domingo, 13 de julho de 2014

ETICA CRISTÃ N.3



Tiago, o defensor da ética cristã 

"Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma". Tg 1.21 
A nova vida em Cristo requer o abandono de toda impureza moral.
Saber que Tiago era um genuíno cristão, porque sua vida foi uma demonstração da verdade; 
Conscientizar-se de que a Palavra de Deus precisa tornar-se parte da nossa própria natureza; 
Compreender que a santificação não surge através do uso de métodos mundanos, mas da aceitação dos princípios cristãos. 

Tg 1.1 - Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações;
Tg 1.22 - Tornai-vos, pois, praticantes da palavra   e   não   somente   ouvintes, enganando-vos a vós mesmos;
Tg 1.23 - Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural;
Tg 1.24 - Pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência;
Tg 1.25 - Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita,  lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar.

1:1: Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saúde.

«Tiago...» A maioria dos intérpretes mais antigos identifica-o com Tiago, irmão do Senhor, embora alguns o façam com Tiago, filho de Zebedeu, e outros com o filho de Alfeu. Ainda outros, identificam-no com um Tiago desconhecido. Todavia, segundo outros, a epístola é uma pseudepígrafe, talvez escrita no nome de Tiago, irmão do Senhor, por parte de algum crente desconhecido. Essa prática era comum naquela época. Evidente­mente, a epístola era desconhecida na igreja até aos meados do século III D.C., quando Orígenes primeiramente a utilizou O nome «Tiago» é o mesmo nome «Jacó», isto é, ambos se derivam do mesmo nome hebraico.

Tiago, irmão do Senhor, bispo de Jerusalém, (pessoalmente, ou através de um discípulo), certamente alguém que se inclinava para o cristianismo legalista, (ver Atos 21:18 e ss. e Gl 2:12 ss), é aquele que fala para nós através dessas páginas; e é bem provável que aquilo que ali se lê seja fiel representação de suas crenças. Já que não existe nenhuma identificação de quem seria esse «Tiago», devemos supor que está em foco algum Tiago bem conhecido, e o irmão do Senhor é a escolha mais provável.

«... servo de Deus...» Isso subentende total dedicação a Deus e a Cristo, pois o original grego diz aqui, «escravo». Os leitores antigos, sendo assim lembrados do antigo sistema escravista, instantaneamente perceberiam o que o autor sagrado indica. O escravo não tem vida própria; não tem direitos; não passa de propriedade alheia, sendo pouco mais que um animal irracional. A vontade de seu senhor é a sua vontade; e, se não obedecesse, poderia ser morto sem direito de defesa e sem poder apelar para qualquer autoridade. Portanto, a vontade do escravo se mescla com a do seu senhor, unindo-se à dele. Esse é um vivido quadro de dedicação religiosa e espiritual a Deus e a seu Filho. Paulo usou esse termo com freqüência. Aqueles que aceitam a idéia que Tiago, o irmão do Senhor, escreveu a epístola, vêem nesse termo, «escravo», um sinal de humildade de sua parte, por não se identificar com o grande Jesus. Seja como for, o termo indica humildade e sujeição, sem importar qual o Tiago em foco.

A expressão «servo de Deus» é comumente usada no A.T. e nos escritos rabínicos. Portanto, teríamos aqui o equivalente a Jacó, escravo de Deus, porquanto «Jacó e Tiago» se derivam do mesmo nome hebraico. Alguns intérpretes têm pensado que o livro original de que estamos falando é, realmente, uma «carta de Jacó», e que um editor cristão posterior se aproveitou dessa obra judaica, e adicionando-lhe alguns poucos toques, como se vê aqui e em Tg 2:1 (onde é acrescentado o nome de Cristo), e também em Tg 5:7, aludindo à «parousia» ou segunda vinda de Cristo, fez dela um documento cristão. A conclusão apresentada pelo presente comentário é que apesar da epístola talvez terfeito empréstimos substanciais de um ou mais escritos judaicos, desde o começo tinha por fito ser um folheto ou panfleto cristão. O âmago da epístola fica em Tg 2:14 e ss., que versa sobre um exame claro sobre a controvérsia entre a «graça» e as «obras», na igreja primitiva, uma disputa que nunca houve no judaísmo. Portanto, o livro tem de ser tanto cristão como pós-paulino.

«...do Senhor Jesus Cristo...» Jesus não é Salvador de quem não é Senhor, porquanto a fé exige outorga da alma a ele, e, de fato, consiste disso. Se o livro original era pré-cristão (judaico), então esse título foi interpolado neste ponto pelo seu editor cristão; porém, apesar dessa teoria ser atrativa, fica muito aquém de uma clara demonstração.

«.. .às doze tribos...» (Comparar com Mt 19:28; At 26:7 e Ap 7:4-8). De acordo com a fraseologia judaica, a expressão «doze tribos» falava sobre «todo o Israel», sem importar se doze tribos distintas podiam ser localizadas. (Comparar com Ap 7:4-8). Porém, essa expressão, quando usada por um crente, tem sentido incerto. Alguns dos intérpretes pensam que se refere aos «judeus crentes»; mas há outros que opinam que alude ao «Israel espiritual», isto é, à igreja cristã, sem que se faça qualquer distinção entre judeus e gentios. (Ver Rm 9:6 e Gl 6:6 quanto ao uso desse termo, para indicar crentes de quaisquer raças). Não há maneira certa de resolver o que o autor sagrado quis dizer. Seja como for, a epístola é «católica», porquanto foi escrita a um grupo muito amplo de igrejas, e não para alguma comunidade isolada, para uma igreja local ou para um indivíduo.

«...Dispersão...» De acordo com a terminologia judaica, essa era uma palavra usada para indicar todos os judeus vivos então, como se estivessem «dispersos», fora da Palestina, sua verdadeira pátria, e cujo idioma, por isso mesmo, era o grego, e não o aramaico  Se este tratado foi originalmente enviado a crentes judeus, então tal expressão seria natural, embora fosse apropriada para todos os crentes, judeus ou gentios. Pois os crentes são pintados como peregrinos e errantes sobre a terra (ver Hb 11:9, 14-16), distantes de sua pátria, que é o céu, tal e qual sucedia aos judeus afastados da Palestina, que estavam verdadeiramente «dispersos» por terras estrangeiras. (Ver os trechos de Dt 30:3; Ne 1:9 e Jo 7:35.

Os judeus sofreram várias dispersões. Houve as dispersões assíria, babilônia e aquela sob a dominação romana, quando da destruição de Jerusalém, no ano 70 D.C., e alguns anos mais tarde, quando houve uma destruição ainda mais completa, sob Hadriano, em 132 D.C. Hadriano ordenou que nenhum judeu tinha permissão de retornar a Jerusalém, e isso permaneceu de pé até à época de Constantino (começo do século IV D.C), tendo a cidade sido transformada em um santuário cristão.

A reunião das doze tribos, na sua terra natal, era uma acariciada esperança judaica; assim também, a reunião nos céus é a esperança cristã distintiva. A «dispersão» judaica por outras nações começou tão cedo quanto o século IXA.C. Por conseguinte, a dispersão era fenômeno de longa data. Os cristãos também desde há muito estão longe de sua pátria celeste. A graça de Deus, finalmente, os reunirá, em um grande corpo de seres celestiais, que haverão de compartilhar da própria imagem de Cristo (ver Rm 8:29). Em muitos casos, a dispersão indicava escravidão para homens maus, perda da liberdade e condições de insegurança na vida. Assim também a vida terrena do crente pode estar repleta de condições e experiências negativas. Essas condições ensinam-nos a desejar anelantemente por nossa pátria celeste, por nossa transformação segundo a imagem de Cristo, pois nisso reconhecemos que no mundo estamos «fora de lugar», em uma esfera física. O homem é um espírito, e, em última instância, haverá de habitar nas regiões celestes. O novo Israel tem uma metrópole celestial (ver Gl 4:26), bem como uma cidadania celestial (ver Fp 3:20), e os crentes, no presente, são peregrinos em exílio (ver I Pd 1:1; 2:11 e João 17:14-18; ver também Hb 13:13,14, que mostra que nossa disposição ao exílio é em imitação a Jesus, que «sofreu fora do acampamento»). Filo (de Cherub.,34) apresenta os homens como peregrinos e forasteiros na terra, e Hermas Sim. i se assemelha ao que diz Pedro, quanto ao teor.

«...saudações...» No grego é «cheirem», literalmente, «regozijar-se!», uma antiga e comum saudação. Tem sido preservada em incontáveis cartas escritas em papiro. Tal saudação era comum entre os judeus de língua grega (ver Et16:1; I Ed 6:7; I Macabeus 10:25; 12:6; II Macabeus 1:1,10). Note-se, nisso, a ausência da influência paulina, na saudação; a declaração introdutória não tem paralelo em toda a literatura. A designação do autor como «escravo», tanto de Deus como do Senhor Jesus Cristo, se acha exclusivamente aqui, em todo o N.T. Em Tg 2:1 e 5:14, Cristo também aparece como o Senhor; noutros trechos, num total de onze ocorrências, Deus é quem é chamado «Senhor». (Ver também Tg 5:7,8).
A Prática Adicionada ao Ouvir (1:22-25).

A breve secção que ora se inicia salienta uma verdade religiosa e espiritual com a qual todos concordamos, mas que nem sempre praticamos. Freqüentar aos cultos da igreja não basta; não é virtude ouvir lições e sermões, como se isso fosse um medicamento espiritual; nossa presença nos cultos, se formos ali somente para tal atividade, não impressiona a Deus. Somos obrigados, devido à nossa posição como crente, de pormos em prática aquilo que ouvimos. Aquele que ouve mas não pratica, e ainda pensa que é um crente, perdeu-se no seu autoludíbrio. Se vemos em um espelho uma imagem da qual não gostamos, mas nada fazemos para melhorá-la, aquela aparência má permanecerá. Portanto, se na alma fica demonstrado haver um defeito, precisando ela do cultivo de algo positivo, pela prática, mas o indivíduo fica impassível, certamente teremos de imaginar uma alma indolente e corrupta. Outrossim, a simples «convicção de pecado», o reconhecimento de nosso estado, não tem real e duradoura significação, a menos que seja seguido pelo arrependimento autêntico. De nada adianta alguém ouvir falar sobre o amor, sobre como Deus amou ao mundo, sobre como Cristo deu a sua vida, a menos que esse amor opere através de nós para benefício de outros. A bem-aventurança espiritual pela qual lutamos, a aprovação de Deus, bem como a consciência de uma inquirição espiritual bem feita, só são dadas para aqueles que são praticantes da doutrina cristã, e não somente ouvintes.

Não são muitas as pessoas na igreja cristã, ou mesmo no mundo, que são ateus teóricos: em outras palavras, não são muitos os que negam a existência de Deus. Mas a maioria das pessoas, visto que vive com base em motivos egoístas, se compõe de «ateus práticos». Em outras palavras, vivem como se Deus não existisse: não há espaço para Deus em suas vidas; e o fato que Deus existe não faz qualquer diferença prática em suas vidas. A igreja cristã conta com muitos teístas teóricos que, na realidade, são ateus práticos. Esses são os que ouvem a Palavra, mas não põem em prática aquilo que ouvem; aprovam sermões e lições, a leitura bíblica e as orações, mas agem com base em motivos egoístas, não estando verdadeiramente motivados por viver segundo os moldes da dimensão eterna. Quando argumentam, defendem veementemente a inspiração das Escrituras; mas, em suas vidas diárias, praticam muitas coisas que demonstram que não consideram a sério a Bíblia, a Palavra de Deus. Talvez até cheguem a denunciar heréticos, que se desviam daquilo que pensam ser a doutrina ortodoxa; mas, em suas vidas, são hereges práticos, discordando dos ensinamentos da fé que defendem. Defendem verbalmente ao cristianismo, mas não provam a verdade de suas doutrinas, mediante a vida prática diária. Acreditam na graça divina, mas agem como se esta fosse base para a doutrina da «crença fácil», segundo a qual idéia ao homem é dada passagem livre para os céus, sem a necessidade de real conversão e de transformação moral segundo a imagem de Cristo. O que torna tão vital essa questão é que há um grande número de tais pessoas; e, infelizmente, a pregação superficial na igreja, que não exige moralidade, e nem desafio espiritual para a transformação segundo a imagem e a natureza de Cristo, tem promovido o culto dos «ouvintes que não são praticantes» da Palavra.

1:22: E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando vos a vós mesmos.

«...pois...» Esse termo vincula este versículo com o que é dito anteriormente: se tivermos de pôr de lado, como roupa suja, a imundícia e a excrescência da iniqüidade, recebendo com mansidão a Palavra implantada, que nos revolucionará, levando-nos assim à salvação, precisamos ser mais do que meros ouvintes da Palavra. Devemos praticar os preceitos de nossa fé, provando que se trata de um elemento transformador. De outra maneira, estaremos dando provas positivas de que a Palavra de Deus foi implantada em nós apenas supostamente, porquanto não nos está transformando moralmente.

«...praticantes da palavra...» Essa expressão é usada somente por Tiago, em todo o N.T., embora a idéia seja bastante comum, expressa de muitos modos diversos. (Ver Ez 33:32 e Mt 7:24, que são as duas ocorrências principais). Ouvir e praticar edifica na pessoa um firme alicerce, que não pode ser abalado; porque se trata, realmente, do Espírito em nós, criando a imagem e a natureza de Cristo. Assim, todas as virtudes que possuímos, que podemos expressar para outros, são fruto do Espírito (ver Gl 5:22,23). Parece, pois, que o segredo da «prática» e do «ser» aquilo que professamos, se acha na busca e na submissão ao Espírito, incluindo-se nisso o uso dos dons espirituais, mediante os quais a igreja será levada à maturidade e à perfeição (ver Ef 4:7-16). Ninguém pode ser «praticante» bem-sucedido da palavra a menos que, primeiramente, seja algo em Cristo; e a pessoa se «torna em algo» através do poder residente e transformador do Espírito Santo.

O Talmude reconhece esse princípio. «Todos os meus dias tenho passado entre os sábios, e não tenho encontrado melhor coisa para o homem que o silêncio; não o aprender, mas o fazer, é a base; e quem multiplica suas palavras ocasiona o pecado». (Pirke, Aboth, i. 16; i. 18; Rabino Simeon ben Gamaliel I). (Todo aquele cujas obras excedem sua sabedoria, tem uma sabedoria firme, e todo aquele cuja sabedoria excede às suas obras, não tem uma sabedoria firme). (Rabino Chananiah bem Dosa) ver declarações similares em Filo, De Praem et Paenis , 14; e Sêneca,Ep., 108.35).

A expressão «praticantes da palavra» significa «pôr em prática o que lhes é ordenado», mostrando que tais pessoas são sensíveis para com a Palavra de Deus, devendo ser transformadas por ela, tanto em seu ser como em suas ações. A piedosa anuência aos ensinamentos de Jesus, seguida por ações contraditórias, é um simulacro da vida cristã, algo que os profetas condenaram sem reservas. (Ver Os 6:6 e Mt 9:13).

Conforme o ponto de vista judaico, o praticante da palavra era praticante da lei. Conforme o ponto de vista cristão, a Palavra se tornou o «evangelho». O evangelho exige fé, ou seja, temos de entregar nossas almas aos cuidados de Cristo, a fim de sermos transformados segundo a sua imagem. Essa transformação dá início ao ser moral, pois deveremos assumir a natureza moral de Cristo, e, desse modo, chegaremos a participar da mesma santidade que Deus tem. Esse conceito é anotado em Mt 5:48; Rm 3:21 e Hb 12:14. Tudo isso está envolvido na «prática da palavra», o que faz a mensagem cristã tornar-se eficaz em nossas vidas. Segundo se lê em Lc 11:28, «Antes bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!»

Faremos e ouviremos. Está escrito (em Shabbath, 88a) que quando 'faremos' antes do 'ouviremos', virão sessenta miríades de anuos ministrantes, conferindo a cada israelita uma coroa, uma correspondente ao 'faremos', e outra ao 'ouviremos'; e quando pecarem, descerão cento e vinte miríades de anjos destruidores, para lhes arrancar as coroas».

«...ouvintes...» Temos aqui uma alusão à prática da leitura das Escrituras, na sinagoga, mais tarde praticada também na igreja cristã. Poucas pessoas possuíam cópias manuscritas, e menor número ainda sabia ler. Quase todo o «aprendizado da Bíblia» era efetuado pelo ouvir a leitura das Escrituras. Hoje em dia, quase todos sabem ler, podendo fazê-lo durante a semana, e não apenas em dias de culto. Por isso mesmo, nossa responsabilidade aumentou extraordinariamente. Os judeus tomavam sua Torah (as Escrituras do A.T. e seus comentários) a sério. Criam que Deus lhes fizera tal revelação, tornando-os privilegiados acima de outros povos. Portanto, a leitura da Torah, na sinagoga, era uma prática solene, que se esperava servir de fator transformador das vidas dos ouvintes. O próprio Senhor Jesus se ocupou dessa prática, na sinagoga. (Ver Mt 5:17,18; 7:12; 12:5; 19:17; 23:3; Lc 4:21; 10:26 e 16:17,29). Cristo sempre mostrou ter as Escrituras Sagradas no mais alto conceito.

«Porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados» (At 15:21).

«...enganando-vos a vós mesmos...» Isso fariam, supondo que Deus se agrada da pessoa que conhece profundamente as Escrituras, mas não as aplica à sua vida diária; supondo que o ouvir é bastante; supondo que a aceitação de um credo obriga Deus a salvar a alma; supondo que a fé salvadora consiste em aceitar alguma doutrina ortodoxa, mas sem reconhecer que a fé verdadeira é mística, e não racional ou credal. Em outras palavras, o Espírito Santo, que entra em contacto genuíno conosco, transforma as nossas vidas, e não meramente nos expõe doutrinas em que devemos crer. Assim sendo, o indivíduo colhe aquilo que tiver semeado, e isso determinará o seu estado eterno.(Ver Gl 6:7,8, onde somos avisados que não nos devemos enganar a nós mesmos).

Aquele que ouve mas não pratica, assim age porque está cheio de si mesmo, e desconhece o que é a dedicação a Cristo e qual é seu poder residente. O homem que pensa que pode haver substituição para a prática da Palavra, «engana» a si próprio com uma idéia falsa; e, assim, só prejudica espiritualmente a si mesmo.

«A religiosidade não consiste no conhecimento e na crença, nem mesmo em verdades fundamentais, e, sim, em sermos levados a certa atitude e conduta». (Bispo Butler).

1:23: Pois se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante a um homem que contempla no espelho o seu rosto natural;

«...ouvinte da palavra e não praticante...» (Ver as idéias do versículo anterior, anotadas acima).

«...contempla num espelho o seu rosto natural...» Não parece haver aqui, diferentemente do que alguns estudiosos têm sugerido, a idéia de usar o gênero masculino («aner», varão, em contraste com mulher) porque, tradicionalmente, um homem olha-se rapidamente em um espelho, para ver se tudo está em ordem, ao passo que uma mulher passa ali muito tempo, garantindo a aparência que deseja. Contudo, isso serve de boa ilustração. O ouvinte que também não é praticante, se parece com o homem que dá uma mirada rápida em um espelho, mas não dá grande importância a isso. Porém, o mais provável é que o gênero masculino foi usado para incluir qualquer ser humano.

«...contempla...» No grego é usado o verbo «katnoeo», que freqüentemen­te significa «olhar atentamente», «contemplar». Porém, tal verbo era usado acerca de qualquer tipo de olhar, sem especificar se era apressado ou não; e é nesse sentido «neutro» que o verbo foi mais provavelmente usado neste texto. O homem veio ver se havia algum «defeito» em sua aparência. Dá uma mirada no espelho. E ele vê ou não vê algum defeito; mas, seja como for, não se deixa envolver pelo que viu, e não toma nenhuma medida corretiva para melhorar-se. Sua atitude é inteiramente casual e descuidada. Assim também sucede na vida espiritual. Há muitos ouvintes descuidados, que miram ao acaso o espelho da alma, que é a Bíblia, o Livro de Deus.

«...espelho...» Os espelhos metálicos da Antigüidade, que eram feitos de metal polido, não refletiam tão perfeitamente a imagem como os espelhos modernos, embora dessem uma boa idéia da aparência, conforme pode afirmar todo o que, hoje em dia, olha para a prata polida. O espelho de Deus reflete para nós a imagem do Filho de Deus, e com essa imagem é que estamos sendo amoldados. Portanto, é para detrimento da alma que o homem dá uma rápida mirada em sua imagem, sem fazer qualquer tentativa de melhorar-se espiritualmente.

Os espelhos: Durante os tempos do A.T., os espelhos eram fabricados de metal, modelado e altamente polido (ver  37:18). A arqueologia tem recuperado exemplares de bronze que datam da Idade de Bronze Média na Palestina (2900 a 1100 A.C.). As mulheres hebréias, ao deixarem o exílio egípcio, trouxeram consigo espelhos, normalmente feito de metais mistos, mas, principalmente, de cobre, e entalhados com notável habilidade. Tinham cabos de madeira, de pedra ou de metal, com freqüência contando com mui ornadas figuras de mulheres, flores, e, algumas vezes, animais e monstros míticos. Feitos de metal, esses espelhos corriam sempre o perigo de serem arranhados ou de enferrujarem, e requeriam polimento constante. (Ver Sabedoria de Salomão 7:26; Eclesiástico 12:11). Esse polimento era feito compedra-pomes, e então com uma esponja. O trecho de I Co 13:12 indica que o reflexo obtido deixava algo a desejar. Os espelhos de vidro, entretanto, foram descobertos tão cedo como o primeiro século D.C.

Em   um   espelho,   uma   pessoa   vê   seu   rosto   natural, o que metaforicamente, indica sua verdadeira condição espiritual. Ao mesmo tempo, isso entra em contraste com a condição «espiritual ideal», conforme é contemplada em Cristo e em seu evangelho, através das páginas das Escrituras Sagradas. Ao ver alguém a Cristo, vê o caráter eterno que deverá vir a possuir. (Ver II Co 3:18). O versículo presente mostra-nos que a contemplação repetida e constante da pessoa de Cristo, como que em um espelho, produz a nossa transformação e espiritualização, para que cheguemos a compartilhar de sua imagem. A contemplação da imagem de Cristo, pois, não pode ser algo feito em vão, contanto que com honestidade.

1:24: porque se contempla a si mesmo e vai-se, e logo se esquece de como era.

Os verbos gregos, aqui traduzidos por «contempla» e «esquece» estão no tempo aoristo. É o chamado «aoristo gnômico», usado em provérbios, etc, e que em português deve ser traduzido no tempo presente. Porém, «se retira», está no perfeito, no original grego, denotando uma ação que produz resultados duradouros: «...ele se retira e não retorna» (Poteat, in loc). O aoristo gnômico era usado para dar um tom vivido à narrativa: «...ele contemplou e se esqueceu...» A própria palavra indica algo «sábio e espirituoso», como as máximas que dizem muito com poucas palavras. Esse aoristo gnômico é mais uma forma de narração popular do que mesmo uma nuance literária, embora nosso autor demonstre muito conhecimento das habilidades retóricas no grego.

Metaforicamente, a ilustração fala sobre o tipo de homem que trata a religião cristã como um dever social, como uma curiosidade ou obrigação, mas que não é uma pessoa espiritualmente séria. Crê em um credo, e pouco mais.Engana a si mesmo, pensando que isso lhe basta; e, que, de algum modo, Deus se agrada dessa «crença» estéril, infrutífera. A mensagem inteira do N.T. é contrária a essa suposição.

O homem que se viu no espelho esquece-se do que vira, ignorando o ideal do desenvolvimento espiritual; mas não fica justificado, somente por ter alguma forma de religiosidade. Ele tem a forma, mas não o poder (ver II Tm 3:5). Não lhe falta conhecimento, porquanto já se olhou no espelho e viu os seus defeitos, comparando-se, ao mesmo tempo, com o ideal que há em Cristo. Porém, não age de acordo com esse conhecimento, e nem sente profundamente a necessidade de tal ação. Aprecia um bom sermão, do mesmo modo que aprecia uma boa peça de teatro. Nem uma coisa e nem outra são vitais para a sua vida diária. Professa crer na inspiração das Escrituras e na validade da missão salvadora de Cristo; mas, na realidade, não leva muito a sério essas realidades, conforme fica demonstrado pela sua vida de «ateísmo prático».

1:25: Entretanto aquele que atenta bem para a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer.

«...considera atentamente...» No grego temos «se inclina por sobre», mas com o sentido de «inclinar-se para a frente a fim de mirar». É o mesmo termo usado em João 20:11, quando Maria Madalena «...abaixou-se e olhou para dentro do túmulo». Nos escritos clássicos, entretanto, essa palavra com freqüência indica dar uma mera «mirada», «olhar descuidadamente», «olhar de lado». Porém, é óbvio que não era isso que o autor sagrado queria dizer aqui. A escolha do vocábulo provavelmente foi influenciada pela continuação da metáfora do espelho, na mente do autor sagrado. A pessoa se baixa ou se inclina a fim de olhar o espelho, posto sobre uma mesa, ou no chão. Aqui temos uma pessoa realmente interessada em ver o que o espelho revelaria, com o intuito de mudar qualquer defeito de aparência que o espelho revelasse.

«...lei perfeita...» Essa é a mensagem cristã, a «nova lei», por assim dizer, a «mudança de lei» referida em Hb7:12. Porém, não se pode duvidar que nesta epístola, sendo ela uma expressão legalista, o autor sagrado cria que essa nova lei incorporava a antiga lei, e não que a abolira totalmente. Naturalmente, há certa verdade até mesmo nesse ponto de vista, o qual é frisado pelo próprio Paulo, em Rm 3:21: a lei não foi inutilizada pela fé, mas antes, foi confirmada. Para o autor da epístola de Tiago, parece seguro dizer que essa «lei perfeita» é a lei segundo ela foi moldada nas mãos de Cristo. Assim é que a igreja de Jerusalém encarava a questão, não havendo razão para crermos que o autor sagrado se tenha desviado para longe desse ponto de vista. Naturalmente, o apóstolo dos gentios se desviou dessa maneira de ver; ele abandonara a lei como método de justificação e de santificação (ver Rm 3:21 e Gl 3:2,3). O autor desta epístola, porém, simplesmente não recebeu esse mais profundo discernimento, mas antes, participava da avaliação judaico-cristã das coisas. (Ver At 21:20 e ss. quanto à atitude do verdadeiro Tiago, e de outros elementos da igreja de Jerusalém).

No presente texto, a lei é vista como «perfeita», segundo afirmava a opinião judaica sobre a lei mosaica. Para o autor sagrado, isso era tanto mais evidente, porquanto Cristo a tomara em suas mãos, fazendo dela um grande poder moral. O evangelho cristão, ao incorporar a lei, tornou-se a palavra implantada, que tem o poder de «salvar» (ver o vigésimo primeiro versículo). Essa lei fornece um «reflexo perfeito». Nela, o homem se vê tal qual é; vê a Cristo tal qual ele é; e diz: «Quero ser como ele é». Desse modo, exerce fé e começa a ser transformado segundo a imagem de Cristo, que é o alvo mesmo de toda a existência.

A lei e o evangelho (que incorpora a primeira), são «perfeitos», porque foram doados por Deus e são administrados pelo Espírito Santo; e também porque conduzem à perfeição. Um homem vem a participar da própria santidade de Deus (ver Rm 3:21), de toda a sua plenitude (ver Ef 3:19). Ver Hb 7:11,19 quanto ao conceito da «perfeição», no cristianismo. Também se pode observar ali que seu autor, por não ter tendências legalistas, rejeitou a lei como parte desse processo, em contraste com o presente autor, que vê a lei como parte integrante do mesmo, porquanto está incorporada no evangelho). A lei e o evangelho são encarados como algo sem qualquer falha. Esse é o tema (no tocante à lei), do longuíssimo Salmo 119. Os códigos humanos tinham erros e falhas; mas isso não pode ser dito acerca da lei de Deus ou do evangelho de Cristo.

«...lei da liberdade...» Esse conceito, aplicado à lei, era comum no judaísmo; e o autor sagrado se aproveita dele, aplicando-o ao evangelho. «Todo aquele que recebe o jugo da Torah, remove de si o jugo da realeza e o jugo das preocupações terrenas». (Talmude, Pirke Aboth., iii.8; Rabino Nechonyiah ben ha-Kanah). «Não poderás encontrar homem livre, senão aquele que se ocupa no aprendizado da Torah». (Rabino Josué ben Levi, vi.2). Filo (ver de vitaMos. ii.9) glorifica a lei mosaica em contraste com os códigos humanos, que escravizam aos homens. Apesar de que o autor sagrado descreve o «evangelho de Cristo», que teria incorporado a lei mosaica (ponto de vista comum entre os judeus cristãos), não pode haver dúvida que isso não compartilha da opinião paulina sobre a natureza escravizadora da lei. (Ver Gl 4:23 e ss. e 5:1). O trecho de At 15:10 alude à lei como um jugo ou canga posta sobre o pescoço, algo difícil demais para ser suportado. Mas essa opinião não era compartilhada de modo geral pelos elementos da igreja cristã judaica. Os judeus simplesmente não tinham essa opinião sobre sua própria lei, pois, segundo pensavam, ela pode libertar um homem do pecado, conduzindo-o à salvação. (Quanto ao evangelho como uma «lei», ver Hb 7:12; Justino Mártir, Apol. 43). Nos escritos de Irineu, o evangelho é chamado de «nova lei». A passagem à nossa frente não se refere às «leis naturais da alma» ou à «luz da natureza». Trata-se da «nova lei», aquela estabelecida pelo novo pacto, implantada nos corações dos homens. (Ver Jr 31:31-34). Não há neste texto qualquer distinto contraste com a lei do A.T., e nem oposição à mesma.

Buscando A Transformação Moral

1.         Olhemos para o espelho espiritual. Não é provável que gostemos do que ali virmos. Quantos defeitos morais! Olhemos novamente para esse espelho. Contemplemos Cristo ali, porquanto ele é o Homem ideal, em cuja imagem estamos sendo transformados. Prossigamos nessa contemplação. Consideremos qual a sua semelhança, e roguemos ao Espírito que ele nos torne semelhantes a Cristo. (Ver II Co 3:18).
2.         No texto presente, a lei, nas mãos de Cristo, serve-nos de espelho espiritual. Ela revela a natureza do homem, e lhe presta informações sobre como pode mudar seu caráter. O autor sagrado mistura as obras da lei e a fé, com a motivação e o poder que há por detrás da transformação moral. Paulo expressou com maior felicidade esse pensamento, em Fp 2:12,13: «...efetuai a vossa salvação...» (o lado humano). Todavia, lembremos-nos de que nada poderemos fazer por iniciativa própria, na realidade, pois «...Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade». Mas, seja como for, quer o expressemos à moda de Paulo, quer o façamos à moda de Tiago, permanecem de pé dois grandes fatos: a. Precisamos fazer alguma coisa em relação ao nosso estado espiritual; precisamos mostrar-nos ativos em nosso desenvolvimento espiritual, b. Existem leis morais e espirituais que exercem autoridade sobre nós, e estamos na obrigação de procurar viver em harmonia com essas realidades.
3.         Apliquemos os meios de desenvolvimento espiritual: o estudo da Bíblia, o treinamento da mente quanto às questões espirituais, a oração, a meditação, a santificação prática, a prática da lei do amor, o emprego dos dons espirituais, etc.

«...nela persevera...» Está em foco saber o que a Palavra exige, para que ela seja posta em prática, fazendo do indivíduo um praticante, e não mero ouvinte; e que o crente faça disso um modo de vida, pois é somente através da continuação que ocorre uma mudança e um desenvolvimento permanentes. Por isso é que declarou Filo: «Após ter tocado no conhecimento, não permanecer no mesmo é como quem prova o alimento e a bebida, mas não pode satisfazer à própria fome». (De sacr. Abel et Caiu., 25).

«.. .esse será bem-aventurado...» Tal como no décimo segundo versículo, é aqui prometida uma bênção espiritual, a «felicidade» no nível da alma, as «riquezas» de Deus; o «bem-estar» da alma, conforme é indicado pela palavra «makarios», no N.T. O bem-estar se evidenciará, particularmente, no futuro estado, quando da total salvação da alma (ver o vigésimo primeiro versículo), mas a adição das palavras «...no que realizar...», mostra-nos que o autor sagrado prometeu uma bênção presente, nesta vida terrena, para o crente praticante da Palavra.

«A vida obediente é o elemento de que consiste a bênção, e na qual ela se encontra». (Alford, in loc.). Assim, a vida geral do crente praticante é bendita; e ele é abençoado na prática de atos individuais. (Isso pode ser comparado com o Sermão da Montanha—Mt 7:24 e ss.). A ereção da casa sobre a rocha requer uma prática constante. Dessa maneira é que a casa permanecerá firme, resistindo a todo o ímpeto da inundação. Não há que duvidar que isso envolvea bem-aventurança espiritual. «O movimento de vida espiritual, que é o esforço ou a prática, se torna em um festivo movimento de vida espiritual, de alegria perfeita». (Oosterzee, in loc).

«Quatro são os tipos de homens que visitam as sinagogas: 1. Aquele que entra, mas não age; 2. aquele que age, mas não entra; 3. aquele que entra e age; e 4. aquele que nem entra e nem age. Os dois primeiros são tipos indiferentes; o terceiro é o homem justo; e o quarto é inteiramente ímpio». (Pirke Aboth., cap. v. 14).

Talvez haja aqui uma alusão ao homem bem-aventurado, de Sl 1:1-3. Esse rejeita o conselho e o andar dos ímpios; e se deleita na lei do Senhor, meditando nela dia e noite. Isso está de conformidade com a atitude geral do autor sagrado.

Champlin,COMENTARIO DO NOVO TESTAMENTO 2010



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