristo, e não o evangelismo ou a introdução dos eleitos de Deus no rebanho, o que deve acontecer antes da vinda de Cristo. Apesar de que essa idéia fazia parte das tradições judaicas, podendo ela ter entrado no texto, contudo, sabemos que, na realidade, isso não pode acontecer. O autor sagrado talvez tivesse usado tal tradição meramente como artifício retórico, para salientar a necessidade de vigilância e de vivermos santamente, sem esperar que, com isso, os crentes realmente apressassem a volta de Cristo. Também devemos orar «como se» isso pudesse abreviar tal acontecimento. (Ver Mt 6:10 e I Co 16:22).

«...dia de Deus...» Essa expressão equivale a «dia do Senhor», usada no décimo versículo deste capítulo, onde as notas expositivas devem ser consultadas. (Ver o «dia de Deus» usada também em Jr 41:10 e Ap 16:14).

«...os céus, incendiados, serão desfeitos...» Essa idéia é amplamente1 comentada nos versículos sétimo e décimo deste capítulo).

«...elementos...» Há notas expositivas a respeito no décimo versículo.

«...se derreterão...» Neste ponto é empregado um vocábulo diferente do que figura no décimo versículo, embora a mesma coisa seja indicada. O incêndio será derretedor. Está em foco a idéia da reversão de todas as coisas ao fogo.

«...o dia que vem, os abrasará, diz o Senhor...» (Ml 4:1).

3:13: Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça.

Os novos céus e a nova terra produzirão a ordem eterna, na qual, homens, remidos em Cristo, compartilharão da «natureza divina» (ver II Pe 1:4). Esse é o alvo mesmo de toda a existência humana, sendo promessa digna de por ela esperarmos e por ela vivermos, até que se cumpra. Tudo isso está contido em uma promessa (a do segundo advento de Cristo, que inaugurará essa nova forma de existência; ver o nono versículo deste capitulo). E essa promessa é apenas uma, dentre muitas «grandes e preciosas promessas» (ver II Pe 1:4). As mensagens profética e apostólica confirmavam, ambas, a validade dessas promessas. (Ver II Pe 1:19,21; Ap 21:1; Enoque 91:16; Is 65:17 e 66:22, quanto a essas profecias que mencionam, especificamente, «os novos céus e a nova terra»). Por conseguinte, estamos aguardando o cumprimento disso tudo. E esse mesmo verbo é usado novamente no versículo décimo segundo e no versículo décimo quarto. Portanto, essa idéia é fortemente salientada, fazendo frente à negação dos gnósticos de que a «parousia» teria realmente lugar.

O autor sagrado quis ensinar que os antigos céus e a antiga terra (talvez incluindo até mesmo as dimensões espirituais) serão completamente aniquilados. Haverá uma criação inteiramente nova, a qual esperamos ansiosamente. Não distingue o autor sagrado entre os conceitos do «arrebatamento», da «segunda vinda para julgar», do «milênio» e do «julgamento final», isto é, uma ordem de eventos diversificada e bastante longa. Ele reúne o conceito escatológico inteiro no termo «parousia», mais ou menos como fazem hoje em dia os a-milenistas. Por conseguinte, se contássemos exclusivamente com este versículo, seríamos todos, forçosamente, a-milenistas. Os capítulos décimo nono a vigésimo segundo do livro de Apocalipse, entretanto, nos fornecem a ordem cronológica desses acontecimentos, juntamente com a idéia que não sucederão todos ao mesmo tempo, mas antes, estender-se-ão por considerável espaço de tempo. A nova criação, no livro de Apocalipse, não surge senão depois do «milênio» do «julgamento final». Ainda temos de aprender muita coisa sobre essas questões, mas a razão informa-nos que mudanças tão gigantescas não poderão ocorrer em uma simples e isolada ocorrência.

«...habita justiça...» A grande «mudança» que será operada pela «parousia», embora venha a ser drástica e esbraseada, produzirá um bom resultado. O estabelecimento final da santidade de Deus será uma realidade. (Isso pode ser comparado aos capítulos vinte e um e vinte e dois do livro de Apocalipse, que encerram as mesmas idéias, embora de forma mais elaborada). A própria história, segundo certo ponto de vista, está mostrando aos homens que o caminho de Deus é melhor, e que, eventualmente, o divino caminho da santidade haverá de dominar a tudo. Entretanto, é mister um período de tempo excessivamente longo para convencer disso aos homens, pelo que também o processo histórico é tão prolongado. Isso não significa, entretanto, que modificações gigantescas e abruptas não possam ter lugar. O presente capítulo assegura-nos que assim ocorrerá.

Tudo isso pode ser comparado com a idéia do «domínio universal do direito», o que será instaurado pela vinda do Messias. (Ver Is 65:25 e Ap 21:27). A justiça, que agora é quase uma estranha neste mundo, finalmente obterá residência fixa na nova criação. Será estabelecida para sempre ali. Será a proprietária e a dona-de-casa, e não uma mera hóspede. Se os pagãos pensavam que isso é possível, conforme Platão acreditava, quanto mais os crentes em Jesus, que possuem nas mãos a palavra profética de Deus! «A terra inteira, que trouxe em seu seio o corpo do Senhor, será um paraíso». (Anselmo)

5. Epístolas de Paulo em apoio à doutrina da «parousia» (3:14-17)

O autor sagrado mostrara que a tradição profética do A.T. e a tradição apostólica geral favorecem a doutrina da «parousia». Agora ele passa a mencionar especificamente certas epístolas de Paulo, que ele considerava terem posição canônica. Não sabemos quantas seriam. Mas, pouco depois, pelos meados ou fim do século II D.C., cerca de dez dessas epístolas foram recebidas pela igreja cristã.

Ao levar sua epístola à conclusão, o autor exorta à manutenção da esperança sobre a parousia, o que ele vê como fator que inspira à santidade, resguardando os crentes contra o tipo de lapso moral que era tão comum no seio da heresia dos gnósticos. Paulo, ao apoiar suas idéias, certamente não ensinaria qualquer doutrina de «liberdade» que entrasse em contradição com isso. Os gnósticos, eventualmente, perverteram a «liberdade» pregada por Paulo quanto a questões indiferentes, tais como os alimentos que os cristãos têm o direito de consumir, ou como as festas religiosas a serem celebradas, etc. (Ver o décimo quarto capítulo da epístola aos Romanos e os capítulos sexto e oitavo da primeira epístola aos Coríntios). Os gnósticos tinham feito dessa «liberdade» uma mera licença para abusar do corpo com toda a forma de imoralidade.

3:14: Pelo que, amados, como estais aguardando estas coisas, procurai diligentemente que por ele sejais achados imaculados e irrepreensíveis em paz;

«...por essa razão...», isto é, devido à grande promessa acabada de mencionar, a segunda vinda de Cristo e ao estabelecimento de um eterno estado santo, um novo mundo governado pela santidade, e de que tudo quanto é terreno e meramente material será eliminado. Os crentes devem ser «zelosos» por não terem qualquer mácula ou defeito, para que vivam acima de toda e qualquer censura.

«...amados...» Esse termo fala sobre os remidos como participantes do amor de Deus, como membros da santa e divina família. Tal vocábulo também assinala, com freqüência, a transição para um novo parágrafo ou idéia, casos em que se torna um artifício literário.

«...estas cousas...», a saber, os novos céus e a nova terra, inaugurados através da «parousia», ou segundo advento de Cristo, bem como a santidade que ali haverá de dominar (ver os versículos onze a treze deste capítulo).

«...empenhai-vos...» No grego temos «spoudadzo», «apressar», mas tombem, metaforicamente, «ser zeloso», que é o uso que aqui tem o termo. Somos convocados a nos mostrarmos «intensos» no tocante às realidades do mundo eterno, aplicando as suas características agora mesmo, à vida presente, para sermos cidadãos dignos dos mundos eternos. É como se o autor sagrado tivesse escrito: «Fazei todo esforço» para mostrardes que pertenceis a uma ordem santa e superior, rejeitando as práticas condenáveis da ética dos mestres gnósticos, que são próprias de homens que, finalmente, haverão de perecer, assim que o mundo material chegar a seu fim.

«...sem mácula e irrepreensíveis...» O trecho de II Pe 2:13 mostra-nos que os hereges gnósticos tanto estavam «maculados» (com culpa e pecado), como eram «condenáveis», do ponto de vista da santidade autêntica; as mesmas palavras gregas básicas ali usadas são empregadas aqui. O autor sagrado, desse modo, conclama os seus leitores a agirem de modo oposto ao que faziam os gnósticos. Os crentes não devem caracterizar-se por «máculas morais», e nem darem razão para «condenações justas».

«...em paz...», isto é, com a devida reconciliação estabelecida com Deus (ver Cl 1:20), estando justificados e andando de modo a não quebrarem a harmonia com ele (ver Rm 5:1). Essa paz «primária» com Deus, obtida mediante o perdão dos pecados, a justificação e o andar santo, deve tornar-se a atmosfera característica da comunidade religiosa cristã, cujo resultado seja que os homens vivam em paz e harmonia uns com os outros. Isso é visto como algo impossível sem a santidade. Os gnósticos, que inauguraram uma ética estranha, tinham perturbado a paz da igreja. Pode-se comparar isso com Ef 4:3, que diz: «...esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz...» (Ver também Jo 14:27 e 16:33).

«...achados por ele...», isto é, «quando ele vier» (a concretização da «parousia»), então essas condições deverão caracterizar aos crentes. Naturalmente, o autor sagrado também dá a entender um «estado presente», na avaliação que Cristo faz das condições espirituais dos crentes e que corresponda às condições antecipadas para a «parousia». Assim sendo, são salientadas as idéias de «agora, sob os olhos de Cristo», e «quando de sua vinda», igualmente.

«...para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém, santa e sem defeito» (Ef 5:27).

3:15: e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amada irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada;

Isso lança os olhos de volta ao nono versículo deste capítulo, onde é declarado que uma das razões pelas quais a «parousia» vem sendo adiada é que seja dada bastante oportunidade para os homens se arrependerem, escapando assim ao julgamento merecido. Essa «demora», da qual os falsos mestres zombavam, na realidade, era uma gentileza misericordiosa de Deus, visando o bem deles. Não é incomum ver homens dotados de mente pervertida a amaldiçoarem aquilo que visa ao seu bem. A depravação tem um meio de corromper até mesmo o processo de raciocínio.

«...salvação...» Neste ponto, essa palavra significa as seguintes coisas:
1. Escapar do castigo;
2. participar do mundo eterno, no qual habita perfeita Santidade;
3. em II Pe 1:4 indica a participação na «natureza divina».
Nunca inclui apenas «ir para o céu quando morremos, porque nossos pecados foram perdoados». Envolve muitíssimo mais do que isso—a nossa transformação segundo a imagem de Cristo (ver Rm 8:29 e II Co 3:18), em que chegamos a participar de toda a plenitude de Deus, à semelhança do homem Jesus Cristo, que participa dessa plenitude (ver Ef 3:19 e Cl 2:10). Envolve sermos, em nosso ser essencial, aquilo que Cristo é, e também participar daquilo que ele possui (ver Jo 5:25,26; 6:57 e Rm 8:17.

«...nosso Senhor...» Isso porque ninguém pode ter a Jesus como seu Salvador se também não o tem como seu Senhor. A salvação consiste em darmos plena lealdade a Cristo como Cabeça de todas as coisas (ver Ef 1:10 e Cl 2:19). Mediante sua liderança, todas as bênçãos chegam agora até nós. Enquanto não o admitimos em sua posição legítima de Senhor absoluto, ele não nos pode dar aquilo que quer.

«...o nosso amado irmão Paulo...» O autor sagrado lançara mão do testemunho do A.T. para consubstanciar seus argumentos, juntamente com o testemunho dos apóstolos em geral (ver II Pe 3:2); e agora ele aponta para Paulo em particular. Isso se devia ao fato de que algumas das epístolas de Paulo já tinham ganho grande prestígio no seio do cristianismo primitivo, sendo bem conhecidas pelos leitores da presente epístola. Tanto para o autor sagrado, como também para seus leitores, algumas das cartas de Paulo eram consideradas «Escrituras». Portanto, temos nelas ocomeço do processo, «canonizador» das Escrituras do N.T. Mais tarde, pelos meados ou fins do segundo século da era cristã, dez epístolas paulinas (juntamente com os nossos atuais quatro evangelhos) receberam posição canônica. Essas dez epístolas eram todas aquelas que agora são atribuídas ao apóstolo dos gentios, com exceção das «epístolas pastorais» e, naturalmente, da epístola aos Hebreus. Um dos primeiros pais da igreja, Márciom, declarou-se em favor dessas dez epístolas de Paulo e de uma forma mutilada do evangelho de Lucas, como se fora o evangelho de Paulo. Isso provocou atividade similar entre os estudiosos cristãos primitivos, e assim, pelos fins do segundo século de nossa era, catorze dos livros do N.T. se tinham tornado o primeiro «cânon» neotestamentário.

O fato que o autor sagrado se escuda em Paulo está vinculado aos seguintes particulares:
1. Porque Paulo favorecia a doutrina da «parousia»;
2. porque Paulo favorecia a exigência moral do evangelho, salientada pela crença na iminente volta de Cristo;
3. porque era necessária a «paciência», na espera por esse evento tão glorioso;
4. porque a presente demora se deve  à «longanimidade de Deus», o qual espera que os homens se arrependam.
(Quanto a passagens paulinas sobre a «parousia», das quais podemos extrair esses pontos, ver os capítulos quarto e quinto da primeira epístola aos Tessalonicenses, I Co 15:51 e ss. e Rm 8:18 e ss.).

«...amado irmão...» Tal tratamento mostra o grande respeito do autor pelo nome de Paulo. Talvez isso figure aqui para deixar entendido que nenhuma desarmonia essencial havia entre Pedro e Paulo, conforme alguns pensavam que haveria. Ambos os apóstolos ensinavam a salvação pela graça divina; ambos defendiam a «parousia» e o que nela está envolvido.

«...sabedoria que lhe foi dada...» Devemos pensar aqui sobre a «sabedoria divina», através da revelação, segundo se vê em Ef 1:17,18. Mui provavelmente, o autor sagrado reivindicava, desse modo, a «inspiração divina» para as epístolas de Paulo, pelo menos para aquelas que ele conhecia pessoalmente.

Notemos a similaridade deste versículo com o que diz Policarpo em sua epístola aos Filipenses (3:2): «Nem eu e nem qualquer outro como eu podem igualar-se, em sabedoria, ao bendito e glorioso Paulo... o qual vos escreveu epístolas, e mediante as quais, se lhes derdes atenção diligente, podereis ser edificados na fé». Policarpo (falecido em 155 D.C.?) reflete assim a mesma atitude para com as epístolas de Paulo que o faz o autor sagrado; Policarpo e o autor desta epístola, mui provavelmente, sejam contemporâneos.

3:16: como faz também em todas os suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, nas quais há pontos difíceis de entender, que os incultos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição.

«...acerca destes assuntos...» Quais? Temas como a «parousia», as exigências morais do evangelho, a sua influência purificadora, a demora de Deus, esperando pelo arrependimento dos homens, a volta iminente de Cristo, aquilo que é exposto no terceiro capítulo da presente epístola. A tradição profética do A.T., os ensinamentos dos apóstolos e agora, os ensinamentos de Paulo, em particular, são tidos como elementos consubstanciadores da doutrina geral ensinada por esta epístola, em contradistinção às perversões dos falsos mestres, os hereges gnósticos.

«...em todas as suas epístolas...» Não sabemos quantas cartas paulinas foram aceitas como «escrituras» quando este versículo foi escrito. Bem provavelmente, durante a própria vida de Paulo, algumas das suas cartas formaram a base docomeço do cânon do N.T. Alguns intérpretes acham que o «cânon» aqui é aquele do segundo século, datando II Pe, portanto, tardiamente, fora da era apostólica. Paulo deixou bem claro que as suas idéias teológicas resultaram de visões e revelações. Muitos crentes do tempo de Paulo, portanto, que levaram seriamente estas declarações, teriam tido um grande respeito pelas cartas de Paulo, e logo, teriam atribuído uma posição a elas igual àquela das escrituras do V.T. O cânon Muratoriano (de cerca de 190 D.C.) continha 10 epístolas de Paulo (a nossa coletânea, menos Hb e as cartas pastorais). É dito neste documento que eram «santificadas e honradas pela Igreja Católica».

«...certas cousas difíceis de entender...» O autor sagrado admite aqui que os escritos de Paulo incorporam coisas difíceis. Mas nenhum indício é dado sobre quais seriam essas dificuldades. Provavelmente, o autor sagrado só menciona esse aspecto a fim de enfatizar, ainda mais, que embora certos pontos das epístolas paulinas fossem difíceis de compreender, quanto aos pontos essenciais—como a moralidade correta e a validade da esperança sobre a «parousia», contudo, tais ensinamentos deveriam ser acolhidos com alegria. A despeito do fato de que certos pontos são difíceis de entender, admitindo certa variedade de interpretações, isso, porém, não significava que podiam ser manuseados de modo a enganar a outros, com a distorção de seus ensinamentos claros, a fim de que ensinassem algo inteiramente diferente.

«...ignorantes e instáveis...» Isso aponta para os falsos mestres e seus discípulos. Os falsos mestres, na realidade, «ignoravam» as verdades espirituais; e tinham convencido a certos indivíduos «instáveis» a seguirem-nos em suas idéias absurdas. Isso pode ser comparado com II Pe 2:14, onde também há a mesma idéia. Eles é que tinham abandonado o «reto caminho», tendo preferido seguir doutrinas espúrias, como o fizera Balaão no passado (ver II Pe2:15,16), que fora repreendido por uma muda besta de carga. Os mestres gnósticos eram «heréticos» que atraíam vítimas, para aceitarem suas doutrinas perniciosas (ver II Pe 2:10-22).

«...ignorantes...» No grego é «amathes», que literalmente significa «sem erudição». «Mathtes» é «aprendiz», «discípulo». Os gnósticos não eram «aprendizes» (portanto, não eram «discípulos» autênticos de Cristo). Antes, eram «ignorantes» acerca da doutrina cristã, tendo-a substituído por ensinamentos espúrios. Nossa palavra moderna, «matemática», vem da raiz desse termo grego; a matemática é um ramo da «erudição».

«...instáveis...» No grego é «asteriktos», «fraco», «instável». É a forma privativa de «steridzo», «firmar», «estabelecer», «fixar». Tais indivíduos nunca se tinham mostrado firmemente fundados na verdade cristã, pelo que facilmente tinham sido arrastados para o erro dos gnósticos. Essa palavra é usada em II Pe 2:14 para indicar os discípulos dos falsos mestres. Neste caso, parece indicar tanto os mestres heréticos como seus discípulos. (Comparar com Tg 1:6, onde tais indivíduos são comparados a «ondas» do mar, devido ao fato de terem fé instável).

«...deturpam...» No grego é «strebloo», «torturar», «distorcer», «torcer». Isso significa que faziam as epístolas de Paulo dizer algo que ele nunca quis dizer, ignorando aspectos que ali não são ignorados. Em outras palavras, as epístolas de Paulo eram forçadas a servir à heresia gnóstica, o que é uma desgraça. Os mestres gnósticos pervertiam a doutrina paulina da «liberdade cristã», transformando-a em licença para a devassidão. Negavam ou modificavam totalmente o ensinamento paulino sobre a «parousia», eliminavam a exigência moral do evangelho. E faziam com que Paulo tivesse ensinado tão deturpadas doutrinas.

«...as demais Escrituras...» Isso aponta para o A.T. A grande maioria dos mestres gnósticos negava totalmente a veracidade do A.T. Márciom procurou eliminar do cristianismo toda e qualquer forma do judaísmo; e, nesse processo, descobriu ser mister negar a validade do A.T. como revelação da parte de Deus. Evidentemente, várias formas de gnosticismo tentavam usar trechos do A.T. em favor de suas idéias, assim «torcendo» aqueles documentos em seu próprio favor. O autor sagrado, mediante essa expressão, classifica definidamente algumas das epístolas de Paulo como «Escrituras», o que subentende o início da formação do «cânon» do N.T.

«...para a própria destruição deles...» Tal desonestidade, que ousava até mesmo perverter trechos bíblicos, não pode deixar de ser julgada pelo Senhor. Comparar com II Pe 2:1,3-7,9,12,14 e 3:7,9 onde é prometida a destruição (a ira e o juízo divinos) para os falsos mestres e seus discípulos.

As palavras «...as demais Escrituras...», que temos neste versículo, têm sido interpretadas por alguns estudiosos como «até mesmo as Escrituras», procurando assim eliminar a idéia que os escritos de Paulo são chamados aqui de «Escrituras». Mas isso não é visto com bons olhos pela maioria dos intérpretes.

3:17: Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que pelo engano dos homens perversos sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza;

«...amados...» (Ver as notas expositivas sobre tal tratamento dos crentes, no décimo quarto versículo deste capítulo). O autor sagrado tinha confiança de que, embora o perigo fosse grande, e embora os mestres gnósticos já exercessem grande influência sobre a igreja da Ásia Menor, a grande maioria da igreja não seria arrastada por tal erro. Portanto, não hesitou em Chamar seus leitores de «amados», como membros que eram da família divina, amados diretamente pelo Senhor Deus.

«...prevenidos... de antemão...» Do quê? Da natureza dos falsos ensinamentos dos gnósticos, e de como isso contradizia tanto os ensinamentos do Antigo, como os do Novo Testamento, incluindo, particularmente, os escritos do apóstolo Paulo. E também, de como tais falsos ensinamentos levam à condenação. O autor sagrado encoraja aqui os seus leitores a permitirem que os falsos mestres caíssem sozinhos na perdição.

«...acautelai-vos...» No grego é «phulasso», «guardar», «proteger», «vigiar». Aqueles crentes precisavam «proteger-se» contra o erro, agora que tinham sido tão claramente avisados a respeito. De outro modo, seriam como Balaão, arrastados para o caminho errado, necessitados de algum jumento mudo que os advertisse. O autor sagrado, antes disso, já os tinha exortado a agirem de acordo com tal entendimento (ver II Pe 1:20), tendo despertado a mente sincera deles com um «lembrete» (ver II Pe 3:1).

«...arrastados pelo erro desses insubordinados...» No grego é «sunapago», «levado embora». Essa palavra foi usada por Paulo, acerca de Barnabé, quando ele passou para o lado de Pedro, em Antioquia. «...ao ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles...» (Gl 2:13). O abutre «agarra» a sua presa; um animal feroz e «leva embora»; e a palavra inicial desta porção bíblica tem exatamente esse sentido. Os falsos mestres eram animais predatórios, atrás de vítimas. Assim também o demoníaco era «apanhado» por um espírito imundo (ver Lc 8:29—onde é usado o mesmo termo deste versículo). O navio de Paulo foi «apanhado» pelo vento e lançado ao redor (ver At 27:15, onde também é usado o mesmo vocábulo).

«...erro...» No grego, «plane», «engano», «ludibrio».

«...insubordinados...» No grego, «athesmos», «sem princípio». Os falsos profetas não se conduziam por qualquer guia orientador. Andavam desorientados. O mesmo vocábulo é usado para indicá-los, em II Pe 2:7. Em II Pe 2:8 também são chamados «iníquos», e onde é usado o vocábulo grego «anomos».

«...descaiais...» No grego é «ekpipto», «cair fora de». O autor considerava possível a queda da fé. A apostasia lhe parecia possível. Ele não deixou esta advertência devido a nenhum motivo, apenas para «assustar» a seus ouvintes.

«...vossa própria firmeza...», isto é, a posição firme deles no evangelho da verdade, e no qual tinham recebido a certeza da salvação. (Ver também II Pe 1:12, onde é usada a mesma palavra). Aqueles crentes, até então, eram «constantes» na verdade; mas o erro gnóstico ameaçava tirá-los de seu «alicerce». Talvez haja a intenção de ser usada a metáfora da «edificação». (Comparar com I Pe 2:4,5 quanto à metáfora da «edificação espiritual». Comparar este versículo com Jd 24, de cujo trecho provavelmente foi tomado por empréstimo).

«A perda da estabilidade começa no ceticismo a respeito da 'verdade que tendes' e termina por transformar-se em licenciosidade». (Barnett, in loc).

«O estado de graça é a fortaleza. Ali o próprio Deus é o fortim e o castelo; Cristo é a rocha sobre a qual somos edificados; ali somos certificados do privilégio de que tudo coopera juntamente para nosso bem, de nós que amamos a Deus; ali somos guardados para a salvação, mediante o poder de Deus. Um crente cai daí, de sua própria fortaleza, quando perde a graça, negligenciando a vigilância e a oração, não dando mais ouvidos à Palavra de Deus, cedendo gradualmente à comissão de pecados intencionais, os quais, mediante algum dogma bem sazonado, ou apenas mediante algum juízo apressado, ele considera erroneamente como algo bem diferente e em conseqüência, se desculpa e até se justifica». (Roos, in loc).

6.     Conclusão e Bênção (3:18).

3:18: antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a gloria, assim agora, como até o dia da eternidade.

A melhor maneira de evitarmos a queda é através do crescimento cristão positivo. Cumpre-nos crescer na «graça», isto é, na provisão terna, e isso é obtido através da nossa transformação segundo a imagem de Cristo, o que é produzido pelo poder do Espírito Santo (ver II Co 3:18 e Gl 5:22,23). Submetemo-nos a esse processo gracioso empregando os meios espirituais a nosso dispor, como o estudo das Escrituras, a oração, a prática de boas obras, cumprindo a lei do amor, a busca pelo Espírito e pelos seus dons espirituais e ministeriais.

«...conhecimento...» Essa palavra não indica apenas o melhoramento de um maior número de proposições teológicas aprimoradas. Antes, esse «conhecimento» é de natureza mística e experimental. 1. Consiste de nosso «vir a conhecer a Cristo», segundo diz Paulo em Fp 3:10. 2. Trata-se do conhecimento dado pela iluminação do Espírito (ver Ef 1:17). Esta segunda epístola de Pedro tem início com a ênfase sobre o «conhecimento» de Cristo como nosso Salvador e Senhor. E agora, no encerramento, o autor sagrado retorna a esse tema inicial. O «conhecimento» exposto pelo autor sagrado faz contraste com o «conhecimento» falsamente místico e mágico do sistema gnóstico, que consistia mais de ritos e cerimônias.

«...Senhor e Salvador Jesus Cristo...» Cristo é «Senhor», pois ninguém pode tê-lo como seu Salvador, se também não o tem como seu Senhor. Os mestres gnósticos tinham chegado a negar o senhorio de Cristo, porquanto faziam dele apenas um senhor entre muitos, pois o reputavam apenas um dos muitíssimos «aeons» ou manifestações angelicais de Deus. Jesus Cristo também é o Salvador, porque nos salva da ira e da perdição, conduzindo-nos à vida eterna, ao estado de bem-estar espiritual constante.

«...a ele seja a glória...» Consideremos os pontos seguintes: 1. Está em foco a glória que nossas palavras podem dar a Cristo nossos louvores. 2. Também está em pauta a glória que nossas vidas podem dar a Cristo. Cristo é exaltado como Senhor não apenas por nossas palavras, mas também através de nossa reta conduta cristã.

«...tanto agora como no dia eterno...» No presente nós exaltamos a Cristo, como ele merece, mediante nossa posição doutrinária, mediante os louvores de nossos lábios e mediante a santidade de nossas vidas, em contraste com as degradações dos gnósticos.

«...no dia eterno...» Essa expressão se encontra somente aqui em todo o N.T. Cristo será sempre o grande objetivo de nossa «vida», pois ele é «tudo para todos» (ver Ef 1:23). No grego, temos aqui uma das fórmulas que significam «eternidade», porquanto haverá um dia contínuo e interminável, um período de luz divina e bem-estar. A eternidade é aqui encarada como um dia eterno, no qual nunca chega a noite. Usualmente, nas páginas do N.T., a eternidade é retratada como uma interminável sucessão de eras.

«Trata-se apenas de um dia, mas de um dia eterno, sem ontem que o anteceda e sem amanhã que o siga; não será produzido pelo sol natural, que então não mais existirá, e, sim, por Cristo, o Sol da Justiça». (Agostinho).

Isso equivale, pelo menos em certo sentido, ao «dia do Senhor» (ver o décimo versículo deste capítulo), e ao «dia de Deus» (ver o décimo segundo versículo deste capítulo), embora isso não envolva a idéia negativa de julgamento. Antes, temos aqui o dia do bem eterno, que Deus inaugurará.

«Cristo é central e crucial; Cristo compartilha da glória do Deus eterno; Cristo haverá de ser glorificado então; Cristo é a glória daquele dia eterno, que envolverá e cumprirá todos os nossos dias». (Homrighausen, in loc).

« A eternidade é um inalterável, interminável, sem nuvens e imutável DIA!» (Adam Clarke, in loc).



Bibliografia R. N. Champlin,enciclopédia de teologia e filosofia,2010

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